quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Diálogos

Mas nem à minha loucura dou a expressão que ela merece, nem ela é plena em mim, nada é pleno em mim há alguma coisa plena em alguém, não, no ser humano nada é pleno, a plenitude é um atributo que não há, que só há no mundo que não há e que busco que buscas que buscamos, é por buscar o impossível que sou louco e infeliz e triste, se buscasse o possível o material e o realizável seria feliz porque o alcançaria, assim estou condenado e escravizado até que a morte me liberte para a nova escravatura, até que cesse de existir e me torne naquilo que não é. Ser é não viver, contudo no ser está a verdadeira vida, a verdade está na negação de tudo o que existe, no contrário do universo está deus, tudo é uma inversão, vivemos do outro lado do espelho e estamos do lado de cá a olhar para nós do lado de lá e a cuidar que o que vemos é a nossa imagem reflectida e não deixa de ser se fossemos simples não precisaríamos de espelhos que espécie de bicho se contempla o pior é que nem é a nós que contemplamos porque não somos o que vemos ao espelho, no pensar que somos aquela imagem que está uma grande estupidez, então o que somos, somos o que não podemos ver, somos aquilo que não está, porque não está sujeito ao espaço ou ao tempo o problema está nas concepções, a alma está dentro do corpo, mas quantos corpos foram abertos em que saíssem almas de dentro deles, nada mais se vê senão entranhas iguais àquilo que está por fora, então onde está ela, não está, mentaliza-te não está, contudo existe e ela és tu e esta concepção que é qualquer coisa para lá do mundo e da realidade é a porta da verdade porque toda a verdade é assim, contrária ao mundo, invisível intocável e inatingível.

Mas achas bonito o que se está a passar, e acho bonito, o que eu vejo é uma grande discrepância, vejo vontades e ausência dela, vejo decisões que pretendem mudar toda uma vida e vejo mudança de decisões, não vejo nada, não vejo nada do que quero ver, tento achar a cada pensamento o porquê de mais um pensamento, continuo à procura de um fio condutor, ainda dentro de mim a luta de clãs e titãs pela posse da verdade aquilo que é não se consubstancia evapora-se foge e volta a chover sobre mim num ciclo do qual a cada novo ciclo me julgo liberto.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Diálogos

Um dia a justiça reinará no mundo e neste universo todo, quando os homens viverem os seus sonhos quando as guerras forem travadas contra a ilusão e a bruma e sim os sonhos serão realidade luta lutem lutarei enquanto tiver vida enquanto tiver forças para lutar e sonhar lutarei para que os meus sonhos se tornem realidade jamais esquecerei aquilo que não pode ser esquecido amar a única coisa que nunca mudará que não está sujeita ao devir o amor luta lutem lutarei o sonho será real é mais que uma esperança é o ar que respiro é a energia que me faz levantar que me faz deixar o sono amar a vida é o sonho sonha sonhem amem vamos em frente passo a passo calma não tenham pressa vamos edificar vamos construir solidez vamos cada um de nós na sua viagem atraído pelo seu centro de encontro a si mesmo até que se encontre até que se enfrente até que se confronte consigo mesmo até que vença as suas mentiras e seja íntegro essa a primeira viagem antes dela nada poderá acontecer caminho caminhas caminhem para o vosso ponto zero para a vossa base a minha base que se quer sólida, não ponham o carro à frente dos bois, tudo está dentro de ti, dentro de vós dentro de mim, dentro de nós, tudo, o mapa do plano não esqueças não esqueçam não se confundam primeiro uma coisa depois outra não queiram nada queiram nada ambicionem nada podem ter enquanto não chegarem ao ponto zero ao vosso centro o encontro contigo mesmo para lá das ilusões para lá de tudo a tua verdadeira essência busca-te busca-a encontra-te encontra-a luta lutem sonhem essa é apenas a primeira viagem, concêntrica centrifuga, sintam o chamamento da vossa alma deixem que os anjos vos auxiliem tudo é a mesma coisa e depois de chegados ao ponto zero poderemos edificar no positivo, olha olhem não vês não vêem que estamos no negativo que tudo isto são passagens e desvios sempre no negativo que por mais voltas que dê que dês que dermos vamos sempre voltar ao mesmo ponto ao centro ao centro de mim ao centro de vós mesmos é claro nem de outra forma poderia ser é esta a primeira viagem é assim que deve ser encontra-te encontrem-se eu encontrar-me-ei já falta pouco integridade sinceridade e verdade eu próprio sim é longo e extenuante sim à nossa volta podemos observar almas que sucumbem, mas não tu acredita sonha luta lutem. Quantos becos sem saída precisarás de conhecer a quantos poços sem fundo terás de conhecer o fundo podre e bafiento quantas viagens perdidas em viagens sem volta sem retorno o maxilar as ânsias os espasmos as contracções do diafragma, não é na multidão que está o teu caminho eles como tu procuram o que não achas o que não acham procura no sítio certo para tudo deixa tudo deixa todos nada importa tudo deixou de existir porque nada será teu nada poderás ter nada atingirás se não te atingires a ti primeiro e tu estás dentro de ti tu estás por baixo desse corpo que assassinas por baixo das contradições da incoerência do desassossego das ânsias do tédio da moléstia da abulia tu estás lá bem no centro que te chama basta que cales o mundo e te escutes não aos instintos primários não às vozes assassinas que te mandam destruir que te mandam suicidar partículas da tua veste corpórea a vida não é uma sucessão de prazeres efémeros em que o eterno circulo vicioso te consome pára eles procuram o mesmo que tu a resposta não está aí, não há erva alguma que traga o milagre nenhum químico conhece a mistura perfeita são tudo desvios alterações de rota viagens ao redor de ti mesmo no fim sempre o mesmo ponto o centro de ti que clama o encontro o confronto sonha não te esqueças sonha luta lutem.

Diálogos

Salvem, salvem, salvem.

Salva, salvem-se salvar-me-ei salvar-te-ás salvar-nos-emos todos ou nenhum, afinal o que somos o que sou o que és, o que importa.

Ritmo, falava-te de ritmo, lembras-te quando te falava de ritmo, quando te dizia o como era importante manter o ritmo, a irritação com as coisas que fazem perder o ritmo, a irritação é uma alteração de ritmo, manter o ritmo, ó ritmo cósmico, não sentes, queres sentir não sentes, sente cala silêncio e sente escuta o ritmo cósmico e o teu o meu qual é o teu ritmo, qual é o meu ritmo, de ritmos acelerados, ritmos brandos incertos, ai alterações de ritmo, lembras-te como dizer-te agora que a tua voz altera o meu ritmo, irritação, esquece ultrapassa ou só esquece isso, o ultrapassar, mas lembra-te, lembras-te de eu te falar em ritmos? A efemeridade das acelerações de ritmo é nociva, oscilações e decréscimos abruptos, o que importa é manter o ritmo e encontrar o ritmo, o nosso o meu o teu o ritmo cósmico.

Diálogos

Espalho-me no ar que respiram que respiras que respiro ouço-me e vejo-me sinto-me posso quase tocar os pensamentos que realizo a serem apanhados pelos outros que de pensamentos vão escassos, congratulo-me por serem meus os pensamentos que vivem, perder o controlo deles parece inevitável, mas nesse descontrolo revela-se-me uma presença oculta, que guia o curso das coisas fazendo-as parecer naturais, como o correr de um rio, se bem que natural é o correr de um rio e a água a cair numa cascata, isto é ser humano, viver: quando encontraremos o juiz com autoridade para nos dizer se vivemos bem ou mal, humano não poderá ele ser, não pode ser um de nós, mas pode efectivamente estar no meio de nós, e está, aonde não vos sei dizer assim.

Não vos sei dizer, não me sei dizer, ainda vou dizer muitas coisas, até que diga realmente aquilo que quero dizer, e posso nunca chegar a dizer realmente aquilo que querem ouvir.

Onde está, ponho a mão nos dois chacras mais afectados, assim os sinto, os dois perto um do outro, o ultimo e o penúltimo de baixo para cima, não digo que os outros não estejam afectados, não os sinto, não sei da sua evolução, ó kundalini onde andas tu, que te verticalizas dentro de mim e apontas para cima, sinto-te retorcer entre o primeiro e o segundo a contar de baixo, a ânsia o desejo que nunca se satisfaz, és tu que te mexes dentro de mim, queres a libertação, queres que cante para ti e te encante, para que levantes a cabeça e te ergas verticalmente dentro de mim.

Reboliço agitação aparelho digestivo indisposições gastrointestinais farofa maconha mesclado terrorismo al-quaeda bin laden cortar o pescoço à avó deitar tudo para trás das costas fechar a porta arquivar, arquivar dá-me uma sensação de sono, arquivo porque gosto de me passar pelos arquivos e gosto de ordem e progresso gosto, não sou brasileiro mas gosto, ele que disse eles que escreveram, quanto gostariam, indiferentemente a isso estão a ordem e o progresso, que têm existência própria, animada por aquela presença que não vos sei dizer, porque a outra não se diz, não se pronuncia o nome, porque não esta, porque será, e assim não se fala, e torna-se oculto, mundos ocultos, com e sem almas com e sem corpos mundos ocultos que mundo vês vêem em que mundo vivem vives quantos são quantos são venham todos venham todos serás o primeiro a fugir, não terás medo de ninguém, para que lado pendes, qual a opção que é tomada antes que a tomes, aquela aquelas as que nada podes fazer és assim pobre rico és o que és, sê, conseguirás ó que fito ó que karma ser, porque o não ser não existe e quem não é está enganado, tu, desculpa-me, mas é isto que penso, di-lo-ei, ai que gana desenrola-te, ó cobra sagrada, faz meus os teus olhos e deixa-me ver através de ti, mostra-me ao menos como libertar-te, como erguer-te como encantar-te, cantarei sim cantarei ao mundo a ti a ele e a eles cantarei assim de maneira a que só tu oiças.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Diálogos

