sexta-feira, 27 de maio de 2011

Relatório

Escolho a representação da raiva, padeço de necessidades, porque quero ver determinadas coisas a acontecerem, coisas que vejo na minha mente, imagens de como deveria ter sido, reajo incontroladamente a situações que não quero que sejam assim, mas não dou espaço para pensar outras coisas, para que sejam diferentes e então continuam a ser iguais, porque eu continuo a reagir sempre da mesma maneira, á procura de semelhanças com o retrato que tenho dentro da minha cabeça, em vez de procurar uma nova ideia, á semelhança de um novo pensamento que tivesse acerca de quem quero ser, vou por ai fora, embrenho-me nessas sensações, ira, raiva espasmo do maxilar e redundância cíclica que não quero mais. Quero lembrar-me no momento presente que não preciso repetir o que já está gasto, quero criar uma nova realidade a cada apresentação e confronto com o que me faz sentir mal, quero agir de diferentes formas para buscar a reacção certa, aquela que me definirá perante a situação em questão, perante todas as questões em concreto.

Concretizar.

Pé ante pé concretizar. Passinhos muito pequeninos os que me levarão, porque preciso ter a certeza e para ter a certeza tenho que fazer, tenho que ter vontade quando o estiver a fazer, se não tiver vontade não vou, deixo para amanhã, e crio uma bola de neve que se transformará em avalanche e me cairá em cima da cabeça. Então acordarei e terei vontade e farei o que devo fazer com vontade. Porque não adianta fazer o que tenho de fazer sem vontade. Esta não é uma acção como qualquer outra. Esta é a acção que cumprirá o propósito. Mas sou pequenino e tenho medo. Por isso vou muito devagarinho porque não tenho a certeza de estar no caminho certo, (quando estiveres no caminho certo saberás que é o caminho certo), talvez ainda não saiba porque não estou em caminho nenhum, porque ainda não cheguei lá, porque não saí do mesmo sítio. Perdido entre o sonho e a capacidade de realização, escondido atrás de personificações que deixei desaparecer da memória das coisas, pessoas com histórias e caminhos, opções que permitiram aos outros ser diversas coisas que pensei, confrontos com realidades díspares, expectativas frustradas e ansiedade cíclica, tudo perdido por uma determinada escolha, tudo perdido porquê? O que é preciso é criar bolas de neve. Porque aquele que viria agarrar tudo pelos colarinhos e dizer vem por aqui desapareceu, na tentativa da criação de um outro, na tentativa de construção de algo em comum, agora ninguém desapareceu por completo e isto são tudo fantasias da minha cabeça, e não sei o que serei quando amanhã chegar e me vir rodeado de outras coisas, porque não posso garantir, porque não sou hoje o mesmo que fui ontem quando pensei o que ia acontecer hoje compreendem, porque nem agora que sou pequenino nem ontem quando era grande e apolíneo, nem anteontem quando me tornei monstro, em todos os estados a dúvida, a única certeza, a de nunca ser perenemente.

Até que asas brancas abertas sobre mim outra vez, num estado de graça como uma bacia pouco cheia de um liquido brando que acalma o mar do meu tumulto, um interregno na inconstância constante, uma perspectiva doce de aceitação da realidade presente, tendo ponderado a modificação subi os degraus da escadaria e desse patamar vi que não quero sair daqui. Quero continuar caminhando assim, porque é isto que sou e não outra coisa, porque as opções que tomei no passado me definiram, e porque o mantê-las me redefine e afirma agora, como aquele que renegou o reconhecimento, como aquele que decidiu ocultar-se e esperar, na certeza de um tempo que chegará, onde serei necessário, absolutamente necessário e na dúvida a escolha que me constrói é a espera, a arte da espera do momento oportuno. Graças às asas e ao branco que se abateu sobre mim agora, saiba eu manter-me fiel a este princípio orientador.

Discernimento. A capacidade de decisão. Saber se estou melhor aqui do que estaria noutro lado. O peso das consequências, da inevitabilidade do retorno, dessa justiça suprema, escolhe uma de entre as dores, onde está o catálogo, se correr o bicho pega se ficar o bicho come, quando morrer quero estar vivo. O frémito, porque se aproxima o momento. Ainda e sempre a inconstância, porquê lutar contra aquilo que sou, porquê querer ser outra coisa, para onde vão, para onde vai o desperdício, os despojos, o refugo, tanto caminho percorrido para dizer o quê agora, besunta-te na lama suíno sem escrúpulos, animal sem comiseração, alma retardada, cauda da hierarquia das coisas, dedos em riste apontado para mim e rindo da desgraça, dó, pelos momentos desperdiçados, tanto talento, tantas oportunidades, camadas e camadas, derme, epiderme, ou será esfera, estrato esfera, o micro, o macro, o impossível, o reino do sonho, a imaginação, o poder de poder ser tudo, o quê, querer com muita força, todas as noites querer, imaginar, está a acontecer, sou eu, és tu, aconteceu. E tudo através da teia, da matriz, do mosaico do sentir, pelos corpos astrais e causais de mim até ti e magia e milagre e agora. Corda bamba. Será que vai, será que não vai. Quais são os prós quais são os contras, quem está a favor, quantos ouvidos á espera do momento oportuno, coiotes da savana da vida, não encaram de frente as suas existências, olham de soslaio nutrindo qualquer coisa entre a inveja e a solidão que os matou há muito, eu não quero morrer, serei inconsequente, qualquer coisa mas plenamente, não gosto de mediocridade, nem de comida insonsa.

Quero viajar. Conhecer o mundo. Quero subir os degraus do potala, enquanto há degraus do potala para subir, enquanto os chineses não destroem o que resta desse centro do mundo, quero sentir o que se sente quando lá se chega, a falta de ar nos pulmões também, e os encontros e o que isso possibilitaria, o mestre chega quando o aluno está preparado, estarei preparado, o que fazer, ficar á espera, do dia em que, não, não quero esperar mais sinto que isto está a acabar, a vida é como uma ampulheta quando se vira ao contrário e a areia escorre, vai escorrendo e os dias são grãos de areia que passam dum lado para o outro do frasco até que o tempo acabe e se vire a ampulheta ao contrário e então mais dias, será interminável o ciclo, será para sempre a eternidade, caminhamos para a velhice, e depois a morte e depois nascemos crescemos outra vez e morremos, isto é o que acontece num dos lados da moeda, do outro há qualquer coisa que vai vivendo também, sempre vivendo, acumulando, aprendendo, mandando mensagens através dos mecanismos adormecidos, sofrendo e lutando por exprimir o que é, o sentido da vida. O sentido das coisas. O porquê de nós e da criação do universo. E eu adormecido, e eu alienado como o resto do mundo da verdadeira realidade, e eu criando o meu mundinho de conforto e adquirindo posses acima do que posso possuir, a princípio começo por incomodar, que haja algo que nos incomode, depois esgotam-se as forças no combate contra a oposição, esgota-se a clemência no responder bugalhos a todos os alhos, impermeabilidade, indiferença, desapego. Deixo de ouvir, não compreendo o que me dizes, não registo, não estou, sou fumo, sombra, descanso, fuga, desvio.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Relatório

Os degraus da escadaria em caracol. Será que os subo, será que os desço, pé ante pé, cuidado com o perigo, que espreita por detrás de portas semiabertas, que escuta, ávido de uma recaída, para que branco e nada mais, para que desapareçam as linhas que perscruto neste horizonte longínquo. O espaço intermédio. O silêncio. A palavra.

Penso recomeçar a dizer qualquer coisa. Cresce o sentimento dentro de mim, a paixão o fervor o frémito, o som que emito lança-se no absoluto como uma flecha no nevoeiro, denso e compacto como um manto, espesso envolve logo o espaço, marcado pelo alvo que visualizei quando pensei em começar a dizer qualquer coisa. Tenho que continuar a pensar enquanto disparo uma e outra flecha até que se rompe e expande, liberta e possibilita que me exprima, que se crie o ritmo propício à minha cadência, vibração, vibrações que emanam de mim pelo espaço sem fim até que eco. Até que parede até que ponto definível nas coordenadas do espaço e do tempo. Espaço intermédio. Ligação directa. Através de vós, minha consciência. Não posso conhecer-me sem que cada um de vós exprima aquilo que de mais sublime pensa acerca de si próprio, não posso ser enquanto todos vós não forem o que realmente são. Preciso que o sejam. E não vou ficar quieto, impávido e sereno à espera que isso aconteça. À espera que alguma voz de homem possante e viril se levante para exclamar: Acordem! O momento é o agora.

Ou isso ou abandono da alma aos corpos e às mentes, ao cansaço da vã luta pela posse, pela conquista, pela tomada de mais um reino, de mais um punhado de terra, onde espaço e homens e construção e conquista, Desbrava pelas matas afora, Desbasta essa sebe, ciprestes cónicos e verdes diante do muro, para que ninguém me veja, para que ninguém saiba o que ando a fazer,

O momento presente uma incógnita, uma página em branco nos anais da memória,

Porque bicho, prisioneiro do corpo e da mente, alma adormecida pelo cansaço de observar a luta, a luta incessante da mente sobre o corpo e do corpo sobre a mente, até que morte, até que sete palmos abaixo de terra e sete pás de cal em cima libertem o princípio vivente, que finalmente acorda, para recomeçar tudo outra vez, para beber das águas prometidas e esquecer e tudo outra vez, tudo outra vez pelos degraus da escadaria, será que é em caracol será que não é em caracol, como sabes, onde estavas, quando subi os degraus pé ante pé e te chamei, anda, e tu distraído não ouviste, de patamar em patamar chegámos ao topo e vimos que era em caracol e vimos que outros distraídos não escutavam quando os chamávamos, venham, é em caracol subam, e eles não ouviam, Subam, e eles de patamar em patamar foram subindo, até que colapso, espasmos das tecituras, a memória eterna de tudo o que ocorreu no universo, como um ente que personificasses.

Tu.

Deixaste de ver.

Agora não vês mais nada só branco.

Ouves as vozes daqueles que não clamaram por ti, escutas o eco daqueles que não te prestaram atenção, sabes as opiniões de toda a gente, calas-te porque nada te interessa.

Achas que nada tem que ser dito.

