sexta-feira, 29 de abril de 2011

Diálogos

Para o porto, deveria ter ido para o porto, esquecer tudo na viagem, inspirando o cheiro a pele curtida dos bancos desses inter-regionais, comer uma sandes no bar paga a peso de ouro, gastar assim os últimos trocos, saía em Coimbra, o porto é longe demais e não conseguiria ouvir a voz mecanicamente Coimbra e eu sentado, tinha que sair, andar ás voltas revendo a bela cidade das despedidas, queres uvas, até que tivesse fome e frio porque tinha anoitecido e depois como se faz, procurava um abrigo daqueles dos sem-abrigo, ir à sopa dos pobres clamar sopa quentinha por obséquio e graça do senhor, não foi ele que me abandonou fui eu que abandonei tudo e agora estou aqui, não me lembro quem sou nem de onde vim, dêem-me um nome morada não vou pedir, só uma sopa quentinha, depois talvez um emprego, quem mo daria, porque seriam diferentes as coisas, sempre à espera de algo diferente ao virar da esquina, devia ter ido para o porto, mas não fui fiquei aqui, os dedos grossos as unhas roídas, agora isto não outra coisa, outras oportunidades, mas para quê mudar se tudo igual, mudar para melhor sempre, não sou eu que digo, mas para quê se igual, se transporte não sei como e não sei quê, mais pecúnia menos pecúnia, o que será, um homem de barbas no alto de um monte nada temas, um pouco de amor em tudo isto como uma pedra de sal grosso, quanto tempo terá de passar até que a rocha se torne areia, a multidão de roda dele água mole em pedra dura, não é por tu ires para o mesmo lado que eu que devemos ir juntos e se ele insiste e vem atrás e fica e quer seguir-me e quer que eu o siga, quando eu vociferando impaupérios, ele flash e desata a correr eu já te conto uma história, não conta uma conta várias, todas tão interessantes como as unhas cor de marmelo, por um olhar se agarrou e tomou o que não lhe posso tirar, o que não lhe vou tirar por experiência ou por outra coisa qualquer, não respondo a provocações, não sou eu que digo não é meu o alicerce, monstros com cara de bebé, o que faço àqueles que não se exprimem, sem querer lá solto um eco distante que ninguém parece ouvir, vozes que passam pelos intervalos da chuva como pelos intervalos da massa, que massa, que se agarra ás paredes ás frinchas à gordura incrustada nas paredes, não são as pessoas são os pensamentos que elas tiveram, é uma presença espectral, que tem tanto de metafísica como de intravenosa, espaços entre os dentes dedos grossos unhas roídas gordo balofo caspa couro cabeludo cor de marmelo não gosto de marmelada e não gosto de Maria vai com as outras, não vou por aí apesar de irmos para o mesmo sítio, apesar de eles dizerem, as horas vejo no meu relógio, quem sabe se serão as mesmas, as horas podem não ser as mesmas como os caminhos, gosto desta solidão fuga negação equilíbrio que terminará em aceitação da síncope, não sou eu que tenho fé, como será, mais uma prova, não quero pensar, só desta vez o que vier será, deixa os passarinhos fecharem a cadeia alimentar, cumprirem a ordem do cartaz que não podem ler melhor, cumprir sem saber.

Os pratos da balança, lembras-te, quando esticávamos os pés na cadeira da frente, completamente esticados, porque sentir os ossos e os tendões em toda a sua distensão melhor, porque tudo dormente porque espasmo do maxilar porque amoníaco, a totalidade de uma coisa, sempre longe ausente e impossível.

Revisitar velhos espaços em encontros matutinos, ver projecções de caras negações ausência perseguição de caras e de espaços, ontem cheios de absurdo, barcos para odisseias fruto de um conhecimento excedido, arranjar um meio qualquer para o fim que não se atinge e que mais agora a metade de uma linguiça, queres uma maçã rói, será do melão ele, espreito-te do outro lado das caixas de chapa, não te revelas porque o Pimenta não te dá abébias, tenho com ele uma ponte que tu desconheces, a nenhum dos dois vou revelar, ainda bem eu gostava de ser assim, era o que ele respondia, vidros partidos e cacos pela palma adentro em auto-defesa, em defesa do património ainda hoje não reconhecido, partilhas feitas autópsias não, causa de morte conhecida, amor de mãe, Angola todos pró chão, senão caganitas de coelho em frascos amarelos, gel de banho como gel do cabelo separação mudança de idade, quem tirou a redoma de vidro, quem tirou a tua palma da minha palma quando íamos à cave, as teias de aranha no canto por cima do canivete que sempre cobicei, era do teu avô, esse avô que nunca conheci, gira-discos como disco voador a encontrar a mata a quinta o arvoredo voando da janela dos espectáculos ao vivo, o apresentador e intérprete vai nu, ser andrógino, copista, onde está o público as ejaculações nocturnas, onde estão os louros, não sou eu que uso a coroa de espinhos, a casa no quintal mata arvoredo com uma cave ou divisões subterrâneas que vi em sonhos, ambiente cinzento com portas que abriam para escadas tortas, outras casas, bolachas batatas fritas vidros opacos bocas que mastigam sem corpos, para quê revisitar o que já se viu, tenho um mecanismo contra repetições, não tenho capacidade de sequencialização, mas tenho vontade de ir mais longe de ir onde não posso, queres uvas.

Incompetência, o que é de onde vem, porque é que deixas as coisas mal feitas e te vens embora, porquê mesmo sabendo que estão mal feitas sabendo como estariam se estivessem bem, brio profissional como brio pessoal, fazer as coisas com brio, junta-se a multidão de roda dele para dizer ou alguém mais particular terá dito, em casa de frei Tomás olha o que ele diz não olhes o que ele faz, aparições em cadeiras de rodas para marcar posições estou aqui e estou vivo, não rebuliço não tumulto não revolta não rebelia atenção às heresias estou vivo, aparição monstro de cara cadavérica, o mais viajado dos entrevados porque já foi novo e foi a todos os países do mundo, grande manobra de marketing, reflexo perfeito dos tempos que vivemos, assomou à janela e abençoou, o sinal da cruz com a mão trémula, Parkinson e sei lá mais o quê, velhice em cima da espinha, respeito para com o santo padre, representante de deus na terra, não fui eu que disse, e todos os que o viram todos os que o sentiram, onde está qual é o sabor, porque é que me serves um café que já foi tirado, peço-te um café e acrescentas água suja, eu bem o vi em cima da máquina, bem vi a tua cara de incompetente, que olhas para mim quando entro e indagas com a cabeça, é café, seria lícito, não que não sou malcriado tenho alicerces estruturais bem definidos, mas também deixo as coisas mal feitas e venho-me embora, embora saiba, ele sabe, uma coisa defronte da outra, coordenadas sem nomes, para onde vamos, onde foram as coisas, porque está tudo aqui neste sítio e não se reflecte, não se concretiza, ela nunca se concretizou, surpreendentemente nunca teve oportunidade para isso, porque uma coisa o que se pensa outra o que se faz, olha não vês o voo dos pombos como o sol doira as asas, ele apita lá vão eles, é como o cãozinho pela trela o apito, lembro-me de ter pensado na infância ouvido aquele apito não dos pombos dos patos, com um som que me apetece reproduzir, negação incongruência síncope, onde vou onde vamos não quero ir por aqui, não quero chegar ao fim e tudo perdido, quero chegar ao fim e tudo por amor, uma pedra de sal como um pouco de amor em tudo isto.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Diálogos

São vários os caminhos que nos abrem as portas do nosso ser, especificamente da essência de cada um e de si para si, o ser nem sempre está à vista e há caminhos para chegar aos sítios de nós, determinado pensamento, determinada acção, abre o portal para aquele sítio, que só assim nos é revelado e tudo muda, a visão e os sentidos outros mudam, os pensamentos mudam muda até o modo de pensar ou o modo como a mente actua sobre a alma ou a alma sobre a mente, não é possível traçar mapas, pois os trilhos nem sempre estão no mesmo sítio, não é por isso viável memorizar o caminho porque ele não persiste para lá daquele momento, a cada novo pensamento chave uma nova descoberta e a vontade de ir mais longe, mas tem de ser tudo de uma tirada, com a insistência o que acontece é que aumentam os caminhos aumenta o mundo de nós, as conquistas, o universo explorado, a consciência desse mundo sem a qual ele não existe, não fui eu que disse, é uma consciência que vem só depois de lá termos ido e é por lá estarmos que tornamos real mais um pedaço de nós, eu só bebo até estar bem depois paro, não gosto de beber tudo duma vez e depois cair para o lado, por que será que não consigo que tu venhas, que ela venha que voltes, qualquer coisa, estar em todo o meu ser, estar em todo o meu ser, não cesso de me descobrir, não cesso de me procurar, porque sei-me infinito, não infinito como o universo que é finito segundo o que ele disse, mas como a força que o sustenta e anima, isto trata-se de sentir a teia que une tudo a tudo, através de mim posso chegar a todo o lado, está tudo em mim, assim não é possível, tenho que me ter, exorcizem-me por favor, concretizem-me, ela nunca teve a oportunidade, é incrível, dêem corpo a estes aflitos que me cercam, que penem na carne o que os atormenta, que se crie vida, dor de cotovelo por não termos participado do acto original, ele sabe, a criação foi outra, fomos nós, o resto somos nós por aí abaixo, feitos pedras e peixes e pássaros, queres uvas, separem-se os mortos dos vivos pela carne, que pretendem, que querem que eu faça, tenho o desespero por vós todos, torrentes de sentimento espectrais, carga grotesca que carrego e que ninguém vê, que ninguém entende que ninguém sabe, egocentrismo de ser único, descambar em nada de tudo, substância dilacerante e cáustica, alheio de mais ao meu enleio vou acabar por me perder a meio caminho, não o quero assumir, que desejo ou desejei que me torna assim desta maneira, virá tudo com certeza, mas terá que comungar comigo pois dentro da meta há muitas metas e nos atalhos alguém se esqueceu de por marcos geodésicos e tabuletas de sinalização rodoviária.

Amanhã continua a luta, mais um dia depois do último, trabalho em prole da soberba engrenagem que nos sustenta, em paralelo com a missão de ser canal cada vez mais aberto e límpido para o amor que nos une.