Interrompo-me para falar de grandes dias daqueles dias sobre os quais, não te interrompas, se criam grandes expectativas porque de facto são dias diferentes dos outros dias em que por um determinado propósito uma determinada conjectura se desenha, mormente se juntam pessoas que raramente se juntam e todas partilham desse propósito comum que é comum não por ser de todos, mas porque é de um e outros estão em volta, é esse o clima especial, porque é uma altura única em que um centro se cria e depois é ver a esfera da gravidade de nós a saltar de um campo magnético para o outro. Afinal onde estão as coisas boas da vida, onde está o bem e a beleza, senão num gesto fraterno ao transeunte que se cruza connosco, numa palavra de atenção à empregada de balcão que nos serve, ah mas ele ia com má cara e o dever dele é parar quando eu quero passar, porque eu estou na passadeira, ah mas ela é paga para isso, não, toda a parte emocional de tudo não é paga, não é obrigatória, mas é necessária e regulada por outra coisa, que não um código de leis ou o cá e lá do poderio económico, isto está acima disso, sobre todos os pontos de vista, sim, deve começar entre portas, entre quatro paredes e um tecto, mas deve estender-se aos espaços abertos, às ruas cheias de gente, à multidão dos transportes públicos, às bichas na segunda circular e à entrada para o prédio que alberga a nossa casa, onde tudo deve começar, dentro de nós, de nós para connosco, trabalhemos todos pela realização desse fim único, fim de tudo isto, uma palavra terna, um acto de companheirismo, uma consciência de que estamos todos no mesmo barco e que individualismos só nos levarão para mais longe do objectivo que é o encontro pleno com o centro de nós, a junção do nós convosco num mesmo centro que é ele. Se as minhas prioridades não agradam aos cabeças de monopólio, aos usurpadores e aos insensíveis não estou nem aí para isso, já era de prever que não agradariam, mas também eles terão que passar pelo que digo, pois não falo por mim, nem por ti, mas por todos. E não, não quero nada, só vos digo que não passo enquanto não passarem todos, que não vou a lado nenhum enquanto tu estiveres perdido, enquanto ele andar a enganar o mundo, enquanto tu não reconheceres e ele não reconhecer que há apenas um caminho e que ele passa pelo centro de vós, pela verdade pela integridade e pela consciência de que tudo é a mesma coisa. Muitos já lá estão, fazem visitas diárias à sua casa, porque sabem que habitá-la só quando todos tivermos passado e todos são o universo inteiro, vede quão grande será a minha espera, a vossa espera, a espera dele, que espera pelos outros doze, quão incomensuravelmente grande é a nossa espera, se não começarmos já não haverá tempo e as consequências de ter de haver mais tempo não serão boas para ninguém. É o que vos digo. Isto e outras coisas porque não consigo deixar de dizer, vivo para dizer coisas e vou descobrir e agir de todas as maneiras possíveis para dizer o que vejo, porque vejo que o que vejo não é visto e que as verdades da vida estão diante dos vossos olhos e eu que chego de lá vejo que acenam para vós quando fazem precisamente o contrário, quando não querem ver nem ouvir nem encontrar o vosso caminho, perdendo-se nesses mundos que para vós são infinitos, só até ao dia em que deixam de o ser, em que o coração pára e o corpo apodrece e os impérios caem para darem lugar a novos impérios e a novos corações que batem nesses mundos, nesses corpos, ó força dai-me força, vamos juntar-nos clamo por vós almas que como eu querem a salvação da vida, juntemo-nos porque juntos talvez possamos fazer qualquer coisa a tempo de evitar o pior. Esperança senhores esperança, mas que coisa é esta aí, não entres aí, sais por essa porta, não olho para ti, sei como sais ou basta-me pensar que sei, não quero confrontos, não quero verdades, estou bem assim, esperança cinematográfica, assim e assado acontecerá que futurologia esta, o que é caso é que elas acontecem, mas porque é que eu não acreditei no que vi, é sempre aquela impressão que fica de desconfiança de mim mesmo, mas porque é que eu não lhe respondi, aí já outro galo canta, outros factores intervêm, porque quando se trata do ele e dos eles é outro galo que canta.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Diálogos

Perante a imponente fachada não sentimos outra vontade senão a de nos tornarmos pequeninos, do tamanho de um ovo que nos caiba na palma da mão, para aí nos agarrarmos e nos protegermos daquilo que sabemos ser tão grande e tão capaz de nos pôr capazes será que nos achamos capazes de ser capazes.

Passando o que é passado, o passado não é passível de ser passado por cima então, antes de ter acordado já sentia aquilo que me pareceu um gesto brusco vindo de ti causado pela sensação do que virias a sentir como reacção à minha reacção ao teu gesto brusco de pegares no comando e acenderes a televisão, eu que pensava que dormias ou pelo menos dormitavas, ou carpias as dores e prazeres numa de sorna, pegaste no comando com um gesto violento assim me pareceu, e logo as vozes cuspidas pelo aparelho vieram como facas irritantes irritando os meus ouvidos trazendo-me de lá, desse refúgio esconderijo onde estava escondido, irritação, não queria de lá sair, e logo trazido por um sentimento que senti antes de vir, porque a sensação foi que a ti algo te tinha trazido e forçado a ouvir as vozes irritantes, eu não queria voltar e não voltei, não voltei, não voltei. Porque não entregar tudo nas mãos dele e dormir porque não, porque afinal é a vida ter tudo isto nas mãos porque viver é ter tudo isto nas mãos e a nós para concretizar e os meandros da burocracia e o enleio e o engodo para combater com a integridade de nós, cuidado que te passam a perna, agora já querem setenta e cinco, mais os quinhentos que entretanto tinham sido adiados, mas que serão devolvidos aquando do acto da escritura, sim palavreado de quem compra de quem possui tudo meios para esse fim sublime eterna busca não nos esqueçamos tudo meios ó busca eterna ó almejar perene disso que nunca haverá só aproximações não sim talvez mas afinal o que é a vida senão ter tudo isto na mão ou querer ter tudo isto na mão e não deixar para mais ninguém ter na mão porque esta é a nossa vida a minha vida a vida que eu escolhi aquela que quero ver realizada na concretização do meu ser do nosso ser destino inseparável carma comum venha a nós o teu reino e seja feita a tua vontade mas pelas nossas mãos ela terá de passar não terá sido para isso que nos criaste para que passem por nós a tua vontade e os teus desígnios destes mundanos também tu saberás sabes de tudo mas como entregar-te o que quero que me pertença o que quero que seja meu a razão do meu viver e da minha labuta sim um meio sempre um meio não nos esqueçamos de que é um meio e de que nada está atingido pois os impérios conquistam-se para mais impérios se quererem conquistar mas que quero eu afinal quero viver quero amar quero a simplicidade de tudo isto através da minha complexidade quero dissecar o mundo pelas palavras quero querer o que quero amar viver não há descanso há muito para ser feito e sou eu quem vai fazer tudo claro eu sem ti nunca nada disto faria como pôr todo este sentido em causa mais uma vez ainda outra vez por causa de quê não entendo como não me entendes como não estás do meu lado agora ontem sempre mais uma derrocada não a estrutura não abala até chegar o dia em que me digas acabou. E eu fique morto sem saber porquê a pensar que tu me conhecias a pensar que tu sabias a pensar que eu sabia eu não domino eu não me domino isto sou eu mais as coisas que estão para além de mim e que sempre farão parte da minha vida desde as profundezas que não albergo ao zénite fora de mim mais do que eu a energia que me usa é admitir que o que expresso está para além de mim é admitir que o que amas é mais do que eu e muito do que amas não sou eu como muito do que não amas, onde estou eu no meio disto em todo o lado e em parte alguma refugiado escondido no esconderijo nem sempre às vezes quem sabe quem assume quem é o que é ser sabes ó senhora da razão e das convicções inabaláveis eu que moldo que espelho que crio que transmuto eu isso que ainda tens por descobrir por aceitar por compreender por amar por achar por enfrentar eu todos os teus medos eu todos os teus monstros os que exorcizas-te e os que tens por exorcizar eu todo o mal e todo o bem dentro de ti eu essas perfeições dele por realizar eu essa miscelânea de todos eles sem ser nenhum, sem ser, prometendo pela imagem de mim que sonhaste, que sonhas, que amas, e eu, e eu como força criadora sonhadora enaltecedora de mim mesmo e do que é belo amante de qualquer coisa fora do normal fora deste antagonismo da vida que presenciamos todos os dias eu fora deste mundo eu projectado na saudade que tenho dos tempos a que pertenço da moral da força eu incapacitado pelo caminhar da gigantesca engrenagem eu oprimido por me sentir sendo em outro lado eu ausente de tudo isto eu lá nesse mundo que sinto e cheiro e provo eu afagando os teus cabelos negros ao vento e falando de amor sem depois sem amargura por vir sem monstros para decapitar sem mecanismos de defesa para ultrapassar pureza e essência eu saudade de ser verdade eu vontade de renegar a tudo o que me mete nojo eu tornado balázio na cabeça de todos quantos me enojam eu caos eu personificação da dualidade da humanidade eu eternamente a carpir como mártir que não sou o pecado que ninguém conhece. E eu, em vários mundos a sentir a gastar a dádiva do criador brincando como os outros brincam sendo através dos outros mais do que outros são sendo eu lendo e recitando palavras do livro que lê quem sabe e quem pode eu a boca do mundo dizendo da natureza de ser mortal e sonhando, sonhando com o fim com o princípio com a ausência e a presença do que está ausente eu noutro lado eu a teu lado eu só a teu lado eu a renegar a tudo sabes que não posso sabes que ele me espera olha para mim e espera sabes que sem ti nada será possível podes escolher mas tudo já está escolhido não aconteceu mas ele já sabe de tudo. Cansaço. Falta de sono. Inutilidade. Caos. Basta. Dir-se-ia que a caminhada já cansa, eu diria que ainda não começou. Mas torna-se complicado com estes momentos em que forças grossas me puxam por grosseiras cordas e me invertem o ser, não podes deixar que isso aconteça tens de respirar fundo e fechar a porta verás que logo te apercebes que outra se abre e por ela entram a luz e o branco, vamos fechar de vez esse portal escuro, essa porta dos fundos essa escotilha para o porão deixemos as ratazanas na sua vida, elas não podem pisar o barco, comem-nos o sustento e ratam-nos as vestes, cada coisa no seu sítio e na minha alma não há sítio para o mal. Então onde está o mal da minha alma, de uma vez por todas o que está tem que ir sendo filtrado reciclado e devolvido à proveniência e à providência e mais nenhum entrará porque nós não somos compatíveis porque a nossa natureza é o bem e o que é grande somos de constituição dual artriticamente infinitamente pequenos e infinitamente grandes mas a nossa essência não é infinitamente pequena nada tem de pequeno o bem não é pequeno o amor não é pequeno o amor não é pequeno e no fundo e despindo o superficial é isso que somos é isso que sou portanto em mim não há lugar para o infinitamente pequeno e nas minhas acções não pode haver nada que leve ao infinitamente pequeno, não busco não busques o prazer efémero não busco não busques a ilusão busco busca a realidade e a vida no amor incondicional.

Diálogos

Quanto mais alto se sobe maior é a queda. Que é o mesmo que dizer que quanto mais alargada está a consciência maior é o risco de nos perdermos em nós próprios. Neste momento sinto-me espectral, como se vivesse num outro plano e as pessoas que interagem comigo interagissem com a memória de mim, que está dentro da cabeça delas e que lhes é solicitada aquando da presença do meu ser espectral.