Achas que tudo já foi dito.

Achas que não há mais nada a dizer,

Mas quem és tu, quem és tu afinal, o que é que tu tens a mais do que eu ou do que ela,

Tens medo, tens receio,

Espaço intermédio.

Diz quem és afinal. Revela-te para mim. Revela o espaço intermédio, diz-me que eu sou este evangelho que prego,

Diz-me que, deixa-me dizer-te que, deixa-me dizer-te quem sou, porque quero saber quem tu és, mas para saber quem tu és tenho de saber quem sou, se souber quem sou saberei quem tu és, já que eu e tu somos um. Já que o que nos separa é a minha ilusão de estar separado, a minha ilusão de estar só, vivendo só para mim,

Os outros. Aquilo que os outros são no complexo do espaço. Quero ser, quero mudar a face do mundo. Mudando a face do meu mundo mudarei a face do teu mundo juntos mudaremos a face do mundo quando compreendermos que somos um, quando compreendermos que não estamos sozinhos, quando compreendermos que não sentimos sozinhos, que alguém do outro lado do mundo está a sentir e a ver e a pensar o mesmo que nós, está a demonstrá-lo está a criar a realidade que estamos a sentir em conjunto connosco, há realidades que só assim podem ser experienciadas,

Eu comigo

Vós convosco

Ele connosco

Um pouco de branco em tudo isto que não me consigo livrar de mim. Eu sou estes filtros e estas máscaras, a representação do que ouvi dizer, o texto que leio mas não interpreto, a verdade que sinto mas não sei, não sei como, os degraus da escadaria em caracol, voltas e mais voltas neste carrossel para chegar aonde, onde quero chegar, pergunto o que estou a tentar fazer, pergunto, não quero repetir, não quero viver outra vez não quero tudo de todas as maneiras quero só uma coisa, sempre da mesma maneira, quero imutabilidade, quero permanecer sempre o mesmo quero experienciar a minha verdade plenamente, quero sentir a tua verdade quero ecos preciso de ecos preciso de saber que me ouvem preciso saber que sou ouvido que não estou só que isto não acaba quero certeza atrás de certeza quero sentir sempre não só às vezes quero ver tudo quero saber tudo quero o mal e o bem e quero não ver diferença entre eles, porque não existe diferença a não ser neste universo de relatividades onde nada é o que diz ser nada é o que pensa ser onde as ferramentas da criação não são usadas não são usadas as ferramentas pensar dizer fazer o mesmo sempre dia após dia tragédia ou comédia a vida está em todos os géneros a vida é tudo não só uma parte eu sou apenas uma parte da vida tu és outra parte da vida ele é a vida toda porque ele é tu e eu e a humanidade inteira no dia em que todos soubermos lembrarmos consciencializarmos que somos um, que podemos ter qualquer coisa que queiramos, tudo aqui já, como se unem os homens o que é preciso qual é o sabor quantas páginas ou quantos milénios de folhas sobre folhas no fuso do tempo para que momento crucial, se tudo é ao mesmo tempo porque isto agora e não outra coisa onde mora a consciência do que preciso, o que é isto que estamos aqui a fazer, porque não nos dão sinais claros de que tudo é diferente, porque é que viver tem que ser uma experiência agradável e porque é que não o é plenamente.

Ou isso ou estou muito atrasado na hierarquia das coisas, ainda não sei quem sou e ainda não o disse, porque ainda não o consegui lembrar verdadeiramente nem sê-lo tão pouco, porque tanta volta no carrossel e porque a minha raiva de tudo isto, porque este clamor no peito que me faz gigante capaz de chocalhar o mundo, para quando a boca no trombone o toque das sete cornetas o dilúvio o degelo o salto quântico a mudança radical extraterrestres deambulando pelas ruas, nós vivendo em uníssono uns com os outros o fim do modelo antigo um novo modelo novas sementes novas raízes tudo de novo novos pensamentos novos sentimentos tudo deitado fora tudo esquecido onde está e qual é a água benta a fonte de onde beber para tudo esquecer e começar outra vez virgem morte lembrança remembrança conhecimento experiência, tudo de uma vez sem ter de esperar sem estar impaciente nervoso ansioso sem temer sem recear sem medos nem restrições nem prisões nem dificuldades sem necessidades sem ter de sem deve e haver sem contas sem saldos sem posses sem objectivos sem concorrências sem rezas nem palavras vãs, são estas as ferramentas porque não as conheço, porque não sei o que é pensar porque não penso o que quero porque não sei falar porque síncope porque discurso brotando fluido da minha boca sempre como um canto de um poeta permanentemente reescrito porque as acções heróicas do mundo pelas minhas mãos outra coisa para além de morte tortura e sofrimento outra coisa para além de satisfação tolerância ou preenchimento, plenitude por favor.

Venho lembrar-vos do que não pode ser esquecido.

Venho falar do que tem de ser dito. Tem que ser dito. Porque eu quero dizê-lo.

Para que vocês saibam e se cumpra a palavra que eu disse.

Para que eu me expresse, para que o meu pensamento vibre através de vós, nas acções que praticareis em meu nome.

Sim fui eu que disse. Venho lembrar-vos. Sou o mensageiro da minha alma.

Eu expressar-me-ei porque foi isso que vim cá fazer, é para isso que estou aqui, é esse o propósito a verdade e a vida, é esse o caminho é isso que interessa.

Assim o meu pensamento vibrará através de vós, porque cada um pensará para consigo aquilo que é, que será o mesmo que eu expresso porque tudo é a mesma coisa.

Só posso ser se experimentar aquilo que sou, se pensar disser e fizer a mesma coisa.

Se fizer isto juntar-me-ei a outros que também o fazem.

Perscruto pela estrutura de mim uma ponta que eu pegue e puxe como um fio á meada que se reatou, para assim começar a puxar e a desenrolar o macro de dentro do micro, tornar-me grande para preencher os espaços, para depois me tornar pequeno e contemplar na imensidão do espaço o quão sou pequeno.

Integridade. Honestidade. Verdade. Coerência.

Sentir tudo isto, através do que em nós sente, a alma, esse princípio que nos anima, o espírito, o corpo eterno, o pensamento.

Sentir tudo isto e verificar o tanto que há por dizer o tanto que há por fazer, até que eu seja materializado na realidade palpável por vós.

Porque precisas de alguém que te aponte o dedo, porque precisas de alguém que te julgue que te condene, porque precisas que alguém te diga o que é certo o que é errado, qual é a bitola a escala quem te vem medir os alqueires e dizer faz assim faz assado não faças tens que fazer é imperioso que se faça serás castigado punido maltratado, o fracasso a dúvida a falha a sincope, porque precisas de todos estes papeis deste cenário deste teatro, assim não estás a cumprir o propósito, assim não vamos a lado nenhum.

Podemos ficar eternamente aqui não há nada que nos force a ir a continuar a evolução é eterna. Depois de sermos isto vamos querer ser outra coisa. Mas primeiro temos que ser qualquer coisa verdadeiramente. Temos que fazer aquilo que queremos fazer.

Somos bichos. Temos três corpos três cérebros somos tripartidos. Somos bichos, tripartidos. O que queremos agora, queremos matar a sede matar a fome matar, sobreviver, porque cedemos á lei da selva, porquê a sobrevivência do mais apto, porquê, a selva, porquê, os bichos tudo entregue aos bichos, sem integridade sem honestidade sem verdade.

Incoerência. Inconstância.

Sangue.

Milhões de litros de sangue correndo como rios que desaguam em mares que se infiltram no solo e nutrem a terra de ódio, de raiva, de fúria.

E depois dizem… o mundo está perdido.

Perdido está o homem, perdido e cego.

A sociedade a humanidade a raça humana está perdida.

O universo apenas responde.

Eu vim para vos lembrar.

Que em cada acção devemos ser íntegros.

Coerentes com os nossos pensamentos, ontem e amanhã são só diferentes estados de alma, hoje é que importa, agora é que importa, o momento do agora.

Honestos naquilo que dizemos, falando a verdade daquilo que pensamos exprimindo aquilo que somos. Porque a palavra é uma ferramenta para expressar a verdade do que somos, embora sejamos livres de fazer com ela tudo menos isto. Mas se queremos mudar o mundo é melhor que o façamos. É melhor que digamos aos nossos filhos aquilo que queremos que eles saibam. Não aquilo que os nossos antepassados quiseram para os filhos deles. Porque o mundo que nos deixaram não é bom, e queremos que a nossa progénie viva num melhor. Então vamos agir activamente para que isso aconteça.

Ou vamos ficar de braços cruzados mais uma vez enquanto tudo cai tudo se desmorona para se tornar caos destruição confusão ignorância para que tudo caia no plano inferior outra vez, para que hordas de espíritos maléficos povoem corpos grosseiros mais uma vez, para que untados e gordos se deitem os corpos no chão, ou para que brutos e selvagens e destemidos e corajosos guerreiros a eles se atirem reclamando liberdade, com facas e espadas e flechas e escudos e morte outra vez morte sangue na terra que se revolta pó ao pó corpo após corpo até que alma, até que outra coisa, até que escolhas diferente e agora não mais morte, não mais fome não mais luta, mudaram-se os alicerces da sociedade, há o suficiente para todos, ninguém tem que se preocupar em sobreviver, todos têm tudo o que é preciso, não há guerras não há armas há discursos, há pensamentos diversos e dispersos pelo universo sem fim há uma unidade inimaginável a ser diferentes coisas ao mesmo tempo há uma consciência maravilhosa de tudo isto, há a paz de poder ser tudo.

Eu vim para vos lembrar que somos livres.

Que podemos escolher a qualquer momento ser quem somos.

Que o que importa é o que somos face às circunstâncias, que a nossa alma ofereceu á experiência do corpo.

A mente é o que permite que este milagre aconteça.

A mente é o que permite que me esqueça.

Que beba da água benta do esquecimento para então envergar mais um corpo e experimentar mais aquilo que sou.

Todas as condições escolhidas e perfeitas para que o expresse.

Porque foi enquanto alma iluminada que as escolhi.

Porque enquanto alma iluminada eu sei eu vejo eu sou.

Depois nem tudo é compreensível. Há muitos porquês e senãos da existência, mas no fundo tudo é coerente, porque é verdadeiro, e essa é a essência da alma, ser verdadeira.

