Vou traçar esse mapa, gravar esse caminho para quando o estado de graça cair em desgraça, porque algum dos muitos infortúnios desta existência atribulada e conturbada se atravessou insignificantemente no caminho, como mais aquela gota que transborda, para que eu saiba, me lembre de como é, sentir estar ser aquilo que verdadeiramente sou, este estado de graça, onde tudo é perfeito belo e possível. Onde o amor que chega da fonte de onde veio, penetra nos corações como nas paredes como nas expressões e limpa e purga e cura, e está presente por cima de todas as outras coisas, sentimentos ressentimentos, negatividade, nada é mais poderoso, nada mais importa, nada mais existe nesta realidade onde somos plenamente.
Só que depois passa o tempo, chegam os dias, pesados, com aquilo que é suposto que façamos, com aquilo que temos de fazer para que, burocracias, papéis dados a moços de recados, vai ali e pergunta àquela senhora, ela tem as mãos no sistema, mas não sabe nada, só vai introduzir os dedos e dizer vá, aqui e ali, mais folhas entregues ao rapaz com cara de pato, sempre de mãos atrás das costas, que costumava ir fazer recados, agora o miúdo cresceu, a mesma cara de pato continua a passear de um lado para o outro, diz que a mãe morreu de cancro, antes de morrer empregou o filho nos correios, emprego estável pois com certeza, passeia-se a ele e ao lulu sempre com as mãos atrás das costas e as biqueiras dos pés ligeiramente voltadas para fora. Já não sei porque me lembrei dele. Talvez porque percorre há anos o mesmo circuito, aquele onde se fazem os recados, mora convenientemente no centro disso, o carro serve para ir ao domingo almoçar depois da missa, que realidade esta, e eu julgando-a depois de ver o rapaz fazer os recados, é a mim que julgo não julguem, é a mim que condeno quando condeno, é de mim que tenho nojo e desprezo quando os vejo, atarefados como formigas de cá para lá, sonhando com o DVD e o Plasma, levantam-se e vão trabalhar para os comprar, esses os únicos sonhos que sonham, para que quando chegam do trabalho possam alienar-se com mais qualidade, é essa a política, alienação de tudo, eles fazem a política, ninguém se lembra do que isso é, ninguém sabe o que isso é, ninguém o faz, contudo eles fazem a política, eles gerem, os destinos e os cofres deste estado, deste país, desta nação que não sabe quem é, e nós passeamos pela avenida, nós temos outras preocupações, e eu canso-me de tudo isto.
E depois estado de graça. Os anjos insistem em manter abertas as asas brancas sobre mim, insistem em dizer-me que ele está presente, sempre esteve presente, nunca se foi embora, e uma vontade imensa de mostrá-lo invade-me. Tenho então necessidade de me ir embora, lá para aquele sítio no interior da minha cabeça. Contudo continuo sem saber como trazer de lá as informações necessárias, como transmutar, pois eu só quero que tudo isto mude, quero ver caírem por terra os impérios, as sociedades capitalistas, o culto do sucesso, do lucro, tudo ruir nesse salto quântico, é só isso que quero, ver outra realidade consubstanciada neste mundo, qualquer coisa hei-de poder fazer para que isso aconteça, enfada-me enumerar numa concatenação lógica tudo o que penso que deveria mudar, enfada-me dizê-lo, tenho dificuldade em pensá-lo, compreendem, não gosto de nada, acho que o que é belo está por cima, é no modo como eles vivem que está o que queria mudar, no modo como vivem, no modo como agem, como pensam, não são os sistemas, não é o dinheiro, não é o poder, não é nada daquilo que existe, é só o uso que fazem disso. Mas isto também me enfada, e o propósito de eu estar aqui é sentir-me bem, disto não posso esquecer-me.