E depois como e fico com frio, com medo, vontade de me enfiar nos lençóis e esquecer a vida, esquecer que estou vivo, nunca mais acordar esquecer tudo esquecer o mundo esquecer que ele criou que me criou que criou tudo isto, a verdadeira criação dele qual foi onde está, quem nos venha dizer, que lei que revelação, ela morreu a última que estava viva e que clamava ter visto, que clamará ela agora, onde está, porque não nos vem dizer, porque não se misturam os mundos e se revela, queres uvas, interrogações juvenis para sempre, até que um mestre chinês faça de mim um homem e me eleve a alma, olha como dobra os guardanapos, as mesmas coisas porque eles se riem, as que eu sei que os fariam rir, mas não digo, negações, e tu vais-te embora e tu viras-me costas não sei quem é, o que explanas a forma como explanas, a pessoa em que te tornas personalidades, temos muitas personalidades cá dentro que saem conforme as necessidades ou outra coisa qualquer, não fui eu que disse ou terei sido, é que os vou batendo na mesa e quando dou por isso já está o tabaco quase a meio da mortalha, enquanto penso que tenho uma quinta e gosto de cavalos, não sei o que foi feito de ti, como é que te enrolaste com o fulano das quintas-feiras que te engordou, não mata mas pode engordar, a ti engordou, primeiro ficaste gorda a seguir a empurrar o carrinho, logo te mudou a expressão, logo a maneira como pões um pé defronte do outro que tanto te caracterizava, cada um fala de si e ninguém fala de nada, projectando sentimentos em antagonismos velados de memórias do passado, achadas numa gaveta num álbum sem pó, porque ainda se viu no outro dia, que loucura que foi, este e aquele, queres uvas, um pouco de amor em tudo isto como uma pitada de sal grosso, à primeira oportunidade raspamo-nos que estou farto disto, nem atendes o telemóvel depois diz-se qualquer coisa, mais um café, arrastar até mais não, assim é que é, ficar até depois da hora, prolongar sempre mais um bocadinho, porque não se dá pelo tempo quando se está com quem se gosta e estamos com quem gostamos, e eu no meio disto a tentar ir por aqui e por ali, como quem faz um mortal de cima de um muro, desta vez sem cair, sem partir o pescoço, primeira e segunda vértebras a contar de cima, desafios, negações, não fui eu que duvidei, não fui eu que te empurrei, que te tirei as mãos da minha cintura, ela passou por detrás procurava alguma coisa ele viu tu não, não entendeste, não percebeste porque não quiseste, ficaste ali assim, o outro sempre a tentar entrar num sítio estranho que tu lhe ofereceste e se eu tivesse ficado à parte de tudo isso, se tivesse ficado no sítio onde sempre estive, se não tivesse tirado os óculos para manter a personalidade, tenho uma deficiência grave no olho esquerdo, para o mês que vem tenho que ir tratar disso, que é muito grave, já me tinham dito, daquela vez que tive umas dores de cabeça muito grandes e não sabia do que era, podia ser dos olhos, então vá de ir ó oftalmologista, ao oftalmologista não à multiopticas, que também lá têm aparelhos e testes daqueles com números e letras ao perto e ao longe, o que vê agora, e assim, não vejo nada tudo desfocado, se tivesse ficado no mesmo sítio, como teria sido, o que teriam pensado de mim, de certo qualquer frase incómoda, e tu terias ainda as mãos na minha cintura, talvez o venha a saber, talvez se repita e eu teste de outra maneira, quando não se sabe faz-se assim, por tentativas, alguma vez se há-de acertar, o fim chegará, ou será que não há fim, a morte não existe, só uma passagem para as pedras ou pássaros ou o que é que foi que ele disse, estandardização produção em massa, quanto mais repetitivo mais rentável, mais lucrativo, tudo em função do lucro em detrimento do valor humano, lata e política publicitária, preservamos os valores humanos dizem eles, para nós as pessoas são a peça fundamental dizem eles, e depois escravatura e depois salários indecentes e depois desprezo, lata e política publicitária e depois vamos lá como os outros e compramos tudo e vamos atrás do mais e melhor publicitado do escaparate mais luminoso do artigo vendável do truque mais básico, estamos no meio da massa somos a massa olhamos para trás e vemos a multidão e depois já estamos no meio dela, estão por toda a parte, caras conhecidas e por conhecer, todos no mesmo ponto embora em pontos diferentes, todos rumo à nova encruzilhada.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Diálogos

Vamos aproveitar as pessoas, as palavras no ar, as milhares que são ditas, os extremos e o meio que os une que os puxa, o meio que os atrai sou eu, unam-se os meios em cadeia, forme-se uma corrente, vença-se o mal-estar, vamos encetar a luta, sem revoltas sem maldizer, onde está a força, onde está a anima, sempre à espera de algo diferente, sempre à espera, ainda à espera, daquele algo especial ao virar da esquina, do que não há, vamos fazer o aproveitamento possível dos recursos disponíveis, o melhor possível, com as coisas nos sítios certos, o caminho deixado pelas minhas pegadas, sempre um novo caminho, a fuga aos antigos caminhos já percorridos, eterno retorno, a dicotomia é omnipresente, é meu dever encontrar a coragem para ver sempre o melhor dos lados, descobri-la e desenterrá-la, a verdade, usá-la e reinventá-la, o amor, não fui eu que disse, foi o que eles sempre disseram, e eu procuro, incessantemente procuro, o que está debaixo de tudo o que eu pus por cima. Sim pois, sempre foi esse o meu objectivo, por sobre todos os meios o fim que é os meios, tudo é a mesma coisa.

Retraça uma bolacha Maria em dois minutos e não tem dentes, não sei como ela faz aquilo, o corpo humano é incrível, mas não está preparado para as estações diz a má-língua, se é frio é porque é frio frieiras e gretas, se é calor é porque é calor suor e afrontamentos, maldizer a vida e as criações do que criou, dor de cotovelo por sermos copistas, mágoa por não termos participação nesse acto, não, assim não tem sentido, ele sabe, a verdade não é essa, a criação foi outra, nós somos as criaturas o resto somos nós por aí abaixo, nós pedras e pássaros e peixes nós toda a hierarquia sideral mais os anjos, os que lá ficaram puros e imaculados também penam, também trabalham, esperam ajudam relacionam-se, haja ouvidos para os ouvir e boca para falar com eles, não sou eu que vos desejo, tendo isso não se pode ter outras coisas é a inevitável lei do equilíbrio e quem estaria disposto a trocar, agora que o juiz foi almoçar.

Relatar tudo imortalizar tudo para achar o silêncio, não sou eu que busco, imortalizá-los para os calar para descansar, o silêncio como descanso, porque não os posso mais ouvir não quero falar, negações que resultam em gaguez de tanto não querer me veio, por isto ou por outro motivo qualquer não importa, chega-te à frente ela é que sabia, encontro sem par, conjectura do impossível, se fosse faria e assim o que farei, sonhar para não morrer, sonhar para crescer, crocodilos em pântanos desde o principio de tudo, calcula lá a idade com que te respondo, ainda cheguei ontem e não te acato, como não acatei que ela não aceitasse, como não acato, tenho mal dentro de mim, domínio pouco e fora de tempo, não desesperes depois da morte mais qualquer coisa, pedras peixes ou pássaros passarinhos e passarões aves de capoeira e cucos, preguiça de me dar ás pessoas, preguiça de entrar nelas será preciso, será necessário e fundamental que assim aconteça, o pai esteve seiscentos ou oitocentos anos lá em cima à espera do outro lado, à espera sem corpo, à espera de corpo, a fazer ronha por assim dizer quando se ligou, ligou-se muito, será que inconscientemente pensa que é sempre assim, será sempre assim, será lícito não me ligar, será, desprezar comedidamente, ignorar, fazer ouvidos de mercador, silêncio para não os ouvir, surdo para os dedos grossos as unhas roídas, o cabelo seboso a caspa, o couro cabeludo cor de marmelo, não gosto de marmelada.

Traçar coordenadas sem nomes nem pontos, uma coisa defronte da outra, exposição aos elementos, alguém que entre e descubra, caçador de talentos ponte para a perdição, falhas de memória árvores genealógicas sem nomes, não tenho capacidade de sequencialização e custa-me assumir o que não assumo. Os filhos a distanciarem-se dos pais, a procurarem uma imagem a esbarrarem nos estereótipos a descobrirem a imagem que personificam numa gaveta num álbum com pó, teve doenças antecedentes na família, tons de voz caracteristicamente irritantes um pouco de amor como grão de sal em tudo isto, tinhas o braço preso não sei onde estavas-me a dar jeito a dar apoio ela é o braço esquerdo ou eu o braço direito dela, isso é outra coisa, a maneira como andas como pões um pé defronte do outro caracteriza-te, voltas-te é o frio que te prende os braços agora sei-o a mim greta-me as mãos seca-me os lábios as mãos não me greta ainda bem os antecedentes são de pele seca, estes tempos modernos em que os homens usam cremes também não ajuda são mais substâncias para que o corpo se vicie, descobertas no começo de mais um sol.

Eras a voz do meu eco surdo a blasfémia ao sistema absurdo, o ímpeto de revolta a chama da ira vociferada a irritação feita dedos grossos e pés de bico para fora e joelhos para dentro e nojo em forma de púbis. Adormecias-me alguns monstros na sua consubstanciação em ti, era um preço demasiado elevado, o equilíbrio dos pratos pesava-me como aqueles pesos de ferro que se juntam ao que se pesa. Agora veio-me o outro lado. Vejo porque veio até mim sem que eu pedisse, numa coisa que parece a quem está de fora uma relação de outros tempos, é a personificação do outro lado, mais alguns monstros com cara de bebé, a estupidez feita dedos grossos unhas roídas gordo balofo com espaços entre os dentes fala-barato isto e aquilo, o que faço agora com aqueles que estão ocultos, apetece-me gritá-los, trazer a tua personificação para junto de mim como uma projecção, mas o preço é demasiado elevado e repetir não é possível, tenho um mecanismo contra a repetição, outra coisa sucederá, tenho vontade e os obstáculos são muitos, mas não vou repetir, não vou pelos mesmos caminhos porque quero chegar a outro sítio.

Fechei a porta e atirei a chave fora, sei bem, ele sabe, que não posso dar abébias, que não posso dizer sim nem uma vez que seja, será interpretado como fracasso por eles, faltar-me-ão as forças e tudo descambará e irei parar ao mesmo sítio.

O discurso é igual ao deles, só que eu não sou um deles e não me distingo, estou no meio deles e não me distingo, só o tempo e a perseverança no caminho estreito me trarão o que quero, é assim, foi o que eles sempre disseram, será pelo caminho mais difícil, sem bengalas sem ajudas, mas com ajuda, através dos outros mas sem ajuda, se me entregasse nas mãos do catalizador seria o suficiente afastaria o monstro com cara de bebé ou não, seria irrelevante porque vestiria a pele do lobo e seria lobo e revelar-me-ia lobo e a paisagem o sol a lua e os astros seriam outros.

O que está de fora não pode influenciar o que está dentro. Tem que ser o que está dentro a lutar por ser o lado de fora sempre. Mas ela nunca conseguiu concretizar aquilo que é pensando, não porque não tenha vontade porque a tem e muito para lá do que seria necessário, mas porque nunca teve oportunidade, sim pois, pode parecer incrível, mas eu conheço-a desde a sua origem e é verdade, de um extremo ao outro e agora é isto, conheceu-o no autocarro, olho para aqui olho para ali e pimba até ao terminal beijos e tudo cru onde irá parar agora, se fosse limpar as teias de aranha e no outro dia nem o nome dela iria saber, e depois romances impossíveis e tudo por aí abaixo outra vez, paralelismos à parte, conclusões por agora ainda não. Nada pode alterar o teu estado de espírito, nada neste mundo o justifica, bem bastam as alterações de dentro que não são poucas e que muito te dão para lidar.

(Pratica este pensamento, pratica os pensamentos)

Mas ela nunca teve oportunidade,

(Não deixes de ser quem és, sê em função do que és e não em função do que os outros são)

A imagem do que personificas encontrada numa gaveta num álbum com pó, as coisas fecham-se a si próprias, não necessitam que ninguém as feche, estou a ver demais, pára chega mais não por favor, vejo demais, os vossos rostos feios as vossas almas feias os vossos sorrisos falsos, não vejo não vejo nada, deixo de vos ver, bradam as bocas palavras de nojo que não oiço, ao virar da esquina do abismo, mesmo a caminho de quem vai para a forca.

Eu sei que és quem dizes ser e que as portas não devem estar fechadas, sim pois, decifrar, há mal dentro de mim.

Terei com certeza muito para dizer a quem me quiser ouvir.

Terei ainda mais para dizer àqueles que nada quiserem ouvir ainda que não me oiçam nunca, o entrecruzamento breve de tudo sobre tudo.

Queres uvas, dá-lhe das dela das uvas da dona Manuela, apanha-as na sua videira nas traseiras do colégio, no primeiro andar vê-se a casa da minha avó o muro castanho, castanho não cor de pedra, daquela pedra que se esfarela quando passamos a mão, alguém tinha escrito a spray de cor no muro cor de pedra, o que escreveram andei anos sem saber porque não sabia ler, mas sentia-me mal com o que estava lá escrito embora não soubesse, não me lembro se perguntei à minha avó, sei que ela nunca me respondeu, só mais tarde quando aprendi a ler no colégio da dona Manuela vim a saber, pilas era o que alguém tinha escrito, meninos maus e crescidos que já sabem o que isso, e a minha pilinha é tabu para mim ainda, queres uvas, dá-lhe das dela das uvas da dona Manuela.