É por isso é que é importante sermos verdadeiros, porque é essa a natureza daquilo que somos. Só que é uma natureza diferente daquela que nos faz ser bichos, e ter fome e sede e vontade de matar as necessidades sem custo nem espaço intermédio.

Ser humano. É pensar é criar é expressar.

A humanidade precisa lembrar-se disto.

A responsabilidade é profunda.

E as mentes confusas difusas dispersas por horizontes longínquos, por uma realidade consequência de reacções em cadeia, máscaras e filtros até que verdade, emoções e turbilhões confusões e pensamentos opacos, até que sentimento, até que verdadeiramente a alma a sentir e eu com consciência disso, e eu mais que o corpo que habito, mais que a mente que me pensa, eu a alma que sente, que quer sentir mais e explorar o universo sem fim.

Incapacidade. Deficiência. Ausência.

Luta pelo mundo com as ferramentas que tens, que te foram dadas por ti, presenteadas pela tua alma, como os outros as encaram não é importante, o importante é o que tu pensas acerca de ti, das ferramentas que possuis, do onde queres chegar.

Porque é que eu me interesso onde tu chegas, porque eu não posso chegar onde quero chegar sem que tu chegues onde tens que chegar. Inevitável é que cheguemos tu e eu, todos onde queremos chegar. E onde queremos chegar, á plenitude de sermos humanos. Á excelência do uso das ferramentas, á expressão mais pura do pensamento mais sublime que já tivemos acerca de quem somos. Porque se for pura será sublime porque é verdadeira, ainda que a verdade seja nua e crua será pura e sublime compreendes.

Relatório

É espantoso ouvir pela tua voz as palavras da descoberta. Sim quando os outros viam um rato de esgoto no fundo do poço eu já via essa imagem que agora mostras, sim batemos às portas da poesia, mas onde tu queres ir eu não quero. Fico por aqui. Fico pelo patamar da aproximação pelo bater à porta, não me apetece beber mais do que seis cervejas e não me vou esquecer das horas até ser dia outra vez depois duma noite que esqueci. Porque não há nada que tu me possas dar que eu queira, porque prefiro não ir a lado nenhum e chamar para junto de mim aqueles que me acompanham na estadia nesta esquina, aqueles que como eu pensam em levantar-se e fazer, mas ficam sentados a pensar o quê, para esses só o estar já é trabalho suficiente, mas coloco os meus cinco dedos sobre os teus e digo isto é verdade, tu és verdade e mais nada importa. Sim vejo aquilo que tu queres que eu veja. Tu nunca verás aquilo que eu vejo. Procuro pelos meus irmãos. Tu serás sempre um deles. Mas tenho outros como tu também terás outros e perder-me contigo é algo que não mais quero fazer, porque não faz parte do que eu sou, embora aquilo que sou seja algo que tu não podes saber. Porque puseste o pé em cima do banco e me falaste em respeito e em tempo perdido a descobrir o que seria uma luz bruxuleante e azul ao fundo do corredor, porque parei o trânsito e em redor de mim se dispuseram aqueles que te atrapalham, a cada esquina te atrapalham no decorrer do teu trabalho exemplar. Falaste dos teus cinquenta anos, que valem cem, pela tua postura e pelo que viveste na vida, não admites que ninguém se intrometa no teu caminho. Mas não voltes a pôr o pé em cima do banco não me voltes a falar de respeito, nem deles nem de ninguém, porque eu conheço-te para além daquilo que tu pensas, esse muro que me impões violentamente não é suficiente para me impedir de ver, não quero confrontos, mas se repetires já não beneficiarás do efeito surpresa. Hoje calei-me porque nenhuma das reacções que me veio à cabeça servia de resposta ao que me disseste, à elaboração complexa da tua acção, carregada das centenas de anos que te afirmas assim, carregada do teu ódio por eles, por tudo isto, da tua raiva à inacção e à inércia, eu compreendo-te e por isso não quero conflitos contigo. Mas a nossa história não acabou. Não porque vingança, não porque retaliação, apenas sucessão dos dias e dos encontros, eu sou mais um daqueles com quem tens de conviver, como tu és para mim esse objecto incontornável até ao ponto em que eu decida contornar-te. Nessa altura o único que terá a perder serás tu, a lamentar não mais. No masoquismo de pensar-te horas a fio está um aspecto de mim com o qual tenho de conviver como tu comigo. Para te ultrapassar vou ter de me matar mais uma vez, alguém em mim terá de morrer, preciso de um cadáver para continuar, para me conseguir enfrentar na consequência do que tu me disseste, na consequência do que não te disse nem te vou dizer porque não quero confrontos contigo, porque medo ou porque culpa talvez, não quero nem saber, a decisão está tomada é assim que resolvo os meus problemas elimino aquele que os sente e coloco outro no seu lugar, a partir dessa emoção nascerá alguém, que já te contornou, alguém que nunca mais poderás afectar. São dezenas os corpos no cemitério de mim. Mas podiam ser muitos mais. A minha posição foi alterada, invadiste o meu espaço quebraste os laços que me uniam a essa postura em que passeava sossegado, talvez um pilar de fundição embargada, nada caiu por terra, corpos leva-os o vento na cinza em que se transformam com o passar do tempo, aos bichos tudo entregue aos bichos ainda, porque o legado que deixaste em centenas de anos a seres como és não se desvanece nem se anula com a ausência da minha reacção, eu possuo-te. Disso não podes fugir. Talvez te consiga dizer qualquer coisa. Veremos o que me dirás a mim. Não importa. Não sei que outro assunto se imporá entre ti e mim, decerto surgirá outro sol e outro estado de espírito, pelo menos para mim garantidamente. Que tu sejas fiel a essa armadura que se transformou no teu corpo, a esse princípio em que se transformou a tua alma, é aquilo que mais respeito. Contudo fatigas-me. Cansas-me e enojas-me como aqueles que dizes fazerem todos parte do mesmo saco, como aqueles que falam de ti nas tuas costas e pela frente abanam que sim com a cabeça, talvez precises que eu te enfrente, ou que te lembre de alguém que te enfrentou, talvez precises de mim tal como eu de ti, pois que te agradeço o calo que nasceu na minha alma, o teres feito de mim vítima. Esse sentir é liberto nas avenidas com rapidez e com ritmo frutos do trabalho que recolho prontamente no emaranhado de que tu te ausentas, não será a tua presença aí nesse sítio de que nunca saíste, mas ao qual só chegaste depois de, que me fará descer do lugar que ocupo ainda que coincidentemente os dois estejamos frente a frente jogando ao jogo da cadeira para ver quem se senta primeiro. Tu pensas que agora que chegaste aí podes estar sentado como num trono acima de tudo. Eu distraio-te com um alvoroço no meio da multidão e enquanto tu foste e vieste de ver o que se passava eu vou e sento-me. Depois voltas e dizes, esse lugar é meu, e eu digo, arranja outro que eu não sirvo. Tu chutas-me e pões o pé em cima da cadeira. Ela estremece ante o teu domínio, eu fico em síncope a pensar como foste capaz. De te esquecer de onde viemos, de saber quem eu sou, de considerar que o que aprendeste não tem valor, de dizer que o que tem valor é o lugar que ocupas. O sentido das palavras que não foram ditas estará presente quando nos encontrarmos outra vez, e tu serás uma cópia daquilo que eu projecto de ti. Nunca mais conseguirás ser nada além do que eu sou em ti. Foi como se tu te tivesses virado contra mim dentro de mim, como se eu me tivesse virado contra mim próprio mas diferente porque eras tu. Podia explicar-te isto vidas a fio sentado ligeiramente atrás de ti sussurrando-te no ouvido vem por aqui. Contudo ultrapassámos isto e agora cheguei-me um pouco mais, defini melhor a minha posição quando tu definiste a tua, pelas tuas acções exprimi-me e através do tempo serei aquilo que não consigo ser no momento presente. Acordando para mais um dia especial, uso do conhecimento gerado ao longo dos anos, que me diz que para abrir espaço no estômago tenho que ir comendo, isso de guardar a fome para depois comer tudo não resulta, ir comendo para depois comer tudo e não deixar nada. Porque é disso que se trata, comer e beber para depois não ter de voltar atrás, não sei que mais tenho de fazer. São realmente poucas as coisas que me dão prazer. A satisfação é o propósito.

É o lastro que se instala quando decorre o prazer, o véu que se levanta quando tudo acabou, finalmente desabrocho de mim como uma corola em flor e vejo-me à distância suficiente para me apreciar. Então esqueço o prazer porque vejo que é efémero, e logo qualquer coisa como a minha alma ocupa o espaço entre o meu corpo e a minha consciência de mim, e quer logo lançar-se no desconhecido dos mais altos voos. Então o corpo grita pelo prazer todo que já teve, grita com medo de não ter sabido esperar, pelo momento oportuno, por não ter sabido viver em comiseração resignado ao estado de espera porque certeza dum mundo mais alto dum prazer mais elevado duma consciência mais sublime duma experiência mais espiritual. Contudo não é tarde. Após o prazer como após mais um dia de entrega ao ócio ou à alienação ou a outra coisa, um novo momento, um novo dia, um novo começo que só faz sentido porque dá seguimento ao precedente, e ela lá vai a alma de novo rumo ao que lhe interessa. É esta a maravilha de tudo isto e também o amor tem esta fabulosa capacidade de esquecer. Hoje não lembro as agressões de ontem, amanhã terei esquecido a dor e o prazer, só lembrarei a vontade depois das vontades satisfeitas. Será esta incapacidade penalizadora, haverá juízes que me penalizem, só não consigo finalizá-lo, porque outro penso que nada seria igual ao que não fiz e poderia ter feito, ao que não fui e poderia ter sido, constantemente o se presente em todas as questões, nenhuma opinião, nenhum ponto de vista, sim ou não, talvez. E como erradicar este sentimento. E as perguntas que surgem misturadas com as respostas de tal maneira que por vezes não as sei distinguir, já não sei se te respondo se te pergunto se fico na dúvida. Terá alguém alguma vez percebido onde quero chegar, porque é que me incomoda usar pontos de interrogação, vejo a presença dos meus corpos como massas que lutam pela posse de um terreno, vejo um sem saber qual é o espaço que lhe pertence, vejo sentimentos que sinto relacionados com esta presença, vejo como eles alteram o meu comportamento, vejo a distância entre isto e o que era suposto que eu fosse tendo em conta a ausência destes factores, mas quem teve em conta a ausência destes factores quando definiu o que pretendia que eu fosse…

O que seria agora se conseguisse encaixar as peças deste quebra-cabeças. Vivemos em vários planos. Temos vários corpos. São vários os níveis de consciência que podemos ter acerca de quem somos e porque nos relacionamos. O contínuo do tempo. A eternidade do momento presente. A falta de ligação das coisas. Se somos todos um porque é que não o sentimos mais activamente, porque é que não é uma realidade no quotidiano das nossas vidas a irmandade com o próximo com os bichos com a terra com os destinos da humanidade com os destinos do mundo. Por que vários níveis de consciência. Por que diferentes posições e diferentes espaços entre corpos e almas, porque incursões absolutas e absurdas em universos paralelos se misturam com o contraplacado na opacidade da multiplicidade de seres, porque a vida não é clara e límpida como um espelho bem limpo, porque as coisas ao invés de estarem ligadas estão misturadas, estão em caos em vez de estarem na ordem, estão confusas. E nós estamos confusos. A humanidade está confusa. O homem está confuso e eu estou confuso, porque não percebi, porque ninguém ainda me explicou, porque jamais esquecerei esta pergunta, porque jamais esquecerei quem sou, ainda que não tenha bem a certeza do que isso é.

