A sucessão dos dias… por um lado cada dia é um novo dia, por outro o movimento é perene e tudo é a mesma coisa. O que não se sabe explicar permanece inexplicável ou já foi explicado em algum lado por alguém que eu não ouvi, ou ser-me-á explicado por alguém que tenha escrito para que eu saiba quiçá, onde estão os discípulos, se um assumir e aceitar que o que não sabe explicar não sabe explicar tanto se lhe dá que tenha sido explicado ou não, ele assumiu e aceitou que não sabe, se saberá um dia não creio que um pense se pensar também não será por isso que saberá ou deixará de saber seja o que for portanto é a mesma coisa, sim pois é a mesma coisa, tenho deus e o diabo sentados numa prateleira, tens temos terão, chegou a altura em que não posso permitir a mim mesmo certas e determinadas coisas a mim mesmo não me posso permitir e por conseguinte isto leva e trás um ás voltas do patamar para a escadaria em caracol de uns para os outros vós sois a ponte para ele compreendem,
Luzes cor de laranja, luzes brancas luz,
Escuro treva ausência de luz o preto que envergo aquilo que é,
(e aquilo que é feito para ser) de parecimentos está um cheio pois está, sim pois está talvez por isso é que não seja, só é aquele que é, ele é eu não sou tu és? Vou sendo conforme posso sei e quero, tudo o que a estes poros aflora sou eu, se não fora a mim que aflorasse não seria eu, escolho só o que entra o que sai, sai na medida do que é preciso, e o que vai sendo preciso é que tudo aflore, que todo o ser se cumpra, passarás tu e o velho da muleta a mulher obesa e o condenado o patrão dos patrões passarão todos ele espera eles esperam e eu estarei à espera quando o ser se cumprir como agora espero que se cumpra, a luz está em vós foi ele que se esqueceu de fechar a porta e eu vejo na escuridão que ficou depois de ter deixado de olhar pra lá, o lado de cá.
Tudo escuro do lado de cá, falo e de repente as lâmpadas começam a acender-se, o lado de lá, depois o lado de cá, o lado de cá depois o lado de lá, prismas reflexos tudo é a mesma coisa, tudo se acende, já não está escuro, pessoas chegam de lá, é a multidão, eu a apanhar a lagarta de ferro, chegam, uns atrás dos outros, o que os trás é o mesmo, os dias de trabalho, a sucessão dos dias, duros e rijos que pintam a roupa de branco por exemplo, ou às pintas, dias que endurecem as mãos, fazem calos e gretas rebentam a boca alargam os ossos.
O pincel e o sustento pelo buraco do vidro, cada qual tem a sua forma de pincelar, não fui eu que disse, cada um tem a sua forma de agarrar no pincel, sou eu que digo, uns fazem-no de forma rápida deixam escorrer o liquido picante não barram, outros com uma pincelada apenas barram tudo, são os traumatizados ou os que gostam pouco de picante, lá vai ele a molhar na tigela de plástico, em direcção à carcaça aberta com a outra mão, outra das que tocaram naquele pão, a do Zé que frita os couratos e o aquece no mesmo lume, ao pão do dia anterior, a do João que veio ver se o pão estava quente antes que o Zé passasse pão frio a mão que o pincela como se o pintasse, também eu lá vou à tigela,
E também eu pincelo como uma criança que não sabe o que faz,
E vejo-os experientes, a pincelarem, o João é o patrão, passeia o avental, passa um e outro copo por água, porque o líquido dos copos também precisa de mudar a espaços, movimento contado como os trocos que vai fazendo do que vai recebendo para deixar no banco deposito onde vai buscar outros trocos, aqueles com que agora completa a caixa, estes e aqueles no bolso da camisa, por dentro da camisola, pólo clássico, numa carteira que é arquivo de documentação, vibra o maxilar e gira nos calcanhares. O outro o terceiro, a terceira mão que toca no pão, mas também nos líquidos que jorram pra dentro dos copos e das barrigas inchadas, vinho tinto e branco, natural ou fresco, penalty, grande ou pequeno, puro ou traçado, de mistura, com gasosa, com cola, o sumo de laranja ou ananás no balcão de mármore sempre a rodilha