Habitáculos de seres que vivem a meio caminho entre a carne e o ar que é rarefeito, propostas indecentes de vida e de morte, constantemente tentados pelas mil caras do demo, a cada pulsar nevrálgico, uma existência feita de aparições meio encarnadas, de ramos no lugar de raízes e raízes que querem ser ramos. Promessas de pobreza fictícia heranças adormecidas de gente viva. Virar da esquina de uma inacessibilidade grotesca e fria como o aparecimento da poeira estelar, espirro colossal de uma criatura cósmica, bactérias fulminantes em vasos de cristal.

Diálogos

Vi um indivíduo corcunda com o braço em ângulo recto com o corpo, agarrado ao mastro de ferro pela parte interna do cotovelo girava à volta dele e cantava:

(Já não tens ecu já não tens ecu quero ir ao cu quero ir ao cu já não tens ecu e eu quero ir ao cu)

Atormentado, possuído, pelo meio da música lia uma e outra estação em tom maquinal, os outros riam-se fingiam ignorar, comentavam:

(Isto é que está aqui uma coisa esperta)

Quando se mistura aquilo que se faz com aquilo que se nutre, aquilo que se pede com aquilo que se dá, muita mistura, jogo de forças, vence deus ou o diabo e de quem é a culpa, do bom do mau ou nossa, apanhados no jogo de titãs entre um e outro.

Estar à margem de, entregar a alma a deus vivendo no território do demo, utilizando as suas ferramentas para comer, desequilíbrio.

O cerne da questão está no equilíbrio, pretender ficar incólume a qualquer uma das partes é a maior das ilusões.

A balança está nivelada de tal maneira que terá sempre que voltar ao meio, ainda que possa oscilar entre os extremos. O peso que pomos de um dos lados será compensado do outro e o que interessa são as forças que precedem a essa compensação, são elas que actuam na nossa vida, por intermédio de tudo e de todos, não olhando a meios para alcançar o fim, será que posso medir a intensidade e a frequência das intervenções da força ignota, quando sou apanhado desprevenido e os acontecimentos me atacam em catadupa e de surpresa é porque se trata de um ajuste de contas, passado ou futuro é a mesma coisa, nada nos é dado nesta vida e a misericórdia está lá junto com elas, as quimeras do impossível, pagamos tudo ao respectivo preço, misericórdia são as prestações, o fiado não existe e todas as contas serão saldadas, a cada novo ajuste da balança um novo ponto de equilíbrio e tudo recomeça do zero.

Tenho a imagem dentro de mim o tempo todo, a minha consciência é uma balança e a dor de estômago para lá do órgão, física só para que a sinta e não duvide dela, é causada pela visão do meu ser correndo de lá para cá, frenético todo o tempo para manter nivelados os pratos.

Acontece que no meio está o maior dos tabiques, de um lado o positivo do outro o negativo, separados por ele, nada passa de um para o outro, estão de costas voltadas, mas unidos pela espinal-medula, não são dois é um, partido ao meio. Não, não são simétricas as metades.

No dia em que as conseguir encarar de frente dir-vos-ei qual é a maior, também gostava de saber, provavelmente é essa a minha grande questão, aquela que terei mais dificuldades em assumir, nem sequer posso confessar que é, mas não a assumo, porque simplesmente não sei, também não sei porque é que não sei, como digo eles estão virados de costas um para o outro, o deus e o diabo dentro de mim, mas nem sempre, há alturas em que se buscam, roçam um no outro, grandes batalhas travam, por vezes até dialogam, mas a conclusões nunca chegam, ouve lá, quem é maior eu ou tu, nenhum dos dois quer ser mais pequeno e se o demo abre a boca e diz sou eu, o anjo responde sim pois, só se for em ignorância, todavia por humildade ou qualquer outra coisa não se atreve a dizer sou eu e assim continuam, e assim vamos andando, de lá para cá e de cá para lá, nunca estando em lado nenhum e sem estar em vários lados ao mesmo tempo. Isto porque embora não se misturem, as criaturas são solicitadas momento a momento, ora uma ora outra, sempre de costas voltadas. Jamais agem em comunhão, ao contrário, uma destrói a outra edifica, uma une a outra desagrega, uma compreende a outra mostra que nada está compreendido.

Depois há o engodo que não sei qual das duas morde mais frequentemente, uma porque morde tudo e depois filtra, a outra porque de tanto filtrar torna baço o que é translúcido e depois acende a luz.

A porta da sala está encostada. Do sítio de onde tenho os olhos vejo uma mulher de bata branca no canto direito, do lado contrário à abertura da porta, está encolhida, tem o cabelo preto, que embora amarrado lhe cobre o rosto devido à posição em que se encontra, vejo um outro corpo branco mas sem bata, está pendurado na parede onde tenho os olhos, é uma mulher, nua e grávida, é através dos olhos da mulher de bata branca que vejo que está grávida, de pele branca pálida, está presa, crucificada pelos braços pregados a uma tábua pregada na parede com pregos de aço compridos e frios a atravessarem-lhe a carne, sinto o frio e a dor com os olhos cravados na parede, não sei como foi lá parar, que pecado foi o dela, olha como eu para a mulher de bata branca, esperamos uma reacção que não chega, a mulher está grávida, entrou em trabalho de parto, chama baixinho pede ajuda, sussurra, a outra está perto o suficiente para poder ouvi-la, mas não reage, está aterrorizada pela visão da mulher grávida pendurada na parede, que chama, não cessa de chamar a ajuda que não chega, a porta está encostada não deixa passar o sussurro, entra um homem repara primeiro na mulher de bata branca, ele sabia que atrás daquela porta estava uma mulher grávida e outra de bata branca, iria pedir contas a esta última, verificar se os procedimentos tinham sido cumpridos, ela estática, nem uma palavra, os pregos saltaram, a mulher grávida fechou os olhos e eu antes de deixar de ver, vi os pregos saltarem, a mulher cair, os braços estendidos presos na tábua ainda, de pés assentes no chão agora, são os olhos do homem que me mostram, aterrorizados, porque não assistiu ao parto, fala para a mulher de bata branca, porque não assistiu ao parto, esta mulher está grávida, de onde veio a catana não sei, degolou a mulher de bata branca ali mesmo, a cabeça rolou, o sangue jorrou, vi com os meus olhos pregados na parede, a mulher grávida continuava a murmurar, ajudem-me vai nascer, o homem ouve o murmúrio finalmente, olha para ela de catana ensanguentada na mão e diz,

Demónio

E espeta-lhe a catana pela barriga, sangue e mais sangue, uma gota de sangue cegou-me, não vi mais nada.

Pouco a pouco se vai aprendendo, aceitando que eles têm razão, mudando os aspectos para que o aspecto mude, sempre disseram a mesma coisa, eu é que fui refutando sempre com teorias diferentes e práticas diversas, mas eles nunca se calaram e sempre disseram a mesma coisa e eu sempre a negar sempre a optar sempre a fugir, tudo o que procuro é o que eles me dizem e o mapa sempre esteve debaixo dos meus olhos para que o visse e o seguisse, um dia desenhá-lo-ei por completo, com os meus passos, quando chegar ao fim, se entretanto não houver fim terá havido um caminho e esse caminho estará desenhado, é o que importa.

Como dizer, apetite por destruição, frascos a partirem-se, líquidos derramados, caos profecias, onde está quem rogou a praga, reacções mecânicas quando tudo o que era preciso era um pouco de amor, consideração carinho um mimo, nada disto acontece, só raiva, só ira, só irritação porquê, de onde vêm estas respostas, a que se destinam, de um lado o saber do outro o agir, quando é que vamos dar as mãos, tudo se torna inútil tudo se transforma, perde o valor perde o sentido, onde está a evolução das coisas, populações, indícios de raça e de localização geográfica dos indivíduos, um traço apenas é o bastante para que os reconheçamos, este é dali aquele é daqui, inútil, pilhas de loiça amontoadas, desrespeito, descrença, desconsideração, omissão, não estou lá, não estou presente, não afago, não passo as minhas mãos pelo cabelo, quero cuidar, quero amar, mas só irritabilidade, temperamento irascível, ao menos histórias para fazer bem, ao menos um bom aproveitamento do dom, ao menos bem para alguém, só caos só destruição, só querer chegar ao fim do que não tem fim, só querer ultrapassar, nunca fruindo, nunca aproveitando nada do que se almejou, nunca amando, nunca passando as minhas mãos pelo cabelo e a loiça amontoa-se e o lixo, cotão formando novelos, papeis à briga num canto, redemoinho de almas em luta, cansaço e busca.

O espasmo do maxilar, o silêncio para não ouvir o que dizem as palavras frívolas, os sentimentos estereotipados, o cansaço, o silêncio para prevenir o cansaço, para não repetir como eles as palavras frívolas, para não me ouvir, negações, a síncope, o discurso sincopado, entrecortado, preciso respirar ar e outras coisas, encher-me de uma qualquer personalidade, estado normal sem escolhas, temos muitas personalidades dentro de nós, que vão aparecendo conforme as situações dizia ele, quem diria que diria tal coisa e a morte não é o fim, depois voltamos e somos pássaros ou pedras, pedras não, seres vivos, pássaros peixes e assim, dizia ele, silêncio para não o ouvir, negação a síncope derivada da negação, para nós que somos o que me custa admitir que somos, aqueles momentos não todos os momentos, quando me encho soa estranho pareço outra pessoa fico com outra personalidade, tira os óculos que ficas com outra personalidade, não me encho gaguez, não masturbação gaguez, negações disto e daquilo e a Palmira de cabelo ralo, couro cabeludo cor de marmelo, não gosto de marmelada, indivíduos de olhos pretos sem alma, bichos somos bichos, raparigas ensaiadas a mulheres, cabelos oxigenados e unhas cor-de-rosa esbatido, unhas grossas em triângulo tão interessante como as palavras de todos os dias e eu silêncio para as unhas e para as palavras e para os sentimentos estereotipados, o Maia a cicatriz, a face de nortenho mais pronunciada que o sotaque, como se distinguem os indivíduos sem que abram a boca, um traço dos muitos possíveis é o que basta, imortalizados estão, assim nasceram, não as pedras não os pássaros não os peixes os homens, bichos de olhos pretos sem alma.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Diálogos

Através do sexo e das práticas ilícitas, o aperto no estômago a falta de ar, através das palavras que sei que vão dizer, do clic, o momento certo que deve ser agarrado, as tuas palavras que não quero ouvir, as consequências que quero evitar, as acções, através de tudo, tudo são meios não há fins diz ele, aquele ponto a que se chega sem se saber como e só apetece não perguntar, não saber, por uma vez não perguntar, desta vez desfrutar experienciar as coisas que vêm até mim como eles vêem, sem que eu saiba como, as coisas que procuram, como eles, alguma coisa em mim, ou que a sentem naquele momento em que olho para eles e para as coisas e não digo nada, só aquele momento basta para que eternamente se liguem a mim, para que se abram os portões as portas e as janelas e os caminhos e tudo se abra, para onde vou, não quero saber, desta vez só desta vez não quero saber, não vou perguntar, não vou perguntar o que faço aqui o que virá depois, um momento para que as coisas venham até mim como eles vêem, é qualquer coisa que tenho que ultrapassar, que se atravessa no meu caminho, é tudo o que sei e o que quero saber, não me passará ao lado, porque é mesmo por aqui que vou e o que virá depois não quero saber. Todas as pontas se entrelaçarão no momento devido, até lá que se separe aquilo que necessita de ser separado, indo e vindo até onde for preciso, constatações e planos, fugas e interlúdios, o que é bom o que é mau, eles dizem que me devo sentir bem, eu acredito.