Antes de vir para aqui alguém me deve ter perguntado se queria ser grande, que terei eu respondido ou então ninguém me perguntou coisa alguma e sou na proporção do que fui. É aqui que reside a diferença entre ter ou não capacidade de opção. Se tudo é mediante aquilo que foi, então o que poderá ser, sedimentação. Puro acumular dessas coisas que em nós se acumulam, de forma peremptória e explicita às quais por mais voltas que possamos dar por todos os quereres e não quereres, e por todas as forças do universo combinadas, não, não podemos fugir, é demasiado, estará escrito, será curto comprido, as rédeas os laços os elásticos as amarras, ele forma cada tecido constituinte da máquina, é o sangue do sangue, a luta até à morte pela vida, o encontro.

Posso não saber muito bem como lá chegar, até julgar que me perco em becos menos explícitos, mas nenhuma viagem é em vão, será que não, de novo os ciclos, o princípio, todos os recomeços que vão dar naquele fim que sempre levará ao ponto certo, esse tal onde então o espectáculo vai começar, a cortina içada pela mesma mão que toda a vida almejou esse fim, que sabe que nasceu para ele e que vai porque vai cumprir o seu destino, fora com as palavras, cumprir-se.

Há um preço a pagar por estar despido frente à verdade, ela é a mulher sublime que só podemos amar nesse estado de pureza primeira ou última, dependendo do ponto de vista, vai dar no mesmo. E fazendo amor com ela, um amor não carnal, embora através da carne possa passar tudo isto, claramente o que está lá e nu é a alma, e esse estado tem um terminus, precisamente onde a carne começa. Na abnegação das coisas mundanas está o outro lado à espera para se revelar, esse lado de nós que persigo e que quero ver reflectido na minha vida, é isso que quero. Acordar sabendo que terei que me vestir para enfrentar o mundo, mas tendo perfeita consciência das minhas vestes, e quando a noite de novo me abraçar, lá estarei, nu outra vez para ela. Assim mesmo de dia e vestido serei eu na impermeabilidade de quem tem essa fé que mais parece uma convicção, uma certeza inabalável de que não haverá falhas pois nesta arquitectura não há pedras para cair, e tudo se sedimenta.

Oscilo entre os dois extremos do meu ser, a possibilidade de me realizar enquanto ser mesmo dando cumprimento a todas as minhas potencialidades, ou então o oposto, não dando a nenhuma o trabalho que lhe é inerente e desgraçar-me até ter matéria-prima para desgraça. Acontece que não estou à beira de uma decisão entre elas, sou de facto as duas, e às duas realizo. Daqui resulta que sei no que resulta uma e outra, não embarco numa porque não quero, na outra porque não consigo, parece muito simples, uma leva à destruição do ser, a outra à sua edificação e evolução. Simplesmente não consigo estar numa porque sou as duas, e ao estar nas duas não estou em parte alguma, o que uma me dá a outra consome; chamarei a isto equilíbrio, porque é o que é. Quando existem duas forças e do produto que advém de cada uma a outra se alimenta temos a função de equilíbrio. Sou equilibrado.

Mas ser equilibrado não basta. Equilíbrio não é igual a neutralidade. E uma coisa neutra o que é, é uma coisa que não é uma coisa nem outra, diz-se que está no meio, mas se está no meio terá parte de cada uma das coisas ou será feito de uma terceira coisa, e que coisa será essa, espreita uma tristeza à porta de mim pela natureza de tudo o que existe. A realidade, contrário de tudo o que se vê é algo que está para além do nosso alcance. Vivemos de e na ilusão. Tudo é fictício e a vida é o contrário do que pensamos. A verdade de cada coisa está no seu oposto e o que é, é em tudo contrário ao que parece. (Aquilo era ela levada ao extremo). Porque depois somos levados a extremos pela vida. É como se fossemos actores de um filme realizado por alguém que não é apenas realizador, mas palco, produtor, encenador, verba, matéria-prima, enfim, representamos esta peça em muitos actos e até nos deixam escolher alguns papéis se formos bons actores.

Outros haverá capazes de representar qualquer papel, mas por isso mais inclinados a representar aquele que mais os cumpre e que é simplesmente ser. Não ser tudo, mas especializar-me em ser, cortar com dispersões e fazer aquilo que me cumpre seja isso o que for (seja escrever seja dar de mim a quem queira e possa receber seja receber de quem tenha para me dar) seja fazer omeletas e beber água ou não fazer nada e passar o metal pela alma e dizer-lhe olá vem cá vamos ali. Mas confesso conceber de extrema importância esse vector crucial da minha vida e da minha realização enquanto ser, objectivo que persigo, que é partilhar preciosidades entre possuidores compatíveis. Troquemos essa preciosa informação que parte da experiência de cada um da idade da alma daquilo que cada ser é e não pode deixar de ser, todos juntos fazemos alguma coisa. Senão olhai e vede pensai, eu sou, ou pelo menos tento ser, outros há como eu que tentam ser, que lutam e sofrem por se cumprirem. Também há aqueles que lutam por outras coisas, opção a deles, que não invalida que cada um seja em essência aquilo que é, ou em última analise aquilo que poderá ou poderia vir a ser em potencial. Que se cumpra ou não esse potencial é a vida, mas todos juntos continuamos a constituir qualquer coisa. Os que se cumprem e os que não se cumprem. Os que se perdem em mundos fictícios e os que habitam o mundo de si, habitam e partilham e podem ver o mundo de todos feito de todos os mundos de si cumpridos ou em vias de, fazemos todos parte do mesmo sistema. A natureza e nós parte do mesmo sistema e porque não natureza também, portanto mais do que respeitá-la há que conviver com ela como parte integrante do nosso mundo, que devemos ter em consideração toda a consciência do que de facto é a natureza e não uma ideia aproximada, não, não tenhas medo vai tudo correr bem e pela ordem devida, preciso é que a façamos cumprir, vamos a isso então! Não, com desconfiança não se faz nada é preciso que à partida haja confiança, em tudo. Se partes para os outros com desconfiança dás azo a que os outros percebam que estás desconfiado e que reajam à tua desconfiança e isso não é bom. Como a escala do Celsius estar com valores muito elevados também não é bom, seca os ares e os pensamentos. Deixei de procurar lá fora porque lá fora não está nada tudo está dentro de mim tudo o que preciso. O mais é confronto disso com o resto. O experienciar é a aliança do que somos com o que nos cerca, mas do que nos cerca nada vem, tudo está em nós e o enleio apenas espelha aquilo que somos. Aos outros, a espaços e pessoas que não me reflectem ignoro de maneira absoluta como se de nada se tratasse. Estou noutro sítio, estou em mim e no meu pensamento que mora em muitos lados sob todas as formas possíveis e impossíveis, porque aquilo que se vê não é mais do que uma manifestação do que não se vê. A verdadeira realidade ninguém vê, ninguém fala dela. Mentira, há quem veja e há quem fale (não percebo por que é que quando acendo a luz oiço melhor) acontece que seria melhor que todos vissem que todos falassem, mas quando esse dia chegar deixa de haver a visível, deixa de existir aquilo que é real e passa só a existir aquilo que agora consideramos metafísico, ou seja para lá do físico, qualquer coisa fora do alcance. Erro dos erros, se disse errou, porque essa coisa que está fora do alcance somos nós. A merda está em cima de um trono a borrar-se para que os outros cheirem. Tenho um nojo visceral à arrogância do mundo, ao modo como se ostenta luminoso e floral ofuscando o verdadeiro mundo. Deixa-me num estado depressivo ver a perdição das almas ignorantes e iludidas que pensam que podem muito mas não podem nada. É-me completamente indiferente o modo como este mundo me trata. Não quero nem espero nunca vir a ser reconhecido. Porque não quero reconhecimento deste mundo. Não quero fama não quero glória não quero dinheiro nem bens materiais. Sei que toda a vida serei injustiçado, incompreendido, sobrestimado, criticado, julgado e muitas vezes condenado, porque não faço parte dele e não pactuo com os seus esquemas sujos. Tudo quanto faço é em nome do amor. É ele que rege a minha vida com os seus corolários de justiça, amizade e tolerância. O mais é imperfeição e mal que também os há em mim, a par desta inadaptação extrema. Olho para isto e já não sinto enclausuramento. Eu sou o que está para lá de tudo isto e há mais paisagens em mim do que átomos nesta construção de tijolo e betão e cimento armado. Ela é matéria moldada pela mente do ser humano, erguida e edificada em alicerces de aço, eu sou o sentido de tudo isto e mais cada alma por detrás de cada janela, cada alma dentro de cada corpo por detrás de cada janela, todos os corpos e todas as almas eu sou. Porque eu sou substância divina, sou aquilo de que tudo é feito, estou nesta massa infinita do ser magnífico e sublime que tudo encerra onde tudo começa onde tudo termina, de onde nada está excluído, onde a exclusão é um conceito que não existe porque a exclusão é o inverso de um conceito basilar nesse mar onde nado.

domingo, 28 de novembro de 2010

Diálogos

Atinjo um novo estado de comodidade, espelhado no desconforto com que olhas a vida, a corda que te puxa é a minha janela para a realidade inalterável de mim, os tempos proféticos que atravesso, que atravessamos, são propícios ao fluir caótico do que em nós flui.

E a espera está-se a tornar cada vez mais a nossa ausência da realidade dos outros a nossa absorção na realidade de nós. O grito deixou de ser contido ele tornou-se a substância e voz de estar de diferentes maneiras com os outros. O desempenho do papel tornou-se demasiado, tornou-se, alastrou-se de tal maneira que o que sobeja é encontrado como uma memória esquecida, trazida a lume agora pela acção remota que está no espaço pensado antes do tempo.

Sinto-me como um ácido que se dissolvesse e criasse uma pasta pegajosa da substância de mim, liquido pastoso no qual vou, no limite do deslizar no limiar do possível a roçar o absurdo. Rejo-me pelas leis que nenhum código penal contempla, pelos valores que a humanidade esqueceu. Almejo o que está dentro de mim, nada mais ambiciono do que ser. Ser aquilo que sou, mas pelo meio de tudo isto tudo o que mais temo me vem, tudo o que não quero que venha acaba por vir ter comigo. Isto a par dos sonhos que alimento e dos desejos que evoco com força o maior deles todos já realizado por essa força suprema e sublime que é tudo o que vemos e o que não vemos e está cá e lá e para além de cá e lá. São agora três e quarenta e três no mostrador preto de números vermelhos. Neste dia que começou ao meio-dia do dia que já lá vai muito haveria para contar e detalhar, o quê, a consciência da excelência da alma humana, a regência pela minha escala de valores, a importância de não negar o bem que sou. Ou reduzir ao mínimo possível no momento actual a perversão da alma. O mal na percentagem do todo que sou eu. São cinco e dez. A esta hora a vida é diferente. Pergunto-me se será de facto diferente, se serão os meus sentidos que estão diferentes e por isso a captam de maneira diferente. Mas creio que não. Creio que é o inverso que se verifica. Ela é de facto diferente e com isso a minha percepção dela diferente e eu diferente também.