grossa pra limpar as mãos todas porque todos precisam de limpar as mãos lá está ela grossa e super absorvente pronta a limpar as mãos a todos a limpar o balcão para todos poisarem as mãos e os copos e o pão e a gota do picante que está pronta a ser limpa pela rodilha grossa e super absorvente que limpa também o lava loiça de pedra com um manípulo vermelho que mais tarde alguém chamou de torneira, limpa a caixa de vidro que mais tarde alguém chamou montra, onde de tempos a tempos se mostram uns queijos, secos, a mesa de madeira diferente das outras porque é de madeira e as outras são de ferro vieram depois, aquela sempre foi mesa mas é de madeira, as cadeiras de madeira, diferentes das outras que são de ferro iguais ás mesas de ferro tudo revestido por um papel que já foi aos quadrados, tudo menos a mesa de madeira que continua a ser de madeira, numas e noutras gravadas as marcas dos copos e do vinho, as marcas do vinho gravadas pelos copos nas mesas, as grades de cerveja, media mini, branca e preta, a jorrarem para dentro dos copos e das barrigas inchadas. As grades de cerveja as grades de sumo são a decoração da sala mais um calendário renovado tardiamente porque o patrocinador passou mais tarde ou se esqueceu dos calendários quando passou pra trazer cheias as grades de sumo e de cerveja e levar vazias as grades que são a decoração da sala mais o calendário renovado tardiamente porque ele se esqueceu, ostentação da casa uma estatueta de uma águia símbolo desse clube de tanta gente aqui e acolá, Angola todos no chão, em cima da prateleira na parede por detrás do balcão, pintada pelo pó e pelo fumo gordurento, o preçário – courato, bucho, mista, por cima dos preçários antigos renovados com o passar do tempo que a inflação não perdoa ainda me lembro quando custavam em escudos, poucos, nessa altura comi-as à borla, pagamento por serviços prestados à casa, no tempo em que o João Paramês ainda fazia almoços para uns poucos fregueses contados, grandes petiscos servidos à mesa de madeira, deixou-se disso, o courato dá mais dinheiro e menos trabalho. Então amigo como está, está aí atrás não é, foi a vida que escolheu agora tem de a gramar, o outro olhava para ele e pescava os couratos com o grande garfo, tinindo na chapa negra.
Insatisfação. Pura e dura e incontrolável. É mesmo um sentimento de incómodo pela euforia que paira no ar, pelos momentos de alegria ansiados durante todo o ano, pelos momentos de loucura reprimidos durante todo o ano, pelas frustrações que se tornam compactas por cima do corpo, pela agitação excessiva das gentes e das ruas resultado do excesso de inércia que reina nas suas vidas o resto do ano. Momento de consagração dos boémios da nova era, dos que fogem da vida porque lhe ganharam medo, dos que nada lhes interessa e que por isso parecem ficar felizes quando vêem uma multidão gritar e pular o desapego do que voltarão a pegar no dia seguinte. É sempre o dia seguinte que me vem à cabeça, é tudo o que fica quando a folia se foi embora e o efeito da droga se foi embora e o dia do desapego acabou e agora todos voltam às suas carapaças, voltando a por em funcionamento a máquina que nunca parou, porque a engrenagem também vive desse dia como vive das almas para quem esse dia é o cúmulo da sociedade hipócrita e miserável em que vivo.
Custa-me mais esta fase de vida do que qualquer outra.
A vida pesa-me e custa-me muito mais do que devia.
Agora que encontrei aquilo que sempre busquei sofro por não poder verdadeiramente tê-lo. Uma dor infinita do tamanho do universo, todo o absurdo dentro de mim. A incoerência mais viva que nunca, o ser oscilante entre as extremidades parece que carrego a responsabilidade da gerência do universo e que tudo depende de mim é a maior fase de transição que alguma vez atravessei e por ser transitória inquieta-me porquê não sei, não sei nem como nem onde devo estar, tenho medo que as coisas me fujam do controlo, coisas que nunca estiveram nem estão sob o meu controlo.