O equilíbrio tem de ser mantido a todo o custo. A qualquer custo. Não importam os meios, a realização é que importa, no momento do agora,

Projectos a longo termo a curto prazo, planificações do espaço do devir, artes divinatórias, de que outra forma se diz isto, entrelaçados já eles estão, os dedos prontos o pensamento é tão rápido quanto o quê, qual é a velocidade do teu topo de gama, para quê se depois excesso se depois leis e controlo e domínio e coima. O que interessa é que já cá estamos outra vez, não custou nada, tudo o que passou pelo meio não tem importância, é relevado pelo poder do esquecimento, é liquefeito em sangue que nos corre nas veias da alma, que ficará gravado no registo para posterior observação. É esta a posterioridade, o tempo a que me refiro. Neste tempo desafio o mundo a fazer planificações sobre o que será. Pensem como se fossem deuses. Sejam por um momento o universo inteiro. Pensem-se como partículas partes peças de um mecanismo total.

Nada do que farão passará incólume, nenhuma acção esquecida nenhum gesto revogado, nenhuma memória apagada, nenhuma aprendizagem perdida. Pensem-se assim e depois planifiquem.

Mas porque quero eu que assim seja?

Porque quero que saibam que todos os actos são importantes, todos os gestos significativos todas as palavras ouvidas e lidas e compreendidas ou não, formando pensamentos dispersos pela atmosfera, agarram-nos aqueles que se libertam e que vêem e que compreendem a verdade. Qual é a importância da verdade, será que as pessoas usam de todas as ferramentas que têm à disposição, será que querem dizer a verdade quando se expressam, o que é mentir, como sabemos se uma pessoa está a mentir ou a falar verdade, quem diz que é verdade, quem diz que é mentira, quem vem dizer isso é mentira isto é verdade, quem vai julgar, quem vai saber, quem vai discernir, quem me vai dizer, olha isto assim é verdade, como vou saber ao ouvir dizer, isto assim é verdade. Vou saber. Sei reconhecer os pensamentos quando são verdadeiros, como as pessoas quando são verdadeiras, sei sabemos, então porque não sempre, porque não todos, porque não perene, porque não para sempre e em todos os momentos verdadeiros, para que livremente corrêssemos pelo espaço sem fim, sendo aquilo que realmente somos.

Não te adianta de nada saber o que sabes se fores só tu a saber. Não te adianta de nada veres o que viste se fores o único a ter visto se outros não virem se não vires ao mesmo tempo que alguém não te adianta de nada estares sozinho no espaço sem fim criando a ilusão de estares rodeado de gente que gira em teu redor só porque tu atrais só porque tu exerces força atracção domínio para que girem para que se passem as coisas e as gentes de roda de ti e a tua verdade sendo expressa pelas bocas deles e a tua vontade sendo realizada nos seus actos e a tua palavra difundida pela luz das suas almas, sabes ser esse o propósito mas de que te serve sabê-lo sozinho de que te serve se os outros estão cada um para seu lado emanando e interagindo sendo e diversificando aqueles que com eles rodam em redor de ideias e de pensamentos que escolheram como verdade?

Então e um pensamento único unificador. Então e todos lado a lado, então e as partes, as centelhas, as partículas, os átomos, as almas, o princípio imortal, então e a capacidade de esquecer tudo isto, bebendo da água benta da aurora de um novo dia, o dia do despertar, o dia da liberdade, o dia em que vamos ser quem somos, atingir a despreocupação, chegar ao lugar de onde vistas as coisas tudo é efémero e pequeno, nada tem importância, faz tudo parte de uma coisa maior, Um propósito desconhecido, mas um propósito, uma razão, um porquê, nada é por acaso, tudo foi pensado, tudo está escrito e tudo é escrito constantemente, a criação não foi uma coisa que aconteceu antes do tempo, não é um acto isolado de alguém que não existe, a criação somos nós, o amor somos nós, o acto de amor somos nós, o propósito é sermos quem somos. O segredo é a incapacidade de atingir, de discernir, de aceitar a verdade absoluta. Demasiado ocupado com a própria verdade o ser perde-se, demasiado ocupado em mostrar a sua verdade aos outros, em impor a sua verdade, em ouvir a sua verdade pela boca deles, demasiado ocupado, demasiado orgulhoso, demasiado egocêntrico, demasiado egoísta, demasiado impuro, para reconhecer a verdade absoluta. Tudo é a mesma coisa. O sucesso só o é quando for para todos. A riqueza só o é quando for para todos. A liberdade. A possibilidade. Não é nenhum ente desconhecido que nos nega, somos nós. Somos nós os responsáveis.

É nossa a responsabilidade dos nossos actos e as respectivas consequências são nossas.

Temos que querer sair desta encruzilhada.

Temos que querer ser maiores.

Temos que querer ser irmãos. Alimentar todos a mesma boca. Há pão para todos, desde que cada um coma só o que precisa para viver.

Porque senão eterno retorno, porque senão milénios às centenas a reviver o mesmo texto, a cortar o mesmo pescoço, a dominar as mesmas almas, sempre a mesma jaula, sempre os mesmos bichos, valas comuns de corpos enterrados na terra, semente do mal, onde está a purificação, onde está a ascensão, para onde caminham as almas?

Não me posso esquecer do plano, a promessa que hei-de cumprir, mas sozinho não vou a lado nenhum.

Relatório

E depois dizem, o Ica faz muitas linhas, o Ica faz muitas linhas, pois o Ica não pára, o Ica não conversa, eu vejo aí esse pessoal novo só a conversar pelos corredores, apanham uma caixa e conversam, para irem daqui para ali têm que levar a máquina atrás, andam de dois em dois centímetros com a máquina, tudo isso faz perder tempo, o Ica vai a pé buscar as caixas, utiliza o escadote, é o braço direito do Matos, o Matos como tantos outros chefes não tem estudos mas chegou a chefe pela antiguidade, agora já pode usar gravata e mandar o Ica fazer linhas, muitas linhas, qualquer bucha lhe enche o estômago, e todos os minutos são dados à casa. Ainda assim quem fica e quem não fica não se sabe, cada qual cava a sua sepultura, pelo comportamento e pela postura que adopta, não esqueçamos o factor “c”, o melhor é nem pensar nisso. Há outras coisas em que pensar, o rapaz é novo mas já é pai de família, onde está o vínculo que liga a mãe à filha, a dependência que as manterá inseparáveis, até na ausência a preocupação toma conta do espaço, do espírito que habita dois corpos. O tempo fará com que a criança tome posse e a retirada é inevitável. Tempo que se estende até ao que não importa, tempo que solucionará os problemas, tempo que seccionará o meu sentir em postas em camadas como eras gravadas em rochas. Trará o dia em que serei chamado a intervir, o momento em que saberei o que fazer, sentirei o apelo como chamam por mim as coisas sujas, as gavetas abertas e os pratos dispostos ao acaso, os ajuntamentos de sábado à noite, as peças sempre no mesmo sítio que atiram frases na claustrofobia do autocarro, as coisas que precisam de ser feitas, todos falam como deveria fazer-se ninguém faz, todos criticam como não deve ser feito, opinam e mantêm à flor da pele a desgraça da péssima representação desses actores desprevenidos que agem com displicência no teatro da vida, o desinteresse por tudo como consequência da incapacidade de adaptação, chamam por mim as pessoas que contrariam, as manhãs onde as peças sempre dispostas no mesmo sítio se queixam de terem acordado, se queixam de estarem onde estão, maldizem tudo de fio a pavio, junto-me àqueles que dizem, o que é bom é trabalhar, estava em casa a dormir e disse, estou a desperdiçar tempo, vou fazer pela vida, junto-me àqueles que contrariam, àqueles que agem de acordo com o que acreditam ainda que isto seja diferente do que a maioria faz e acredita, àqueles que podem mudar alguma coisa, porque é bom, disse ele, deixarmos um mundo melhor do que aquele que encontramos, filhos netos ou bisnetos, alguém há-de pagar a factura, se tolerarmos e compactuarmos com a servidão da inércia. Ergue-se o raciocínio de uma argumentação implacável que me diz, a mulherzinha do abatanado não muito quente não muito cheio mas em chávena escaldada, o sapato raso, a calça de ganga vincada das horas engomada, subida pelo tornozelo a não condizer com a camisola colorida que puxa constantemente abaixo da linha da cintura para esconder o duplo estômago, o pneu da servidão à inércia, à inacção, às horas de engomar e lavar e arrumar os pratos dispostos ao acaso pelo marido que saiu, foi ao café do António beber o digestivo e ver a bola que só dá naquele canal, entretanto pairam no ar infidelidades cometidas assim, o pecado da omissão, demasiado ocupado para dar atenção a quem precisa dela, o rapaz irmão de muitos irmãos, a atenção dividida como o pão em pedaços iguais, quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não tem arte, a quem cabe o maior quinhão, agora não são sardinhas a sardinha já não é o peixe dos pobres, o bacalhau já não é o peixe dos pobres, ninguém sabe o que é brioche, mas continuam a comer-se batatas.