Agora dou por mim num sítio estranho. Levantei-me e já cá estava, neste sítio. Não gosto de cá estar. Sinto-me como com um síndrome de abstinência. Algo me falta que não sei o que é. Procuro, pelos compartimentos de mim, revejo as coisas que tenho cá dentro, aquelas de acesso fácil, como quando se limpa a cara à casa compreendem, as outras, as mais profundas e as que desconheço não as revejo, mas assim vou esmiuçando todos os recantos, à procura, neste processo dá-se um facto que me desagrada: as boas coisas, o bem, os bons acontecimentos e pensamentos são escamoteados e lapidados até ao osso, até que nada reste deles a não ser o vácuo deixado pela sensação de tê-los tido e tê-los perdido. Mas não é por isto que vim parar a este sítio, este processo será talvez uma consequência de aqui estar. Procuro para poder encontrar uma corda que eu puxe e me tire daqui, ou uma escada que eu suba e vá dar a outro patamar. Então porque estou aqui se isso me desagrada profundamente, se me faz sentir mal comigo e consequentemente incapacita-me de dar aos outros a melhor expressão de mim, de facto impede-me de me expressar, fico preso toldado, num sítio estranho.
Levantaste-te e olhaste para mim para me contar de um episódio que te tinhas lembrado, algo passado entre ti e uma mulher mais velha que te disse como resolveres os teus problemas,
Quem és tu,
Quem sou eu para te fazer essa pergunta, oiço o que dizes, estou a ouvir-te agora no momento em que te levantas para me contar algo, é a tua intenção de mo dizer que faz com que te preste atenção, seja o que for que tenhas vontade de dizer di-lo ou não digas, digas o que disseres eu escutarei da mesma forma. Forma que também tem conteúdo, que sou eu no caso em questão, e tu no particular de eu te ter apontado, porque para que tu te tivesses levantado para me dizer alguma coisa eu tenho de ter estado nesse momento anterior, tenho de ter existido e sido, a minha vontade cresce à medida que nos aproximamos.
Também tu tens que ter sido alguma coisa no momento precedente a este, em que te levantas com vontade de falar.
O que será isso que queres exprimir, será a tua vontade, aquilo que pensas, de quantos pensamentos é feito um indivíduo, é preciso respeitar a lei, haverá uma lei que rege estas coisas, esse sim o verdadeiro código de conduta, onde está, preciso aceder a essa fonte de inspiração, porquê andar aqui às cabeçadas neste mapa sem rotas, para poder experimentar tudo sim, mas a vontade é algo de complexo, daqui de onde me encontro é-me difícil avaliar as coisas claramente, tenho que ser paciente, tenho que esperar pelas respostas nas bocas dos outros, na conversa que ele estava a precisar antes de se ter levantado estava a resposta que eu precisava, que valor terá ele será imprescindível, o que será, descubro nas palavras dele, através de vós. É difícil, oiço os pensamentos daqueles que pensam que é fácil, é difícil ser recolhido pelas asas brancas, há revolta há ressentimento há um não sei quê de emoções e sentimentos e sensações acumuladas, há uma vontade de ver tudo em pratos limpos, porque me abraças se ainda não me disseste quem és, porque me queres beijar nesse teu amplexo de eternidade se eu ainda estou a tentar perceber o que isso significa, porque me esqueci, qual é o intuito, de onde me vem o desconforto, em última análise é isso, quero o meu conforto de volta, quero não ter de, nada precisar nada quero não caminhar, ficar quieto no mesmo sítio sendo aquilo que sempre fui, o que sou eu, o que significamos nós no complexo do espaço, o que é a relação que tenho contigo.
Tudo isto começou quando eu o vi levantar-se. Na altura não olhei bem para a cara dele, ainda hoje não olho bem para as caras deles, vejo primeiro as caras que já vi dentro da minha cabeça, escolho a que melhor se adapta e vejo essa até um certo ponto, em que a verdadeira se impõe como verdadeira destruindo a que eu criei. Já houve pessoas que me pediram para trocar, mas eu tinha de ficar com a deles o que impossibilitou o negócio. Não quero nada que não seja meu. Seja como for eles continuaram comigo depois de ele se ter levantado. Entretanto acho que estive com ele num apartamento qualquer que não recordo, atirámos discos voadores pela janela fora, fizemos viagens à cave misteriosa, as escadas sem saída, ou seriam as escadas em caracol, um desenho do demónio pintado a fogo na parede inacabada embargada pela falta de pagamento, como íamos e vínhamos dessas caves longínquas desses passeios à tarde até que cães e ladrar e restolhar de passos e a espingarda do homem gordo que acertou dois tiros na perna de não sei quem dentro da minha cabeça, eram só cães e provavelmente estavam presos, e nós por ali abaixo. Às vezes penso que são os deuses da memória esses senhores que sempre estiveram comigo. Fazem-me assim navegar em memórias perdidas. A nau não me vai passar ao lado. Eu sou o mar por onde ela navegará até ao destino: eu. Não me posso confrontar com outra coisa. Quero viver a minha realidade.