Não tenho nós nem atilhos, nem ânsias nem angústias, tenho somente uma vontade imensa de que tudo isto se mantivesse com a passagem das horas e que com o decorrer delas eu continuasse a sentir nas outras pessoas e em mim e no ar esta sensação de finalização, de tudo feito e nada pra fazer, a não ser esperar por mais horas e pensar no que já está feito. Mas não. Tudo isto vai passar ao grupo das coisas nas quais não se pensa, ou se pensa pouco, aquelas coisas que amanha não vão passar do dia d’hoje, e que não vão ser base pra nada porque se vão dissolver no todo de nadas que somos.

E voltaremos a errar e a ir aos mesmos sítios e a levantarmo-nos e sentarmo-nos até que deixemos de o fazer, ou porque finalmente percebemos que é melhor nada fazer, ou porque deixamos de poder fazer seja o que for. Depois há também os que por aqui andam e não estão nestas condições ainda que por estarem aqui pareça que tenham de estar. Contudo tem tudo a ver. Estes não finalizam nada, começam alguma coisa antes de todos os outros deliberadamente. E depois existo eu que estou aqui para além de tudo isto como espectador destes cenários que não descrevo com personagens que não existem porque só as concebo enquanto ideias que possuo, então para existirem teriam que o fazer dentro da minha cabeça e moverem-se em qualquer lado para que eu as visse. Se isto for possível assim é, se não for não é.

Diálogos

A sucessão dos dias… por um lado cada dia é um novo dia, por outro o movimento é perene e tudo é a mesma coisa. O que não se sabe explicar permanece inexplicável ou já foi explicado em algum lado por alguém que eu não ouvi, ou ser-me-á explicado por alguém que tenha escrito para que eu saiba quiçá, onde estão os discípulos, se um assumir e aceitar que o que não sabe explicar não sabe explicar tanto se lhe dá que tenha sido explicado ou não, ele assumiu e aceitou que não sabe, se saberá um dia não creio que um pense se pensar também não será por isso que saberá ou deixará de saber seja o que for portanto é a mesma coisa, sim pois é a mesma coisa, tenho deus e o diabo sentados numa prateleira, tens temos terão, chegou a altura em que não posso permitir a mim mesmo certas e determinadas coisas a mim mesmo não me posso permitir e por conseguinte isto leva e trás um ás voltas do patamar para a escadaria em caracol de uns para os outros vós sois a ponte para ele compreendem,

Luzes cor de laranja, luzes brancas luz,

Escuro treva ausência de luz o preto que envergo aquilo que é,

(e aquilo que é feito para ser) de parecimentos está um cheio pois está, sim pois está talvez por isso é que não seja, só é aquele que é, ele é eu não sou tu és? Vou sendo conforme posso sei e quero, tudo o que a estes poros aflora sou eu, se não fora a mim que aflorasse não seria eu, escolho só o que entra o que sai, sai na medida do que é preciso, e o que vai sendo preciso é que tudo aflore, que todo o ser se cumpra, passarás tu e o velho da muleta a mulher obesa e o condenado o patrão dos patrões passarão todos ele espera eles esperam e eu estarei à espera quando o ser se cumprir como agora espero que se cumpra, a luz está em vós foi ele que se esqueceu de fechar a porta e eu vejo na escuridão que ficou depois de ter deixado de olhar pra lá, o lado de cá.

Tudo escuro do lado de cá, falo e de repente as lâmpadas começam a acender-se, o lado de lá, depois o lado de cá, o lado de cá depois o lado de lá, prismas reflexos tudo é a mesma coisa, tudo se acende, já não está escuro, pessoas chegam de lá, é a multidão, eu a apanhar a lagarta de ferro, chegam, uns atrás dos outros, o que os trás é o mesmo, os dias de trabalho, a sucessão dos dias, duros e rijos que pintam a roupa de branco por exemplo, ou às pintas, dias que endurecem as mãos, fazem calos e gretas rebentam a boca alargam os ossos.

O pincel e o sustento pelo buraco do vidro, cada qual tem a sua forma de pincelar, não fui eu que disse, cada um tem a sua forma de agarrar no pincel, sou eu que digo, uns fazem-no de forma rápida deixam escorrer o liquido picante não barram, outros com uma pincelada apenas barram tudo, são os traumatizados ou os que gostam pouco de picante, lá vai ele a molhar na tigela de plástico, em direcção à carcaça aberta com a outra mão, outra das que tocaram naquele pão, a do Zé que frita os couratos e o aquece no mesmo lume, ao pão do dia anterior, a do João que veio ver se o pão estava quente antes que o Zé passasse pão frio a mão que o pincela como se o pintasse, também eu lá vou à tigela,

E também eu pincelo como uma criança que não sabe o que faz,

E vejo-os experientes, a pincelarem, o João é o patrão, passeia o avental, passa um e outro copo por água, porque o líquido dos copos também precisa de mudar a espaços, movimento contado como os trocos que vai fazendo do que vai recebendo para deixar no banco deposito onde vai buscar outros trocos, aqueles com que agora completa a caixa, estes e aqueles no bolso da camisa, por dentro da camisola, pólo clássico, numa carteira que é arquivo de documentação, vibra o maxilar e gira nos calcanhares. O outro o terceiro, a terceira mão que toca no pão, mas também nos líquidos que jorram pra dentro dos copos e das barrigas inchadas, vinho tinto e branco, natural ou fresco, penalty, grande ou pequeno, puro ou traçado, de mistura, com gasosa, com cola, o sumo de laranja ou ananás no balcão de mármore sempre a rodilha grossa pra limpar as mãos todas porque todos precisam de limpar as mãos lá está ela grossa e super absorvente pronta a limpar as mãos a todos a limpar o balcão para todos poisarem as mãos e os copos e o pão e a gota do picante que está pronta a ser limpa pela rodilha grossa e super absorvente que limpa também o lava loiça de pedra com um manípulo vermelho que mais tarde alguém chamou de torneira, limpa a caixa de vidro que mais tarde alguém chamou montra, onde de tempos a tempos se mostram uns queijos, secos, a mesa de madeira diferente das outras porque é de madeira e as outras são de ferro vieram depois, aquela sempre foi mesa mas é de madeira, as cadeiras de madeira, diferentes das outras que são de ferro iguais ás mesas de ferro tudo revestido por um papel que já foi aos quadrados, tudo menos a mesa de madeira que continua a ser de madeira, numas e noutras gravadas as marcas dos copos e do vinho, as marcas do vinho gravadas pelos copos nas mesas, as grades de cerveja, media mini, branca e preta, a jorrarem para dentro dos copos e das barrigas inchadas. As grades de cerveja as grades de sumo são a decoração da sala mais um calendário renovado tardiamente porque o patrocinador passou mais tarde ou se esqueceu dos calendários quando passou pra trazer cheias as grades de sumo e de cerveja e levar vazias as grades que são a decoração da sala mais o calendário renovado tardiamente porque ele se esqueceu, ostentação da casa uma estatueta de uma águia símbolo desse clube de tanta gente aqui e acolá, Angola todos no chão, em cima da prateleira na parede por detrás do balcão, pintada pelo pó e pelo fumo gordurento, o preçário – courato, bucho, mista, por cima dos preçários antigos renovados com o passar do tempo que a inflação não perdoa ainda me lembro quando custavam em escudos, poucos, nessa altura comi-as à borla, pagamento por serviços prestados à casa, no tempo em que o João Paramês ainda fazia almoços para uns poucos fregueses contados, grandes petiscos servidos à mesa de madeira, deixou-se disso, o courato dá mais dinheiro e menos trabalho. Então amigo como está, está aí atrás não é, foi a vida que escolheu agora tem de a gramar, o outro olhava para ele e pescava os couratos com o grande garfo, tinindo na chapa negra.

Insatisfação. Pura e dura e incontrolável. É mesmo um sentimento de incómodo pela euforia que paira no ar, pelos momentos de alegria ansiados durante todo o ano, pelos momentos de loucura reprimidos durante todo o ano, pelas frustrações que se tornam compactas por cima do corpo, pela agitação excessiva das gentes e das ruas resultado do excesso de inércia que reina nas suas vidas o resto do ano. Momento de consagração dos boémios da nova era, dos que fogem da vida porque lhe ganharam medo, dos que nada lhes interessa e que por isso parecem ficar felizes quando vêem uma multidão gritar e pular o desapego do que voltarão a pegar no dia seguinte. É sempre o dia seguinte que me vem à cabeça, é tudo o que fica quando a folia se foi embora e o efeito da droga se foi embora e o dia do desapego acabou e agora todos voltam às suas carapaças, voltando a por em funcionamento a máquina que nunca parou, porque a engrenagem também vive desse dia como vive das almas para quem esse dia é o cúmulo da sociedade hipócrita e miserável em que vivo.

Custa-me mais esta fase de vida do que qualquer outra.

A vida pesa-me e custa-me muito mais do que devia.

Agora que encontrei aquilo que sempre busquei sofro por não poder verdadeiramente tê-lo. Uma dor infinita do tamanho do universo, todo o absurdo dentro de mim. A incoerência mais viva que nunca, o ser oscilante entre as extremidades parece que carrego a responsabilidade da gerência do universo e que tudo depende de mim é a maior fase de transição que alguma vez atravessei e por ser transitória inquieta-me porquê não sei, não sei nem como nem onde devo estar, tenho medo que as coisas me fujam do controlo, coisas que nunca estiveram nem estão sob o meu controlo.

