terça-feira, 12 de julho de 2011

O Plano

- Tentar perceber o que se passa, usar das ferramentas que tenho ao meu dispor para descobrir a verdade, quem pôs as barreiras no sítio em que estão, vivo num tempo que não é o meu, olho da janela do sítio onde estou, para um espaço, uma coordenada com um nome que ainda não consegui fixar, terei sido eu - de caneta na mão sobre um papel em branco, que desenhei as impossibilidades, que tracei limites que defini fasquias, quem mais, que outro, onde está o direito e a quem o compete mais senão a mim – fechas os olhos e eu não existo, fecho os olhos e és só tu, e o mundo inteiro é apenas um sonho que vou tendo, uma imagem demasiado complexa para que consiga decifrá-la, fecho os olhos e desaparece, torna-se sonho, abro os olhos e vejo possibilidade, - e tenho que vê-la através do plano, tenho de colocá-la num plano horizontal estendido para perceber de que se trata, desdobro o mapa em cima da mesa e aponto um ponto em branco – a folha está em branco, porque tu não viste o meu desenho. Porque eu ainda só o desenhei na minha cabeça. Já te podia falar dele, e descrever-te a última linha, dizer-te como tudo vai acabar, mas tu não acreditarias em mim. Por isso não me importo que digas que a folha está em branco, vou tentar aprender a desenhar de maneira a que tu vejas, de outra maneira de que irá servir eu ter sonhado, abro a janela e é o meu mundo que está do lado de fora, e chegam-me notícias vindas de longe, observo também eu de muito longe uma realidade que não reconheço, tento perceber filosofias que não me dizem o que quero saber, como vou saber se dizem sem perceber o que dizem, compreendem, como podem ter a certeza, como podem opinar, como podem dizer – ah já percebi, e agora vou usar sabiamente o conhecimento que acabei de adquirir e vou sedimentá-lo em mim e produzir já uma conclusão com ele, que, quando te for explicar, vou fundamentar com outras coisas que já tinha percebido e das quais também pude concluir que fariam parte disto que quero dizer e que agora pretendo explicar e por isso vou-me lembrar de juntar os diversos pontos em comum, abrindo pontes, girando os ponteiros ao contrário, - é no sentido dos ponteiros do relógio, filtro a realidade através do meu plano, porque afinal eu estou dentro da minha cabeça, quase o tempo todo, tenho que sair por vezes para ir atrás de mim, que saio para me esconder noutros sítios, locais de vós onde por vezes de tanto passar vou ficando, agarrado às paredes e ao chão, em estado líquido, viscoso ao toque de quem por lá passa, a experiência é que foi reveladora para mim, o pensamento é o prelúdio e o fim, mas sem ação não há começo, portanto não pode haver fim, por isso tudo o que poderei fazer é narrar aquilo que farei quando puder, porque se estiver à espera de o fazer para poder concluir, perceber o que se passa, o que é que tem crédito, quando a perceção dos outros é tudo o que temos para ver, para nos mostrar quem somos, a realidade é o que é filtrado através dos outros, o resto não passa de sonho.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Plano

Tenho a noção do longo caminho que tenho pela frente, uma sensação do tempo diferente daquele que é marcado pelos ponteiros no mostrador do relógio, consciência da continuidade das coisas, a necessidade de perceber a verdade do que se passa. Uma renovação no horizonte, o fim de um ciclo, com ele um leque de novas possibilidades que se desenha, uma interminável folha em branco e eu uma caneta que abano freneticamente na esperança que ainda corra tinta. A chaga aberta no meu peito permite-me continuar a indagar, exige-me que continue a procurar, desperta-me do sono para que não baixe os braços. A incapacidade de realização promete continuar a fustigar-me. Oportunidades que se sucedem e que deixo passar a cada dia, até que seja capaz de perceber com tudo o que em mim percebe, que o momento certo é o agora, e que o amanhã que espero passa por mim todos os dias. Porém uma perceção subtil do plano acompanha-me ainda, o propósito da sucessão dos dias, a engrenagem do universo, presença imensa e constante, capacidade de sintonia, fechar os ouvidos por um momento, ser capaz de ler nas entrelinhas, fico parado por um momento, quando me apercebo que no horizonte está mais uma encruzilhada, e logo, mais rapidamente do que esperava, alguém age, alguém pinta na tela em branco, rabisca qualquer coisa e me diz, anda, vem por aqui. A vida mostrou-me que não devo negar algo que desconheço, por isso, por mais vontade que tenha de me encaracolar e responder - não, não vou por aí, desta vez decido ser diferente. Abraçar-te, parar por um momento para te ouvir quando entras na sala e dizes, - vamos lá ver uma coisa, quando eu estava calado, a tentar calar as vozes que dizem, - isto está mau, enquanto eu receoso do desconhecido, a tentar prestar atenção para dentro e tu – se a pessoa não fizer nada, a cabeça tranquila na almofada só fazendo tudo o que está ao meu alcance, e eu a pensar, mas que alcance, a apetecer-me dizer-te – não, mas o tempo roda com os ponteiros no mostrador, e mais qualquer coisa roda dentro de mim, e a memória ainda que por vezes difusa vai permitindo que qualquer coisa se sedimente para que agora outras reações, para vencer o ciclo, quebrar o feitiço, deitar abaixo as barreiras, abrir as comportas – chega, dizes tu, controle e domínio dizes tu, equilibra-te para que te possas superar, não fui eu que disse, mas o livro é o mesmo, a verdade é só uma, e muitas, tantas quantas as almas deste e dos outros mundos, as maneiras para lá chegar.


olhai e vede