Diálogos

Vivemos cheios de imposições. A vida em si é uma imposição. Passamos a vida a tentar libertarmo-nos da imposição que é a vida e das imposições que a vida trás, mãe no topo da hierarquia das coisas, o que podemos nós perante ela, pobres criaturas, míseros animais falantes, seres de um conto infantil, terráqueos sem esperança de outras vidas, mortais sem olhos para o futuro, o tempo que nunca chegaremos a ver, o sucedâneo de nós mesmos, a inevitável continuação, acredita, acreditem, acreditas, não há fins, só eternos começos, só um retorno de coisas estragadas que se reciclam, para de novo serem postas à venda, retornadas para o retorno o fim, sim o fim do que não tem fim, a eternidade é um conceito passivo, se não morrermos o que vamos fazer, fazemos todos parte desse plano que ninguém entende, não me vou distrair com os outros, ainda que me dêem razões, todos os argumentos válidos e inválidos mais as opiniões, nada, as opiniões dos homens, os raciocínios geniais dos homens, nada, não, não vou seguir-me por tais leis, se a vida é minha se algo tenho que seja meu (duvido frequentemente disso) então reneguei esse algo pelas minhas convicções, quais são elas, a não regência pelos princípios deles, a entrega e a abnegação à imposição da vida, o desapego, tudo nas mãos dele, já tem a faca e o queijo, fique também com a tábua e o pão e o vinho, dê-nos só na medida do que formos necessitando, dia a dia, porque o mais será erro, o mais será perdição, pecado, conta em débito no profundo de nós, expiação interminável.

domingo, 24 de abril de 2011

Diálogos

Pergunto o que é preciso que faça para assistir à mudança, depois de planear os passos preciso de agir, a cada acção por mais pequena que seja, a sua reacção, correndo galopante para mim, e eu à espera dela, agir para que o princípio universal reaja e as coisas mudem, ponto de ruptura com o estado actual das coisas, o ir para aquele sítio, as pessoas, todo o complexo do ambiente, das mentes, de quem o pensa, quererei fazer parte daquilo, serei a peça que vai mudar a engrenagem, deverei mudar de sistema, para um em que as minhas funções contribuam para o resultado do todo, ser reconhecido e bem remunerado, sentir que estou a fazer algo de útil, será o meu papel imprescindível, será que só eu o posso desempenhar, preciso de transparência para que possa analisar os resultados do meu trabalho no todo, preciso transpor os obstáculos, lutar para que de mim transpareça e para que deles transpareça, que assim seja, imbuído do poder do juiz, do supremo criador, do poder máximo imaginável para o fazer, tenho que encontrar essa via, para que possa canalizar a energia e não a desperdiçar, a construção ainda não começou, tenho-me estado a preparar, quando for a hora chegarei ao cenário, onde tudo isto se dará e farei o relatório que me pedem, não me são dadas pistas, ninguém me vai dizer qual é o cenário, qual é o caminho, se estou certo ou errado, timidamente vou fazendo, e torna-se necessário que me dê a este complexo, sou obrigado a desempenhar um papel, é suposto que me sinta bem com isso, sim pois, é necessário que me sinta bem com isso, caso contrário nada disto seria relevante, e qualquer coisa serviria, qualquer cenário seria o indicado, e a capacidade de adaptação seria toda a missão que tenho de desempenhar, qual é a missão da alma, a missão para a vida, a missão a desempenhar nesse local muito concreto que é o complexo social, a capacidade de adaptação, existe um cenário diferente dos outros e mais apropriado, porque mais precisado daquilo que eu lhe posso dar, onde estão a filosofia e os princípios imutáveis, mais que isso e mais basicamente aquilo que estou sempre a ouvir, que é o mais importante e o único motivo de tudo, aspirações realizações e sonhos, lutas debates ou conversas de café, um deve sentir-se bem, são eles que dizem.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Diálogos

Sem corpo, nada mais que a essência pura e dura e eterna, a mensagem. O estado de alma propício, o cair por terra de todos os tabiques e a palavra flui, os braços estendem-se e entrelaçam-se nos braços, o medo dissipa-se, não há medo, a viagem começa. E onde a viagem acaba começa a dor, as condições indicadas não são de difícil acesso, contudo estão condenadas à efemeridade, o grosso do viver dos minutos temporais é feito em dor plena e recalcada através dos séculos, tudo se mistura porque tudo está em nós, passado presente e futuro são ilusões distendidas no espaço também ele ilusório, a carga de tudo isto carregamo-la na medida da nossa essência, quanto mais conscientes, mais aptos a mais alto subir e mais tempo permanecer do lado de lá, mais aptos a ver toda a podridão e incoerência do lado de cá, de nós próprios, das faces do nosso ser. É-me dito que o meu destino vem ao meu encontro, vejo mais uma estrada chegar ao fim sem que chegue ao seu começo, sim pois, porque embora tudo até então seja a minha vida, pode viver-se paralelamente ao destino, lenda pessoal, o trilho que nos cumpre. Percorrida mais esta estrada, adiado o fim da mesma até onde pôde ser adiado, visitados todos os entroncamentos, estou de novo na estaca zero de mim. É obviamente um ponto diferente de todos os outros porque é este e não outro, porque é agora presente porque é a partir dele que o que quer que seja que vier virá.

Posso ter necessidade de vir para aqui por sobre todas as outras coisas, o que é ainda não consigo compreender, se isto é uma preparação quero estar muito bem preparado, não quero que nada me passe em branco compreendem, por isso talvez se torne abusivo ou excessivo na procura do que se procura, seja no que for excessivo porquê, de onde vem esse excesso, onde está a memória, o livro dos genes, onde está, quem o escreveu, quem o leu e eu onde estava, ninguém leu ou estão agora a aprender a lê-lo, não posso conceber, não posso acreditar, é mais qualquer coisa que me faz estar aqui, não desacredito o que vocês acreditam compreendem, só que eu quero reger-me por outro, acreditar o meu acreditar e não quero que acreditem, quero reger-me por outro, acreditar o meu acreditar, descubro que não me é dada a hipótese de ter o meu acreditar, porque a própria essência daquilo que acredita está macerada por conhecidos e desconhecidos, mortos e vivos deste e doutros mundos, coisas que não compreendo, que não compreendo mas que se misturam e nadam juntamente com o resto da água, das bolhas de água, não posso concretizar mais, o ritmo lembras-te do ritmo, aquela coisa que se persegue e que às tantas ganha vida própria, calão cientifico raciocínios sequenciais matemática, tudo no mesmo espaço, tudo a várias dimensões, tudo feito fibra e sangue palpitante dentro da minha cabeça, eléctrodos e cargas eléctricas, átomos e reacções em cadeia, a memória colectiva e o registo cósmico, tudo dentro da minha cabeça como ignoto, como bicho, como árvore do conhecimento, como todas as imagens e todas as metáforas e todas as histórias de se contar ao lume ou como nada disto, aparecendo-me branco e apertado, cingindo-me o corpo à alma, retorcendo coisas por dentro de mim, torcem-se como bichos dentro de mim, colónias, formigas aladas, a marcha nupcial, uma arritmia cardíaca, as veias entopem-se ao longo dos anos, o ar já não passa com a mesma fluidez, surgem problemas respiratórios, aqueles problemas respiratórios similares na maneira como o ar não passa, como os pulmões se comprimem contra as costelas e contra o peito, falta de ar, aperto náusea no estômago, úlcera inflamação gastrointestinal, cancro mortes prematuras, a criança adormeceu de barriga virada para baixo, acordou morta, nado-morto, nasceram unidos por isto ou por aquilo, onde estão as almas, onde está o valor alto e nobre e lúcido, não fui eu que disse, mas pergunto, outra coisa, onde está, ele esteve lá e eu aqui e nós aqui e vocês ainda estão no mesmo sítio, quando eu me levantar não estarão, sim vocês, os que se levantam, os que vão ali assim, trabalho, trabalho isto e aquilo, não fazem nada, não dizem nada, calam-se perante todas as atrocidades injúrias difamações calunia, ofensas corporais e não corporais, calam-se perante a vida, eu estou aqui sentado nunca saí daqui nunca conheci outra realidade que não esta, falo-vos de outro lado, assim que começar a ver-vos desapareço.

Fujo para uma casa de madeira no meio do mato sem medo dos fogos ou dos ventos ciclónicos, e de lá vos chamo, clamo venham até mim, vamos viver uma irrealidade conjunta, um sonho de massas da multidão que sois vós por trás e a meu lado vinde para o meio de mim, partilhai estes pensamentos que são vossos, é o que eles me pedem, é o que sempre dissemos, geração após geração a história repete-se, vêem-se hoje os tempos que se viram ontem, mas já não se vêem tempos como os de outrora, vêem-se as cinzas do que virá amanhã cinzento caindo sobre nós juntos todos na minha cabana de madeira no meio do mato.