Anseio. E no ansiar está a dor. Quero e no querer está a dor. Preciso e no precisar está a dor. Transporto a vida para o depois o que me deixa com o purgatório e o vácuo no agora. As sensações são sentidas no limite, qualquer ninharia é levada ao extremo. Tudo isto é necessário ou não estaria a vive-lo, tudo isto é o justo preço do que se seguirá e faz parte do cumprimento de nós, mas não só, auto-disciplina, o suficiente para encarar o presente como uma, esperam não tenho medo, espera para ficar em estado de latência até que, então sofro agonizo e temo perder alguma coisa ou errar, sou agora mais criança do que quando fui criança porque estou no principio e não sei nada. Nos tabiques que por tantas vezes me incomodam é que está o ganho. As coisas vivem-se de forma dividida o querer juntá-las é absurdo, por isso quando me passam pela cabeça ideias de ajuntamentos são claramente desprovidas de sentido, o que hoje me parece sem sentido pode amanha revelar-se o encaixe perfeito, viste o encaixe viste quero é ver o encaixe, há vivências só possíveis devido aos tabiques e à separação das coisas. Ser mediante o espaço como um líquido na quantidade exacta para encher o copo tudo o que está a mais transborda e portanto é inútil a não ser que haja bocas por baixo sedentas, satisfazer as medidas que precisam de ser satisfeitas, deixando o que sobra a dormir, tranquilamente por fora, inquieto por dentro, apraz aos que nos cercam e permite viver. Que quê de novo anda por aí e que se aprende assim, minúsculas partículas que pairam no ar são o que realmente nos faz subir os degraus, temos que fazer qualquer coisa ou não fazer nada, temos ou não temos, há qualquer coisa que corre paralela e que não deixa de correr, aquilo que são os outros aquilo que está instituído, a vida enquanto ser global e existencial perpetuamente nos convidará a fazer parte de alguma coisa, a estar em algum lugar, a tomar conhecimento do real e do irreal e perenemente lançar questões ao universo. O que se faz e o que não se faz o que se devia fazer o que se quer fazer o que se deve fazer o que se faz o que é feito o que está por fazer o que fazemos o que faço o que te fazia o que me farias o que te tinha feito o que é feito o que fiz o que farei o que faremos o que te farei o que fizemos eu tu ele nós vós eles eu tu ele eles. Imagens absurdas imprimidas em cartão vistas iluminadas pelo lucro usamos abusamos abusam o mal o bem o certo o errado todos pensam que sabem tudo ninguém sabe nada não enganam a morte é ela que vos dá a ilusão de viver e nem quando morrem a perdem, a vida é um suplicio um castigo abrir os olhos, todos os actos decorrentes, tudo aquilo que se torna contrário ao sono e à morte cansa é desprovido de sentido e caminha pró sono e para a morte, o amor é a vida, mas a vida está ausente da vida, cansou-se, deixou para amanha o que tentou fazer hoje e perdeu a luta, o bem refugiou-se e está exilado, o mal impera e tomou conta de tudo. Se tudo isto só se passa dentro de mim ou em mais algum lado se passa não quero saber, se devia renegar à morte e lutar pla vida teria que morrer e nascer outra vez porque nasci no mundo dos mortos vivos, nasci no lado do espelho onde nada é e tudo parece e basta.

O que quero dizer é que as coisas se processam de uma forma que não é linear e uma razão apontada não é uma razão achada nem porquê ou causa, não explica nem justifica é apenas uma razão argumento só é válida até que surja outra mais forte ou mais vigorosamente defendida. A distinção das coisas preocuparmo-nos com as razões é perda de tempo pois não nos traz respostas e sim é respostas que pretendemos. Tem que bastar. Interrogo-te da possibilidade de uma relação simbiótica com todas as pessoas entendes, o porquê e o como daquilo que se leva e traz dá e recebe, cada individuo é um manancial único fonte unívoca de troca, os seres e os espaços, respectivamente, proporcionam conjecturas especificas e irrepetíveis, por isso cada momento não deve ser reduzido ou catalogado embora nele possam imperar uma ou outra emoção um ou outro sentimento à que destrinçar aquilo que é nosso daquilo que não é e assumir a capacidade ou a falta dela para fruir a vida. Será lícito atribuirmos aos outros responsabilidades por aquilo que sentimos, o que se passa dentro de nós é da nossa responsabilidade, vivamos, carinhas imberbes carinhas vividas carinhas frustradas carinhas caídas. Ilusão desilusão sonho e espanto. Traçam as caras a diferentes traços. Somos um livro e um código, somos átomos, junções deles magotes deles pintados pelo que a alma sente. Os olhos estão para a cara como a cara está pró corpo, são portas, portas para o conteúdo de nós.

Porque te visto apenas porque te tenho dentro de mim como o pensamento que nunca sai da cabeça. Ter outra vez a folha em branco. Ver reduzidas as obrigações as dependências, tens de comer tens de beber se queres viver que discurso será o certo como se diz não vou, como se diz, cala-te como se diz, deixa-me dá-me o que é meu esquece, eu vou esquecer, vou continuar-me, não te levei a lado nenhum, transparência verdade paciência não à dependência, não. Não. Não é esse o rumo que quero seguir e depois a chave para entrar em casa e dar-te a mão, tenho mãos para, que me acompanham, não quero deixar de ouvir as vossas vozes, o caminho é um e é nosso, disso sei do resto não quero saber, não vou. Farei o que tem de ser feito com quem devo fazê-lo, a presença de certos indivíduos é prejudicial é nociva não há como negá-lo é nociva, prejudicial ao bom andamento das coisas. Cura de sono. Vida outra vez. Sai. Segue o teu caminho não me perturbes, ou vem, volta que não mais me perturbarás, a ajuda virá as mãos unir-se-ão uma e outra vez a cada nova invertida ver-te-ei afundar ver-te-ei desaparecer não há nada que possa fazer és tu não sou eu não ajuda quem não quer ser ajudado. Eu. Ponto de vista. Construção. Edificação. Obra. Calma. Toma. Grava permanentemente perenemente na memória nada esqueças tu és capaz escolhe assim lembrando-te de tudo. O que é isto que vejo hoje pra mim nada do que era antes continuo a procurar achei a razão da luta o vencer com mais mérito com todas as tentações tentando simultaneamente uma solução: lembrar, lembrar, lembrar dar as mãos e lembrar. Não me posso esquecer do negro, não esquecerei jamais os espaços escuros, o preto, o fim da linha. Lembro-me sim lembro-me de onde vim de onde venho lembro-me do caminho sei onde estive e para onde vou. Não posso esquecer-me. E não me esqueço não esquecerei porque no fim de mais uma volta de mais uma viagem ele está lá, volto ao ponto de partida, volto ao centro de mim, olho para a esquerda e ele está lá e espera. Realizo a distância que separa o presente do passado, a extensão do tempo, quanto mais tempo precisas, eu quero o meu caminho, queres o teu caminho e que outro tiveste até agora, o caminho dos outros, será possível deixarmos de ter o nosso caminho, o caminho desenha-se segundo pulsa a tua essência, bem-vindos ao antro claustrofóbico pasmem com os engodos do que nunca muda mas todos precisam ter a certeza de que está da mesma maneira. A voz doentia anuncia maquinalmente as mudanças em que ninguém acredita, depois inventam discursos baseados em livros que só eles leram porque só a eles competia ler, é o antro claustrofóbico, não se vê nada não se sabe nada, vão apear-se facilitem as entradas e as saídas deitem-se com os vossos cachorros mas não se esqueçam que a dos cães dá um nó quando o animal atinge o ponto que buscam. Poderias esperar agradecimento, uma ponta de alegria em mim pela atitude que nos vai tirar um peso e uns zeros de cima podias esperar que ficasse contente pela tentativa de aproximação e agradecido pelo que fazer pela nossa vida. Pois não estou nem contente nem agradecido a ti e estou-me nas tintas para as tuas atitudes. É uma ilusão pensar que facilita alguma coisa, chegarás a algum lado de mim ou de nós não chegarás nunca, porque agora sou eu quem não quer. Dá tudo o que quiseres ou não dês nada. Com as coisas postas nos devidos sítios serão as coisas postas nos devidos sítios e serão nossas com o trabalho o resto esquece como se esquece quem deu ou a mão que dá perde-se toda a intenção quando te abrir a porta, não quero sentir agradecimento quando abrir a porta, não sentirei nada porque esquecerei tudo até a dor não será possível lembrar porque no lugar dela outras maiores virão sim pois cadência de intensidades nas dores que passaram para que o mundo avance o esquecimento é o que nos mantém vivos. Se a vida pode ser bela então que seja, se podes ser bom então sê-o, que nada disto será verdadeiramente a vida, será tudo sonho, a vida é outra feita de convulsões e guerras aos obstáculos e ao cancro do universo. Esperança remota mas certeza convicta a inversão do sonho em vida e da vida em sonho, olho para tudo isto e confronto-vos com a podridão reflectindo as vossas ilusões para que se vejam, por motivos de segurança pedimos que se afastem dos limites da plataforma de embarque ó poetisa amofinada copista do sentir, Francisco palavras ditas em mundos paralelos mono qualquer coisa de mim, liberdade para poder ser na ausência de sê-lo em função dela deles das convenções, seguir o meu regime sem que ninguém me pergunte porquê, embainhem os vossos concelhos e dicas paizinhos não ando aqui a brincar às mamãs e aos papás progenitores postiços e criaturas egocêntricas estou nas vossas imperfeições mais do que estou em mim e não há culpa senão a que carrega aquele de que ninguém fala, cujo nome não pode pronunciar-se, cuja vida foi esquecida, a antecipação de todos os males, o anjo mais anjo dos anjos, agora o que é, renegado e com o peso da existência de tudo aos ombros cruz que vende para sobreviver, nada oferece porque nada possui, vende faz trocas suga dás-lhe a alma e ele dá-te bichos, bichos somos bichos comportamentos bons maus até no amor não deixamos de ser bichos comunhando do mesmo espaço dos bichos, faltando ao respeito à mãe e ao pai e aos bichos os outros, atravessas-te no caminho do teu irmão, reconhece-lo como irmão já seria bom mas não ele não é parecido comigo eu não sou parecido com ele isto e aquilo eu e o outro tudo é a mesma coisa porque pretendemos tratamento diferente e porque são dados tratamentos diferentes por nós aos outros, um pouco de ar fresco e pau de Cabinda, brindes e aquisições materiais ser contente num monte de chapa com forma ou numa palavra que parece mais sólida arvore coisa nascida do chão germinada o erotismo de uma esponja barulho de palha-de-aço cereais a vida das couves dentro de um homem escorraçado plo vizinho, ó irmão, irmão, agarrou, o sentimento de posse da terra que o chama que os chama ao escorraçado ao que carrega a vida das couves que as aduba com cinza e ao outro o pregão o arraial o courato viver barato uvas mirradas e desaproveitadas não há pés que as pisem a mesa de pedra germinada geração espontânea ou da vontade dos mortos as partilhas a lucidez de quem está de fora e se mantém dentro de si olhando expectante sem esperar nada espectador do mundo do arraial o sono de quem está de fora, de quem conserva um mundo diria artístico, o comer o beber o enganar dos sentidos o torpor do corpo e da alma, o que queres estás bem mais alguma coisa deixa estar a mim não me apetece eu lavo, comportamentos de bichos em arraial frases que soam descontextualizadas como playbacks falsos o porquê da natureza do verde da clorofila fotossíntese a vida o ar o meu ar a minha luz o que se passa por detrás do que se passa o que se conta o que se passou quanto tempo demorarás porque não me ouves será isso que me incomoda ou o que me incomoda é eu não ouvir o que quero dizer as palavras que digo são outra coisa o que de facto de passou está velado escondido por detrás da historia que é narrada nos anais e nos anos de escola nas falas dos personagens fala comigo fala comigo que queres que te diga o que te quero dizer é velado está escondido por detrás do que se passa na mesa de pedra germinada a uva a vida das couves num homem escorraçado os comportamentos as mascaras as palavras postiças a mesa germinada o sono a lucidez, foi rápido, era o que eu esperava eu nos ecos dos pregoes mirrados não há vinho.