Anseio. E no ansiar está a dor. Quero e no querer está a dor. Preciso e no precisar está a dor. Transporto a vida para o depois o que me deixa com o purgatório e o vácuo no agora. As sensações são sentidas no limite, qualquer ninharia é levada ao extremo. Tudo isto é necessário ou não estaria a vive-lo, tudo isto é o justo preço do que se seguirá e faz parte do cumprimento de nós, mas não só, auto-disciplina, o suficiente para encarar o presente como uma, esperam não tenho medo, espera para ficar em estado de latência até que, então sofro agonizo e temo perder alguma coisa ou errar, sou agora mais criança do que quando fui criança porque estou no principio e não sei nada. Nos tabiques que por tantas vezes me incomodam é que está o ganho. As coisas vivem-se de forma dividida o querer juntá-las é absurdo, por isso quando me passam pela cabeça ideias de ajuntamentos são claramente desprovidas de sentido, o que hoje me parece sem sentido pode amanha revelar-se o encaixe perfeito, viste o encaixe viste quero é ver o encaixe, há vivências só possíveis devido aos tabiques e à separação das coisas. Ser mediante o espaço como um líquido na quantidade exacta para encher o copo tudo o que está a mais transborda e portanto é inútil a não ser que haja bocas por baixo sedentas, satisfazer as medidas que precisam de ser satisfeitas, deixando o que sobra a dormir, tranquilamente por fora, inquieto por dentro, apraz aos que nos cercam e permite viver. Que quê de novo anda por aí e que se aprende assim, minúsculas partículas que pairam no ar são o que realmente nos faz subir os degraus, temos que fazer qualquer coisa ou não fazer nada, temos ou não temos, há qualquer coisa que corre paralela e que não deixa de correr, aquilo que são os outros aquilo que está instituído, a vida enquanto ser global e existencial perpetuamente nos convidará a fazer parte de alguma coisa, a estar em algum lugar, a tomar conhecimento do real e do irreal e perenemente lançar questões ao universo. O que se faz e o que não se faz o que se devia fazer o que se quer fazer o que se deve fazer o que se faz o que é feito o que está por fazer o que fazemos o que faço o que te fazia o que me farias o que te tinha feito o que é feito o que fiz o que farei o que faremos o que te farei o que fizemos eu tu ele nós vós eles eu tu ele eles. Imagens absurdas imprimidas em cartão vistas iluminadas pelo lucro usamos abusamos abusam o mal o bem o certo o errado todos pensam que sabem tudo ninguém sabe nada não enganam a morte é ela que vos dá a ilusão de viver e nem quando morrem a perdem, a vida é um suplicio um castigo abrir os olhos, todos os actos decorrentes, tudo aquilo que se torna contrário ao sono e à morte cansa é desprovido de sentido e caminha pró sono e para a morte, o amor é a vida, mas a vida está ausente da vida, cansou-se, deixou para amanha o que tentou fazer hoje e perdeu a luta, o bem refugiou-se e está exilado, o mal impera e tomou conta de tudo. Se tudo isto só se passa dentro de mim ou em mais algum lado se passa não quero saber, se devia renegar à morte e lutar pla vida teria que morrer e nascer outra vez porque nasci no mundo dos mortos vivos, nasci no lado do espelho onde nada é e tudo parece e basta.
O que quero dizer é que as coisas se processam de uma forma que não é linear e uma razão apontada não é uma razão achada nem porquê ou causa, não explica nem justifica é apenas uma razão argumento só é válida até que surja outra mais forte ou mais vigorosamente defendida. A distinção das coisas preocuparmo-nos com as razões é perda de tempo pois não nos traz respostas e sim é respostas que pretendemos. Tem que bastar. Interrogo-te da possibilidade de uma relação simbiótica com todas as pessoas entendes, o porquê e o como daquilo que se leva e traz dá e recebe, cada individuo é um manancial único fonte unívoca de troca, os seres e os espaços, respectivamente, proporcionam conjecturas especificas e irrepetíveis, por isso cada momento não deve ser reduzido ou catalogado embora nele possam imperar uma ou outra emoção um ou outro sentimento à que destrinçar aquilo que é nosso daquilo que não é e assumir a capacidade ou a falta dela para fruir a vida. Será lícito atribuirmos aos outros responsabilidades por aquilo que sentimos, o que se passa dentro de nós é da nossa responsabilidade, vivamos, carinhas imberbes carinhas vividas carinhas frustradas carinhas caídas. Ilusão desilusão sonho e espanto. Traçam as caras a diferentes traços. Somos um livro e um código, somos átomos, junções deles magotes deles pintados pelo que a alma sente. Os olhos estão para a cara como a cara está pró corpo, são portas, portas para o conteúdo de nós.
