domingo, 27 de fevereiro de 2011

Diálogos

É preciso que consigas ouvir-te, eu te digo, não fui eu que disse, transe, qual é o sabor, onde estão os actos belos e a verdade, onde está, procura procuras procuram, pois só através de vós eu a encontro, em ti que carregas contigo a vida das couves, onde dentro de mim, também no reflexo que trago de vós antes de vos conhecer, quem és tu, só mais um pouco para te analisar, para te conhecer, para depois falar contigo, irmos onde não sei, vais a algum lado, quem sou eu, transe.

Vejo desenharem-se os primeiros traços da base de um ponto zero irredutível, um chão com o passado por baixo como uma massa compacta, um corpo um equilíbrio, sim não acção definição, as criações são injectadas de mim e só podem edificar, os outros devem ter o seu espaço para agir para ser para moldar o tempo gravando de si no complexo do mundo, os outros devem aceitar que eu grave, na proporção do que me é devido, o meu ser no complexo do mundo, tenha a humildade de saber que tudo é a mesma coisa, a capacidade de os amar e perdoar, quando não sabem. A excelência no cumprimento do dever, as linhas primordiais de uma personalidade reconhecida aos olhos do mundo na medida em que o ser se começa a cumprir por dentro secretamente, por fora desenha-se o que os outros vão pensar de mim. Nada conseguirei até que o desenho de mim se defina na mente deles e para isso devo ser dentro de mim sólido no equilíbrio entre o sim e o não, acção definição reacção umas para mim, sentidas por dentro, outras deles no complexo do mundo. Discernimento para saber quem é quem e o que projecta, para distinguir projecções de pensamentos meus, vê-los fundirem-se com pensamentos teus dele deles no complexo do mundo. Quem manda aqui afinal se todo o meu espaço é o meu ser permanentemente, ainda quando estou em vós o meu espaço é o meu ser, quem manda, mandas tu nesse espaço que é teu, ou manda a constituição naquele espaço de que alguém a encheu, quem foi ele onde está, quem acredita nos antepassados, respeito aos que já se foram, onde está o saber para decifrar os códigos, que pensaram, que ouviram a alguém que os leu outrora nos antepassados, aqueles que passaram naquele tempo que passou por eles e por nós que terá passado, se também nós pertencemos a esse passado porque passaram os antepassados pertencemos todos ao mesmo tempo, as eras os dias o ontem o amanhã tudo é a mesma coisa. Pontes de pedra arcos ogivais ogivas nucleares armas de destruição maciça era medieval escravatura idade das trevas terrorismo idade do ferro desobediência lei ordem progresso de onde, de onde vem, de onde somos, eu estou aqui e tu, planaltos através das coisas pontes pedras poços sem fundo acordos com os países de leste América África Angola todos pró chão, onde está qual é o sabor, que venham os cavaleiros da Távora redonda, os Vikings e o seu reino de gelo sem medo, machados machadinhas e dança da chuva, autóctones geração espontânea, ovos postos por galinhas malucas, todos pró chão não há agua quente, psicose denominação pergunto perguntas perguntam, onde está qual é o sabor, ele fala falará, carrega consigo o peso de tudo, aquele de que ninguém fala pelo pecado que cometeu e que todos sabemos, ele parte do absoluto e do relativo genitivo do mundo, carácter da posse possessão da vida morto dos mortos, aquele de quem não se diz o nome, e o outro, o que não se conhece o que se procura o que está no que não se descobre, a cada descoberta mais por descobrir, onde está o fim, o paradoxo é eterno e um só, a vida, metáforas para quê, as ervas daninhas chamam por ele, os bichos querem falar, todos partem para alguma coisa o que é o tempo, porque fico velho pelo passar dos dias porque há dias o que são as coisas, lagarta felpuda bicha-solitária barrigas inchadas pela fome e moscas como abutres de volta da boca, reinserção social, tratados de paz, apertos de mão, hierarquização das coisas, o absoluto o impossível como quando, mulheres de pele vermelha que olham a lua e dizem da vida, carregam com elas a sabedoria da terra para as covas, vala comum Ganges de tudo se torna pó corpos e sabedoria imersos nas águas sagradas e não lemos o que não escreveram, ouvido pelos olhos de alguém que lê ou leu ou tem o livro ainda, onde está, estão aí pois estão, intactos sedimentados nas tecituras que me seguram a cabeça autóctones, seres de outras raças libélulas gigantes poedeiras de raças, gentes sabedoria o conhecimento da terra, onde está, cinza caos destruição, mas será que a falha é minha, porque tu entraste em sítios de mim onde eu não estou e fechaste a porta e gritas-te coisas, será lícito, coisas que eu não pude ouvir porque fechaste a porta e gritas-te dentro de mim em sítios de mim que não habito, será lícito, um maravilhar-se com as obras de outro feitas pedra e betão, onde está, o capitalismo nos bolsos de uns o monopólio, maravilha-te e depois compra, compra, compra consome ó consumidor consumista consumismo armas de destruição maciça e rege-te pelas leis daqueles que eleges-te para teus governantes na tua democracia sociedade democrática hierarquização das coisas impossível, olho não posso ver, só não se pode ver, olhar sabe-se, acordo sei que estão no mesmo sítio, o que aconteceu, quem tem o ponto de vista de todos os que morreram, de quantas tragédias sucederam, de mais quantos sucumbiram ás armas de destruição maciça, desinformação, barrigas inchadas pela fome com moscas como abutres de roda da boca, pactos entre lobos, tratados de paz, canecas de beneficência, postais, manda postais, é a época da sua vida, compre acabe com as paletes encomende leve já pague em, leve tudo, acabe com isto de vez, de uma vez por todas acabe com isto e já agora corte o pescoço ao Arafat e agora Arafat será desta és personagem do nosso mundo oiço-te na boca das velhas que apanham sol na paragem da camioneta de carreira, mas não vão para lado nenhum, tu eras mau, mas o que vier a seguir pode ser pior, quem tem a visão global das coisas, quem pensa tudo o que se passou em mais um dia na hierarquização das coisas no complexo do mundo. Percebem. Onde estás tu que raspas-te o pau na pedra pau no pau pedra com pedra nesse acidente que fez faísca, que te deu para fazeres isso, quem te mandou, onde estás, anda cá anda ver o que fizeste, tens culpa tu, não, é ele, ele é que tem culpa e carrega-a como a cruz aos ombros em que se vai pregar, estará lá alguém para fazer cumprir a lei e os pregos quantos são, agora onde estão os crucificados e os anjos, quem fala comigo e porque é que as coisas acontecem assim e não de outra maneira, sopros, o vento, terá de haver uma boca, e tu quem és, de que se trata, relembra-me desses cheiros que nunca esqueci, dá-me visões quero desclassifica-las, isto é, desprovê-las do sentido de classificação que pré-concebi para elas, desfazer-me do preconceito do que são essas ideias e do que será vivê-las ou então admitamos que já vivemos tudo fomos tudo e pensámos tudo e que me lembro lembras-te, os cheiros relembra-me desses cheiros de que nunca me esqueci, desse sentir caracterizado no espaço pelas linhas e contornos dos objectos criados, então como nós somos o que criamos agora, a idade do ferro chegou.