As crianças ensinam-nos se viver é belo que o seja, as pedras azuis ensinam-nos a tua voz ensina-me filha do mar e do vento fruto de uma união abençoada pelos deuses deus que só há um único e insubstituível ingénito e indestrutível um único centro em redor do qual gravitam estas criaturas e estas duas criaturas partes divididas plo erro que ele carrega nos ombros às costas o peso todo do erro do universo cuidando que uma viagem é o caminho todo e tomando a vida que respira como um fardo que carrega nos ombros uma cruz que lhe serve de cama uma espera que o alimenta e o agoniza um cansaço que se revela prometedor revelador de um passado remoto de uma esperança longínqua de um lugar conhecido e para sempre lembrado na massa imutável que jaz enterrada muito fundo em nós, imutável o centro primeiro de tudo em redor do qual sempre estiveram e sempre estarão as nossas vidas, os nossos destinos caminham rectilíneos para um ponto, o que de curvilíneo e oblíquo achares na tua vida será o caminho de encontro contigo mesmo a jornada em redor de ti próprio as voltas as voltas um passo em frente dois pra trás o frio o mofo a podridão o peso não se esqueçam do peso brutal que carrega nos ombros aquele de que ninguém fala o omisso o ausente só na coragem de quem não tem coragem para o enfrentar para o olhar nos olhos e dizer: Vêm pra casa, o pai espera-nos.

A coragem, a sagacidade, o discernimento três ginjas e três cervejas e o mundo é nosso, contente, talvez.

Olho e vejo duas luzes. Mas não são duas luzes.

Errou, se disse errou.

É uma luz reflectida por duas janelas.

Parque pago. Tudo acontece no parque pago como o do Bojador,

Não, Bojador não, das riscas, das riscas azuis e brancas, das riscas azuis e brancas que vi quando não tinha aperto no estômago e pude ver vi vejo pude posso podes, as pessoas passam fazem parte do cenário, a dor de lá não afecta aquilo que é para lá do que está cá, aquilo que é necessita de ser experienciado para poder voltar a ser.
Não que tenha alguma vez deixado de ser, aquilo que é nunca pode deixar de ser, o que se dá é que é preciso representar o ser para a parte absurda de nós que o nega.

Ser em certeza toda a duvida que se coloca quanto ao carácter das coisas, da infinitude e da perfeição.

Não blasfemes contra ele porque és tu que o fazes.
Não ponhas a culpa dos teus actos em vivos que terão o seu quinhão de culpa, nem em mortos ou qualquer coisa pra lá disto que imaginas culpada da tua culpa, ela é toda tua, só tu és o responsável.

Mas eu vou descobrir. Sinto o tempo a escassear tenho que descobrir o que estou aqui a fazer tenho que me lembrar o que estou aqui a fazer, vou lembrar-me.

Vou começar mais uma vez, tenta mas não tornes a insistência abusiva. À medida que o entusiasmo avança e a dependência da sobrevivência se transforma na vida, à medida que as vestes vão assentando de maneira diferente nos corpos, que as reacções aos abalos exteriores são remetidas para um plano independente e livre, plano rico na sua simplicidade e total ausência de tabiques, esqueleto força vital, pelas minhas mãos deve passar o bem a realização a hora fatídica o momento trágico, a altura propícia, para que a gigantesca roda faça girar os seus cântaros na água e nos banhe do dia de amanhã num banho trazido hoje.

Faço tudo o que vocês quiserem mas não me levanto porque sentado penso melhor. São horas de ter fome. Lentos e pesarosos os passos que me levam a todo o lado. Porque o corpo tem fome a alma tem fome, sou devorado por bocarras abertas pequeninas mas grandes porque são muitas. Causam insatisfação. Causam desconsolo e desprazer. Reduzem a pedaços tudo o que se tem e tudo o que se almeja.

Estão para sempre comigo, só vão mudando de hábitos alimentares, mas sempre que dou por elas estão com fome. E quando não estão com fome é porque as estou a alimentar. Quando não dou por elas é porque as estou a alimentar. Quando não têm fome não dou por elas… deixam-me neste estado de incoerência e inconstância; são as responsáveis por boa parte das acções que empreendo e possuem, num sistema à parte, a sua escala de influências malévolas e benéficas na intensidade com que me mordem. Atraem pra junto de mim outros veículos que lá dentro carregam bocarras e julgo que querem formar um império. Um império semelhante ao que se julgam capazes de formar as inconsciências com pretensões conscienciosas das mentes daqueles que me rodeiam. Todos têm análises a fazer todos sabem tudo o que julgam saber mas quando o trem se põe em marcha nada o pode parar.
Quando é que deixei de pensar que poderia ser o que quisesse, quando me comecei a aperceber do que era.

Dizes-me que sou caos. Desordem no caos. Que sempre serei caos e nunca mais do que isso. Pois eu sei que um dia serei mais qualquer coisa e esse dia está à distância de mim. E preciso saber o que é que está caotizado, se é essa a sua forma natural, caótica e desordenada, ou se plo contrário esse algo que agora é assim converge para outra coisa. Mas sim sou caótico só não consigo é dizer que morra como estou decerto morrerei como sou é a ténue diferença entre o ser e o estar, a evolução, para continuar a sobreviver, para almejar viver, para existir é necessária e imperiosa a evolução, mutação e adaptação constantes.

Se há coisas que não consegues dizer, são palavras não ditas. São expressões de ecos inacabados, só a ti dizem respeito. Guarda-as no seio de ti mesmo, amanhã beberás do sumo que hoje espremeste e dá-lo-ás a partilhar a quem dele necessitar. Há líquidos que não são para ser bebidos frascos eternamente contidos, dá a mão a quem tos pedir e vai mostrá-los passeando por ti adentro. Para injecção nem todos servem, mas todos fazem parte de ti, ainda que de natureza diferente seja a essência de cada um deles. É nada mais, nada menos do que a volatilidade da tua substância mais rarefeita, és o líquido grosso opaco espesso, és a gota que já está derramada quando dás por ela és todos os estados desse àquele sempre eu, todos os instantes de ti, és.

Diálogos

Poderão algum dia os peixes sair da água e tornarem-se gente?
Se já o fizeram noutros tempos porque não agora também nesse tempo que antecipas, Eterno retorno, perene devir das coisas onde tudo se modifica, onde tudo marcha rumo à luz.
Palavra sábia e de mestre que oiço repercutida nas ruas do além.

Da consciência e da inteleccionabilidade disto abstenho-me de sequer roçar o comentário, contudo direi que ter a excelência de me tingir d’anjo me agrada de sobremaneira, tenha ainda a pesada, mas perfeita noção, de que sou anjo sim, mas das e nas trevas, ao outro ao branco aos outros brancos e puros eu prostro-me em sinal de observância da lei do pai que é nosso.

O caminho que me separa deles, que nos separa deles, que separa a humanidade dele e dos outros doze do outro lado da esquina é inqualificável inenarrável imperscrutável imprevisível e todas as minhas e as vossas pretensões de o tornar menos qualquer uma destas coisas são em vão e são ilusão.

E o caminho que se estende em frente é feito à medida das necessidades de cada um, numa mistura da necessidade de todos: evoluir.

Diálogos

És tu que estás ao centro.

Do lado direito está um ente, que parou por ter chegado ao cruzamento. Olhas através dos olhos dele e vês do outro lado, ao meio está o caminho do meio, que veio de trás e segue em frente, ele está do lado direito, e vês pelos olhos dele, que do lado esquerdo estão doze indivíduos, que também pararam por terem chegado à encruzilhada. Tu estás ao meio e vês à direita um indivíduo que olha em frente e vê doze indivíduos. Tu estás no caminho do meio, como é o caminho do meio se te virares de lado o que vês não é mais do que um reflexo pálido de ti mesmo, misturado com a impressão forte de que algo está por detrás de ti. Viras-te: vês uma multidão de seres ao fundo. Voltas a olhar em frente, ainda ele do lado direito a olhar para os doze do lado esquerdo. Todos te vêem, todos esperam alguma coisa. Entretanto a multidão que vias atrás de ti já avançou, já estás no meio dela, voltas a virar-te, olhas de soslaio para o reflexo pálido de ti misturado com a impressão de que eles ainda lá estão, e de facto estão, mantém-se a multidão atrás de ti, infinita, a perder de vista, mas já te invadiu, já estão onde tu estás, todos na encruzilhada, e ele está lá, a ver-te a ver-vos e a ver os outros doze do outro lado, todos esperam. Tu chegaste à encruzilhada e paraste, porque viste aquele ente parado do lado direito, viste que ele estava a ver doze entes parados do lado esquerdo, que todos esperavam, que todos te viam. Sentiste, quando te viraste de lado, que qualquer coisa estava por detrás de ti. Era uma multidão que agora está contigo. Todos pararam porque chegaram a uma encruzilhada.

Vês caras familiares, ele, que está à direita não te é desconhecido, conhecê-lo de outras paragens, outras encruzilhadas, eles, tão pouco lhes distingues as feições, sabes que são doze e que pensam muita coisa. E no meio da multidão descobres uma avó uma tia um pai uma mãe uma irmã um irmão um tio um avô uma avó afinal tens duas avós e dois avôs e primas e primos e gritas e escutas o eco do teu grito nos olhos de alguém e aí tens o citado amigo sexo e números, tens o pecado a luxúria e a dor, eles esperam e tu não esqueceste.

Os teus sonhos crescem sob todas as formas de matéria, eles continuam lá, à espera.

Esperam pelo dia em que todos juntos e em silêncio olhes para a direita e o vejas a ele, que olha para a esquerda e os vê a eles, e digamos com vossa licença, e toda a multidão passará, tu passarás, eu passarei, e ele passará a estrada, juntar-se-á aos doze que o esperam e juntos caminharemos rumo à nova encruzilhada.

Diálogos

Sou. Quero ser, ambiciono cada vez com mais fervor ser aquilo que sou porque constato que quando o sou, tudo me corre de feição, e emana de mim força que anima aqueles que se acham ao meu redor.

Contudo sou uma infinitude de coisas múltiplas e desconexas completamente caotizadas, há uma altura em que temos que dar um basta a tanto circulo.