Falo de barcos porque eles sempre cá estiveram, lembro-me de ouvir alguém explicar-me o que era uma nau e como eles as tinham mandado ao mar destemidos, ousando perscrutar o imperscrutável enfrentando monstros, pior do que isso, primeiro o desconhecido, depois a tormenta, dias a fio sem comer o enjoo a náusea, o cheiro nauseabundo de muitos homens a viverem juntos num espaço exíguo, as bactérias e os vírus, a peste, um comandante mais ou menos austero, por onde avistariam eles terra, eles que não tinham a plataforma redonda ao cimo de um mastro com um homem gordo de monóculo na mão gritando, eles não tinham, navegavam em busca de algo maior, foram estas as palavras que ouvi dizer, navegavam em busca de algo maior, seria a ganância que os movia, procuravam ouro especiarias comércio riqueza, não é tudo isto legítimo de se procurar, e se procurassem algo mais, se quisessem mesmo descobrir o mundo, nunca poderemos saber como teria sido se tivessem ficado sentados mais um pouco para depois terem ido fazer outra coisa, então outros quaisquer ter-se-iam levantado construído algo de parecido com naus e partido, rumo ao desconhecido. Outros o fizeram. Também são conhecidos na história. A pouco e pouco aquilo que fomos vai-se esbatendo na passagem do tempo, séculos de gente vivente que procria, memórias que se vão perdendo com o passar das gerações, pais que se esquecem do que foram, pais que nunca chegam a descobrir o que são, pais que se esquecem de viver porque a vida lhes passou ao lado enquanto dormiam engordavam e acasalavam. Não é o mar compreendem, não é o mar não é o sal não são as velas nem os corpos que exalam o fedor do peixe capturado, não são os monstros nem os cabos que eles guardam, é a alma dessa gente que fervilha nos tempos de agora. São os corpos deles que continuam lado a lado connosco e se sentem desconfortáveis. Mas isto é muito mais do que a minha sensação de conforto. Há outro prazer para além do imediato, e estou aqui por outra razão. O meu propósito em estar aqui é a realização contínua daquilo que sou, e eu sei disso.
Oiço as vozes do grupo. A posição que cada um vai tomar na discussão chega-me aos ouvidos num murmúrio, eles decidem, enquanto lhes vai também irrompendo qualquer coisa do que captam do que paira no ar, a posição vencedora é aquela de quem tiver a audácia para a agarrar e exprimi-la. Entretanto disperso-me com tudo o que não é dito nas costas das pessoas que vejo, ponho-me a imaginar o que me responderiam se eu lhes perguntasse algumas coisas, se eu afirmasse que, mas para isso precisaria encarnar a postura conveniente, o conjunto de gestos de esgares ou não esgares brandura, uma voz calma e profunda, qualquer coisa que não sei definir como não sei assumir as coisas que não assumo, não sei assumir que não sei nada, que falho nos propósitos a que me prometo, que não sei qual é o propósito a que me prometi, embora insista em pensar que me prometi algum, que todos prometemos alguma coisa, continuo sem respostas continuo sem a acção que revele de mim aquilo que sou, aquilo que quero ser, como é isto possível, então o que estive aqui a fazer, todo este tempo passou e que fiz eu, a sucessão dos dias um depois do outro e objectivos, o que é preciso para estar vivo, um precisará de objectivos, que objectivos serão esses, todos estes sentimentos, em relação a tudo, tudo isto que se passa nos bastidores duma peça apocalíptica, sou eu que faço tudo, é isso que é suposto, escrevi o texto e agora assisto à representação feita por mim, umas vezes consigo outras não, ora falho na representação, ora falho no texto que escrevo, tudo é contínuo, por vezes quero representar e não tenho texto faltam-me as palavras que não escrevi, outras quero ver acção, o desenrolar da peça como um espectador, e não há actores não há palco não há texto, onde está a coordenação de tudo isto, algo está mal quando só nos resta olhar para trás e fazer como os outros fizeram, imitar percursos de vida na esperança de atingir objectivos semelhantes, procuramos um ideal ou alguém que o tenha tido, fazemos como vimos fazer ou basta-nos um retrato antigo dum senhor com ar austero e imaginamos o resto e vivemos vidas de comiseração connosco próprios porque não conseguimos ser mais, porque a fortuna está reservada para os outros, para aqueles poucos que conseguem lá chegar e depois, a que grupo pertences, quando vês alguém que até nem fez nada de extraordinário e atingiu a fama que tanto cobiças, nada disto está certo quando não se quer nada, nada disto importa quando tudo deveria mudar, onde estão as naves, onde está o resgate, porquê essa expressão de tristeza e insatisfação no teu rosto, o que posso fazer para a aliviar, o que terei de ser agora que o tempo começa para nós como se fosse o primeiro dia, eu tenho vontade de mudar.