Aprendeste nos teus cem anos de vida como olhar uma pessoa nos olhos, sabes pôr-te em frente de, estar aí em representação daquilo que tu és, essa matéria que não tencionas revelar porque só a ti te diz respeito, mas que transpiras nas opiniões que incutes no ar forçado através dos espaços deixados em branco pela ignorância daqueles que não viveram tanto tempo como tu, daqueles que vivendo mais não viveram metade, porque tu tens cinquenta anos, mas estás preparado, para que venha a morte levar-te pela mão, aprendeste o que é a abnegação, aprendeste o que é o sacrifício, sentes-te no direito de me segurar pelo ombro e dizer como é, olhando-me profundo com a careca luzidia, Um homem de trabalho e que já trabalha há muitos anos, mas ninguém te põe os pés em cima dos ombros, o que os outros fazem não te interessa, cumpres o teu propósito. Se chegarás a andar cadavérico pelas ruas colocando um pé defronte do outro vagarosamente, se tropeçarás num buraco de calçada, estatelado no chão porque há mais de dez anos que sandes todos os dias se não é queijo é fiambre se não é fiambre é queijo, o bongo e o comprimido para a tensão arterial, a fechadura verificada duas e três vezes, que tu não usas cadeado como ele que também os verifica duas e três vezes, não chegarás a experimentar o dissabor, o dissabor de ser posto no olho da rua, rotulado e marginalizado por seres quem és, porque apesar de não seres o que eles querem não és o que eles não querem, chegas a casa e duas mulheres que te adoram, que te adoram porque tu sabes que elas te adoram, só falas com quem te interessa, com meia dúzia de pessoas aqui dentro, mais os outros que entretanto foram partindo porque mais instáveis do que tu, e eu continuo no patamar da diversificação, e contigo como sombra que lugar ocuparei, nada disto tem graça nenhuma, até da vingança estou privado, porque é um sentimento negativo, tento compensar-me com mais medidas egoístas, na falta da paciência para manter recto o caminho que não escolhi, na falta da perseverança para ficar quieto no mesmo sítio, na falta da arte para vencer a repetição, para deixar de bater com a cabeça contra a parede até que embolia, até que mais nada senão existência comum e banal e ordinária, homem dedicado à família e ao emprego, que falha, que não exprime, que não é, nada do que deveria ter sido. Então fugir para o cimo de uma montanha e dez anos a ver o sol nascer e até ao ocaso dez anos de meditação para pensar na humanidade e gravar na memória dos dias vindouros a palavra da realização, e as represálias, as consequências as vidas póstumas o carma as leis da presença omnipotente ou simplesmente o medo de falhar, a cobardia de agir o comodismo de nunca ter saído daqui deixando que aos poucos esta decrepitude sem bichos me devore a alma.

Porque perscruto as linhas deste sonho que vivi até agora, toda a memória me leva até lá, tudo são caminhos, rectas que se transformam em círculos, que levam a pontos que não distingo, que me ofuscam a vista, ideias mesmo debaixo dos olhos que só se vêem depois da miríade de luzes que vão e vêm piscando, cintilando como astros distantes pontos piscantes no longínquo preto, no indefinível branco no indelével azul banhado pelas luzes da noite ou do dia de um sol que atravessa toda essa memória de que falo, a memória de um mundo que sempre existiu, o sitio onde eu vivi, onde vivo agora, o que é isto, o que vejo nestas linhas traçadas a partir deste quadrante, a minha perspectiva, a perspectiva de quem se atravessa no meu caminho, o ponto de vista de quem como eu interpreta o emaranhado de pontos piscantes no longínquo fundo preto, aproximações furtivas ou caminhares declarados, entes como orbes trocando campos magnéticos pela pluralidade do espaço, esferas giratórias cada uma por si no complexo da existência, onde começa o entrelaçar, em quantos planos sinto coisas diferentes por ti, a escolha, só um pode ser expresso, ou posso ser várias coisas ao mesmo tempo, vários aspectos vários pontos de vista, tenho de escolher, de ponto em ponto optando por este ou por aquele, traçando este mapa que não atinjo, não sei onde me leva, não sei quem encontrarei ao fundo daquela curva quando virar à direita, quem vai lá estar, que orbe rodopiante estará pensando para consigo mesmo, onde vou, quem sou eu agora no planalto do existir, só começo a perceber quando oiço as vossas vozes, o eco daqueles que me escutam, a compreensão daqueles que me interpretam é o que me faz perceber o que digo, até lá estica-se o sonho, a vontade de ser, o pensamento primordial de mim, longe de tudo aquilo que querem ou esperam que eu seja, não há pontes nem portas nem janelas nem caminhos: é a terra do nunca, a terra do impossível, o irrealizável, o improvável, o inacreditável, tudo o que não é porque eu não o realizo, esferas ardentes palpitantes e pulsantes dentro de mim, a todo o tempo, na ânsia de ser, mais a ânsia, a vossa ânsia de ver sendo compreendem, nada faz sentido até que compreendam, não vou ser contundente nem conclusivo acerca daquilo que poderia fazer, talvez haja muitas maneiras de o fazer, será mais fácil se começar por dizer o que não poderia fazer, o que não posso fazer, o que não farei, como saber isto e aquilo como discernir, sabendo aquilo que quero ser, escolhendo a cada momento aquilo que desejo exprimir, agora desejava exprimir outra coisa, falar de outra coisa, fluentemente discursar acerca de um assunto qualquer, para que alguém me ouvisse, para que alguém prestasse a devida atenção àquilo que tenho para dizer, como tu quando me olhavas nos olhos e absorvias, porque não absorves agora, e aqueles que sempre aqui estiveram e estão escutando, sendo ouvidos e boca do lado da recepção, eu que tenho tanta coisa para emitir que nem sei o que é, nem sei por onde começar, não sei qual há-de ser o cenário, não conheço as personagens, é-me impossível seleccioná-las deste leque imenso que adivinho, qual o enredo nesta teia de encontros, teia que perscruto que reconheço no emaranhado de pensamentos que eles tiveram, tudo gravado para que eu leia agora e decifre, nesse plano onde nada interessa, e me veja como um livro fechado escrito numa língua que ninguém sabe ninguém fala, nunca ninguém ouviu falar, embora quando ouves alguém dizer o mesmo que eu digo mas por outras palavras entra-te a chave na porta certa e abrem-se as correntes daquilo que eu sempre disse, já nem eu reconheço essa seiva quando percorre o meu próprio corpo, já a confundo com o líquido que se depositou no fundo do copo, a borra, o gemido sempre constante de quem não compreende, de quem compreendeu mas não consegue demonstrar, de quem se vê prisioneiro num mundo que não existe, sozinho do lado de lá do espelho onde se reflectem mil caras de expressões de sentimentos por ter tido, por não saber o que vir a ser por ansiar o momento seguinte onde então tudo sucederá, por esperar pela hora certa hermeticamente fechada no dia de amanhã, na noite depois do dia, no tempo depois dos afazeres cumpridos, no período sorteado pelo sono, pela incapacidade de estar acordado esperando, que as horas passem que chegue amanhã e então sim tudo mudou, porque mais umas horas e a sucessão dos astros nas posições que vão ocupando na tela do absoluto, o rei lá longe vai ardendo, nós giramos de impaciência, de intermitência, esperando que isto se suceda àquilo, e então sim serei quem sou, e então sim escutarei as vozes clamando comigo, sentirei esse sentimento darei então corpo a esse produto realização a essa tarefa, entretanto toda a escadaria foi percorrida todo o percurso está gravado na memória do tempo, todo o texto lido ao mesmo tempo que está a ser escrito, e o propósito em si a ser cumprido sem consciência. A consciência do propósito é o que eu procuro. E se alturas há em que ir à janela me trás toda uma perspectiva do mundo de mim e do infinito, outras em que fico simplesmente a olhar para os prédios e para os carros estacionados e para o barulho da auto-estrada, e não vejo absolutamente nada, não saio do mesmo sítio, não chego onde quero ir, esse sítio de mim onde me sinto bem. Então deito-me e escrevo na memória hipóteses de textos fluentes, gravação que posteriormente recupero pelo desconforto que o ócio me causa. Nas lides domésticas encontro a simples gratificação de fazer algo, o cumprir da tarefa é o meu propósito, mas isso não preenche a lacuna deixada pela falta de respostas, e a incapacidade de verbalizar um discurso, a impossibilidade de ouvir as palavras que eu quero ditas pela tua boca, porque de nada adianta o sabê-las, o lê-las, o escrevê-las nada mais importa do que ouvi-las da tua boca, isso não consigo porque síncope porque raiva, porque tumulto de sentimentos em violência contida porque medo das consequências, porque medo da morte medo do inferno medo do desconsolo de estar só, de não mais ter a oportunidade de, nem que seja estar existindo esperando pelo dia em que, essas esperanças mais ou menos vãs se concretizem, tudo isso atirado pela janela nocturna do último andar do prédio. E nem por maior que seja a distracção consigo estar solto, abandonar-me ao cansaço ou à convalescença da frustração, e assim continuamente batendo com o cutelo no osso, em pancadas mais violentas sucessivamente, até que desfeita a carne e desaproveitada a refeição. O lixo. O desperdício. Liberto de reciclagem, completamente esquecido do dever cívico, monte fedorento do resto de tudo onde vagueiam cães danados e homens perdidos.

Não, isto não sou eu. Não sou aquilo que digo ser.

Mas o que eu sou não importa quando as reacções estão bem para lá do meu controlo, sou frequentemente mais bicho que homem mais besta que outra coisa, animal na verdadeira acepção da palavra, de genes e instintos constituído, de respostas pré-definidas em explosões incontidas no momento menos oportuno, de carácter dúbio e duvidoso na grande maioria das situações, e de avaliação complicada até mesmo pelos meus parâmetros que necessariamente são simples. Se tu me vens dizer que sim senhor eu acredito e fico convicto, cresço dentro de mim e fico cheio desse ar no peito, e quero logo de seguida exalá-lo euforicamente pela vida, quero uma fileira deles de braços abertos, quero todos de roda de mim escutando, quero o olhar inocente curioso e profundo duma criança que escuta, para que eu me aproxime de tudo isto e exale e então de peitos cheios fostes todos a vossas vidas e eu mudei com a vossa força o destino do mundo.