O que é viver na idade do ferro ou ser um da idade do ferro, o que representa, compreendes compreendem, quem encheu os conceitos como temos acesso a eles, qual é o sabor quantos são venham todos que ele é o primeiro a fugir e eu quem sou, sou o que está à espera de vós, é por vós através de vós que sou. Situações graves gravíssimas, catástrofes naturais, terror pânico, medo o medo corrói a alma o medo que mais faz o medo sabes sabem, simbologias para nos entendermos, não estará na hora de criar uma simbologia nova que exprima mais alguma coisa do que esta, não estará, será lícito, que menospreze este dom que temos quem nos deu, deu o quê quem onde está qual é o sabor, parece que a ponte deste lado tem um declive, é olha tem musgo nas paredes acastanhado, clorofila, porquê o verde pergunto perguntam perguntarás porquê o verde essa cor assim, incomoda-me um pouco não poder mudá-la, pintar o mundo de matizes pulsantes, para quando um mundo que se torne carregado e cinzento quando trovejo e um outro como as estações qual é o ponto fulcral onde está, por vezes os sítios onde é suposto que nos sintamos bem não são aqueles onde nos sentimos bem e coisas que sabíamos fazer são esquecidas, parece que não nos deixam, teríamos que aprender tudo outra vez se quiséssemos exercer compreendem, não é que não se faça o mesmo ou que no fim não vá dar à mesma coisa mas a irritabilidade vem daí pró caso de interessar saber de onde vem, dessa ideia que já se sabe, mas o acesso está vedado por um trauma qualquer que não sabes quem o provocou, situação provocadora de ódio de raiva a quê a quem, no mínimo desespero sei lá, coisas desnecessárias. Mas não. Não tenho acesso, só se fosse de facto preciso e aí venceria pela insistência pela desistência desse alguém venceria que se ocupa em bloquear o que já está desbloqueado, como uma factura que é paga duas vezes, estar aqui ou ali torna-se irrelevante, não tenho medo, afinal o que é verdadeiramente, a borra preta na beira da chávena, limpo com o dedo, pensa o Sr. António, não, não limpo o cliente é novo, nunca mais cá volta, lá vou eu perder cinquenta cêntimos, manda o bom procedimento que assim proceda, outro café, enquanto este corre pela bica limpa ele as borras do outro, que se lixem os procedimentos afinal são cinquenta cêntimos e há-de vir outro que o beba já sem borra que a tirei com a unha que serve para tirar borras pretas das chávenas de café e borras pretas de outros sítios onde já ninguém mete a boca sou eu que digo, o Sr. António é mais velho que o Sr. António, tem a pança maior e mais dinheiro que o Sr. António, são tão marginais um como o outro, chateei-me com o Sr. António porque não cumpriu os procedimentos, aqueles procedimentos que um comerciante não pode deixar de cumprir, afinal a profissão que escolheram foi servir-nos ou o fazem bem feito ou então não servem, além de mais barriga mais idade e mais dinheiro o Sr. António tem mais espaço que o Sr. António, talvez o dobro, mais do dobro tem este espaço em altura e área, a localização é o que mais os dista, este está no calvário o outro num calvário, aquele alguém lhe pôs o nome não sei porquê, a este ponho eu porque ali carpi penitências em louvor do deus da resignação, àquelas paredes curtas (que caíram) àquelas mesmas vozes de todos os dias, às conversas arrastadas e repetidas vezes sem conta, à rotina a que as gentes se apegam, aqui a barulho de cidade, pouco cortado pela musica que o Sr. António mandou baixar, à brasileira que não lhe obedeceu, baixou-a ele, lá foi sem jeito atrás da mesa de mármore que não lhe pertence apesar de ser dele, a mesa de mármore tricolor com veios brancos preto branco e pardo a mesa de mármore, por detrás dela está a ausência de um DJ, de alguém metido a técnico de som, que regula o volume a grupos que dizem que fazem música ao vivo. Muito longe de ser está tudo isto, nem para lá caminha, contudo está e vive-se aqui. Vive-se aqui como se vive lá fora, fora de ser e fora da vida, à margem da realidade tudo corre nos carris da ilusão, as pessoas e os eléctricos os novos os velhos os autocarros e o sonho, tudo corre nos carris da ilusão e a realidade passa ao lado numa estrada que ninguém percorre.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Diálogos

Pedaços de veludo metidos em garrafas de vidro. Sonhos de gerações vindouras tidos em despertares tardios. Conversas que crescem como vegetais, sem saírem do mesmo sítio. Horrores escondidos em latas com rótulos azuis e apelativos. Pontes sustentadas no amanhã, realizações numa tarde acabada para que a vida continue. Calor e desidratação.

Esconde a tua cara não vá o diabo reconhecer-te e pedir-te um cigarro.