Como tu és pouco real e palpável e não me respondes permaneço com dúvidas, será que vou chegar a algum lado, será que isto vai fazer sentido, sim quereria esse destino de oiro que como uma ponte crescesse acima de mim e me elevasse, sim, essa plataforma até ao patamar da despreocupação, voltas ou as voltas que se transformaram em balanços, em passinhos frenéticos em redor de nada ao som de coisa nenhuma e todas as músicas de dentro da minha cabeça gastas, riscadas pela agulha que coloquei mal sobre o vinil, tudo isto já passou e decorre ainda, a simultaneidade de tudo a dar-me voltas ao cérebro nestas visões cabalísticas, dúvidas, fracções de tempo impostas aos pares, vou todos os dias pelo mesmo caminho, as peças estão sempre no mesmo sítio, aquele rapaz que me faz lembrar de um rapaz que não conheço bem que é retardado que é parecido com o filho da Paula que também é retardado, era normal em todas as ecografias mas o nascimento atrasou-se porque a displicência do médico, anormal que passeia o cãozinho todos os dias àquela hora, sete menos cinco lá está ele, o cão raça de orelha cortada em tenra idade para espetar para cima, espeta a cabeça no ar farejando a minha presença, espeta a cabeça na erva farejando a merda de outros cães em redor do recinto criado especialmente para o efeito que ninguém usa, cagatório se é que assim se pode chamar, a preta dos óculos e do buço sempre agarrada ao telemóvel, às sete menos cinco, preta das barracas com telemóvel topo de gama que não sabe funcionar, sabe perguntar a alguém que lhe responde do outro lado em monossílabos, Onde é que estás, depois entra no autocarro e senta-se ao lado de outra preta que já vem sentada da outra paragem e comentam, o fulano que chega ligeiramente depois fumando sempre e espera pela boleia dum tipo gordo de carro a gás, às vezes lá se esquiva esse tipo uns minutos antes, aparece um outro com um monovolume, sempre são uns cêntimos que mete ao bolso, quando ninguém vem entra também e é o único que sai na mesma paragem que eu, são poucos minutos que separam tudo isto, não me esqueço da fulana com a filha pequena que é a primeira a chegar, a miúda empoleirada no banco, isto e aquilo, lá lhe pega pelos braços e degrau acima tudo embarca nesta carreira que não tem tempo a perder porque a seguir vem outra Alenquer Vila Franca e vice-versa.
Pões o pé em cima do banco quando lancho, o banco estremece, o teu tempo já lá vai agora condensas-te, o tempo em que ganhavas a mesada ao snooker, agora é só babalus e catataus, tudo entregue aos bichos, o que será de todos aqueles que esqueço propositadamente, o que será dos pormenores que não relato porque não tenho paciência, o que seria de mim se não me justificasse, como se encadeariam as coisas se não saltasse do abstracto para o concreto, esse caminho, essa voz que diz qual é o caminho, esses senhores de batina todos em fila, duas filas uma abaixo da outra, os mais altos por trás os mais baixos à frente, todos hirtos e quietos fitando-me com ar austero, tísicos de se saberem com o poder de me dizer não vás por aí, inabaláveis na convicção assim não chegas aqui, ao único sítio que podes querer chegar.