E com o teu olhar carinhoso as minhas mãos com as tuas palavras de consolo dedilhando a corda do impossível, o meu eu ocupando milhares de metros quadrados, porque é que é mau ser muito.

Depois recolho-me ao mais ínfimo espaço que me é possível, reduzo-me à insignificância de habitar um canto do meu ser, ou de fugir apressado pelos corredores, de entrar esbaforido numa sala, para disperso ausentar-me no tecto, num candeeiro do qual luzem pendentes vermelhos e pensar no que poderia ser através do tempo.

Assusta-me o sair para a rua, assustam-me as caras que adivinho respondendo às perguntas que não vou colocar, não agora que tenho medo, agora que síncope porque as palavras se enrolaram umas nas outras num símbolo indecifrável, perdidas estão as emoções do entretanto, acumulam-se as reacções retidas na garganta até que espasmo, até que a treva me cubra por completo e me diga perdido e louco e vagueie pelos becos sem fim, até que me entregue a outro universo, vire a esquina para o paralelo na planta do instinto e chegue sem saber como ao centro desse outro mundo, onde as ruas e as gentes são diferentes, onde o medo escorre das paredes, jardim nocturno de onde emanam as sensações que podia ter tido, realidade onde a minha ânsia é um ser de carne e osso percorrendo a mata.

Relatório

Vou traçar esse mapa, gravar esse caminho para quando o estado de graça cair em desgraça, porque algum dos muitos infortúnios desta existência atribulada e conturbada se atravessou insignificantemente no caminho, como mais aquela gota que transborda, para que eu saiba, me lembre de como é, sentir estar ser aquilo que verdadeiramente sou, este estado de graça, onde tudo é perfeito belo e possível. Onde o amor que chega da fonte de onde veio, penetra nos corações como nas paredes como nas expressões e limpa e purga e cura, e está presente por cima de todas as outras coisas, sentimentos ressentimentos, negatividade, nada é mais poderoso, nada mais importa, nada mais existe nesta realidade onde somos plenamente.

Só que depois passa o tempo, chegam os dias, pesados, com aquilo que é suposto que façamos, com aquilo que temos de fazer para que, burocracias, papéis dados a moços de recados, vai ali e pergunta àquela senhora, ela tem as mãos no sistema, mas não sabe nada, só vai introduzir os dedos e dizer vá, aqui e ali, mais folhas entregues ao rapaz com cara de pato, sempre de mãos atrás das costas, que costumava ir fazer recados, agora o miúdo cresceu, a mesma cara de pato continua a passear de um lado para o outro, diz que a mãe morreu de cancro, antes de morrer empregou o filho nos correios, emprego estável pois com certeza, passeia-se a ele e ao lulu sempre com as mãos atrás das costas e as biqueiras dos pés ligeiramente voltadas para fora. Já não sei porque me lembrei dele. Talvez porque percorre há anos o mesmo circuito, aquele onde se fazem os recados, mora convenientemente no centro disso, o carro serve para ir ao domingo almoçar depois da missa, que realidade esta, e eu julgando-a depois de ver o rapaz fazer os recados, é a mim que julgo não julguem, é a mim que condeno quando condeno, é de mim que tenho nojo e desprezo quando os vejo, atarefados como formigas de cá para lá, sonhando com o DVD e o Plasma, levantam-se e vão trabalhar para os comprar, esses os únicos sonhos que sonham, para que quando chegam do trabalho possam alienar-se com mais qualidade, é essa a política, alienação de tudo, eles fazem a política, ninguém se lembra do que isso é, ninguém sabe o que isso é, ninguém o faz, contudo eles fazem a política, eles gerem, os destinos e os cofres deste estado, deste país, desta nação que não sabe quem é, e nós passeamos pela avenida, nós temos outras preocupações, e eu canso-me de tudo isto.

E depois estado de graça. Os anjos insistem em manter abertas as asas brancas sobre mim, insistem em dizer-me que ele está presente, sempre esteve presente, nunca se foi embora, e uma vontade imensa de mostrá-lo invade-me. Tenho então necessidade de me ir embora, lá para aquele sítio no interior da minha cabeça. Contudo continuo sem saber como trazer de lá as informações necessárias, como transmutar, pois eu só quero que tudo isto mude, quero ver caírem por terra os impérios, as sociedades capitalistas, o culto do sucesso, do lucro, tudo ruir nesse salto quântico, é só isso que quero, ver outra realidade consubstanciada neste mundo, qualquer coisa hei-de poder fazer para que isso aconteça, enfada-me enumerar numa concatenação lógica tudo o que penso que deveria mudar, enfada-me dizê-lo, tenho dificuldade em pensá-lo, compreendem, não gosto de nada, acho que o que é belo está por cima, é no modo como eles vivem que está o que queria mudar, no modo como vivem, no modo como agem, como pensam, não são os sistemas, não é o dinheiro, não é o poder, não é nada daquilo que existe, é só o uso que fazem disso. Mas isto também me enfada, e o propósito de eu estar aqui é sentir-me bem, disto não posso esquecer-me.

Agora dou por mim num sítio estranho. Levantei-me e já cá estava, neste sítio. Não gosto de cá estar. Sinto-me como com um síndrome de abstinência. Algo me falta que não sei o que é. Procuro, pelos compartimentos de mim, revejo as coisas que tenho cá dentro, aquelas de acesso fácil, como quando se limpa a cara à casa compreendem, as outras, as mais profundas e as que desconheço não as revejo, mas assim vou esmiuçando todos os recantos, à procura, neste processo dá-se um facto que me desagrada: as boas coisas, o bem, os bons acontecimentos e pensamentos são escamoteados e lapidados até ao osso, até que nada reste deles a não ser o vácuo deixado pela sensação de tê-los tido e tê-los perdido. Mas não é por isto que vim parar a este sítio, este processo será talvez uma consequência de aqui estar. Procuro para poder encontrar uma corda que eu puxe e me tire daqui, ou uma escada que eu suba e vá dar a outro patamar. Então porque estou aqui se isso me desagrada profundamente, se me faz sentir mal comigo e consequentemente incapacita-me de dar aos outros a melhor expressão de mim, de facto impede-me de me expressar, fico preso toldado, num sítio estranho.

Levantaste-te e olhaste para mim para me contar de um episódio que te tinhas lembrado, algo passado entre ti e uma mulher mais velha que te disse como resolveres os teus problemas,

Quem és tu,

Quem sou eu para te fazer essa pergunta, oiço o que dizes, estou a ouvir-te agora no momento em que te levantas para me contar algo, é a tua intenção de mo dizer que faz com que te preste atenção, seja o que for que tenhas vontade de dizer di-lo ou não digas, digas o que disseres eu escutarei da mesma forma. Forma que também tem conteúdo, que sou eu no caso em questão, e tu no particular de eu te ter apontado, porque para que tu te tivesses levantado para me dizer alguma coisa eu tenho de ter estado nesse momento anterior, tenho de ter existido e sido, a minha vontade cresce à medida que nos aproximamos.

Também tu tens que ter sido alguma coisa no momento precedente a este, em que te levantas com vontade de falar.

O que será isso que queres exprimir, será a tua vontade, aquilo que pensas, de quantos pensamentos é feito um indivíduo, é preciso respeitar a lei, haverá uma lei que rege estas coisas, esse sim o verdadeiro código de conduta, onde está, preciso aceder a essa fonte de inspiração, porquê andar aqui às cabeçadas neste mapa sem rotas, para poder experimentar tudo sim, mas a vontade é algo de complexo, daqui de onde me encontro é-me difícil avaliar as coisas claramente, tenho que ser paciente, tenho que esperar pelas respostas nas bocas dos outros, na conversa que ele estava a precisar antes de se ter levantado estava a resposta que eu precisava, que valor terá ele será imprescindível, o que será, descubro nas palavras dele, através de vós. É difícil, oiço os pensamentos daqueles que pensam que é fácil, é difícil ser recolhido pelas asas brancas, há revolta há ressentimento há um não sei quê de emoções e sentimentos e sensações acumuladas, há uma vontade de ver tudo em pratos limpos, porque me abraças se ainda não me disseste quem és, porque me queres beijar nesse teu amplexo de eternidade se eu ainda estou a tentar perceber o que isso significa, porque me esqueci, qual é o intuito, de onde me vem o desconforto, em última análise é isso, quero o meu conforto de volta, quero não ter de, nada precisar nada quero não caminhar, ficar quieto no mesmo sítio sendo aquilo que sempre fui, o que sou eu, o que significamos nós no complexo do espaço, o que é a relação que tenho contigo.

Tudo isto começou quando eu o vi levantar-se. Na altura não olhei bem para a cara dele, ainda hoje não olho bem para as caras deles, vejo primeiro as caras que já vi dentro da minha cabeça, escolho a que melhor se adapta e vejo essa até um certo ponto, em que a verdadeira se impõe como verdadeira destruindo a que eu criei. Já houve pessoas que me pediram para trocar, mas eu tinha de ficar com a deles o que impossibilitou o negócio. Não quero nada que não seja meu. Seja como for eles continuaram comigo depois de ele se ter levantado. Entretanto acho que estive com ele num apartamento qualquer que não recordo, atirámos discos voadores pela janela fora, fizemos viagens à cave misteriosa, as escadas sem saída, ou seriam as escadas em caracol, um desenho do demónio pintado a fogo na parede inacabada embargada pela falta de pagamento, como íamos e vínhamos dessas caves longínquas desses passeios à tarde até que cães e ladrar e restolhar de passos e a espingarda do homem gordo que acertou dois tiros na perna de não sei quem dentro da minha cabeça, eram só cães e provavelmente estavam presos, e nós por ali abaixo. Às vezes penso que são os deuses da memória esses senhores que sempre estiveram comigo. Fazem-me assim navegar em memórias perdidas. A nau não me vai passar ao lado. Eu sou o mar por onde ela navegará até ao destino: eu. Não me posso confrontar com outra coisa. Quero viver a minha realidade.