(quando o tabaco acabar vou-me embora, já tenho poucos fá-los durar)

Cada pontinha de desentendimento me sabe a discussão final. O tom da voz, a característica não reconhecida da pronúncia ribatejana, que representa tudo ou parte do que tenho aversão, a vida a estagnação o empedrado do tempo em que os cavalos puxavam carroças com fidalgos lá dentro, e os bois tractores com trabalhadores do campo, os modos o esquecimento a estupidez a ignorância as aparências a fachada de um nome da riqueza o tolhimento enchem-me de nervos que só contenho e não tenho porque sou maior e mais alto e faço dos nervos borrão com que vejo que sou maior (humildade, humildade, para que te quero, atenção) não que o não saiba não que o não sei, mas não suporto não tenho paciência irrita-me (porque é que as coisas não me obedecem, é preciso paciência, calma muita calma nessa hora atenção) dói-me o acordar e o saber a convivência forçada com aquelas paredes (acabarão em breve e depois) quero-me quero-te nada é mau mas estou farto. Contudo aguento um e outro dia aguentei não aguento mais, nesta sucessão dos dias que não acontece e vivo de extremos que oscilam numa corda bamba em passos tortos de escrita torta, afinal o que importa, sim pois, ontem era assim e fartava-me o acordar para aquelas paredes que não mais me aprisionam, é preciso que se diga, ser livre sem precisar falar em liberdade, tudo já está dito, tudo foi dito por alguém, então porque tenho coisas para dizer, porque andamos aqui em conjunto, porquê, pergunto perguntas perguntam, discípulos onde estão, estão aqui, eles que disseram de si, eu que digo de mim, todos que dizemos dele, neste momento caminho para onde não quero ir, no aqui e no agora que são um só, caminho para o que já passou, caminho para apagar o meu ser, amanhã será igual. E o que fazemos o que faço porque não abro os olhos abres abrimos e porque continuo a sentir que mais do que abrir devo contribuir para que abras abram. Permaneço lá dias inteiros em estado contemplativo para depois regressar carregado de dúvidas e respostas que não tenho capacidade para discernir, sinto-me forçado a confrontar o mundo com as minhas dúvidas e quero arranjar culpados,

(posso sempre encher uns cigarros)

Isto é inacabável e sou o que sou por ser isto é isto que sinto mais em mim como meu, sei que a minha missão passa por aqui,

(será que passa, destino, destino)

Masturbação, ejaculação precoce, a minha realização pessoal não sem o cumprimento da missão, ela está debaixo dos meus olhos e eu não a vejo.

Tenho as ferramentas para a cumprir e a possibilidade de realizar sonhos só porque posso sonhar. Quero saber o que me falta ou se algum dia saberei o que me falta

(e se não te faltar nada agora as paredes no chão agora destino)

Ou se sempre me faltará alguma coisa porque ninguém tem tudo, não posso esperar ter tudo para começar alguma coisa e agora tens paredes deitadas a baixo tecto paredes, mas não sei o que começar, começar o quê, como se fosse agora ou ontem o momento de começar alguma coisa, trabalho, muito trabalho, ordem e disciplina, sim vem sim virá, agora que é precisa agora que pode vir o que tiver de vir virá, sim e o cumprimento e a realização. Vou andando assim no meio, sem saber o que está nas extremidades ou será que ando nas extremidades sem saber o que está no meio ou as duas coisas, calculo que sou eu quem anda de encontro a mim e que tudo não passa dessa viagem que acabará quando começar a ir de encontro a ele, será que acaba será que perenemente não caminharei de encontro a mim e a ele como não, não posso esperar ter tudo para começar, começar o quê, falta o sentido oculto que as palavras não exprimem, falta descobrir a maneira de o revelar, ainda vos oiço entrar ainda oiço as chaves a meterem-se à porta o recolhimento de anos traumatizado como que tatuado quero sentir o que ainda não posso, pois claro que as coisas não trazem por si a modificação pois claro, sim pois, tudo está aqui cá em cima neste sítio que alguém chamou de cabeça, ou então não, aí, mais dentro mais profundo, fundo, na alma, revelar, revelado a mim estaria revelado então e não nos é revelado na medida do que podemos discernir, como posso eu querer sentir coisas que não estou preparado para sentir, como se ainda vos sinto meter as chaves à porta, eu a recolher-me a meter-me dentro dele, eu dentro dele, aprisionado por mim eu, as paredes ainda não caíram, o tecto as paredes, ainda não são minhas, o tempo o tempo o tempo, ele quem dá e tira só ele, então esperar, esperar porquê, não que as coisas nos tragam o que não encontramos não, tudo está cá dentro neste sítio que alguém resolveu chamar de cabeça, vem detrás sim tudo vem detrás, dos latinos, há qualquer coisa para fazer que só eu posso fazer, é isto que sinto e sei que é verdade ou isto ou nada ou sou mentira, quantas vezes me pus em cheque quantas vezes, será lícito, mentira só mentira e não verdade, parece de noite ai que tempo falar de tempo falar de mim falar das coisas falar de quê afinal falar, mentira só mentira e não verdade mentira e ser mentira é tão, tão, sinto-me tão quando minto, mas mentes, não, só eu o assumo não eu. As pessoas, para que servem as pessoas, a vida é quem ensina, quem disse não fui eu que disse onde está a vida onde está o conhecimento quem é que ensina a vida as pessoas a vida está dentro das pessoas e são elas que, é através delas que as pessoas, o conhecimento a vida, percebem.