E o tempo lá fora está frio, passam-se coisas pensadas por outras cabeças, regidas por leis que não a minha, por leis de outros e por leis que desconheço, mais as leis que nos regem a todos, mas que não impedem que eu seja afectado pelas leis dos outros, seja como for tenho de agir. Não posso viver sem agir compreendem e isso para mim é um problema, talvez o primeiro e mais constante problema com que me debato não uma nem duas, mas todas as vezes que tento fazer alguma coisa, sim digo tento porque o que é fazer alguma coisa, cumprir em excelência as possibilidades de uma acção e se essa acção envolve outros agentes que não eu, outras pessoas outras coisas, em si portadoras da sua possibilidade de excelência, o que lhes faço o que faço, faço isto faço aquilo não faço nada, tento fazer alguma coisa, o que tento fazer não sei, essa é provavelmente a segunda questão com que me debato quando tento fazer alguma coisa, o que faço eu, faço isto faço aquilo não faço nada, fico aqui sentado, mas não pode ser, é a vida que me diz que não pode ser, é o dia depois da noite e a noite depois do dia, então como sair lá para fora, qual é a bagagem certa ou deverei ir de mãos a abanar, ele disse para eu ser eu próprio, como se não sei o que o sou, não fui eu que disse, ele sabe que é guardado pelos anjos ele sabe, ele não quer saber, ele quer saber o que fazer, ele quer saber para onde ir eles dizem, as opções sucedem-se, as janelas abrem-se como os muros se erguem, a relação é que não percebo, para dizer a verdade o que eu queria mesmo era ficar aqui e não ter de sair para nada, ficar aqui sentado, onde sempre estive, e é o que farei, o mais se tiver de vir que venha ou que não venha, não fui eu que disse, objectivos concretos, o trabalho, como negá-lo à partida, não negando, fazendo o que há a fazer, mas a procura não terminará nem o mal-estar terminará, é esperado que um se sinta bem, onde está o limiar, onde está o ponto de ruptura, é o primeiro que buscamos sim pois, mas e entretanto nada, entretanto o quê, de quem foi a ideia deste prelúdio, porque é que não passamos já à fase seguinte, porque é que há fases, sim digam-me que sou criança, digam-me que não sei nada, digam-me que tenho de aprender, aprender o quê, o que tu aprendes, o que ele aprende, o que se aprende ali, ler para aprender, ouvir cultivar interessar-me por tudo ou só por aquilo em que tenho interesse, não tenho interesse em nada a não ser em saber quem é que disse que eu tenho de aprender alguma coisa, que é suposto que eu leia e me cultive, quem é que lhes disse a eles, aos que me dizem, quem, digam-me quem e esse alguém que venha falar comigo, que pare um momento antes de começar a falar, que não diga nada que não me pergunte nada, que venha ter comigo e esteja um momento calado na minha frente, eu não lhe quero nada antes de ter tempo para o analisar, para saber o que quero dele, se é ele, se é isso que quero e então aí quem falará será ele e não eu e dir-me-á, sem que eu lhe pergunte, e a minha pergunta ficará respondida, e poderei voltar pra casa, dormir porque estou cansado da tarefa da minha vida, acordar porque é o que acontece quando se dorme, comer é o que faço quando acordo e esperar a morte que é o inevitável. Ou isto ou sentir tudo de todas as maneiras e ir a todo o lado e seguir os mandamentos dele, o resultado é o mesmo ou não é, ou há regalias diferentes para uns e para outros ou também aí desse lado a justiça de que se fala é fumo dentro da minha cabeça, uns entram outros não, só quem bater à devida porta poderá entrar, é o que dizem, que há só uma porta, as outras são todas falsas, não, se a humanidade inteira, se a multidão está atrás de mim, quando olho para trás e para os lados ela já está comigo, sempre estiveram ao meu lado, estão lá agora no mesmo sítio, uma porta um caminho para quê, qual é o propósito, porque é que não vem explícito como um livro de instruções, só não digam que é suposto sentir-me bem, então tenho que mudar tudo, tenho que deixar as dependências, os maus pensamentos, as dependências já ajudava eu sei, ele sabe, ele sabe que é protegido, ele sabe que só há um caminho, mas por agora vou ter de saber outras coisas também, o que acontecerá se não as souber não sei, não tenho capacidade de sequencialização, portanto é melhor que as saiba, conhecimento é exigido, o teste para o qual estou preparado vem depois, tenho que passar as preliminares, é como se tivesse nascido ao contrário, mas se só perceber o que quero quando for velho vai ser tarde para o que quero agora, que é aproveitar este tempo que passa e vai passando e parece que nunca mais passa, não quero perceber as coisas tarde de mais, é por isso que não desisto nem penso em mais nada compreendem, mas tenho que fazer outras coisas, tenho que sair daqui, tenho que ir ali assim estar com outros indivíduos, desempenhar tarefas cumprir funções ter um papel no complexo do mundo que não compreendo, porque é impossível levantar-me daqui, mas alguém tem de fazer o que é preciso que se faça para que eu possa estar aqui sentado, todas aquelas coisas que me vou abster de referir para ver se crescem e se tornam interessantes e densas e profundas e mudam de sítio para que eu as possa ver daqui de onde estou e estabelecer as coordenadas para as missões, seleccionar os candidatos, agir finalmente com a segurança e a tranquilidade que caracterizam as acções de quem sabe o que faz, de quem está no caminho certo e sabe para onde vai, para onde quer ir, alguém que tem um só caminho, o seu e o deles, o único caminho possível, sem contradições, errar é humano, é através do erro que evolui a alma humana, e sim ela deve evoluir é esse o seu propósito para chegar ao ponto de partida, aqui precisamente, de onde nunca devíamos ter saído compreendem.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Diálogos

Estabelecer pontos de paragem, como paragens de autocarro, para apanhar mais um pensamento que se sentasse no banco, atrás do outro e o outro atrás do outro e assim sucessivamente, até o autocarro estar lotado e pensamentos de pé agarrados às portas, frémito, não era a mesma coisa, com ou sem paragens com ou sem autocarro com tudo ou com nada eles acumulam-se às minhas portas e eu tenho de ir a correr de sala em sala a fechar as janelas para eles não entrarem porque estou com um numa sala e com outro na outra, lá consegui sentar um a beber um copo de água que lhe propus e logo a correr para o outro que já cirandava pela salita que lhe arranjei, sou eu que escolho os materiais, dou as ordens, mais cor ali menos cor acolá, eles são bons funcionários a coisa processa-se eficazmente, depois a decoração também sou eu que faço, os adornos motivos ornamentais, todo o design de ontem e de hoje, porque design sempre o houve ainda antes do homem que o resolveu aplicar nisto e naquilo, design de gestos, na maneira de estar, quem é este homem, seria talvez proveitoso se eu o encontra-se para lhe perguntar uma ou duas coisas com o intuito de me esclarecer, não seria coisa pouca, não pretendo cultivar-me com o saber desse estranho nem tirar lições de vida do que ele diga, quero apenas o seu encanto sentir a sua magia interagir com ela, não é que esteja apaixonado não compliques, não compliquemos, compliquem, é sempre a mesma mania de complicar, não sei o que é preocupar-me, não sei o que é nada, isto vai de mal a pior com esta história da negação, até que ponto poderei destruir-me, até que ponto é que poderei negar tudo, digam lá se no fim de ter vivido, se no leito de morte as minhas últimas palavras forem foi tudo mentira, foi tudo um engano, eu sou uma fraude, direi que fui o que sou, que segui sempre aquilo em que acredito, que nunca fui contra os meus princípios, que magoei feri e maltratei e talvez tenha feito outras coisas que não confesso, e o que não direi e quem me fará dizer seja o que for, quem me vem bater à porta e dizer estás preso, quando é que eles vêm e me pegam por um braço e me metem na carrinha branca, todos vestidos de branco vestem-me uma bata branca e levam-me para o hospício onde eles esperam por mim vestidos com batas brancas. O que acontecerá depois não consigo ver, não tenho capacidade de sequencialização.

Porque se a vida é um momento e se é preciso agarrar esse momento, então um dia é muito tempo, uma hora é uma eternidade, oito horas uma vida, vários anos são gerações, o tempo é precioso, como desperdiçar um segundo que seja não estando o melhor possível, lutando pelas melhores condições possíveis, sim é preciso lutar, sim pois a luta, a luta e a labuta e o sentir-se o melhor possível, quando o juiz voltar da pausa para café poderá estabelecer a relação entre estes factos, eu abstenho-me de o fazer sob pena de incorrer no risco de mentir, coisa que até agora não tenho feito. Aliás mentir é coisa que não faço, a verdade é um princípio basilar do meu ser, do ser que pretendo ser quando conseguir ser o que sou, por enquanto ser é coisa que não sou, porém não é por isso que deixo de falar do que sou ou do que vou ser quando for compreendem, porque se as pessoas são isto e aquilo eu não sei, é o que elas dizem, é o que eu percebo pelo que dizem pelo que fazem pelo que eu penso que elas pensam, sim pois, a linha, é preciso ver a linha, porque senão lá se vai a definição, mas como eu sou maluco não vejo linhas, só vejo pontos e portanto vou onde tenho de ir sem precisar de explicar, que eu vá e que eu lá chegue é o melhor que posso fazer, se mais alguém lá chegar óptimo, se todos chegarmos maravilha, pois o Maravilha também tem de lá chegar e eu e tu e todos para que possamos sair daqui, vão andando que eu já lá vou ter, o que vos parece, esperam mais de mim, querem que diga outra coisa, querem-me já nas frentes de comando, querem-me a gritar nas ruas, onde estão aqueles que me vão seguir, quem sou eu para os guiar, não fui eu que disse.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Diálogos

Que sensações inéditas me provoca a minha loucura. Tamanha incoerência e incompatibilidade que não têm lugar, contudo brotam de dentro de mim, não têm outro lugar de onde brotar. Sempre o presente, o futuro, ainda um passado que não se quer ver que se anseia deixar. Uma linha que não sei de onde vem, mas que tem ambas as pontas dentro de mim feitas do novelo que sou, malha desconexa e ambígua, sensação de não ser para o que se me depara que sou, dor insuportável mas que se suporta e se interroga e deixa de ser dor para se tornar sonho, tudo interage e perde a definição, amalgama-se em mim. Descubro o sentido passivo da vida de existir para que as coisas aconteçam, mas nada mais sou que um espectador do impossível que vai acontecendo. Esta ponte não pôde ser estabelecida, que quer isso dizer, confusão, é tudo meu, prejudica gravemente a saúde, os que me rodeiam, pago direitos de autor, ingénito e indestrutível, uno e indivisível, tenho que ser outra coisa, não sou nada sou um louco ponto ou sou um louco reticências, o que me faz duvidar, porque me busco, não há fim, a eternidade foge-me como a compreensão do todo, aceitar que há coisas que estão para lá da minha compreensão, as consequências da consequência, o método como as coisas se apresentam, muita coisa, são vislumbres de luz apagada estendidos pelos dias e pelas horas como marcos de desorientação para a alma.

O mal está nas fasquias e onde as coloco. Se pensar que tenho tudo o que preciso para ser feliz, se pensar nas coisas boas, no que foi atingido, que o objectivo principal está atingido dizes tu, ele era o de estar sempre contigo, ele era o de termos uma casa à qual pudéssemos chamar nossa, não te lembras, naquelas noites frias de verão, quando passeávamos à beira da estrada a caminho da casa do outro, de eu te ter dito, tenho uma coisa para fazer que só eu posso fazer, não sei o que é, mas sei que tu fazes parte dela, sei que através de ti a poderei fazer, sei que preciso de ti a meu lado, e de tu me teres dito que o que tens para fazer é estar ao meu lado, que é essa a tua realização e o teu objectivo, e de eu te ter dito que eu tenho mais qualquer coisa não te lembras, o que faz de mim isso, sim isto é a base, apesar de ainda não a sentir como tal plenamente não nego que isso possa vir a acontecer, mas depois ainda falta o resto, porque é que isso não me basta porque é que não me sinto bem, pelo menos isso sentir-me bem, sentir-me realizado, ainda que parcialmente uma vez que não é essa toda a minha realização, mas grande parte será, porque não trás frutos, porque não fruo, porque só penso em drogar-me e em deixar de me drogar, porque é que isto vem à mistura com aquilo, caótico é o que eu sou, foste tu que mo disseste, caótico serei sempre, então não será natural que seja pessimista até à ultima instância, sim não consigo apreciar a beleza do quadro não consigo ficar contente sentir-me realizado, mecanismos de destruição que não foram desactivados porquê, mal que se alimenta do bem e o consome e me consome, treva que cresce com a luz e a consome, destrói todo o bem e toda a beleza, só droga onde está o problema, de novo a disciplina e a vida regrada é o conselho deles, houve qualquer coisa que em mim se partiu, um pedaço triangular que me falta, parece que foi tirado com um bisturi, precisão cirúrgica, estaria a mais é sempre a hipótese que se pondera, se aconteceu foi porque tinha de acontecer porque ele não se engana, mas engano-me eu a toda a hora, de quem é o espectáculo afinal, o que pretendo de mim, para onde quero ir, será que quero deixar de sentir isto, do outro lado o que está, consegues traçar uma linha um fio condutor que te conduza ao princípio geral das coisas e de mim, uma ponta, um traço que te leve ao ponto, ao busílis, o outro sabe destas palavras, não me surpreendeu, penso faço discursos e dou respostas resolvo tudo, faço isto faço aquilo não faço nada, eu é que sabia o que era ser feliz e o caminho exacto para sê-lo, eu é que sabia, eu ia lá chegar pelos meus próprios passos e sem a ajuda de ninguém, eu sei fruir as coisas como ninguém, como é que podes não te alegrar com o alcançar dos teus objectivos, isso é mau, é péssimo, és ingrato, não dás apreço ao que te foi dado, ao que conquistas-te, para quê as conquistas sem o sabor da vitória, para quê os bens sem o gozo de os possuir, para quê a droga se só pensas em livrar-te dela, se eles não se calam com a disciplina e a ordem e a vida regrada, porque é que não vais por aí, porque é que não deixas de falar para o vazio porque é que cantaste para um público imaginário, porque é que és para ti e ninguém vê o que tu és, sabes que devias abrir-te ao mundo e aos outros, não fui eu que disse, mas está dito, será bom, seria bom, afinal não consigo nada, afinal o grande amor torna-se nada como tudo o resto e as grandes conquistas e os grandes sonhos quando se tornam realidade o que são, como se aproveita, como se frui o que se pensa, não sei nada de nada, não sei viver não sei como se vive, onde está o modelo, sim pois, ele é o modelo e eu o que sou, onde fico, copista imitador se for igual, se não for nada, nada de nada, só pequenos momentos, segundos em que não me apercebo do resto, segundos em que me consigo focar numa só coisa e sentir essa coisa isso é bom, depois dispersão e nada, basta, como se sai daqui, quero sair daqui, quero uma lobotomia uma lavagem ao cérebro, não quero nada disto só quero sair daqui, só quero ver-te feliz, olhar ao espelho e ver-te feliz, não percas esse brilho nos olhos ela disse, já nem sei ao que se referia, a disciplina o regime, deixa tudo isso e vem comigo, eu deixei eu fui, eu conheci o mundo e as gentes, guardei os traumas esqueci os momentos bons, assassinei tudo e continuei a procurar, matei mais um grande amor à Queima-roupa, sem dó nem piedade e continuei a procurar, fui encontrando o que procurei, sempre vivendo outra coisa, até que naquele momento passei a viver um pouco à frente do que pensava, aí sim foi bom, não saber o que o momento seguinte reservava, não saber, não ver, uma doce ilusão, uma paixão perdida que começou comigo a negá-la depois comigo a aceitá-la depois a viver o que não sabia, que bom que foi, depois tudo ruiu tudo caiu por terra e eu também caí por terra e eles afastaram-se e o rei morreu e tudo se transformou em pedaços, agora vá levanta-te e caminha e que procurei eu, se tudo isto estava pensado e neste preciso momento estou onde era suposto que estivesse ninguém mo vai dizer, é porque não preciso de o saber, agora para onde ir não sei, não gosto disto, não gosto de nada, só vejo o mal e a perfídia, que nada disto é, é o não conseguir desfrutar das coisas boas, é o não ver onde elas estão, é a falta do triângulo que me foi cortado a bisturi com uma precisão cirúrgica, nada, estou muito mal, apetece-me dizer que estou doente, muito doente, apetece-me internar num hospício para que me droguem noite e dia, destruição e caos, mas ele sabe ele sabe, ele sabe que cedo ou tarde terá que se render, sabe que o caminho direito o espera, sabe que é um abençoado, vigiado pelos céus e pelos anjos, porque rejeita, porque nega, porque é pequeno, muito pequeno, precisa crescer, para onde crescer, essa é a pergunta, crescer para onde, esperar que me venham buscar, que me peguem por um braço e me vistam a bata branca, me metam na carrinha branca e me levem para o hospício, para junto deles que esperam por mim vestidos com batas brancas, e depois o que sucederá, não consigo prever, não tenho capacidade de sequencialização, não sei o que sucederia.

