Será conveniente começar por uma saudação, por tanto considera-te saudado. Perguntas-me como será o aspecto do sítio em que me encontro, ocorre-me dizer-te que é uma sala, agora queres saber mais, queres uma descrição, queres que te diga o tempo que faz lá fora não é, parece-me que hoje ainda não choveu, o sol espreita tímido, no seu ângulo de inverno, há mesas nesta sala, há cadeiras, há objectos em cima das mesas e há pessoas sentadas nas cadeiras, tenho que te falar do espaço para te poder falar do seu interior, daquilo que não se vê mas sente, para conseguir desabafar expurgar o que me atormenta, tenho que te contextualizar, poderia dizer-te o que se faz aqui, mas o que quero mesmo mostrar-te são as pessoas, o problema é que as pessoas são mais difíceis de descrever do que as cadeiras, o que é que se pode dizer de uma cadeira, é vermelha e preta, tem duas patilhas que permitem ajustar a altura e a inclinação, tem rodinhas, é giratória, e tem apoio para os braços. Agora as pessoas que nela se sentam, pudesse eu descrevê-las assim tão bem, entendê-las tão empiricamente como entendo uma cadeira, nesta altura o meu raciocínio é assaltado por uma palavra que me faz perder o fio á meada, propósito, e a partir daqui o texto desenrola-se até ali, qual é o propósito, depois a resposta, o propósito é ser quem sou, é afirmar-me, é cumprir a minha personalidade. E isto transporta-me para o campo das acções, onde preciso das pessoas e da conjectura actual, sempre a melhor para definir quem sou. Mas isto não resolve o meu problema. Desabafar é que eu preciso, e o que é isso senão dizer-te a ti aquilo que deveria ter dito a outra pessoa e não disse. Agora os pontos finais começam a substituir as virgulas e isto deixa-me desconfortável.
Os dias passam e por vezes penso o que será quando subitamente a sucessão cessar. A morte como o fim não me faz sentido. Contudo não consigo eliminar completamente o medo de viver. O medo das consequências, a ansiedade do que está para acontecer, a frustração do que já aconteceu e que não correspondeu ás expectativas, expectativas essas baseadas em quê, onde está a escala, quais são os valores que regem a minha vida, é imperioso que me pergunte, a resposta é ambígua, perco-me nos planos onde não estou, planos de existência entenda-se, preciso explicar-te o que são planos de existência, da existência real deles sei pouco, falo do que se passa dentro da minha cabeça, é lá que moram as minhas preocupações e depois não me quero dar ao trabalho de expressar, dou por mim a concordar que sou preguiçoso, que não falo porque acho que não merece a pena, porque desvalorizo os momentos, os acontecimentos, e a vida de uma maneira geral.
Agora pedes-me para esquecer o que deve ser esquecido e para valorizar o que tem valor.
Eu respondo-te que me falta o discernimento para definir nos momentos oportunos o que é o quê.
Tenho uma necessidade absurda de tudo o que me falta. Menosprezo o que possuo com uma falta de interesse exterior a mim e muitas vezes superior ás minhas forças.
Esta é a altura em que tu não dizes, mas pensas, que estou a falar demais. Chamas-me egoísta no teu pensamento, sentes que agora me deveria calar para te ouvir, porque também tens problemas e os teus, na tua óptica, são realmente importantes, ao passo que os meus não passam de divagações infrutíferas. Dizes-me que me devia concentrar em factos concretos, ordenar as minhas prioridades de acordo com o que me faz mais falta. Mas do entender o que tu me dizes, a conseguir aplicá-lo nas situações em que é preciso, vai a distância da minha incapacidade. Incapacidade de projectar a minha imagem de maneira a preservar o seu interior, um trabalho diário e contínuo que me abstenho de fazer, prefiro sempre o silêncio e isso deixa lacunas, espaços em branco na cabeça dos outros, e coloca-me na periferia das suas intenções. Assim não conseguirei chegar onde quero chegar. Então porque não faço o que precisa de ser feito, perguntas-me tu, e eu encolho-te os ombros e sorrio amarelamente, conformado com a minha mediocridade. O meu problema é não ter a certeza de nada. Por isso não consigo definir quem sou, logo não consigo marcar posições, defender pontos de vista, tecer opiniões, tudo isto para mim é impossível.
