quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Diálogos

Um ganso guardião empoleirado num bebedoiro sujo grasnou para mim. Ele era o vértice da pirâmide, as suas asas as maiores da capoeira. Grasnou enquanto não me viu sossegar. Sentei-me, olhei-o nos olhos, voltou-me costas virando o pescoço para trás andando e olhando para mim, ora catando pedaços de qualquer coisa no chão, ora empoleirando-se de novo e bebendo água suja do bebedouro sujo, lá no alto do longo pescoço e vá de a sorver e tudo de novo. Na metade de cá, defendida pelo ganso, estavam outras criaturas, uma galinha e quatro pintos e um galo deficiente. Os pintos eram de diferentes tamanhos e penugens de cores diferentes também. A galinha era uma galinha vulgar. O galo era deficiente. Lá estava ele debaixo de uns ramos mortos secos e caídos, muito quieto a olhar para mim com um olho que piscava. Nisto um rato, esperto e astuto escapuliu-se para debaixo da primeira coisa que coube ficando primeiro com o rabo de fora rato escondido com o rabo de fora mas logo sumindo por completo para debaixo dessa primeira coisa que encontrou sem deixar outro rasto que os seus olhos de rato na sua cabeça de rato quando olharam para mim. Deste lado da capoeira onde apareceu o rato estavam as restantes criaturas da capoeira, cinco galinhas ruivas em cima do muro, nisto um restolhar do outro lado o galo deficiente batera as asas e saíra debaixo dos ramos andando com as patas deficientes sim era nas patas a deficiência do galo tinha os dedos tortos assim sem assentarem no chão cambaleava mas porque saiu o galo do seu poleiro que poleiro não era porque este galo não se pode empoleirar saiu porque lá do outro lado um outro alvoroço se levantou, quando uma galinha vinda não vi donde corre em direcção a um galo pujante que estava deitado acocorado à galo então a galinha vinda não vi donde choca com ele o galo empertiga-se dá ás asas e salta-lhe para cima, a galinha sacode-se queria ela ajeitar o galo em cima de si mas o galo desequilibrou-se caindo com o pé de galo em cima da caixa de gelado de noz que servia de bebedouro neste lado da capoeira, dado o acidente a agua não se aguentou dentro do recipiente que se empinou galo e galinha de roda daquilo, parecia que pensavam na desgraça, Que passaremos sede agora, foram ambos beber da agua que caíra antes que a terra a ensopasse o galo fez ar de distraído mais valia que estivesse quieta pensou a galinha, que o ímpeto de luxúria lhe custou o beber e por este alvoroço saiu o outro galo do seu poiso aconteceu ainda que este galo ficou perplexo quando outra vez um repente de galinha passou pela cabeça de galinha da galinha maluca que outra vez investiu contra ele ululando o pescoço de galinha como todas as galinhas fazem, mas aquela tinha uma expressão de galinha maluca que parece que ululava mais que as outras o pescoço e lá foi ela direita à rede que separava a metade de cá da metade de lá e lá estava uma passagem, e as criaturas a comunhão a inteligência e a providencia, lá foi ela seguida de perto pelo galo perplexo que não passou a fronteira dos seus domínios ficou à boca dela a observar os passos da galinha e os passos da galinha levaram-na ao bebedouro do ganso que também tinha sido tocado pelo alvoroço e já lá ia deixando o bebedouro livre como que para não haver confusão e debicava mais à frente, a galinha louca chegou ao bebedouro e lá bebeu, pintos e mãe galinha também não ficaram indiferentes com a aproximação do galo da fronteira que se dispersaram, eles piando piu-piu, ela calada que para maluca já chega a outra.

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