Não sei por que caminhos, não sei a palavra prometida, não a sei reconhecer no meio das outras, ele sabe ele sabe, o que eu sei é que não sabem quem eu sou, não fazem a mínima ideia com quem é que estão a falar. E eu passo-me da cabeça quando me faltam ao respeito. Passo-me da cabeça, mas passa-me o passar da cabeça depressa porque de repente passas vestida de azul e olhas para mim dizendo está tudo bem, fica tranquilo. Voltas tu e ele de mãos dadas voltadas para a consumição do mundo para a consumição da tua alma, para o fim dos dias, para a ressurreição da vida neste planeta de morte.

Chega basta não queremos mais, fim para este planeta podre destrua-se sidere-se no espaço exterior e profundo azule-se e que em lugar dele cresça um outro, verde e viçoso, em riste para ser não mordido mas amado pela nova estirpe de seres que povoará essa terra bendita.

Mas nem todos lá chegarão como é mais que óbvio, é que é tão óbvio que nem chega a ser preciso ou necessário pensá-lo, nem todos lá chegarão não chegaremos todos ao mesmo tempo.

Uns antes outros depois, uns agora porque é a hora, tocou o Sino, lá vou eu.

Quando chegarei não sei quando chegaremos, mas o caminho está materializado para que seja mais difícil vê-lo. Porque aos olhos da alma, que são aqueles que verdadeiramente vêem alguma coisa, chega o mesmo caminho trilhado todo ele de ponta a ponta em sentido inverso. Sabemos o que queremos e sabemos como chegar lá, sabemos cada passo, cada marca cada sinal cada pensamento que se despe do corpo que o veste e se mostra nu na nossa frente nu e cru, verdadeiro.

Sabemo-lo.

E se eu viver sem nada ver se for cego e não poder ver o caminho cego de todas as maneiras completamente cego andar no escuro na ausência de tudo do outro lado do nada. E se eu for assim, um romance passado num cenário inventado por mim, num tempo remoto onde vive a minha alma.

Não o posso ter feito, se manifestasses intenções de expressar os teus pensamentos, eu ter-me-ia calado e nada te diria, apenas escutaria, falei porque me pareceu sentir em ti uma apetência natural para a absorção, peço desculpa se me enganei.

Claro que eu absorvo tu que me conheces, sabes bem que absorvo tudo o que posso sempre que posso, dai este resultado. E qual é o resultado,

não te conheces a ti mesmo, tens dúvidas quanto ao tamanho da tua existência, não sabes se és pequeno ou grande finito ou infinito efémero ou perene real ou ilusão da tua cabeça, não sabes nada e vês-te forçado a negar as coisas que sabes por não saberes como saber e manteres a consciência de que sabes sem saber disso.

O esquecimento deve ser usado como todos os outros veículos e peças dessa máquina que és, dessa construção que habitas.

Calma, tem calma, não deixes que se incendeie inflame a essência de ti.

Em que é que me apoio, em ti mesmo, na lembrança de ti, na lembrança dele, na lembrança deles, para o bem de todos.

Agora medito se vale a pena, medito em tudo sobre tudo quase que indistintamente.

E essas alturas em que te encostas á sombra daquilo que és, ou daquilo tudo que pensas vir a ser, ou simplesmente á sombra de nada, á sombra da acção, a acção o verbo é grande faz muita sombra. Então tu encostas-te e queres dormir, dormir para sempre nessa sombra sem sol e sem nada só dormir e ir adiando a vida com sonhos e com a ausência deles, sono sem sonhos sono profundo mas estéril. Será estéril, não sabes se não sonharia todas as coisas que tu estarias a viver e mais aquelas que eu poderia estar a viver, ou então não quem sabe, mas que importa isso se estaria a dormir e sem intenções de acordar para me desequilibrar o facto de ter ou não sonhado. Não tem qualquer importância, a ideia é mesmo essa, a quem é que importa eu estar a dormir ou estar acordado, durante quanto tempo é que ia importar, acabaria alguma coisa ou o mundo deixaria de girar, o que acontece é que eu sei que se dormisse não haveria eternidade para mim, porque deixaria de haver tempo deixaria de haver tudo, preciso que alguém me vá bater à porta e diga acorda vamos embora. E então aí viria o resto, porque há sempre um resto quando acordamos.

Portanto não me serve de nada dormir porque resto por resto vai este já não tenho porquê adiar a situação.

O que não percebo ou o que percebo não é agora chamado a esta conversa, podes falar de tudo o que quiseres vou escutar vou te reflectir vou te dar a ver o que queres ver mas nada vou dizer. Não te vou dizer que estou em acordo ou em desacordo não me interessa o que dizes, falas para a imagem de mim que tens dentro de ti e que eu faço reflectir a teus olhos, não falas para mim, é-me indiferente se me atacas ou se me elogias, é-me indiferente o que pensas de mim. Racionalmente sei que és tu que estás errado, portanto não há mais nada a acrescentar, ficas com o teu erro e com as tuas certezas confiantes que te permitem dares-te ao luxo de imiscuir na minha vida, tu não sabes nada da minha vida, e a mim jamais verás nem que eu seja teu filho ou tua mulher numa vida futura, garanto-te que não me verás não me conhecerás e isto não é nada não te tenho sentimento algum não nutro nada de ti nem para ti. Não gosto de ti. Já tracei coordenadas dentro de ti que te levaram a diversos pontos para eu observar e quero observar-te mais porque sou curioso e não gosto de ti numa articulação construtiva de tudo isto primeiro tens que lá chegar tens que ver o que agora não podes e nessa altura já vou gostar de ti porque vais ser outra pessoa, não, as pessoas não mudam, passam de pessoa para pessoa, são outra pessoa, mas são pessoa à mesma, nessa altura, quando lá chegares verás e ouvirás e sofrerás porque se não é agora será lá a cada qual o seu caminho todos no mesmo sentido, não importam as voltas ou as direcções. E é mesmo verdade aquilo que parece injusto muitas vezes não o é, e as injustiças são aceites de livre vontade por quem as sofre. São sempre consequência de qualquer coisa. Somos é demasiado orgulhosos para conceber isto como verdade, mas eu que vou à casa do desapego pelo caminho do alheamento sei dela como sei de mim por outros caminhos. É uma vida dividida entre o tempo que se escoa, aquela sensação de que é decrescente o tempo a contagem, foge a cada segundo que passa é menos um segundo, um fim ignoto qualquer estende-se lá longe ameaçando ameaçador ameaça acabar com o tempo presente o tempo que se arrasta e não passa e é tempo dentro e fora dele e me leva para fora de mim.

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À medida que o tempo passa, e que as coisas umas passam outras vêm, súbitas, e nos ligam como cordas a um passado que pensámos que tinha sido esquecido por todos embora nós nunca o tivéssemos esquecido. Não lembrado talvez, mas esquecido não, esquecer é não ser capaz de lembrar, e tu, se fizeres força, vais ver que te lembras de todas as situações que te quiseres lembrar, ao mínimo detalhe, para que serve isso, não faças perguntas para as quais não há resposta. Amanhã. Amanhã saberás. Hoje tens a consciência de que é assim, só não sabes porquê, mas isso quiçá, poderá ser uma lei da vida. Uma restrição inerente ao carácter imperfeito do ser humano, e falam-me em não melhorar, então que diabo ando cá a fazer, a empacotar caixas não, interrogo-me, interrogo, interrogo-te, quero que interrogues, que interroguemos numa interrogação constante ponderação constante sobre a vida e sobre as coisas, só naquela, para não deixar esquecer.

Tenho na boca o gosto amargo de um dia que não quero que acabe.

Sinto-me dilacerado mas estou sarcasticamente a rir-me do que sinto por fora de mim e para lá de mim a ignorar-me porque não presto e a seguir em frente sem ligar ao carrossel.

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É assim o carácter das coisas. A lei irrevogável do equilíbrio, do deve e do haver, do dá com uma tira com duas, do tempo certo para todas as coisas, da consequência inevitável de cada acção. Não há como sair disto. As dívidas devem ser saldadas. É o peso e o preço da vida. Tudo quanto queremos tem um preço, por isso mais vale pouco querer, mas o ser humano por natureza quer. De uma ou de outra natureza são os seus desejos, e quando pouco quer de material, muito quer de espiritual, tudo está debaixo das mesmas leis e nada acima delas. Quero deixar um trilho, pegadas deste mapa desenhado a suor e sangue, para que tu possas vê-lo e seguir por outro lado, evitar estes obstáculos, encontrar outros, encontrar o teu rumo ao invés de seguir por rumos emprestados ou impostos por outrem. É essa a minha meta. Quero que saibas que não te minto, nada lucraria ao fazê-lo, e completamente despretensiosas são as intenções que me movem, outras não são do que dar sentido à minha existência, realizar-me enquanto ser humano, pois que para lá do teu caminho, para lá do meu, existe um que é comum a todos nós, sendo esse o verdadeiro e único sentido de tudo isto. Portanto é por ti sim, por ti, por mim e por todos que faço isto. É a minha parte na engrenagem universal. O meu papel. Por qualquer vector que entre, por qualquer porta, será sempre aqui que virei desembocar, o mais é a mensagem, é o relato, a matéria de estudo dos teus dias, feita de todas as substâncias, palpáveis e impalpáveis, que constituirão e virão a fazer parte da vida. E mais um problema de vida ou morte se solucionará, dele tirando eu mais uma lição nesta interminável prova.

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Vivemos todos num líquido, no mesmo líquido. A partir daí é ter a consciência de que o líquido se move e que nós nos movemos dentro dele. Adquirida essa consciência, o ser está apto a viver. E depois há pontes entres as almas que as ligam no meio desse liquido como canais ou veias de um circuito sanguíneo que por elas passasse. É. O dia nasce quando o gato mia, o cão gane e os passarinhos apitam. Não vejo sol, também não preciso de o ver, sei que ele lá está. Como também sei que estou no mundo que não existe embora não o veja. Então se não existe e não o vejo o que é, como tenho consciência dele, posso não o ver e ele existir sim, agora eu digo que ele existe mas é. Faço essa distinção. Destrinço uma coisa que existe de uma coisa que é. O ser é e nunca pode deixar de ser, não fui eu que disse, existir como existe o mundo que piso, não. Tem uma outra existência, então poderemos dizer que existe com uma outra existência, ou se nos restringirmos à avaliação relativa, que não existe, tendo em conta que para existir teria que estar dentro dos parâmetros da existência do mundo. Quem também não está dentro dos parâmetros de existência do mundo sou eu, e ando cá.