Será do medo, sou uma pessoa calada, reservada, porque tenho medo de mim, tenho medo do que possa ser, tenho medo das repercussões dos meus actos, porquê, porque não tenho bases, porque como tantos outros vivo de aparências, vivo do dia em que, do era bom que fosse, do penso que.
O que mais me martiriza são as palavras que não digo. As observações que deixo sem resposta. O rubor que me sobe ás faces, a contracção da laringe, afirmações que me atingem que são atiradas ao ar como dardos que acertam em cheio no alvo do meu sentir. Então sinto-me fraco e exposto, sinto que podem fazer de mim o que querem, dizer o que querem e saírem impunes, porque eu não ataco, mostro-me vulnerável. Venho-me embora e a raiva de mim transforma-se em dor que vou carpindo até jurar a mim mesmo que para a próxima vai ser diferente. Depois passado muito tempo volta a apetecer-me levantar do sitio onde estou e confrontar aqueles que me agrediram, chegar e dizer, olha lá que isso não é bem assim, porque eu isto e aquilo. Só que entretanto o tempo já passou. E perco-me na arquitectura do sentir, como me perco neste mundo que a meu ver necessita de renovação, sim este é dos poucos assuntos sobre os quais consigo ter opinião, sobre o estado das coisas, uma perspectiva muito lata, como se não fizesse parte do que estou a descrever, uma realidade alternativa que se desenha á medida que penso nela, o que seria preciso para mudar o mundo, a sociedade tal qual a conhecemos, o combustível que faz mover a engrenagem, o modo como percepcionamos a vida, precisaria que todos mudassem ou bastaria mudar a minha vida, quero que o mundo mude para eu mudar com ele, quero uma calamidade global para que todos abram os olhos e eu seja forçado a abri-los também, para que o dinheiro deixe de ter importância e eu possa deixar de trabalhar para o ganhar, para que os objectivos de vida mudem e eu mude o meu também, para que possa ser livre.
Claro que tu já me disseste o contrário, já me disseste que preciso ser para ter, e que se me mudar a mim mudo a face do mundo. Mas o que se vê é que não tenho arte para isso, serei mais um copista, preciso do modelo para saber como se faz, ai daqueles que renegaram ás coisas da vida, que tudo deixaram cá do lado de fora da caverna, para se entregarem ao oposto, á ausência, aos valores e essências perdidos. Não terão esses criado uma realidade alternativa, e que mundo mudaram eles, diz que tocaram muitas vidas, ajudaram os outros e fizeram o bem, mas tudo ficou igual. É o mesmo que saber que ontem morreram cento e setenta pessoas na Austrália, outras tantas ficaram sem casa, sem roupa sem carro sem filhos sem mulher sem mãe sem nada, e a seguir vem outra notícia, e depois a novela da noite, e o mundo ficou igual, o que move as pessoas é o mesmo, e eu continuo a precisar de motivos para me levantar da cama de manhã. Porque assim como o ermita não trouxe paz ao mundo ao abdicar da sua vida, também a morte e o sofrimento de alguns não abrem os olhos a todos. Porém a história prova-nos que houve alterações no comportamento do ser humano. O que não quer dizer que não existam hoje homens com os mesmos comportamentos dos primeiros membros da espécie. No fundo o que é que temos que fazer que seja indispensável, para além de respirar comer e defecar, há casos estranhos de pessoas que nunca defecaram, portanto seguramente só precisamos de respirar e comer, e depende de quanto tempo queremos viver, podemos só beber por exemplo, e durar bastante tempo, e também inventámos máquinas que podem respirar por nós, tudo se torna relativo, portanto será conveniente definir o que concebemos por existência, o que é para ti viver, do que precisas para considerares que estás vivo. A partir daí podes saber do que precisas e em função disso definirás o que é certo e o que é errado. Sim esta é a altura em que me tentas incutir alguma moral e assim como que não querendo a coisa presenteias-me com essa ideia de que terei de ter capacidade para discernir entre opostos. Até agora só aprendi vivendo ambos. De nada me serviu virem as vozes da razão, olha que isso é mau, olha que isso faz-te mal, olha que depois arrependes-te, não digas que eu não te avisei, nunca de nada isso me serviu. Boa e santa moralidade dos avós, recta ou correcta educação dos papás que brincam com tábuas rasas ao sabor da inspiração, moldando e influenciando sempre para o bem, sempre porque amam e querem o melhor, até que puberdade e amigos e novas influências, e adeus ás convenções ás regras, porquê, precisamente porque nos apercebemos que os certos e os errados dos outros podem ser diferentes dos nossos.