As pessoas a vida a luxúria a gula pecaminoso o que de pecaminoso temos, penso em mim penso em vós pensarei, é licito que pense, até onde poderei pensar-vos, o que poderei fazer por ti, por quem me tomo, quem és tu, então em que ficamos, qual é o sabor, onde está a conduta, sabes leste ouviste a quem leu, qualquer coisa que impulsiona, viver é fazer qualquer coisa, ser o que é quem és quem sou, tu e eu onde vamos, o que queres de mim, sozinho duvido e tu tens certezas, vamos onde, onde vais tu, saberás, posso desejar-te boa viagem, caminho esse cada qual tem o seu, ou não, ou saberei eu mais do teu caminho do que tu, seria bom teres-me a mim e aos meus por perto, aos meus como teus, todos para irmos onde, qual é o teu caminho, por onde vais, queres levar-me contigo, será lícito, sozinho tenho duvidas quem és tu, que mas vais tirar, vamos onde pergunto perguntas perguntam vão onde quiserem eu fico, a ver-vos passar.

Diálogos

Acordar e saber-vos no mesmo sítio, que o sono pode ter-me reparado e preparado e modificado, querer recomeçar ou começar mais à frente num outro ponto e ter-vos no mesmo sítio ou ter os reflexos de mim em vós, aqueles que esqueci reparei modifiquei com esta noite de sono, de que serve então se este eu preparado para começar mais à frente se vai encontrar convosco exactamente no mesmo sítio, ou pior se os vossos sonos não foram reparadores mas perturbadores, os reflexos de mim ainda em vós no mesmo sítio, só um momento para verificar se as coisas ainda estão no mesmo sítio, o espaço como a liberdade de ser um pouco mais à frente não há, se um não pára só um momento antes de invadir mais uma vez os domínios de outro, perturba-me, confesso-o, acordar e saber-vos no mesmo sítio, que o sono pode ter-me trazido vontade e sentires diferentes condenados pela vossa inércia pela vossa existência, como é grande o meu trauma de vós ó gente, por vós o caminho para chegar até mim, cá me ficam as reminiscências deste sono e do que foi para mim nas respostas aos vossos ataques, no combustível para a batalha campal no complexo do mundo, as vossas mentes projectadas na minha, os meus reflexos projectados pelas vossas mentes.

Mas todos os dias tiveram noite, noite de manhãs intermináveis e de tardes inexistentes, volto invariavelmente ao centro de mim, onde mora o único pensamento perfeito ao qual tenho acesso: nós.

(a obscenidade, a obscenidade, masturbação, ejaculação precoce, pêlos no céu da boca)

Lá, onde tudo o resto se ausenta e só estou eu, eu não me encontro, não estou, ausentei-me. Fui até nós e assim permaneci e lá permaneço, do centro à periferia. Do núcleo do primeiro átomo de mim às células mortas que me dão cabelo e unhas, nada me pertence, sou um usurpador de mim mesmo, o fim único o propósito último do meu ser é o que me guia,

(caos destruição desassossego ânsias angústia incoerência irritabilidade)

Estou para além dos pontos cardeais dos astros estou para além do sangue que me corre nas veias,

(quero estar quero estar quero estar sem ter de querer)

Quando deliberadamente me ausento das pessoas e das coisas é para me tornar impessoal ao ponto de deixar de ser gente,

(fala de ti fala de ti fala)

Passar a ser algo, numérico esférico espectral.

O mais é os reflexos deles até onde se contemplam no espelho de mim.

Desde logo a minha existência se fragmentou, desde cedo o um que sempre fui foi convidado a dispor-se em camadas, como fases como vidas como seres, num ciclo que não tem ordem a não ser no ter sempre sido e estado vivido de acordo com esse princípio irrevogável do apertado destino que me cumpre.

(destino, destino, destino, és destinado, pré-destinado é o que és)

Ideais idílicos tornam-se empreendimentos turísticos e barcos que levam rochas geladas ao fundo, eu sou um nado. A minha casa és tu. Eu e tu moramos na mesma morada. Quando um braço meu sente revolta e indignação contra o carácter tácito da natureza da vida, o outro braço teu colhe gotículas de orvalho que brotam de corações frios.

São os últimos raios de sol. Doiro-me na lembrança deles, projectada num futuro que já me corre em estado líquido no corpo, na forma de pequenas plaquetas nunca vistas, mas a toda a hora sentidas. É do meu, é deste nosso fenómeno que te vos falarei até ao fim. Parece-te, não deixes que te pareça, não prestes sequer atenção ao que digo, prestes ou não di-lo-ei, já sabes, bem alto e bem grosso para que chegue mais longe e mais acima onde todos os que têm ouvidos para o ouvir o oiçam é assim que falarei. Disto que não é senão um pouco ali um pouco aqui, não há perpetuações num dos lados, evoluções eliminatórias, a dualidade é perene e nada muda por fora, construam-se impérios mude-se de casa e de vida e de corpo, é a alma que é e o que é não vai directamente não sei para onde, permanece neste espaço onde as coisas são, o que está por fora é sim um reflexo do que está por dentro é de dentro que parte tudo, crê, sonha, não esperes que o algo te traga o que não há em outro lado senão dentro de ti, falo de ti falo de mim falo do que não sou, digo o que não sou, minto para me dizer verdadeiramente, o que é qual é o sabor, voltas e mais voltas pensava, que tudo iria mudar que iria ver a ponte o planalto depois da ponte a concretização depois da realização o fim e depois, não há mais nada para ser, nada de ignoto para ser revelado nada de oculto para ser mostrado nada depois de nada é isto agora e depois são um só, vê e crê dentro de ti a consubstanciação dar-se-á sem dificuldade, o deleite a irritabilidade das coisas, não obedecem, o contínuo não começa, a síncope continua, eterna, acordo e sei que estão no mesmo sítio e eu onde estou, de onde venho para onde vou.