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O hábito faz maravilhas. É impressionante o que a habituação do ser, enquanto máquina trabalhadora, a uma situação pode produzir. É claro que a capacidade de adaptação varia de pessoa para pessoa, mas refiro-me concretamente a questões de desempenho, a inadaptações concretas reais e físicas que nada mas nada supera à excepção do tempo. Mais do que metamorfose da alma, pois a alma muitas vezes nem se chega a adaptar nem pode, é a transformação dos processos mentais, da psico, que cria e desenvolve mecanismos de várias ordens. O que é preciso, nada. Rigorosamente nada. Além de suportar a passagem do tempo. E claro, não ter pensamentos adversos.

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Eu próprio sou uma fonte inesgotável de trabalho de mim mesmo.

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Hoje encarei-me com uma maluquinha, retardada com atestado clínico, que compreendi como compreendo os outros, ditos normais. Agi foi de forma diferente, não porque à partida tivesse havido diferença, mas porque ela se revelou diferente. Quando entrei no café, um pouco antes da hora de almoço para beber um martini lá estava ela atrás do balcão. Pelo seu aspecto físico, quieta como estava, não pude adivinhar, de modo que lhe pedi o martini, uma mulher que mais tarde vim a perceber ser mãe, atarefava-se com outros pedidos, olhou para a filha e esta grunhiu um mamã graficamente inexprimível. Bom a senhora lá me trouxe o martini, entretanto a menina tinha agarrado o abre cápsulas, momentos após o meu pedido, quando a mãe veio com a bebida e a entornou no copo, desenroscando a garrafa que não precisava de tira cápsulas ela, que viu tudo isto como eu, grunhiu de novo, desta vez fonemas dispostos à vontade dela, que resultam num som estranhíssimo, com entoação variada. Virava-se num frenesi levado ao absoluto de tentar captar tudo o que se passava em redor, alguém entrava que se dirigia ao pai ou à mãe e logo um esgar de qualquer coisa, um gesto como que incontrolado, agarrou coisas que não havia no ar, avançou, esbugalhou os olhos, rasgou o pânico nos lábios e gritou. Gritou para dentro e para fora, num grito continuo que não olha a circuitos de ar, inspira grita expira grita, o som percorreu a escala, nasais, guturais, ainda com o abre cápsulas na mão volta-se e vai-se encostar ao balcão de novo a tentar captar tudo, um grupo de operários com as calças caiadas a argamassa entra e pede cerveja, ela estende-se para a frente até tocar num deles com ambos os braços um para cada lado em cruz e grunhe um olá. As pessoas agem como se estivessem a olhar para algo de irreal, algo que não existe, que não é deste mundo. Ignoram no mais profundo de si a perturbação, as consequências da perturbação, uma alma sujeita a tamanha prova.

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E eu sou da opinião que devemos aplicar a nossa massa cinzenta a elevar a alma. Toda e qualquer outra aplicação é desperdício. Vou conseguir imprimir o meu ritmo á minha vida, a tudo o que faço, é também isso que almejo. Que os outros tenham lá os seus ritmos nas vidas deles, respeito e compreendo, mas o meu é o meu e também eles terão de compreender, porque sou assim e estarei assim, a luta será nesse sentido e então em qualquer coisa que faça naquilo que me compete fazer, o ritmo será o meu, que contribuirá com o peso que lhe é inerente para o ritmo global para o ritmo cósmico ainda. No particular e no geral pois pequenas afectações têm grandes consequências e os grandes desígnios traduzem-se por acontecimentos simples e puros, germens de luz que brotam directamente da fonte.

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Os comportamentos que temos dentro de nós, aquelas informações que nos dizem tudo sobre uma determinada situação, ou sobre um determinado momento, vêm-nos da alma, desse registo preso em invólucro de carne, dessa força sublime que nos nutre e informa. É ela que nos faz ter esses ditos comportamentos, pois é nela que está contida a informação para tal. O resto, o mundo, aquilo que nos rodeia, são agentes de influência, mas na medida em que nos influenciam no ritmo da nossa caminhada. Ou não.

Ou então aquilo que está cá dentro é mais forte que tudo e debasta, anda mais depressa, vive com tudo, com todos os meios de que pode dispor, dentro do limite da segurança imposto pela sua base. É esse alicerce que determina o ritmo, o resto são acidentes de percurso.

São tudo opiniões e mais virão e viriam se pudéssemos exprimi-las, partilhá-las a todas, as que sentimos cá dentro, como emoções e sensações e experiências vividas, entes que se cruzam. Saibamos pois aproveitar esses e todos os cruzamentos e com eles formemos uma corrente, cada ser um elo, para que possamos atingir aquilo que isoladamente é inatingível. Sim confrontos, pelo meio e nos entretantos há confrontos, não confrontes, desvia, Uma teimosa questão que me assalta a mente, será que podemos sê-lo o tempo todo, não. Mas será mesmo que não, o que nos garante que não e porque não sê-lo e porque não tentar com todas as nossas forças, olho ao meu redor e vejo percursos de vida, tentativas na maior parte frustradas e vãs de atingir o ser. Vejo pessoas que estão espectralmente na vida e para elas viver é cada vez menos serem elas próprias. Não me venham dizer para ser qualquer outra coisa que não eu. Isso não serei. Não serei para os outros ou para a sociedade, sequer para o mundo. Serei para o universo nem eu, mas ele. Há momentos para tudo. Alturas em que estou aqui alturas em que estou mais ali. O ideal mesmo seria poder estar em todo o lado ao mesmo tempo, ou melhor ainda não estar e ser não estando. Por detrás de uma paisagem sempre outra paisagem, colinas após colinas, verdes e pretas erguendo-se na litosfera do orbe que é a minha alma. É assim que vejo, sentado vêem-se melhor as coisas, o imenso mundo que dança dentro de mim. Para ver este mundo, que muito me apraz, por vezes tenho necessidade de me fechar em mim e nestas alturas não estou, mas sou.

Detesto estar regularmente onde os outros estão, fazer aquelas coisas que todos fazem ás horas que todos fazem. Isso não sou eu. É convenção e socialização. Tenho que fazer parte, não. Eu faço parte do que faço parte. Não do que está instituído que deva fazer parte. E não me assusta não fazer parte de nada, porque sei que faço parte do que faço parte. Padrões e comportamentos estandardizados, repetidos no quotidiano da vida, repugnam-me. Como também me repugna esta sociedade em que o dinheiro fala por nós e antes de nós. Onde o possui-lo nos confere estatuto e esse estatuto de cifrões erguido, que é tanto mais elevado quanto mais elevado for o saldo bancário, dá poder. A deferência que os outros demonstram porque pagamos as contas, nos chegamos à frente de nota gorda em punho, os sinais exteriores de riqueza, que intimidam e não sei como, impõem respeito. Nojentos ainda mais aqueles que se sobrevalorizam a eles próprios por deterem largos extractos bancários, que se julgam superiores e inferiorizam os outros à sua volta, pensando que podem mandar neles, tomando como verdade que de facto estão acima, não devendo misturar-se com os que não têm posses. Subjugam e dominam, imperam e criam impérios onde o dinheiro é a única lei vigente e a obtenção de lucro o único objectivo. Vivem em função dele e acham que os que o não têm não são merecedores de vida. Vangloriam-se e consomem tudo para usufruto próprio, preocupando-se sobretudo em demonstrar sempre que o detêm em bastante quantidade. Aos outros descriminam e humilham, e o pior é que mormente são estes senhores que desempenham as funções de chefia, que exercem cargos de administração bem como funções governamentais. Eles gerem os destinos do mundo. Mas e se o mundo tiver o seu próprio destino, como palco que é também está sujeito à vida e à morte, também nasceu, também deve morrer, também tem fases e ciclos de vida, um caminho a seguir, desempenha o seu papel no sistema solar e no universo. O que os homens fazem nele é na medida do que almejam, se usam e abusam dos seus recursos e pouco ou nada dão em troca, se não se preocupam com a natureza, mas exclusivamente com o lucro, isso obviamente terá consequências para o mundo, para as gerações vindouras, mas também para todos aqueles que nele viveram e nele expiaram ou não as suas provas. Como palco que é, o mundo está então sujeito a albergar criaturas que nele constroem outros mundos, feitos de ilusão. Mundos esses que se alimentam do próprio mundo e dos outros que estão sob o domínio dos senhores do mundo. Dos capitalistas, dos detentores de impérios e monopólios gigantescos, que governam mais que os governadores, esses também tantas vezes corruptos, corrompidos todos pelo poder, pelo domínio e pelo dinheiro. Mas quem como eu quer estar fora desse mundo ilusório sofre imenso. Porque nasci nele. Vivo nele embora psiquicamente e espiritualmente não viva, mas é isso. É a eterna cisão. É ter apenas lugar para a minha alma fora deste mundo, fora do mundo onde vivo. É ter que viver nele sem alma. É ter que fazer parte dele obrigatoriamente, sem fazer parte dele. Tudo está errado. As bases do mundo são falsas e com um sopro cairiam se houvesse alguém que o soprasse. Acontece que a evolução é assim. E neste mundo a conclusão a que chegamos é que universalmente falando é uma escola do ensino básico, o que o governa é o lucro. Da vida tenho tudo o que pedi, agora só quero vivê-lo e é agora que começam as verdadeiras dificuldades. E a força do mundo que não há, mas que está dentro de mim, é quem me guia. E vencerei, compreendem, é um conflito imenso, conflito sem resultado e sem solução. E a vida deve continuar, não posso simplesmente parar e ficar a carpir conflitos interiores, tenho que viver com eles e dar o melhor de mim, isso será meio caminho para não surgirem outras complicações e um dia tudo se resolverá. Hoje já sei o que quero, ontem não sabia, mas hoje já sei, quero amar, nasci para amar, é isso que sei fazer mais nada, tudo o resto que faço não sei, imito, a partir da lista infinita de modelos que está dentro da minha cabeça. Misturado sou por natureza, como posso não o ser se está tudo em mim e se sou só um para o ser, mas e as divisões, também as há, o que não pode haver é barreiras, para que tudo flua livremente dentro de mim. Penso demais para o mundo, enquanto executo estou a pensar, mas o tempo será meu aliado e a dor também, porque me trarão o que sozinho não consigo alcançar. É isso e a imposição de certas coisas na vida das pessoas. Valores mais altos que desabrocham, que eclodem, que tomam conta de mim. Não mais posso voltar atrás, porque me construo, porque é isto que sou e é isto que vou ser custe o que custar doa a quem doer. É claro que a pessoa a quem mais vai doer vai ser a mim, não tenho dúvidas e este mim é nós para que se saiba, disso não há fuga possível, a força existe, os obstáculos também, o confronto é inevitável, uma vez que a força tem que ser e estar no meio dos obstáculos porque senão não é, ou melhor não está, porque ser nunca deixa de ser. A questão aqui é o estar, para ser tem que estar, também se é não estando, e nesse não estar está-se em toda a parte, porque todo o mundo não tem mais sítios que a minha alma.


olhai e vede