No entanto qual é o espírito que não duvida dos seus actos, quem é que não procura aprovação para aquele pensamento, quem é que não se constrói daquilo que ouviu dizer.
O difícil é manter o equilíbrio entre a certeza e a incerteza de maneira que consigamos agir sem perdermos quem somos.
Tenho que te confessar que é este o meu problema, mas tu chutas-me com teorizações e altos raciocínios, que a ti te enraízam e a mim me definham.
Esforço-me com tanta força que consigo sentir mudanças a ocorrer dentro da minha cabeça.
Antevejo a chegada do dia em que finalmente consigo concretizar, medos, aspirações, desejos, falar e dizer aquilo que penso, ler no teu rosto as palavras que disse e ver a expressão que não precisei de fazer, porque tu já a fizeste. Quando penso e choro, é porque não ajo. Mas perco-me em considerações intermináveis sobre o que deveria ter feito e não fiz, porque não tenho mais nada para dizer. Produtividade, perguntas-me, inutilidade respondo-te. Excelência não, é mais mediocridade. Vou buscar termos de comparação: caminhos labirínticos que me conduzem a raízes que avisto por debaixo da terra que cobre a tua alma. Mas não quero pôr na minha boca palavras que não direi. A mentira é uma chaga da sociedade e aqui estamos a sós eu e tu, que só me escutas. É grande a minha necessidade de alguém que me escute, foi por isso que te criei, e é por isso que te alimento e te vejo crescer. Por vezes a complexidade do ser humano dá-me uma absurda e estrondosa vontade de ser bicho. Mas os bichos também são complexos, também têm sociedades e stress e hierarquias, só terão supostamente, é menos consciência disso, porém também disso tenho dúvidas, e se sofrem como eu porque são fracos e não quis a selecção natural que ficassem com o dorso prateado para serem dominantes, há lugar para todos ,dizes tu, mas aqueles que são dominados resmungam, por aí acima até ás mais altas esferas, até ao topo, àquele que não tem que prestar contas a ninguém, que sabe de todos e ninguém sabe dele.
Aborrece-me imenso ter de fazer seja o que for. É mesmo o "ter de" que me aborrece. Fico logo sobressaltado, e agora depois de ter feito que era suposto que fizesse, passa-me depressa o sentimento de realização de quem cumpriu um desafio e venceu um obstáculo, substituído pelo conforto vegetativo do não ter outra vez nada que fazer. Então desencadeia-se automaticamente outro processo, de busca incessante de alguma coisa para me preocupar e nunca consigo estar verdadeiramente descansado e tranquilo porque sei que mais tarde ou mais cedo algo irá suceder, de mais ou menos imprevisível, para que tudo recomece. Detesto este ciclo de dentro da minha cabeça, e o estar aprisionado a ele.
Por outro lado o ócio inquieta-me. Começo a ouvi-los a dizerem-me, então não tens nada para fazer, podias ter feito isto, podias fazer aquilo.
E só penso na origem das coisas, no como conheci pessoas que parecem continuações ou princípios de mim, almas afins percorrendo caminhos que só diferem naquela opção diferente, naquela decisão que embora pareça só mais uma a quem observa, é o que vai definir e distinguir, e por vezes separar as pessoas.
Quero ver-te sorrir assim, dizias tu, depois de fazeres isto que tenho aqui preparado para tu fazeres, e deste-me aquilo que te consideravas ser para mim impossível fazer, mas eu fi-lo, e tu ao contrário de substituíres a imagem que tinhas de mim na cabeça e me dares o beneficio da dúvida, preferiste riscar-me do teu mapa, por tua vontade eu não teria continuado, mas desígnio ou não a experiência estava-me reservada, esse cosmos de influências, esses desencontros que precisámos reviver.
Só me ocorre repetir-me. Tudo o que penso dizer já disse, e melhor do que poderia agora dizê-lo.