Diálogos

As diferentes posições mostram diferentes prismas e a certeza de que tudo é a mesma coisa, reflexo de um espelho que do lado de lá esconde tudo o que buscamos quando olhamos para o lado de cá. Conforme o grau que não classifico porque não tenho escala, ele classificará, deixo a quem ler o conhecimento devido, conforme o grau um vê mais ou menos do que ele reflecte, se olha muito para o lado de cá vê menos o lado de lá, se olhar menos para cá talvez os seus olhos se habituem e na escuridão se lhe revele uma luz entreaberta na porta de lá que alguém terá esquecido aberta talvez para que ele entre, a construção é invertida, ao tocar o vértice passará para o lado de lá, o jogo é assimétrico, em tudo aquilo que é material está encerrado o gérmen do que não o é, deixe um de ver apenas um lado das coisas, para que outros se manifestem. O que me apetece dizer acerca disto, sim pois, será lícito que um queira, que um deseje ter ao pé de si, do si, as coisas de que necessita, pois se um necessita necessitas, contextos perdidos de textos que não se podem ler, porque não estão aqui para que possam ser lidos, onde estão os textos então, lá, um tem de ouvir a quem os leia, mas para isso precisa conhecer alguém de lá, nem precisa conhecer, basta que oiça, se não conhece passa a conhecer, ó conhecimento, quando um conhece seja o que for, como quando sabe que conhece, quando reconhece revê o que há de novo, onde está a escala, onde está o mapa qual é o sabor, alergias faciais, dores de estômago problemas na próstata, cedo começa o Inverno e mais aquele que se futura, será lícito que um exija sentir-se bem, mais a voz que sempre o exige, sente-te bem deves sentir-te bem, e as condições quais são, qual é o sabor, onde fica a dor salada russa, há pão para todos, não se acotovelem, o que é preciso é ter muita calma nessa hora, e eis que acaba por não se fazer nada, fazem-se contas à vida, que mais se faz, que mais se faz que mais se faz, escuta-se o rol inatingível, deseja-se o que não se tem, deseja-se, fruir é preciso fruir, o quê, o momento, fruir qualquer coisa será lícito, que direitos e deveres, onde está a constituição, quem cumpre os procedimentos, resta-nos o zelo, ordem organização, gostas muito, gosto, gosto muito. Será lícito, um pretender fazer aquilo que sente necessidade de fazer, onde está o dever, não está ele em toda a parte e em tudo o que se faça, não temos em instância primeira o dever de fazer, o quê pergunto perguntas perguntam, cada qual na medida do que sente que deve fazer não será lícito, até porque mais não se faz, o que se faz é mal feito ou feito sem vontade o que segundo a lista é o mesmo que não fazer nada, não fui eu que disse. Digo que será igual isto e aquilo porque a ordem está em toda a parte, a organização, o dever. E ele, o eu de que ninguém fala, o que ninguém sabe dizer, o que carrega o peso todo nos ombros, onde está ele, no meio de nós, precisamente, onde o esquecemos porque não falamos dele, ninguém fala, só por um momento, parar aquele respeito necessário ao entendimento mútuo, utopia dura e crua dentro da minha cabeça compreendem. É verdadeiramente, o que é isso, quem sou eu para afirmar, pergunto e a isso a resposta é, porque vivo, se vivo pergunto, porque não posso afirmar, e negar posso, será lícito negar-me, a quê, ao que não devo é inútil, um atraso retardamento o que agora nego afirma-se-me amanhã nesse amanhã que futuro sob a forma do trauma de vós ó gente, é por vós o caminho, não passarei sem que tu passes não irei a lado nenhum, o jogo, uns dentro dos outros não é brincadeira nenhuma, andamos aqui a brincar às mamãs e aos papás, andas por sítios de mim onde eu não estou, falas para mim e eu não te respondo porque não estou lá, esperas reacções respostas que não chegam estás em partes de mim onde eu não estou, como poderias encontrar resposta, conheces quartos e cantos que não sonho, vives em lugares que eu nunca vi, estão lá porque tu lá vives, é através de ti que chego até eles, até mim, então o que somos, onde estou, através de ti através de vós a única forma de chegar onde a voz me manda chegar, e a ti que manda a voz, será que manda será que pede a bom-tom, vozes de seres ignotos, não quero ver não preciso ver, conhecimento o que és, pecado original, ele quis saber, cisão, porque somos dois se dantes éramos um, quem saiu de quem, galinhas e ovos em amostras de capoeira, quem ensandece de vez tornar-se-á num canal irreconhecível de comunicação com o original, copistas é o que nós somos, não fui eu que disse. As reacções o que são, não quero não as quero reagir assim onde está a borracha que apaga este código, quem me programou essência de sermos humanos, o que é superior, onde está, não preciso ver, não quero ver, onde está a borracha, reacções destas para quê, tudo é a mesma coisa, e para amar o que é preciso saber, esqueçam-me por favor, dá-me a mão, vamos ser felizes, destinos da vida qual é o sabor afinal o que importa o que estamos aqui a fazer quero ouvir-te a ler a escritura que está aí, chamo-te assim sem nome porque te sei e não és nome nem corpo, quem te tirou análises ao sangue, amanhãs inscritos no código, ser maior estar para além da influência dos astros, ritmo cósmico centro de tudo é para lá que caminho caminhas caminharemos, até tu, que carregas nos ombros o peso disto tudo, tu de que ninguém se lembra, o eu de que ninguém fala, ninguém se diz, só máscara, que sonhe o eu uma vez chegar onde quer, que não veja impossibilidades, onde estão elas quem as criou quem as cria, somos copistas já está tudo feito comprem vendam façam negócio, é tudo negócio tráfico contrabando terrorismo armas de destruição maciça, não me calarei enquanto te ouvir, não cessarei não acabará nunca, organização ordem e tu virás até mim, disciplina discípulos onde estão os teus discípulos, estão aqui e ali não se calam, porque te ouvem porque olham para a direita para o lado em que te têm e vêem e ouvem aí está o ciclo eternamente renovado, o eterno retorno da palavra dele foste tu quem o disse não eu, tu és não eu, eu sou porque tu foste porque ele foi porque somos não código genético, programação sim borracha sim, ouvidos para ler dito por ti, por vós ele disse e eu digo somos teus e queremos desejamos pecamos erramos sofremos e ele que faz e que mais devemos fazer para que, o código escondido a verdade velada então é preciso o quê, ler todos os livros e então que mais se faz não se faz mais nada e mesmo assim não chega e ele que nunca leu nada na vida não sabe ler e trás consigo a vida das couves e das batatas a cinza da terra e o sal que sois vós o trabalho, ao trabalho pois sim, pois não importa tudo é a mesma coisa.