Terá sido porque deixei para trás hipóteses, porque não cumpri a excelência das hipóteses que me foram dadas, porque não dei o melhor de mim, eu que penso e que digo para mim que dou sempre o melhor de mim, tenho-me em muito alta conta, consegues ver um caminho, um percurso que te tenha trazido até este ponto, será esse o problema, a minha incapacidade de sequencialização, ter feito ontem qualquer coisa para que hoje não sei o quê, ou fazer hoje para que amanhã, não consigo ver isso, na luta das coisas está para mim tudo inclusive as coisas em si, não estão no depois estão agora, está tudo aqui, deste lado da cabeça, os percursos traçados, o frango provavelmente é demais, mas depois come-se o resto, vai-se comendo, vão-se comendo os restos, fazem-se contas à vida, somam-se parcelas para encontrar o total da sobrevivência, o desperdício em bens supérfluos e a ambição, um melhor emprego outro horário outro salário, o que será diferente, porque é que eu não atingi a realização que tu atingiste, porque é que eu não sou feliz por estar contigo, simplesmente feliz por estar contigo, porque aquilo que pedi um dia me veio, porque a busca terminou e o desespero acabou, agora há desassossego, e se o eliminar, e se tudo isto é porque fui eliminando tudo o que vinha de dentro, porque não me satisfazer com nada foi um modo de vida que acordei como um contrato que tivesse assinado em viver, passagens de um texto que não interessa, nem a ele que sabe tudo, imaginam essa criatura ingénita que sabe tudo, o aceitar que alguém que não é humano tem mais poderes que os humanos, esse é o problema, aceitar que outros possam mais que nós, aceitar que eles tenham a sua palavra, o seu brilho a sua fortuna, não me incomoda, mas temos que lutar pela justiça, e não devemos pactuar com a perfídia, quando assistimos ao enrolar das mentes hipnotizadas pelos discursos carregados de psicologia e nos doem as costas para que ele possa estar ali cheio de discursos cheios de psicologias e sem falhas, comodamente no seu veículo topo de gama, comodamente no seu mês desafogado, não, ele estudou, ele tem mérito, ele chegou, não, doem-me as costas para que ele possa estar ali, para que ele viva desafogado eu tenho de fazer contas e somar parcelas para achar o total da sobrevivência, eu tenho de fazer escolhas e fechar janelas para que ele possa andar confortavelmente no seu veículo topo de gama, não, ele tem porque está lá porque estudou, porque chegou ao topo, eu não cheguei a parte nenhuma por isso não tenho nada, não, eu cheguei a outro sítio e tenho aquilo que não sei viver, que ninguém me ensina porque ninguém tem, que não há exemplos porque ninguém tem, só eu tenho e eu sou igual aos outros, sou só mais um no meio de muitos, sem nada de especial, não sou sobredotado nem super inteligente, não sou nada, mas cheguei onde ninguém chegou e vejo o que mais ninguém vê.

Cheguei a este ponto negando tudo o que vinha de dentro de mim, obtendo a negação final de que não posso negar mais, de que atingi o ponto último da negação de tudo quanto vinha de dentro de mim, negando-me inclusivamente a mim mesmo, à minha existência e a uma outra série de coisas, várias outras séries de coisas a que não aludirei, mas que foram negadas por mim na passagem do tempo. Por todo o tempo que passou, portanto até agora tenho negado tudo o que se me assuma à mente e a qualquer lado que eu o identifique, sim não dou abébias, não facilito, cumpro a minha missão árdua e penosamente, o relatório será entregue. E isto seria verdade se eu fosse maluco. Como isto aconteceu de facto, fui eu que o vivi, sou maluco e conto acerca disso. Compreendem, os traços originais perdem-se profundamente na mais clara das ironias, o som profundo do que nunca escutei bate-me nos ouvidos, como não posso ter escutado, como há coisas que não escutei, onde estava eu quando ele explicou o porquê de tudo isto, quem é que lá estava, o que foi que ele disse, quem mo vem dizer agora que tenha ouvido a quem tenha ouvido dizer de quem lá tivesse estado e ouvido o que ele disse para agora me dizer, não, não sucederá, e eternamente ficarei à espera, até que morra e passe o efeito da droga do esquecimento e possa por fim lembrar-me do que ele disse, porque era eu que lá estava nos ouvidos de quem estava nas mentes de quem o ouviu dizer o que disse e agora nada mais faço do que dizer o que ouvi é assim que perpassa a memória dos indivíduos nos tempos, dai de vós aos outros para que fiquem gravados nos anais da história da memória colectiva dos homens e quiçá no registo cósmico, tudo é a mesma coisa e coíbo-me de avançar mais neste pensamento por risco de incorrer em falha ou lacuna de termos técnicos uma vez que o estudo destas cabalas está separado para os iniciados pela mão daquele de que ninguém fala, e que está em mais sítios do que o que seria de esperar no complexo de tudo isto.

Diálogos

Agora a presença do que se imaginou está lá dentro e quem entrará, tão mal que te ficam esses gestos e essa postura, o que tinha para dizer disse-o no escuro a criaturas sem ouvidos, a construção que querem ver autodestruiu-se no momento em que apareceram, não foi para vocês que eu cantei, não eram vocês que me estavam a ouvir quando falei e disse, agora não tenho nada para dizer, fica tão mal, não é de bom-tom, qual é o caminho que é desenhado, a pessoa de mim que constroem, para que cresça é necessário que me oiçam, mas e se eu já disse tudo, quem lá estava, não eram vocês, era outro público outros espectadores outra resposta, foi para eles que cantei foi para eles que falei, não mais agora, calar-me-ei, ficarei mudo e quedo para ver se assim qualquer coisa muda, para ver se quando a porta se abrir e a vossa resposta falar eu tenha o que lhe perguntar, talvez assim a voz não se cale, só não sei o que direi ao público que sempre me acompanhou, àqueles para quem desde a infância canto, o que dirão eles quando a voz se calar, talvez nem digam nada, talvez seja só mais um murmúrio daqueles que não oiço porque sou mouco, ela está lá sempre à espera, quando chega fica alegre, fica contente, esboça um sorriso, e tu sempre pronta a dominar, com uma palavra grave sempre, cuidado com aquilo, anda mais depressa, não te chegues tão perto, e lá se vai o sorriso, até à próxima vez, não sei como resiste esse teu sorriso, um dia lembrar-te-ás da tua infância e de quando estavas à espera, contente e alegre, a influência dela será transportada para outros dias, para um presente que ainda não conheces porque é futuro, que se mantenha a tua alegria no sítio dela, os ajustes ficam para quando o juiz voltar da pausa. Ele também aprendeu bem a lição, mal entra procura avidamente o lugar, depressa o acha, é diferente o espaço dele, ninguém o vê, o que verá ele, sei que se senta depressa ou vai depressa para o seu lugar, são pessoas com existências à parte, a mim também me deveria ter sido dada uma existência à parte, mas fui condenado a ser igual aos outros, não sendo, sou mais um sendo uma sombra de mim, tudo o que sou não é para o mundo, a falha torna-se mais perceptível à medida que aumenta a necessidade do que vem de vós, o meu caminho não é igual ao vosso, a prova está em mim, na minha existência.

Diálogos

Esse gesto assenta-te mal, essa postura também, porque é que ninguém me disse, a voz que cantou para mim através da minha boca, espectáculos que ninguém ouviu, público ausente das minhas palavras, discursos orados a figuras imaginárias, com resposta e tudo, com construção sintáctica elaborada, tendo em conta todos os pormenores da resposta que ninguém deu, porque quando a deram calou-se a pergunta, calou-se o discurso, calou-se a voz acabou a música e o plano falhou.