Já passou um ano desde que escrevi o ultimo ponto final. Começo a ler o que escrevi sem o rever e tenho a sensação que neste tempo poderia ter acabado de escrevê-lo. Penso que isto não é positivo. Será porque nada mudou, será porque nada fiz para que mudasse, o que tenho eu de novo para dizer, nada, espero adormecido que algum cataclismo me acorde, fujo do novo, toldo-me em espraiar-me no complexo do mundo, prefiro recolher-me, mas sei criticar, sei dizer o que está mal, depois de estar feito. Isto é muito fácil. Difícil é fazer melhor. Ai sei lá o que quero para mim, sei lá quem sou, cada vez sei menos, cada vez tenho mais dúvidas, mais incertezas, e deteriora-se a minha relação com o mundo e com os outros.
O que desejo, coisas absurdas, como viver mais do que uma vida em simultâneo, porque só sendo várias coisas poderia ser quem quero ser. Há muitos aspectos cruciais da existência sobre os quais tenho na minha cabeça posições completamente antagónicas. Por exemplo a responsabilidade: até á algum tempo atrás era claro para mim que o correcto é ser responsável. Agir com responsabilidade. Tomar para mim responsabilidades várias, e honrá-las com o meu bom nome, cumprindo aquilo a que me propus impreterivelmente. e neste momento não sei porquê não consigo expor o outro lado. Portanto fica só assim, mas também fica registado que há outro lado que não concorda nada com isto e que acha absurdo que se viva assim, porque a responsabilidade só é posta em causa quando aflige os outros, poderemos ser irresponsáveis connosco próprios, podemos, mas somos felizes e realizados enquanto o somos ou não, o que é que nos distingue dos bichos, porque é que nós somos diferentes dos demais seres vivos do planeta, porque nós temos a capacidade de escolher. Temos restrições e imposições, sim, tantas e de várias ordens, mas uma liberdade fundamental: o livre arbítrio. E com ele a responsabilidade dos nossos actos, com ele a lei, uma reacção para cada acção, uma consequência para cada decisão. Por isso cada pensamento que se forma na nossa mente desencadeia uma operação um movimento em algum lugar uma formação uma consubstanciação materialização que virá até nós, quer isto dizer que sim, pode o pensamento controlar a vida, e controla fora quando está fora de controlo e porque é que entra fora de controlo, porque deixamos de saber o que queremos, deixamos de saber o que pensar, a dissonância entre o que pensamos e o que fazemos o que pensamos e o que somos, tantas discordâncias e incoerências, tanta complexidade e um caminho que desconhecemos, só que nada pára a engrenagem, e as consequências do que fazemos recaem sobre nós e sobre o mundo, a moeda que atiramos ao ar na esperança que se transforme em desejo realizado, é comida por um pássaro em vias de extinção, que morre sufocado. E tudo o que nós fizemos foi atirar uma moedinha ao ar, tão inocentes, tão inconscientes, tão irresponsáveis. Assim, quando penso em agir tento prever as consequências, e há um novo pensamento para cada consequência que consigo antecipar. Perante tantas alternativas na maioria das vezes opto por não fazer nada.
Não sei porquê só agora, talvez porque o último dia, ou será o primeiro, penso que poderá ser uma oportunidade, com o regresso um recomeço ou a verdadeira apresentação, o principio do ímpeto, do desabrochar da palavra. Amanhã poderá ser o dia. Continuo a ouvir o clamor, basta que aproveite para transformar o silêncio em respostas às perguntas e às afirmações dirigidas á minha pessoa, não consigo desenhar o mapa na minha cabeça, ainda não escolhi o papel que quero representar, tenho apenas sensações que me devem guiar, só quero preencher os espaços em branco, mostrar ou reflectir aquilo que penso, aquilo que sinto, aquilo que sou, porque a afirmação pela ausência e pelo silêncio não bastam, criam uma imagem insuficiente de mim, na qual não me revejo. E continuo a acreditar que outro propósito não há nesta existência, é para isso que servem as experiências, para nos firmarmos no complexo do mundo, para sabermos quem somos, acredito que posso. Contudo a mediocridade e a frustração não me abandonaram. A síncope, a raiva, não sei como se fazem tantas coisas, faltam-me tantas ferramentas e capacidades, onde está a lucidez e o discernimento, será possível?
Quero responder que sim. Verdadeiramente.
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