Falo de barcos porque eles sempre cá estiveram, lembro-me de ouvir alguém explicar-me o que era uma nau e como eles as tinham mandado ao mar destemidos, ousando perscrutar o imperscrutável enfrentando monstros, pior do que isso, primeiro o desconhecido, depois a tormenta, dias a fio sem comer o enjoo a náusea, o cheiro nauseabundo de muitos homens a viverem juntos num espaço exíguo, as bactérias e os vírus, a peste, um comandante mais ou menos austero, por onde avistariam eles terra, eles que não tinham a plataforma redonda ao cimo de um mastro com um homem gordo de monóculo na mão gritando, eles não tinham, navegavam em busca de algo maior, foram estas as palavras que ouvi dizer, navegavam em busca de algo maior, seria a ganância que os movia, procuravam ouro especiarias comércio riqueza, não é tudo isto legítimo de se procurar, e se procurassem algo mais, se quisessem mesmo descobrir o mundo, nunca poderemos saber como teria sido se tivessem ficado sentados mais um pouco para depois terem ido fazer outra coisa, então outros quaisquer ter-se-iam levantado construído algo de parecido com naus e partido, rumo ao desconhecido. Outros o fizeram. Também são conhecidos na história. A pouco e pouco aquilo que fomos vai-se esbatendo na passagem do tempo, séculos de gente vivente que procria, memórias que se vão perdendo com o passar das gerações, pais que se esquecem do que foram, pais que nunca chegam a descobrir o que são, pais que se esquecem de viver porque a vida lhes passou ao lado enquanto dormiam engordavam e acasalavam. Não é o mar compreendem, não é o mar não é o sal não são as velas nem os corpos que exalam o fedor do peixe capturado, não são os monstros nem os cabos que eles guardam, é a alma dessa gente que fervilha nos tempos de agora. São os corpos deles que continuam lado a lado connosco e se sentem desconfortáveis. Mas isto é muito mais do que a minha sensação de conforto. Há outro prazer para além do imediato, e estou aqui por outra razão. O meu propósito em estar aqui é a realização contínua daquilo que sou, e eu sei disso.

Oiço as vozes do grupo. A posição que cada um vai tomar na discussão chega-me aos ouvidos num murmúrio, eles decidem, enquanto lhes vai também irrompendo qualquer coisa do que captam do que paira no ar, a posição vencedora é aquela de quem tiver a audácia para a agarrar e exprimi-la. Entretanto disperso-me com tudo o que não é dito nas costas das pessoas que vejo, ponho-me a imaginar o que me responderiam se eu lhes perguntasse algumas coisas, se eu afirmasse que, mas para isso precisaria encarnar a postura conveniente, o conjunto de gestos de esgares ou não esgares brandura, uma voz calma e profunda, qualquer coisa que não sei definir como não sei assumir as coisas que não assumo, não sei assumir que não sei nada, que falho nos propósitos a que me prometo, que não sei qual é o propósito a que me prometi, embora insista em pensar que me prometi algum, que todos prometemos alguma coisa, continuo sem respostas continuo sem a acção que revele de mim aquilo que sou, aquilo que quero ser, como é isto possível, então o que estive aqui a fazer, todo este tempo passou e que fiz eu, a sucessão dos dias um depois do outro e objectivos, o que é preciso para estar vivo, um precisará de objectivos, que objectivos serão esses, todos estes sentimentos, em relação a tudo, tudo isto que se passa nos bastidores duma peça apocalíptica, sou eu que faço tudo, é isso que é suposto, escrevi o texto e agora assisto à representação feita por mim, umas vezes consigo outras não, ora falho na representação, ora falho no texto que escrevo, tudo é contínuo, por vezes quero representar e não tenho texto faltam-me as palavras que não escrevi, outras quero ver acção, o desenrolar da peça como um espectador, e não há actores não há palco não há texto, onde está a coordenação de tudo isto, algo está mal quando só nos resta olhar para trás e fazer como os outros fizeram, imitar percursos de vida na esperança de atingir objectivos semelhantes, procuramos um ideal ou alguém que o tenha tido, fazemos como vimos fazer ou basta-nos um retrato antigo dum senhor com ar austero e imaginamos o resto e vivemos vidas de comiseração connosco próprios porque não conseguimos ser mais, porque a fortuna está reservada para os outros, para aqueles poucos que conseguem lá chegar e depois, a que grupo pertences, quando vês alguém que até nem fez nada de extraordinário e atingiu a fama que tanto cobiças, nada disto está certo quando não se quer nada, nada disto importa quando tudo deveria mudar, onde estão as naves, onde está o resgate, porquê essa expressão de tristeza e insatisfação no teu rosto, o que posso fazer para a aliviar, o que terei de ser agora que o tempo começa para nós como se fosse o primeiro dia, eu tenho vontade de mudar.

Como tu és pouco real e palpável e não me respondes permaneço com dúvidas, será que vou chegar a algum lado, será que isto vai fazer sentido, sim quereria esse destino de oiro que como uma ponte crescesse acima de mim e me elevasse, sim, essa plataforma até ao patamar da despreocupação, voltas ou as voltas que se transformaram em balanços, em passinhos frenéticos em redor de nada ao som de coisa nenhuma e todas as músicas de dentro da minha cabeça gastas, riscadas pela agulha que coloquei mal sobre o vinil, tudo isto já passou e decorre ainda, a simultaneidade de tudo a dar-me voltas ao cérebro nestas visões cabalísticas, dúvidas, fracções de tempo impostas aos pares, vou todos os dias pelo mesmo caminho, as peças estão sempre no mesmo sítio, aquele rapaz que me faz lembrar de um rapaz que não conheço bem que é retardado que é parecido com o filho da Paula que também é retardado, era normal em todas as ecografias mas o nascimento atrasou-se porque a displicência do médico, anormal que passeia o cãozinho todos os dias àquela hora, sete menos cinco lá está ele, o cão raça de orelha cortada em tenra idade para espetar para cima, espeta a cabeça no ar farejando a minha presença, espeta a cabeça na erva farejando a merda de outros cães em redor do recinto criado especialmente para o efeito que ninguém usa, cagatório se é que assim se pode chamar, a preta dos óculos e do buço sempre agarrada ao telemóvel, às sete menos cinco, preta das barracas com telemóvel topo de gama que não sabe funcionar, sabe perguntar a alguém que lhe responde do outro lado em monossílabos, Onde é que estás, depois entra no autocarro e senta-se ao lado de outra preta que já vem sentada da outra paragem e comentam, o fulano que chega ligeiramente depois fumando sempre e espera pela boleia dum tipo gordo de carro a gás, às vezes lá se esquiva esse tipo uns minutos antes, aparece um outro com um monovolume, sempre são uns cêntimos que mete ao bolso, quando ninguém vem entra também e é o único que sai na mesma paragem que eu, são poucos minutos que separam tudo isto, não me esqueço da fulana com a filha pequena que é a primeira a chegar, a miúda empoleirada no banco, isto e aquilo, lá lhe pega pelos braços e degrau acima tudo embarca nesta carreira que não tem tempo a perder porque a seguir vem outra Alenquer Vila Franca e vice-versa.

Pões o pé em cima do banco quando lancho, o banco estremece, o teu tempo já lá vai agora condensas-te, o tempo em que ganhavas a mesada ao snooker, agora é só babalus e catataus, tudo entregue aos bichos, o que será de todos aqueles que esqueço propositadamente, o que será dos pormenores que não relato porque não tenho paciência, o que seria de mim se não me justificasse, como se encadeariam as coisas se não saltasse do abstracto para o concreto, esse caminho, essa voz que diz qual é o caminho, esses senhores de batina todos em fila, duas filas uma abaixo da outra, os mais altos por trás os mais baixos à frente, todos hirtos e quietos fitando-me com ar austero, tísicos de se saberem com o poder de me dizer não vás por aí, inabaláveis na convicção assim não chegas aqui, ao único sítio que podes querer chegar.

Quando entro pelas marés de gente e decifro a deficiência, a tentar ser gente como a outra, a representar, os gestos de boca que pretendem ser sensuais, da irmã que conheço, andou comigo na escola, sempre lhe achei um ar esquisito, qualquer coisa a mais que a fealdade que a caracteriza, o grupo, ela dois rapazes e a irmã, tudo visto aos olhos dos movimentos desconexos das mãos, os movimentos desconexos da boca, esperavam como eu pelas pizas que tardavam, três imperiais pediu o macho dominante, o outro seria familiar ou amigo não percebi, como se coseu à parede a deficiente e se reduziu ainda mais no seu buraco, para onde vou eu agora, que eles bebem e mais isso os une e os separa de mim, ou a mim deles, eu não bebo nada, tens a certeza que não queres beber nada, claro que tem a certeza, como iria lidar com os movimentos desconexos das mãos e da boca enquanto bebia, o líquido a escorrer-lhe pela roupa de sábado à noite escolhida pela irmã, atarefa-se a brasileira no serviço às mesas, em dispor cadeiras à volta das mesmas para que mais um grupo possa sentar-se, jovens acabados de entrar na adolescência, acabados de passar da Coca-Cola à Sangria, para que tu possas agora por o pé em cima do banco que estremece e contar ao indiano paranóico que verifica sempre duas vezes os dois cadeados que impedem o acesso às riquezas escondidas no cacifo, contar-lhe que tens cinquenta anos mas viveste cem, que quando as tuas filhas estiverem criadas podes ir-te embora, perante a indignação da religiosidade dele, como podes afirmar isso, e depois, a vida é boa, basta que tenhamos presentes as normas de segurança, que cumpramos os procedimentos, quem é que cumpre as normas e os procedimentos que nos ilibam, que colocam nos outros a responsabilidade dos nossos actos, cada vez mais alta na hierarquia das esferas, até ao gabinete dele fechado para reunião.