Diálogos

E se são estes os tempos, se é chegada a idade do ferro, então eu sou aquilo que sempre quis ser compreendem, e os lapsos são explicados de uma e de outra forma, dói-te a cabeça, jantámos onde nos apeteceu, o que aconteceu não sei, fios cruzados, um pássaro que morreu electrocutado, não era suposto que ali estivesse piu-piu, com tanto fio que há para aí, o ir por ali ou por aqui, não pode alterar o que não pode ser alterado, o que é de facto importante, quase que chorou, mordeu chocou, agora não, talvez mais tarde, numa outra oportunidade, não, não sou mau, ou talvez seja, na medida que me é devida, mas não é isso que importa, não é essa a razão para não ser agora isso que queres, é porque nunca fui isso que queres, disciplina e ordem sabes, todos os dias àquela hora e de que te serve, é esse o fio-de-prumo que te mantém de pé, a mim são outros, será só um, tenho as minhas dúvidas e nem sequer é de prumo este fio, antes um novelo sem pontas, sim pois, vêm de cá para lá, estiveste sem mim e isso que te mostrou, o que ela sabe sem saber, do que viveu antes de viver isto que vive, igual a opiniões de quem não sai de casa há muito tempo, às tantas pensa sempre a mesma coisa e que as pessoas estão no mesmo sítio, poderei ser eu que não me movo e quando me movo para onde vou, sim pois, qual é o pão, onde está, por que esperas para me responder, de onde vêm todos estes indícios de loucura, provavelmente do facto de ser louco, sempre o soubeste, sim pois, há pessoas que desaparecem e nem lhes percebemos o rasto, são os outros que o apagam para ficarem com mais espaço, acham que há falta de espaço, não sabem que cada qual tem o seu espaço e que o meu espaço é intransponível, foram escolhidos, fui eu quem os escolhi e ela saiu de mim era uma costela, quem a arrancou, terei sido eu, porque não me lembro, dos conhecimentos de anatomia, não terão sido precisos não, não foi nada disto, a mulher precedeu o homem na ordem das coisas e agora lembro-me de descer a escadaria em caracol, lá onde se pode dizer que tens raízes, tu também, teremos raízes nalgum lado, o que é normal, porquê querer dizer-vos, porquê toda esta importância para mim, do quanto profundos somos, a missão, tudo o que eles foram dizendo ao longo dos tempos, viveram e morreram tantos homens, tantos para o dizer, lutaram e morreram, apercebem-se da importância, porquê esta minha posição, aqui longe de vós, a querer estar num meio onde pudessem ouvir-me dentro das vossas cabeças, no que negam, no que desacreditam, nas escolhas que não fazem, no tempo perdido, o que é para vós o que pretendem que seja, deixem-se de influências.

domingo, 17 de abril de 2011

Diálogos

E então o que estiver no caminho será, mas e o poder de alterar o que está no caminho, sim ele existe, daí que tenha de dizer o que tenho de dizer no momento preciso em que o direi, e que mais, esperar, ver que as coisas como estão, estão bem, que nada preciso fazer para as alterar porque está tudo bem assim, ou então pelo contrário que está tudo mal e que nada vou conseguir fazer para mudá-lo, sabemos que é no meio que está o equilíbrio, é isso que se pretende, chegar ao equilíbrio ideia absurda, como se pudesse ser catalogado, deixa lá, fica a transparência, fica o momento certo, fico eu de joelhos perante isto tudo porque tenho necessidade de me por de joelhos e agradecer pelo que está pelo que é, pelo que não tenho de fazer esforço para manter, se é que isso existe, se calhar o esforço também é recorrente e nada há que se consiga sem ele, mas como não fui eu que inventei nada disto, e o que penso é porque já foi pensado, que elações poderei tirar, ou porque espero pela revelação, pela resposta, porque é que não me convenço e mentalizo da minha condição, sim pois, não, o que nos lembramos é do contrário, a criação dele foi outra, essa que temos no sítio que procuramos, o nosso ser, a nossa individualidade sem individualidade, sem ego sem mente sem corpo sem nada, o contrário de tudo isto, o nosso ser, a palavra que não há porque ninguém descobriu ninguém viu ninguém mediu e todos procuram e todos querem e todos perguntam eu pergunto se tu perguntas outras coisas, não perguntas isto que pergunto, mas conheço mais pessoas que perguntam, em verdade não conheço quem não pergunte, a resposta, essa é que parece estar só onde não estou.

Não estarei preparado, onde está o manual, Índia China Buda Cristo apetece-me apertá-los a todos na mão, sim pois pô-los todos dentro do mesmo saco, atado a pedras e jogado ao rio, e agora sem Bíblia sem livro de Mórmon sem mestres sem exemplos,

Copistas somos copistas,

Evoluam lá agora sem nada disto, que é o mesmo que ter tudo isto à disposição porque o caminho é outro e a negação a última a cair compreendem, voltas e mais voltas, até o circo acabar, até a tenda pegar fogo, intenções bondosas e caos, inferno e esferas celestiais e depois o quê, eu tu e eles onde, para quê, qual é o sabor, para onde vai toda esta gente, e de que raça é ele, o diferente de tudo, são raras as vezes a que chego a este ponto, mas quando chego vejo um abismo diferente de todos os outros, e se nada fosse verdade e se tudo fosse mentira e se depois só pó e antes só pó, também não fui eu que disse, mas porque isto menos verdade do que aquilo, mas logo alguém que diz eu sei, porque eu sei, porque eu vi, porque eu estive lá, porque eu faço parte, queres ver e vá de ver e está visto e o abismo ou a visão dele volta lá para de onde veio até a próxima vez que me depare com ela, para quê, voltas e mais voltas até que o circo pegue fogo, até que os tigres ganhem vontade própria ou voz ou asas e desapareçam, depois quem iriam pôr a saltar por dentro dos arcos, ou nos cartazes anunciantes, e se nós nos fossemos embora para outro lado, quem é que cumpriria o plano dele e se ele estiver morto o que é que isso faz de nós e se ele for uma criação da nossa mente e se tudo é uma criação da nossa mente e se nada tem existência noutro lado que não na nossa mente, não, novamente a voz que sabe destas coisas e que diz que não, mas aqui a cara contrai-se, ameaça qualquer coisa dentro do estômago e prefiro calar-me, aqui posso fazê-lo, mas tenho sempre que continuar a falar de outras coisas ou sempre das mesmas depende do ponto de vista, depende de quem leia depende de quem as escreve depende sempre depende, nada é assim ou assado na minha cabeça e o que é depressa deixa de o ser, o que é está à parte e não comunga do restante espaço, desse espaço onde estou forçado a estar permanentemente para fazer isto que não sei bem o que é, para ir ali e pensar e fazer todas aquelas coisas chatas das quais só ficam aqueles momentos de prazer que segundo dizem são patrocinados pelo outro, enfim, por aquele de que ninguém fala e quando falam são excomungados, atrocidados estropiados mutilados, a porcaria e o nojo, as crianças conseguiram fazê-lo sem nojo, conseguiram remexer por entre os cadáveres, procuram Paz encontram corpos sem vida, lixo, destroços poeirentos bafientos e putrefactos, percorro o abismo até onde há caminho, depois o resto é cenário, paisagem apocalíptica do meu enleio.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Diálogos

Estou no normal como quem está noutra coisa. Estou no pensamento superficial na conversa banal nas palavras fúteis nas vidas ilusórias e iguais umas às outras como produção em série nos pensamentos estereotipados nos enunciados linguísticos entrecortados pela ignorância e pelo analfabetismo, estou nos discursos marginais no calão, nos dizeres regionais catalão e mirandês ignotos, palavras dos avós, estou nas sete mil palavras gastas por dia para dizer nada, estou nas conversas de todos os dias, todos os dias a dizer a mesma coisa para iludir a morte. Estou nos que fazem incursões às altas esferas, ao topo do monte, que vêem lampejos de verdades ocultas, estou no silêncio, espaço infinito para o desabrochar da conversa, estou nisto tudo por tudo isto fragmentado e repartido, porque tudo isto existe e não estou fora de nada, não sei porque não te quero ver, são recordações que não quero recordar, são traumas que não quero viver, são memórias que quero apagar, são passos que quero dar, és a muleta que quero deixar. Estou para isto como para o passado e para o futuro que não estou, mas também existo e o que faço é por tudo isto, pelas palavras no que a elas diz respeito, das emoções, da longa paleta que as matiza e que de tão perto estarem ligadas às palavras e estas àquelas que se confundem, nelas estou com o sangue, as emoções são a vida, a humana e a sua supressão almejada por tantos, traria qualquer coisa que não sei, não tenho capacidade de sequencialização e de momento afasto esse pensamento dos meus pensamentos, essa relação intrínseca do humano com a emoção encontra em mim um dos expoentes máximos e estou em qualquer uma delas como na antecâmara de todas, espectador, tudo sentindo apesar de nada ser meu, mas quer numas quer noutras, palavras e emoções, das quais muito mais se poderia dizer, estou eu para elas de todas as formas possíveis neste relacionamento que me vou abster de adjectivar, porque ainda que eu explane e inteleccione esse relacionamento, o resultado dessa operação não seria igual ao meu ser e dar-me-ia a conhecer não a mim, mas a uma função de mim, em relação a uma vida imposta. O meu ser é tão ignoto como a razão da vida, a vida é tão complexa quão complexa quisermos que ela seja. Perpetuamente passa a electricidade de mim para ti, carga positiva e negativa infindável, que nos carrega e transporta, transmutando os nossos seres num, és o maior dos meus vícios a água e o ar, a substância de que sou feito, compreendes, é aqui que estou, nos mistérios do insondável e inexplicável amor que nos transcende e abarca como peixes do seu mar ignoto. Vamos criar aquários e mostrar ao mundo réplicas elucidativas, não têm nada a ver com isso, é nosso e ninguém nos tira, ninguém nos impede, ninguém nos trava, não há necessidade, tenho as mãos a cheirar a futuro e a passado milenar e a alma na nossa secreta dimensão, secreta porque só nós a conhecemos, secreta porque feita de e para nós.

A vida é boa. Se fizermos e pensarmos só coisas boas a vida é boa. Afinal onde estão as coisas, como evoluem estes pormenores e se tornam em por maiores, estes murmúrios do frio, estas gargantas queimadas que bradam impaupérios dentro de mim e dentro dela que teve uma infância infeliz e usa o sarcasmo para esconder a fragilidade dentro dela, como se um sentimento bastasse para esconder outro, como se algum sentimento fosse substituível, ou como se fosse possível mudar a essência de algo que já se sentiu. Então porque sentimos coisas que não são boas, é isto que interessa perceber para percebermos porque é que a vida não é boa, porque afinal onde estão as coisas, o que mais é a vida senão aquilo que sentimos, o que pensamos, como agimos e não é isto tudo a mesma coisa, dizer sentir ou pensar ou agir que diferença faz, não são eles partes na evolução de qualquer coisa, não é essa qualquer coisa que nos interessa, ou vamos considerar o estudo de uma componente da questão quando o que queremos é obter a resposta primordial, a resposta primeira, aquela que responderá a todas as nossas dúvidas, é isso que tentamos obter quando perguntamos, pergunto se perguntam de outra forma, perguntarão outras coisas e não isto que eu pergunto, mas sei que há mais quem pergunte isto que pergunto, há mais quem queira esta resposta primordial, para ser sincero não encontrei ainda pessoa nenhuma que não o quisesse. Que espécie de criatura é esta em que me estou a tornar, será urgente dar-lhe um nome para que me possa pensar como sou, não sou isso que dizem, não sou isso que me chamam, sou outra coisa, também não sereis vós a dizer-me como me chamo, só eu sei e quem de vós para me conhecer, para saber quem sou, para falar comigo. Falam com projecções de sombras recortadas nas vossas imperfeições, aspirações e desejos, sou o somatório de uma série de coisas, mas nós não olhamos para as coisas, olhamos para o todo, ou será ao contrário que fazemos, como fazemos, como faremos para que suceda, como fizemos para que acontecesse, eles estão entre os espaços vazios de tudo isto, conquistas ao vácuo, de domínio em domínio até dominarmos o quê, senão a nós próprios. Trago comigo trazemos connosco a memória do que está lá, sim tu trazes também, ou não trazes, se queres afirmar que não trazes por mim tudo bem, continuarás a trazer, o juiz está a fazer a pausa para o café, não há escala que te meça, faz o que quiseres fazer, diz o que quiseres dizer, mas a vida é boa se tiveres só pensamentos bons e somente enquanto tenhas pensamentos bons, porque quando a tua vida for má é porque os teus pensamentos não foram suficiente bons, não estão a sê-lo. Não confundas com a aceitação pacífica das fatalidades, não confundas com a resignação a um destino triste, não confundas com nada porque sendo algo de diferente isto de que te falo não é passível de confusões, também não importa que não entendas, será só mais um dos pensamentos que não vais entender, o que é que isso pode influir no fluir dos acontecimentos, no palmilhar da escadaria em carrossel, voltas e mais voltas espiral das espirais, quero aprofundar a imagem, perceber as coisas com as dimensões todas, não com aquelas que ainda não consegui desenvolver. Tudo em função de, sempre tudo em função de alguma coisa, queres perceber e cada vez mais te baralhas, queres ser e cada vez mais te dispersas, queres e cada vez menos tens. Que lei esta que apoia sempre o que está ao lado, que vida esta que nos escapa por entre os dedos e as unhas e os dentes e o imo, que nos escapa, que está sempre por detrás, que nunca é, mas sempre quer ser.