Porque te visto apenas porque te tenho dentro de mim como o pensamento que nunca sai da cabeça. Ter outra vez a folha em branco. Ver reduzidas as obrigações as dependências, tens de comer tens de beber se queres viver que discurso será o certo como se diz não vou, como se diz, cala-te como se diz, deixa-me dá-me o que é meu esquece, eu vou esquecer, vou continuar-me, não te levei a lado nenhum, transparência verdade paciência não à dependência, não. Não. Não é esse o rumo que quero seguir e depois a chave para entrar em casa e dar-te a mão, tenho mãos para, que me acompanham, não quero deixar de ouvir as vossas vozes, o caminho é um e é nosso, disso sei do resto não quero saber, não vou. Farei o que tem de ser feito com quem devo fazê-lo, a presença de certos indivíduos é prejudicial é nociva não há como negá-lo é nociva, prejudicial ao bom andamento das coisas. Cura de sono. Vida outra vez. Sai. Segue o teu caminho não me perturbes, ou vem, volta que não mais me perturbarás, a ajuda virá as mãos unir-se-ão uma e outra vez a cada nova invertida ver-te-ei afundar ver-te-ei desaparecer não há nada que possa fazer és tu não sou eu não ajuda quem não quer ser ajudado. Eu. Ponto de vista. Construção. Edificação. Obra. Calma. Toma. Grava permanentemente perenemente na memória nada esqueças tu és capaz escolhe assim lembrando-te de tudo. O que é isto que vejo hoje pra mim nada do que era antes continuo a procurar achei a razão da luta o vencer com mais mérito com todas as tentações tentando simultaneamente uma solução: lembrar, lembrar, lembrar dar as mãos e lembrar. Não me posso esquecer do negro, não esquecerei jamais os espaços escuros, o preto, o fim da linha. Lembro-me sim lembro-me de onde vim de onde venho lembro-me do caminho sei onde estive e para onde vou. Não posso esquecer-me. E não me esqueço não esquecerei porque no fim de mais uma volta de mais uma viagem ele está lá, volto ao ponto de partida, volto ao centro de mim, olho para a esquerda e ele está lá e espera. Realizo a distância que separa o presente do passado, a extensão do tempo, quanto mais tempo precisas, eu quero o meu caminho, queres o teu caminho e que outro tiveste até agora, o caminho dos outros, será possível deixarmos de ter o nosso caminho, o caminho desenha-se segundo pulsa a tua essência, bem-vindos ao antro claustrofóbico pasmem com os engodos do que nunca muda mas todos precisam ter a certeza de que está da mesma maneira. A voz doentia anuncia maquinalmente as mudanças em que ninguém acredita, depois inventam discursos baseados em livros que só eles leram porque só a eles competia ler, é o antro claustrofóbico, não se vê nada não se sabe nada, vão apear-se facilitem as entradas e as saídas deitem-se com os vossos cachorros mas não se esqueçam que a dos cães dá um nó quando o animal atinge o ponto que buscam. Poderias esperar agradecimento, uma ponta de alegria em mim pela atitude que nos vai tirar um peso e uns zeros de cima podias esperar que ficasse contente pela tentativa de aproximação e agradecido pelo que fazer pela nossa vida. Pois não estou nem contente nem agradecido a ti e estou-me nas tintas para as tuas atitudes. É uma ilusão pensar que facilita alguma coisa, chegarás a algum lado de mim ou de nós não chegarás nunca, porque agora sou eu quem não quer. Dá tudo o que quiseres ou não dês nada. Com as coisas postas nos devidos sítios serão as coisas postas nos devidos sítios e serão nossas com o trabalho o resto esquece como se esquece quem deu ou a mão que dá perde-se toda a intenção quando te abrir a porta, não quero sentir agradecimento quando abrir a porta, não sentirei nada porque esquecerei tudo até a dor não será possível lembrar porque no lugar dela outras maiores virão sim pois cadência de intensidades nas dores que passaram para que o mundo avance o esquecimento é o que nos mantém vivos. Se a vida pode ser bela então que seja, se podes ser bom então sê-o, que nada disto será verdadeiramente a vida, será tudo sonho, a vida é outra feita de convulsões e guerras aos obstáculos e ao cancro do universo. Esperança remota mas certeza convicta a inversão do sonho em vida e da vida em sonho, olho para tudo isto e confronto-vos com a podridão reflectindo as vossas ilusões para que se vejam, por motivos de segurança pedimos que se afastem dos limites da plataforma de embarque ó poetisa amofinada copista do sentir, Francisco palavras ditas em mundos paralelos mono qualquer coisa de mim, liberdade para poder ser na ausência de sê-lo em função dela deles das convenções, seguir o