Ou até que ele se vá embora, dirigir para outro lado e venha alguém ocupar o lugar dele. Esse alguém será diferente. Terá as suas próprias ideias acerca do que quer fazer com o poder que lhe é atribuído. A mim, que também faço parte desta engrenagem pouco me é dado a conhecer. Sou confrontado com o resultado das decisões dele filtradas pelos que se interpõem entre mim e ele, os restantes membros da hierarquia. O esquema é sempre o mesmo. Existe um centro, um poder central, ao redor do qual tudo gira. A última palavra é dele. A primeira também. Como ele disser será feito. É assim na organização que criámos. Criámos também muitos eles. Muitos centros em redor dos quais gravitam hierarquias. Assim surgiram rivalidades. Assim surge a torrente de sentimentos que fará parte da nossa consciência inconsciente. Mas também eu pretendo ser o centro de alguma coisa e também eu sou de facto o centro de alguma coisa ainda que isso seja diferente daquilo que gostaria ou pretenderia porque insatisfação nessa matéria, mas sou, somos todos o centro de alguma coisa. Depois eles escolhem, nós deixamos que escolham, e gravitamos em redor deles. Depois gritamos porque tudo está mal. Gememos de insatisfação. Porque sabemos que estamos a gravitar e sabemos que não temos só vocação para ser luas, temos também um astro dentro de nós que quer ser centro que quer atrair para si luas que em redor dele gravitem, quer criar quer influenciar quer reger quer gravar quer expandir… mas foi isto que criámos. É isto que criamos. A oportunidade de eles serem o que querem. Então porque não criamos a oportunidade de sermos nós o que queremos? Porque não sabemos o que isso é. Porque nos achamos pequenos demais para mudar alguma coisa. Porque achamos que o próximo não vai mudar então se o próximo não vai mudar para quê eu mudar, não adianta nada, não vai resultar, e ouvimos todas as razões não ditas pela boca deles, ouvimos tudo para não nos mexermos e ficarmos quietos no mesmo sítio e gememos para que as horas passem e os dias passem e a libertação chegue. Sinceramente não estamos à altura do projecto que nos propusemos cumprir. E depois a tristeza instala-se. Esvaem-se as forças e só me apetece encarquilhar até ser bicho-de-conta e vir ele com o polegar e o indicador em mola para me expulsar da sua órbita.

Relatório

Dos castelos de cristal, do como se desmoronam até meio para que eu os reconstrua, só para me certificar se estavam realmente bem construídos. É tão fácil construir castelos de cristal, tão fácil e tão belo, que posso construir só para ter o prazer de os ver construídos, mas depois deixa de haver espaço dentro da minha cabeça, que é o cenário onde tudo isto decorre, então tenho de destruir alguns para poder recomeçar. Com isto ocorrem mudanças no tema do que eu sou, isto é, vou-me redefinindo à medida que o tempo passa.

Onde está o fio da meada que já o perdi, talvez o tenha deixado enrolado nas redes de pesca que eles estavam a enrolar, que bem enrolavam uns e outros mal, qualquer coisa servia para passar o fio, numa ponta muito fio para fazer uma rede dentro dum alguidar ou seria um balde, na outra um homem com muito fio nas mãos, a meio do fio outro homem que segurava e puxava o fio que passava das mãos do primeiro do que estava na ponta, na ponta que não estava dentro do alguidar, estou a explicar isto muito bem porque preciso, para ver o que aconteceu, e para ir explicando outras coisas ao mesmo tempo que explico isto, dizer toda a verdade é que importa, as omissões não mancham folhas, como os caracteres omissos de uma personalidade fugidia ao confronto com o mundo onde se expressam as nossas personalidades, porque se conheço o significado dessa palavra é através de outros que como eu são no complexo do mundo a que me refiro. É difícil saber de que mundo estou a falar uma vez que existem tantos, não devo estar a lidar bem com a pluralidade do meu ser, ou o que será, seja como for agora estou aqui mas não por muito tempo, porque o fio demorou demasiado tempo a passar pelos homens e pelo que quer que fosse que servia para desenrolar este novelo, foi o tempo que o veio desenrolar e agora o tempo acabou, ele já está desenrolado todo dentro do recipiente que o levará para o mar para que sobre as águas se desenrole outra vez, impulsionado pelas mãos vigorosas do mesmo homem que o enrolava, lançada a rede poisa na superfície da água e espera também ela que o tempo passe, haverá isco, ou será uma captura, espera que eles passem incautos debaixo dela e terminem mais um processo na cadeia alimentar ou evolutiva, além de todos os outros tenho-te a ti, mas sobre ti não vou dizer nada por agora. Vou continuar por aqui até que o tempo se acabe ou até que eu ultrapasse isto que sinto em relação ao tempo, oh tudo o que precisaria ultrapassar então para me ir embora, não, prefiro ir ficando até que me vá embora, sim nada é definitivo nada tem pés e cabeça quando visto da perspectiva que eu estou a ver aqui deste sítio, as coisas muito simplesmente não fazem sentido, porque haveria isto de fazer, será uma incapacidade de abstracção o que me impede de me esquecer que nesta realidade estou a fazer uma coisa, existe mais do que uma realidade, existem várias, mais um arrombo no meu conceito da pluralidade no carácter humano, ser humano é muito importante compreendem, não pode ser meramente deixado ao acaso até porque o acaso não existe e então seria deixado a coisa nenhuma, a não-existência também é um conceito estranho, talvez seja mais correcto dizer que existe naquela ilusão tal, naquele pensamento que colocámos na gaveta, para não ser pensado, porque sabemos que não o podemos destruir, não se destroem pensamentos, podem erradicar-se desmaterializar-se apagar-se e reescrever-se, mas não podem deixar de existir, a existência é aquilo que eles são, compreendem, é importante que compreendam, há muito tempo que ele nos diz a mesma coisa, a verdade é sempre a mesma desde o início, dita através dos séculos pelas bocas deles, dos que a tocam para a poder dizer.

Voltei. Não fiz nada do que pensava que ia fazer, ou terei feito, provavelmente não era minha intenção fazer aquilo que ia fazer, mas não fiz porque acabou o tempo, o tempo que cada momento possui para ser consumado, como quando me encontro com alguém e surgem no ar do espaço amplo da minha sala de estar respostas às perguntas que esse alguém vai fazer, surgem antes de eu pensar nelas, surgem naquele momento para que eu responda e eu não respondo, não digo não profiro as palavras que responderiam às perguntas, mas as respostas permanecem no ar devorando as perguntas que não foram feitas porque entretanto o meu interlocutor desistiu de perguntar fosse o que fosse, isto dá-se frequentemente. Agora tenho de me lembrar como se faz depois do momento fulcral quando percorremos em parte o caminho que nos leva a casa, quero saber voltar, tenho que saber voltar, senão estaria preso senão era uma masmorra e não é uma masmorra o sítio onde eu moro, da próxima vez que sair à rua devo poder lembrar-me de onde vim. Sim sou um estrangeiro nestas paragens. Ninguém me conhece, ninguém sabe quem sou, e os que pensam que sabem porque os há, ficarão espantados quando os confrontar com o que sou agora, com o que serei amanhã, porque amanhã serei outra coisa evidentemente, é para isso que existe amanhã e é para isso que tenho a capacidade de me esquecer do que fui hoje.

Ele já disse, o homem que se levantou já não me lembro como ele era, disse que não me posso esquecer de quem fui, do que fui enquanto agi no complexo do espaço, talvez um interlocutor que ficou calado quando não lhe respondi ao que ele não perguntou, terá ele percepcionado como eu a realidade das respostas que devoravam as perguntas antes que eu as dissesse, para quê dizê-las se o tempo as leva e o cala. No entanto nunca saí daqui apesar de o tempo ter acabado.

Fiquei aqui enquanto espero por ti. Não sei o que pensar desta espera, sei que mais nada importa agora. A minha alma está aqui, a minha mente apagou-se. Não importa pensar importa sentir ainda que indefinidamente. Sinto eflúvios que pairam no ar, de esperas anteriores que já terminaram. O tempo a seguir não me preocupa, sei que vai ser diferente.

Será realmente diferente, pergunta alguém que insiste em desconfiar, inevitavelmente, respondo.

A tua chegada colocar-me-á noutro sítio. Um sítio diferente do que sempre estive, até a minha aparência exterior mudará quando me vir reflectido verei outra pessoa verei novas hipóteses a perspectiva o ponto de vista a natureza daquilo que sou, mudando a todo o tempo mantenho a estrutura original, mas é da colocação que depende o caminho da vida, a busca, a procura de um novo ponto de partida, um novo interior, da aglomeração das partículas um novo ser, do nascimento de um novo ser a alteração do ser já existente.

Tudo isto são considerações sem ponta por porque se soltou a ponta no que eu sinto em relação ao sucedido, ao que está para suceder, é a mesma coisa, contudo é na experiência que está o que quer que esteja, é no viver destes minutos antes durante e depois, horas de espera depois de meses, curtos minutos depois do tempo que desconheço, como será quanto tempo demorarão esses minutos curtos de dor até que palmadas e choro e choro e alegria e explosões, é para vivê-lo que vivemos, é para te esperar que estou aqui, depois tudo será igual ou diferente conforme a nossa vontade como sempre, como será a tua vontade o que te poderei dizer para que a exprimas, para que te exprimas e tenhas vontade de mudar o que agora é igual para que amanhã seja diferente, poderei eu mudar-te como tu me mudarás a mim, já mudaste já vejo outro reflexo de mim nas vitrinas, sou outro homem, sou pai, e nem sei se sei assumi-lo.

Dizê-lo, fazê-lo, senti-lo, pensar é não saber.

Isto enerva-me, sinto-me desconfortável com a diferença.

Viro costas a tudo e vou a correr por um caminho verde longe da humanidade inteira, longe de quaisquer traços de civilização, onde fosse bicho e soubesse instintivamente o que fazer. Aí encontro-me novamente contigo, acalmo-me e sei sem pensar o que estou aqui a fazer. Espero sentado que venhas ter comigo.

E depois estado de graça. Abrem-se dentro do meu peito asas brancas de dentro para fora, a paz toma conta de mim, sinto os anjos a trabalharem, a fazerem aquilo que melhor sabem fazer, tomar conta de nós, eles e nós lado a lado, vieram contigo, estão aqui, são os teus amigos que cuidam de ti, tu sabes, vês e lembras-te de quem és, de onde vieste, que tudo é a mesma coisa.


olhai e vede