Quando entro pelas marés de gente e decifro a deficiência, a tentar ser gente como a outra, a representar, os gestos de boca que pretendem ser sensuais, da irmã que conheço, andou comigo na escola, sempre lhe achei um ar esquisito, qualquer coisa a mais que a fealdade que a caracteriza, o grupo, ela dois rapazes e a irmã, tudo visto aos olhos dos movimentos desconexos das mãos, os movimentos desconexos da boca, esperavam como eu pelas pizas que tardavam, três imperiais pediu o macho dominante, o outro seria familiar ou amigo não percebi, como se coseu à parede a deficiente e se reduziu ainda mais no seu buraco, para onde vou eu agora, que eles bebem e mais isso os une e os separa de mim, ou a mim deles, eu não bebo nada, tens a certeza que não queres beber nada, claro que tem a certeza, como iria lidar com os movimentos desconexos das mãos e da boca enquanto bebia, o líquido a escorrer-lhe pela roupa de sábado à noite escolhida pela irmã, atarefa-se a brasileira no serviço às mesas, em dispor cadeiras à volta das mesmas para que mais um grupo possa sentar-se, jovens acabados de entrar na adolescência, acabados de passar da Coca-Cola à Sangria, para que tu possas agora por o pé em cima do banco que estremece e contar ao indiano paranóico que verifica sempre duas vezes os dois cadeados que impedem o acesso às riquezas escondidas no cacifo, contar-lhe que tens cinquenta anos mas viveste cem, que quando as tuas filhas estiverem criadas podes ir-te embora, perante a indignação da religiosidade dele, como podes afirmar isso, e depois, a vida é boa, basta que tenhamos presentes as normas de segurança, que cumpramos os procedimentos, quem é que cumpre as normas e os procedimentos que nos ilibam, que colocam nos outros a responsabilidade dos nossos actos, cada vez mais alta na hierarquia das esferas, até ao gabinete dele fechado para reunião.
Ou até que ele se vá embora, dirigir para outro lado e venha alguém ocupar o lugar dele. Esse alguém será diferente. Terá as suas próprias ideias acerca do que quer fazer com o poder que lhe é atribuído. A mim, que também faço parte desta engrenagem pouco me é dado a conhecer. Sou confrontado com o resultado das decisões dele filtradas pelos que se interpõem entre mim e ele, os restantes membros da hierarquia. O esquema é sempre o mesmo. Existe um centro, um poder central, ao redor do qual tudo gira. A última palavra é dele. A primeira também. Como ele disser será feito. É assim na organização que criámos. Criámos também muitos eles. Muitos centros em redor dos quais gravitam hierarquias. Assim surgiram rivalidades. Assim surge a torrente de sentimentos que fará parte da nossa consciência inconsciente. Mas também eu pretendo ser o centro de alguma coisa e também eu sou de facto o centro de alguma coisa ainda que isso seja diferente daquilo que gostaria ou pretenderia porque insatisfação nessa matéria, mas sou, somos todos o centro de alguma coisa. Depois eles escolhem, nós deixamos que escolham, e gravitamos em redor deles. Depois gritamos porque tudo está mal. Gememos de insatisfação. Porque sabemos que estamos a gravitar e sabemos que não temos só vocação para ser luas, temos também um astro dentro de nós que quer ser centro que quer atrair para si luas que em redor dele gravitem, quer criar quer influenciar quer reger quer gravar quer expandir… mas foi isto que criámos. É isto que criamos. A oportunidade de eles serem o que querem. Então porque não criamos a oportunidade de sermos nós o que queremos? Porque não sabemos o que isso é. Porque nos achamos pequenos demais para mudar alguma coisa. Porque achamos que o próximo não vai mudar então se o próximo não vai mudar para quê eu mudar, não adianta nada, não vai resultar, e ouvimos todas as razões não ditas pela boca deles, ouvimos tudo para não nos mexermos e ficarmos quietos no mesmo sítio e gememos para que as horas passem e os dias passem e a libertação chegue. Sinceramente não estamos à altura do projecto que nos propusemos cumprir. E depois a tristeza instala-se. Esvaem-se as forças e só me apetece encarquilhar até ser bicho-de-conta e vir ele com o polegar e o indicador em mola para me expulsar da sua órbita.