meu regime sem que ninguém me pergunte porquê, embainhem os vossos concelhos e dicas paizinhos não ando aqui a brincar às mamãs e aos papás progenitores postiços e criaturas egocêntricas estou nas vossas imperfeições mais do que estou em mim e não há culpa senão a que carrega aquele de que ninguém fala, cujo nome não pode pronunciar-se, cuja vida foi esquecida, a antecipação de todos os males, o anjo mais anjo dos anjos, agora o que é, renegado e com o peso da existência de tudo aos ombros cruz que vende para sobreviver, nada oferece porque nada possui, vende faz trocas suga dás-lhe a alma e ele dá-te bichos, bichos somos bichos comportamentos bons maus até no amor não deixamos de ser bichos comunhando do mesmo espaço dos bichos, faltando ao respeito à mãe e ao pai e aos bichos os outros, atravessas-te no caminho do teu irmão, reconhece-lo como irmão já seria bom mas não ele não é parecido comigo eu não sou parecido com ele isto e aquilo eu e o outro tudo é a mesma coisa porque pretendemos tratamento diferente e porque são dados tratamentos diferentes por nós aos outros, um pouco de ar fresco e pau de Cabinda, brindes e aquisições materiais ser contente num monte de chapa com forma ou numa palavra que parece mais sólida arvore coisa nascida do chão germinada o erotismo de uma esponja barulho de palha-de-aço cereais a vida das couves dentro de um homem escorraçado plo vizinho, ó irmão, irmão, agarrou, o sentimento de posse da terra que o chama que os chama ao escorraçado ao que carrega a vida das couves que as aduba com cinza e ao outro o pregão o arraial o courato viver barato uvas mirradas e desaproveitadas não há pés que as pisem a mesa de pedra germinada geração espontânea ou da vontade dos mortos as partilhas a lucidez de quem está de fora e se mantém dentro de si olhando expectante sem esperar nada espectador do mundo do arraial o sono de quem está de fora, de quem conserva um mundo diria artístico, o comer o beber o enganar dos sentidos o torpor do corpo e da alma, o que queres estás bem mais alguma coisa deixa estar a mim não me apetece eu lavo, comportamentos de bichos em arraial frases que soam descontextualizadas como playbacks falsos o porquê da natureza do verde da clorofila fotossíntese a vida o ar o meu ar a minha luz o que se passa por detrás do que se passa o que se conta o que se passou quanto tempo demorarás porque não me ouves será isso que me incomoda ou o que me incomoda é eu não ouvir o que quero dizer as palavras que digo são outra coisa o que de facto de passou está velado escondido por detrás da historia que é narrada nos anais e nos anos de escola nas falas dos personagens fala comigo fala comigo que queres que te diga o que te quero dizer é velado está escondido por detrás do que se passa na mesa de pedra germinada a uva a vida das couves num homem escorraçado os comportamentos as mascaras as palavras postiças a mesa germinada o sono a lucidez, foi rápido, era o que eu esperava eu nos ecos dos pregoes mirrados não há vinho.
As crianças ensinam-nos se viver é belo que o seja, as pedras azuis ensinam-nos a tua voz ensina-me filha do mar e do vento fruto de uma união abençoada pelos deuses deus que só há um único e insubstituível ingénito e indestrutível um único centro em redor do qual gravitam estas criaturas e estas duas criaturas partes divididas plo erro que ele carrega nos ombros às costas o peso todo do erro do universo cuidando que uma viagem é o caminho todo e tomando a vida que respira como um fardo que carrega nos ombros uma cruz que lhe serve de cama uma espera que o alimenta e o agoniza um cansaço que se revela prometedor revelador de um passado remoto de uma esperança longínqua de um lugar conhecido e para sempre lembrado na massa imutável que jaz enterrada muito fundo em nós, imutável o centro primeiro de tudo em redor do qual sempre estiveram e sempre estarão as nossas vidas, os nossos destinos caminham rectilíneos para um ponto, o que de curvilíneo e oblíquo achares na tua vida será o caminho de encontro contigo mesmo a jornada em redor de ti próprio as voltas as voltas um passo em frente dois pra trás o frio o mofo a podridão o peso não se esqueçam do peso brutal que carrega nos ombros aquele de que ninguém fala o omisso o ausente só na coragem de quem não tem coragem para o enfrentar para o olhar nos olhos e dizer: Vêm pra casa, o pai espera-nos.
A coragem, a sagacidade, o discernimento três ginjas e três cervejas e o mundo é nosso, contente, talvez.
Olho e vejo duas luzes. Mas não são duas luzes.
Errou, se disse errou.