Diálogos

Para que foi dado o dom da palavra às criaturas, o que se espera da comunicação entre dois ou mais seres humanos, que a comunicação em grupo é uma outra coisa, comunicar com os olhos com gestos por sons por imagens, sim eu traduzo, imagética, fílmica, sonora realidades e palavras o dom supremo na supremacia que podemos conter, que o ser humano é um animal, nós somos bichos, ainda em estado de evolução, também no corpo que nos veste, a alma, um deles, que sete são os planos do ser, o físico é só mais um deles, mas também ele evolui e evoluirá dando-nos asas um dia quiçá, mudando-nos a língua e depois a linguagem como a concebemos, passo a passo se construirá a anulação daquilo que se construiu, sim pois, só se alcança quando deixa de se viver, só é perfeito aquele a quem nada falta, falar para quê quando tudo é a mesma coisa, o pensamento um só na essência dos seres, concebam-no, eu concebo-o, mas também concebo um infinito de linguagens e de línguas no não dizer nada, ao usar de uma anulo as outras, daí preferir o silêncio, embora saiba que muitas palavras têm de ser ditas, devem ser ditas para que possam ser ouvidas, sim pois, devemos falar de modo a que nos oiçam, falar para que as coisas mudem, para que o espaço seja partilhado na proporção de cada um de nós, é necessário que um se projecte nas mentes dos outros no complexo do mundo.

Falas tu e eu oiço-te, calo-me para te ouvir, ele não se cala para me ouvir, eles não se calam, não se calam, se espero que eles se calem, pois com certeza que espero que eles se calem, para me poderem ouvir, a quantos tempos de antena, quem define o ritmo, ritmo cósmico bater incessante das coisas a que ritmo, a espiral está em perene movimento, terá movimento enquanto for espiral, foi como começou a sê-lo, porque o foi não sei, saberá ele que pressuponho por detrás dela, como não futurar, sim pois, tenho de dizer não foi nada, que tenho eu de fazer, quem me diz, digo-te eu compreendem, a pergunta é inevitável, mas a resposta também e partem ambas do mesmo sítio, embora sejam dadas por pessoas diferentes, com conhecimentos diferentes, quanto ao grau abstenho-me de classificar cada um deles, grau de conhecimento, se é que existe uma escala, ainda ninguém a viu neste mundo, o que não a impede de existir num outro e a este nada o impede, de ter estado sempre do lado deste, este e deste, mundos um ao lado do outro, mas se a lista está ou esteve, é a mesma coisa, no outro o que poderemos fazer, senão ouvir a quem a leia, e acreditar porque é verdade, nas palavras que ouvimos, a alguém que passamos a conhecer e que nos soa familiar, embora nada de nosso tenha no sangue, nós, dele já não digo que se aplique, ninguém nunca lhe analisou o plasma ou lhe contou os glóbulos coloridos ao microscópio, ele é o do outro mundo, como a escala que classifica o conhecimento, que sabes tu o que saberei eu, pergunto perguntas perguntam, com quantos paus se faz, o movimento é perene até que o que se movimenta exista, a inércia é uma expiração para purificar o ar, lavar as costas com creme de massagem aromático, para depois continuar, micro dentro do macro, cosmos ritmo cósmico, vibração dos seres, eu sinto o que tu vibras, sentes sentimos, sentem pergunto preciso de respostas nas vossas mentes, vós sois o sal da terra ele disse, eu torno a dizer não são minhas nem dele essas palavras são vossas, ele disse são nossas, são dos que existem para as dizer, a razão disto não sei, não sabemos ele não sabia, conhecemos bem os sintomas, são de toda a ordem, por todo o lado que o corpo pode doer dói, os ossos partem-se, as fibras estalam tornam-se poeiras cadavéricas, as palavras são nossas, somos nós que as dizemos, mas não fui eu quem disse foi ele compreendem, temos de dizer sim, onde estão os discípulos, estão aqui, espalhados pelos ofícios, chamam-lhes artistas, Zés-ninguém, a vida das couves na cinza da terra num homem escorraçado que ara a meia enxada e dá vida à batata, as palavras são dele não são minhas foi ele quem disse, no entanto eu digo-as e são minhas porque eu as disse é isso que faço, pergunto e respondo no complexo da espiral sempre em movimento.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Diálogos

Parecem iguais aquelas duas os gestos a disposição das coisas das crianças como coisas, vamos de carro de praça que eu pago, pagas, pago, à luta com as contas que vencem sempre, à luta com o choro das crianças como coisas, que afectam que são a vida, as crianças ensinam-nos a viver, descobrem a vida descobrem os mantos e deixam-nos nus outra vez como ele como eles estavam nus e não sentiam vergonha, o que veio depois, qual serpente qual quê, é um lagarto sem patas é a variação genética é uma probabilidade entre todas é o acaso que não existe o rodar da tômbola a roda da fortuna é uma roda pois é e roda, umas vezes está, ora em está em cima e em baixo, era bom que ficasse em cima, seria, este é o mundo do devir tudo o que deve teme e vem, acaba por vir, o que mais temia me veio e ele também veio e agora está aqui, morto, mas ao nosso lado, e quem o segue, quem são agora os seus discípulos, onde está a mensagem, as mentes agitam os costumes, eles passam coiotes, os passos transformados em sombras, outrar-se, ser aquilo que só se ouviu, ai agora sou pois sou, dou por mim a sê-lo mais do que ele alguma vez o foi e parece que foi só porque o vi que sou, quantos são quantos são venham todos que ele é o primeiro a fugir, Inverno, muito vai chover ainda, roupa sobre roupa eles estão sempre safos nós é que é pior temos que combinar as coisas, que descriminação esta, homens e mulheres, mulheres e homens, ela que saiu da costela dele para lhe fazer companhia, se éramos um porque somos agora dois.