Sombra.

Acendo-me na sombra de mim vivendo a loucura que a luz renega. Sinto a loucura como a minha sombra, como chão e a luz, a luz é a minha podridão revelada, a luz é o mal na sombra, só existe bem não pode existir mal, não se vê portanto, tudo é sonho e sombra.

Sou uma sombra, preciso saber que ímpeto é este, que força malévola esta que me quer arrancar do meu mundo, para me apresentar um que não é meu, que não me diz nada, ao qual eu não me aplico, para o qual eu não sirvo.

Cópia ordinária de mim.

Uma cópia ordinária de mim é o que vocês me pedem. Repugnância. Pedem-me repugnância, exigem que tenha maldade. A bondade não existe, o amor não existe, eu não existo, não sou nada ou ninguém, não fui eu que disse. Querem ensinar-me como ser no vosso mundo, querem que eu siga os vossos ditames e regras e normas e procedimentos em nome da minha saúde e bem-estar, nascer no meio de vós deixou-me com um mal-estar vitalício. Pois quem sereis vós, recuso-me, a fazer parte de vós, é miserável que sou, é assim que me vêem, abóbada de cristal e simplicidade, a única razão porque não me declaro louco é porque não o sou, não sou mais um daqueles para rotular e esquecer, a mim nunca me conhecerão a tempo de nada, jamais suportaria ser fosse o que fosse no meio de vós, para quê, ganhar a vida, por favor, prefiro perdê-la na minha escuridão, não vos renego, sei que existem, por isso eu ando no meio de vós compreendem. Na ausência da minha existência os restantes indivíduos comportam-se da mesma forma comigo, é-lhes indiferente e desconhecido o facto de eu ser aquilo que sou, não têm meio de saber, eu não lhes digo, então criam uma cópia de mim na cabeça deles, que vai crescendo proporcionalmente àquilo que levam de mim, ainda que levassem tudo, não levam nada e querem poder esperar e nutrir por mim alguma coisa, por mim por ti todos por todos, nega-se, mas andamos cá, uns mais que outros, sim pois, não posso deixar de pensar que andaremos, não posso deixar de pensar.

Levar as coisas mais a sério dizes tu, compenetrar-me no que estou a fazer, mas e quem me vem dizer o que fazer daquelas coisas que estão gravadas nesta genética que desconheço, estas respostas, reacções, todos estes termos que lhes chamam, para quê lhes chamam se não sabem de que se trata, saberão, duvido que saibam, eu não sei e quem me vem dizer, são essas as respostas que me fazem falta, vai por aqui vai por ali, ou isto ou nada de nada, ou os fascículos disto e daquilo ou os jornais e as notícias de jornal, nada de nada, porque é que as pessoas reagem como reagem, as respostas quando ainda não se disse nada, aquele momento antes de se dizer alguma coisa, o que manda que se diga isto ou aquilo, qual é o ponto de equilíbrio entre o que somos e o que dizemos, eu quero dizer-me é isso que quero, não quero falar dos fascículos, das notícias dos noticiários, recortes de jornal retalhos de conversas tidas na terceira pessoa, nunca está cá a pessoa de que se fala, nunca é nosso aquilo que é bom, é sempre dos outros aquilo que é mau, quem se diz se tudo isto é mentira, metade uma coisa metade outra, então não é aí que está, não fui eu que disse, a dualidade é perene, não sairei, porque não posso, disto e disto mesmo eternamente, perspectivas abram-se perspectivas, veja-se o que é de ver, são muitos os exemplos, mostrar em vez de explicar, que mostrará, que mostrarão as vidas dos que nos circundam, que porcaria, que trauma, sempre a mesma maneira, os gestos excessivos, as respostas excessivas, qual é a razão qual é o pão onde está por onde é suposto, teremos que ver o podre para podermos ver o fresco, ele é que disse que assim era e que assim se servia das coisas, ele, não eu, que isto era para se dar valor àquilo, que o outro era para se ver aquele, e que tudo está ao contrário, são eles que dizem não eu, é reconhecido que isto está de cabeça, que o universo é um cancro divino e que nós nada mais somos do que pecadores compreendem. E tenho uma vontade imensa de sair daqui, mas não tenho outra hipótese, inclusivamente já pensei se não é de facto aqui e somente aqui que estou, sendo que repito isto durante todo o tempo, mesmo quando o não repito aqui, porque tudo o que digo, que não seja isto me soa a falso, postiço, e se chego ao dia em que percebo que não fui eu que disse, que tudo já foi dito por ele por eles por nós, que não há novidades, já estou a mentir outra vez, terei alguma vez estado a dizer a verdade, quem a vem reconhecer e ler-ma para que a saiba, ficam os pequenos momentos, ficam os pequenos prazeres e que mais fica, tenho que encarar as coisas de outra forma, acordo e tudo é diferente, enquanto não me interessa se eles estão lá ou não, porque há outras coisas para fazer e devo ter a disposição certa para fazê-las, isto sim não fui eu que disse, mas tenho que o repetir a bem, de quê, não interessa, a bem. Porque é isso que quero, que as coisas corram bem, que coisas, a luta é incessante, mas agora apenas isto, apenas esta vertente dos acontecimentos, esta secção, sim ser assim e assado, transparência meus amigos transparência, para que vejam o que é preciso ver, o que depois não custará a provar quando precisar de ser provado, dizer o que é preciso dizer no momento preciso, aqueles segundos que se seguem ao clic, aquele clic que se ouve, tenho que dizer o que é preciso dizer imediatamente a seguir ao clic, porque senão já passou o tempo, depois já não dá já não serve já não há como dizê-lo e preciso dizê-lo para que se realize, a bem, a bem de quê não interessa.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Diálogos

Gosto de pessoas assim, é tão bom não é, a atenção, és atencioso delicado, não importa que seja pouco densa a tua substância, isso é outra conversa, é tão importante nesse contacto superficial, mas assim como tu verdadeiro, o juiz não está cá, mas nós sabemos destrinçar, essa capacidade que temos, uma pessoa de crosta uma pessoa de nata, não tem nada a ver. Pronto e lá foi ele outra vez, com aquela sensação aquelas voltas no estômago que até cai mal o almoço, não há grande coisa a dizer, o de sempre, depois entramos em contacto. Já estive do outro lado, já fiz o mesmo inúmeras vezes e nem assim, não passa, não ultrapassa, ele eu que diferença faz o que interessa é que se diga e que se disse, nada de jeito, agora está nas mãos de alguém que não nas minhas, o que estava nas minhas vai sendo feito, que posso eu fazer nesta engrenagem absurda, não pensar muito e entregar, não é por ser o mais fácil, é mesmo porque não posso fazer mais nada, sim pois, cansa-me este assunto quero depressa que acabe quero vir-me embora, sei que terei de voltar, a insistência é das melhores armas de que disponho, insiste debasta, só assim meu amigo só assim, e é preciso, usar de todo o tempo útil para partilhar o tempo útil, é o que se quer é o que se pretende, mas agora tens compromissos isto é tudo igual estar aqui ou ali o que alteram os compromissos, o que não posso é andar com a vida desencontrada, é sim uma nova fase, assim se pretende que seja, assim se quer que seja e o que manda mais nesta vida que o querer, não é ele o poder, cuidado com aquilo que desejas, ser-te-á certamente concedido não fui eu que disse, mas é verdade constatada e constatável, agora o que quero é isto assim, é continuar o que está começado se possível uma sequência, eles gostam de ver sequências, de achar o fio condutor, dá confiança, haverá ainda quem saiba o que isso é, mostrar valor a quem o queira ver, dar de mim sempre, sim pois, é para isso que cá andamos, voltas e mais voltas de novo o ponto zero, mas agora é diferente agora há uma base, algo por onde começar, algo a manter, a sustentar, que bom que é que assim seja, ajudas todas são bem-vindas, agradecimentos sempre a todo o tempo por tudo, desde respirar até ao mais abstracto dos pensamentos, pois que tudo é dele e nada nosso, e a alegria está nas pequenas coisas, dele e do outro o que não posso dizer o nome nem sequer falar dele, carregue ele o que carregar, está sempre presente também, sim pois, mais uma volta, não vais para aqui nem para ali, voltas ao mesmo sítio e vives tudo outra vez.

Concretamente qual é o sitio, assinala-me o ponto no mapa, revela-me os pontos mais escuros que não tenho tocha, ou terei, terei até um archote que me alumia eu é que não olho para a luz que ele aponta, o que será que acontece. Abrir os olhos, estar atento à mente, não pensar em nada para melhor perceber o que se passa, para perceber o que é isso que vem aí, o que preciso fazer para que suceda o que quer que tem de suceder, porque sinto que tem de suceder alguma coisa, sinto e quero com um querer que está dentro e fora de mim, é aquele querer que tão frequentemente me ultrapassa, são aquelas verdades que aceito muitas vezes como mentiras, porque não acredito nelas, mas preciso de as aceitar, mais tarde vejo que sempre foram verdade, eu é que não sabia. Aceito as minhas derrotas como derrotas que foram. Não fui o que poderia ter sido e agora o que serei. Será perpétuo o poder sempre ser alguma coisa. Será diferente o que posso ser agora do que poderia ter sido, do que serei se for alguma coisa. Será tudo um caminho porque afinal só se é uma vez só por um momento e nada mais e esse momento ainda não chegou, mas não, eu já fui, eu sou de facto alguma coisa. Então porque espero, o que é que me falta, tempo, o que é, consegues ver o que é que te falta, saber sem sombra de dúvida, ilumina-me esses pontos negros, ou não me ilumines nada, será que é isso, será que não podemos fazer tudo o que eles dizem, até onde será lícito, entregar-me assim ao que não conheço, como posso entregar-me, sem que eles queiram que me entregue, sem que queiram receber-me, onde serei bem-vindo, quem me espera, esperas-me tu, desde tempos imemoriais, e agora estou contigo e só preciso de estar contigo.

Estende os braços, estende os braços

Chamaste-me a atenção para algo de que não me tinha apercebido, terei tempo, estarei sujeito como outras coisas a um tempo, estará o meu pensamento condicionado ao passar dos dias ou das horas ou seja daquilo que for, o que o condiciona, me condiciona, te condiciona, o que nos condiciona o pensamento, será o tempo, posso estar, estou há muito tempo no mesmo sítio, dizem-me para me levantar dizem-me para me baixar, dizem, vai agarra, faz realiza, não podes parar, não te podes sentar, não podes descansar, podes e não podes dizem, e eu estou tão quieto tão quieto que eles nem me vêem, sempre no mesmo sítio. Tão quieto que até eu próprio frequentemente me esqueço de que estou aqui. Não ali não onde eles quereriam que eu estivesse, não onde tu esperas que eu esteja, não onde ela queria que eu estivesse, não onde ela precisava que estivesse estado, não onde ele me quer levar, onde eu estou onde sempre estive, aqui. Porque ele disse, porque cometeu o erro de errar, ou de querer conhecer ou seja lá o que quer que tenha sido o erro dele que nos trouxe para este sítio, eu estou lá, desde sempre, desde que ele errou, desde que me foi dada a existência, portanto ainda antes de ele ter errado já eu existia e já estava onde estou, aqui. Facto algum me vai fazer mudar de sítio, mexer-me, agir, ou qualquer uma das outras coisas que eles me dizem para fazer, compreendem.


olhai e vede