Faço uma força estupidamente absurda, as ideias ao serem ditas perdem-se, ao serem realizadas cumprem-se. O que vem depois passa a ser o que estava antes, aqueles marcos onde nos achamos, deles seguimos para o que será a seguir, somos nestes breves momentos aquilo que somos, no momento a seguir seremos aquilo que seremos partindo do que fomos, não podemos ser a partir do nada, fomos sempre alguma coisa. Eu guardo memória do que fui muito para além do que consigo lembrar-me. Vejo consubstanciadas muitas dessas memórias sob diversas formas nesse futuro que parte do ontem. Exaustão. Onde ficas tu, terei já estado em ti, terei podido já dizer-me exausto ou a minha mente sensível protege-me do teu fim com esses mecanismos de defesa que bloqueiam as passagens da escadaria em caracol como braços com mãos que puxam agarram-se ao corrimão e puxam largam a espiral da ascensão trazida do profundo ignoto da minha essência. E belo, poderá um levantar-se e dizer sem se olhar ao espelho sem se ver reflectido em parte alguma, sou belo, o que é belo, são paisagens no interior de nós reflectidas no corpo de outrem, são vozes que cantam a nossa música em coro, são tudo coisas que escorrem por cima das cascatas desse líquido substancial, são o ar e o vácuo, matéria preta. Vinde a mim conhecimento do universo extensão profundidade compactude da vida, vinde. Sede através desta massa que não compreendo através destes mecanismos que ignoro, sede. Sede plena e totalmente para que ganhe a minha individualidade de ti e possa ser plenamente também. Uma estranha paz invade-me. Não, não é estranha. Conheço-a bem, tenho vindo a namorá-la, ó sucedânea da liberdade que me impus, não preciso falar dela, não me destabiliza não sinto revolta e sei que não é por fraqueza que não o sinto antes por força e uma espécie de alheamento ou desapego que por consequência de outras opções adquiri. Então a ideia não é fazer deste mundo o reflexo translúcido do outro, como assim, eu explico por outras palavras por todas as que forem possíveis esta ideia, então não é, o mundo um reflexo do que somos por dentro, não podemos encontrar nada fora que não tenhamos já encontrado dentro e o pensamento visto por fora deve ser igual ao visto por dentro, da diferença entre um e o outro nasce a ilusão e o mal como forma de ignorância, mal como entidade mal como condição humana, eu não tenho opinião, todas as opiniões são válidas desde que justificadas, não vejo distinção entre a tua opinião e a dele uma vez que ambos se justificam ambos me justificam, tão validos os argumentos de um como os de outro desde que ambos acreditem neles ou pelo menos sejam convincentes na mentira, sim pois, também a mentira é uma justificação e esta serve para tudo. Mas não era nada disto que estava a dizer. Dizia que me sinto em paz mas temo, temo pelo momento futuro em que o outro vai ser eu em vez de mim, e lá se vai isto comigo pró buraco até que volte, mas tu morreste não me esqueço, e o outro que era para ti morreu contigo, quando o chamares serei fantasma, o fantasma dele para ti eu serei, sim e a par com isso vamos ver se conseguirei ser eu ainda ou que outro nascerá das cinzas do que matei. Da ressurreição o fantasma, o que pretendo é que te afastes não por medo mas por falta, e que instintivamente procures noutro lado o que deixaste de encontrar aqui.

O fantasma do eu que estava contigo mostrar-te-à o caminho ou pelo menos que há um caminho, e tu sem saberes nada disto nem como irás lá ter, ficarei contente quando lá chegares e quando sentir a distância correcta entre ti e eu, quando vir que o novo ser cresce no espaço que será dele, livre sem precisar falar em liberdade.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Diálogos

Não sei porque apareceste naquela sala, vi-te passar absorto como que caminhando num mundo diferente, à mesa com um dos muitos que passaram vi-te passar absorto e não sei porque fui atrás de ti. Sei que acabou. Eu sou assim, dou-me ao luxo de dizer estas coisas, de cortar com as pessoas como com as coisas, acabou, não quero mais nada de ti, não te quero ver, desaparece-me da vista, arranja outro emprego, melhor que este se conseguires, deixa-me, não te posso ver, não te posso ajudar, não sou tanto, desvitalizas-me, da nossa relação, amizade não é, qualquer outra coisa será, ou foi, advém-me mais mal que bem, não consigo trazer-te bem nenhum, chega de bater no ceguinho, chega de enganos e engodos, não te consigo ajudar, não sou santo, desvitalizas-me, trazes-me mais mal que bem, acabou, não posso mais, não posso andar desvitalizado, não posso andar a arrastar-me pelos cantos, não posso andar por aí a bradar impaupérios, a tua presença distorce os reflexos que os outros recebem de mim, o teu nome anda misturado com o meu, não resulta nada de bom desta nossa relação amizade não é o que quer que tenha sido, agora já não importa mais, quero que desapareças, que vás mais o teu mundo, que me vou abster de classificar embora o pudesse fazer, não te vou descrever, não te vou analisar, não quero mais saber de ti, nem isso me mereces, não me mereces nada, ameba, protozoário, ser unicelular, sem cérebro e sem alma, enganas-te, não é esse o caminho, não digo que não seja esse o teu caminho, tu lá sabes qual é o teu caminho ou não, o problema é teu, digo-te que não é esse o caminho para chegar lá, onde todos temos de chegar, tenho pena de não poder andar ao teu passo, de não poder ir contigo a todos esses mundos ou ficar contigo nesse que tanto gostas, não posso andar ao teu passo, não posso andar desvitalizado, não posso andar por aí a proferir palavras vãs, não posso estar do teu lado, tenho que seguir em frente, o teu nome não tem que andar misturado com o meu, o teu ser não tem de toldar os meus reflexos, não te posso valer de nada. E depois vem o perdão, inevitável e inexoravelmente trazido pela mão da fada que mora dentro de mim que me habita me oscula com todo o seu amor e me completa fazendo-me ser, porque olho nos olhos dela assim frente a frente essências puras como duras que se amam e que são as únicas forças aniquiladoras uma da outra, esferas pertencentes a um mesmo reino classifiquem ou não as coisas, somos um sendo. Somos um e mantemos a nossa individualidade, temos um pedaço daquilo que está lá, aqui, no meio deles, junta-se a multidão em torno dele é sempre através de vós a impermeabilidade deve ser de facto apanágio de seres que ambicionem possuir essa visão de ver as coisas compreendem, impermeabilidade à treva tanta quanto possível, para que não sejamos opacos à luz e de nós brote amor que é o que, lá, o ser será outro porque terá evoluído graças a quê, nunca mais tive notícias não tenho reparado no voo dos pombos possivelmente algum recado no brilho de um dorso, um braço de sol que nos une, somos todos obra do mesmo artista, dor de cotovelo de não saber qual é o plano, senti-lo nos pássaros nas pedras e nos peixes a anima das coisas onde está, onde estão os leucócitos do sangue da alma, para onde foram que droga lhes disse adormeçam ou terá sido um momento de lucidez que me pôs do lado de lá a dar vida às respostas que não oiço, não terei eu sonhado qualquer coisa como esta vida num ontem de que não me lembro, até onde poderá ir o esquecimento, esse banho de uma água que ninguém viu, ele entrou para o meio do rio e foi banhado e depois, a água a essência vital do ser, imagina alguém feito de outra coisa, qual é a ordem das coisas, ó capacidade de sequencialização, fazer qualquer coisa ou ficar sentado à espera que algo aconteça, sonhar ir sonhando com o que pode acontecer acreditar que vai acontecer imaginá-lo trazido pelas mãos dela e depois não acontece nada disso o sonho não passou de sonho e a realidade é outra, ficar sentado esperar ou agir, mas e se eu disser que parte do meu sonho é ficar sentado à espera como a princesa como o sapo como o beijo que ambos esperam, que espero e que comparo o que vem com essa imagem que tenho na cabeça do que há-de vir do que seria bom se acontecesse, faço isto faço aquilo não faço nada, que tramas são estas da vida, quem escreveu este guião onde está onde é que eu estava quando ele o escreveu e quando ele o leu que não ouvi e agora quem vem dizer-me para que eu saiba o que ele disse o que ele escreveu esta trama este enredo sem fim à vista, não quero nada olho os outros oiço-os falar do que querem do que quiseram do que irão querer falam apetece-me atirar para o chão façam-me um atirem-se para cima de mim, não vos consigo ouvir, não consigo estabelecer uma conversa, não tenho nada para dizer, não quero ouvir nada do que têm para dizer oiço-os quando falam entre si e isso basta-me, não têm de falar para mim não se sintam impelidos a fazê-lo parem aprendam síncope, quem sou telhados de vidro pedras a mim e a ti, quem foi que atirou a primeira quem era a prostituta, apetece-me atirar pró chão façam-me um atirem-se a mim como cães não latindo rosnando medo, falam seja do que for não importa o que digam nada interessa ninguém interessa e estou farto dele, não consigo fazer nada dele, se é essa a ideia deles, não consigo fazer nada de mim, se é esse o propósito, como dizer-lhe que se vá embora de mim, como negá-lo, como não ceder ás tentações o que está em troca, não há trocas, porque é que é este o caminho poderei escolher não estou em parte nenhuma, não digo nada de jeito sou como os outros, não, não sou como os outros não é o fazer as coisas que os outros fazem que me torna igual a eles é o erro é a síncope, apetece-me atirar para o chão façam isto façam aquilo não façam nada, falar de desgraças não das tragédias do mundo não das barrigas inchadas pela fome e das moscas como pássaros de pescoço pelado em redor das bocas, falar da desgraça dos meus actos, contradição e incoerência, desequilíbrio o que faço e o que penso tão diferente, juntou-se a multidão ou multidão nenhuma um individuo singular que disse em casa de frei Tomás, deveria ajudá-lo sim deveria ajudá-lo manter-me fiel a mim mesmo àquilo que sou no que acredito, é o que eles dizem é o que eu sinto é o que eu vejo depois de obrar é o que eu vejo depois de masturbação é o que eu vejo, são as lágrimas por cima da merda ejaculação precoce não eternidade da matéria não orgasmo ejaculação precoce, não poder voltar atrás, o desconcerto de não haver arrependimento os malucos não se arrependem alegam insanidade mental e ficam ilibados perante o juiz.

Quero-me, quero o meu destino e a minha vida sempre lutei por isso, pela libertação de influências, e quando as coisas chegam a este ponto há que dar o basta, claro que com isso vou matar em mim aquele que criei para te acompanhar, mas será só mais uma morte dentro de mim e nunca vais saber que a seguir a ela um nascimento se dará, pois eu sou assim, nunca vais saber que não fui eu quem andou contigo, nunca vais saber que aquele que julgaste conhecer morreu, e que será fantasma para ti sempre que o chames. Quero-me liberto sem ter de falar em libertações não quero prisões não quero falar de libertações quero-me liberto, dependências, tu, o teu mundo os teus reflexos a tornarem os meus opacos o teu nome misturado com o meu não quero, as tuas dependências, o teu mundo, não quero, quero o meu mundo sem ter de querer nada, não quero querer, que se dividam os seres em duas estirpes se dividam os seres, artistas aqueles que sentem mais e de outra forma de todas as formas, aqueles que vêem passar, que apanham gravam momentos rostos emoções pensamentos canais puros do que verdadeiramente acontece porque não é o que passa não sois vós ó gente nesse bolo que não é bolo, tenho-vos um trauma profundo que vem das profundezas de mim, pergunto perguntas perguntam, amizade, amigos como receptáculos guardiães de nós, não estou perdido, sei quem tu és, sei o que eu sou, amizade não é, o que quer que tenha sido já passou, quero-me liberto livre sem ter de falar em liberdade, base ponto zero movimento em espiral agora centrípeto, na direcção do centro de tudo, eu ponto zero livre, não.


olhai e vede