É uma luz reflectida por duas janelas.
Parque pago. Tudo acontece no parque pago como o do Bojador,
Não, Bojador não, das riscas, das riscas azuis e brancas, das riscas azuis e brancas que vi quando não tinha aperto no estômago e pude ver vi vejo pude posso podes, as pessoas passam fazem parte do cenário, a dor de lá não afecta aquilo que é para lá do que está cá, aquilo que é necessita de ser experienciado para poder voltar a ser.
Não que tenha alguma vez deixado de ser, aquilo que é nunca pode deixar de ser, o que se dá é que é preciso representar o ser para a parte absurda de nós que o nega.
Ser em certeza toda a duvida que se coloca quanto ao carácter das coisas, da infinitude e da perfeição.
Não blasfemes contra ele porque és tu que o fazes.
Não ponhas a culpa dos teus actos em vivos que terão o seu quinhão de culpa, nem em mortos ou qualquer coisa pra lá disto que imaginas culpada da tua culpa, ela é toda tua, só tu és o responsável.
Mas eu vou descobrir. Sinto o tempo a escassear tenho que descobrir o que estou aqui a fazer tenho que me lembrar o que estou aqui a fazer, vou lembrar-me.
Vou começar mais uma vez, tenta mas não tornes a insistência abusiva. À medida que o entusiasmo avança e a dependência da sobrevivência se transforma na vida, à medida que as vestes vão assentando de maneira diferente nos corpos, que as reacções aos abalos exteriores são remetidas para um plano independente e livre, plano rico na sua simplicidade e total ausência de tabiques, esqueleto força vital, pelas minhas mãos deve passar o bem a realização a hora fatídica o momento trágico, a altura propícia, para que a gigantesca roda faça girar os seus cântaros na água e nos banhe do dia de amanhã num banho trazido hoje.
Faço tudo o que vocês quiserem mas não me levanto porque sentado penso melhor. São horas de ter fome. Lentos e pesarosos os passos que me levam a todo o lado. Porque o corpo tem fome a alma tem fome, sou devorado por bocarras abertas pequeninas mas grandes porque são muitas. Causam insatisfação. Causam desconsolo e desprazer. Reduzem a pedaços tudo o que se tem e tudo o que se almeja.
Estão para sempre comigo, só vão mudando de hábitos alimentares, mas sempre que dou por elas estão com fome. E quando não estão com fome é porque as estou a alimentar. Quando não dou por elas é porque as estou a alimentar. Quando não têm fome não dou por elas… deixam-me neste estado de incoerência e inconstância; são as responsáveis por boa parte das acções que empreendo e possuem, num sistema à parte, a sua escala de influências malévolas e benéficas na intensidade com que me mordem. Atraem pra junto de mim outros veículos que lá dentro carregam bocarras e julgo que querem formar um império. Um império semelhante ao que se julgam capazes de formar as inconsciências com pretensões conscienciosas das mentes daqueles que me rodeiam. Todos têm análises a fazer todos sabem tudo o que julgam saber mas quando o trem se põe em marcha nada o pode parar.
Quando é que deixei de pensar que poderia ser o que quisesse, quando me comecei a aperceber do que era.
Dizes-me que sou caos. Desordem no caos. Que sempre serei caos e nunca mais do que isso. Pois eu sei que um dia serei mais qualquer coisa e esse dia está à distância de mim. E preciso saber o que é que está caotizado, se é essa a sua forma natural, caótica e desordenada, ou se plo contrário esse algo que agora é assim converge para outra coisa. Mas sim sou caótico só não consigo é dizer que morra como estou decerto morrerei como sou é a ténue diferença entre o ser e o estar, a evolução, para continuar a sobreviver, para almejar viver, para existir é necessária e imperiosa a evolução, mutação e adaptação constantes.
Se há coisas que não consegues dizer, são palavras não ditas. São expressões de ecos inacabados, só a ti dizem respeito. Guarda-as no seio de ti mesmo, amanhã beberás do sumo que hoje espremeste e dá-lo-ás a partilhar a quem dele necessitar. Há líquidos que não são para ser bebidos frascos eternamente contidos, dá a mão a quem tos pedir e vai mostrá-los passeando por ti adentro. Para injecção nem todos servem, mas todos fazem parte de ti, ainda que de natureza diferente seja a essência de cada um deles. É nada mais, nada menos do que a volatilidade da tua substância mais rarefeita, és o líquido grosso opaco espesso, és a gota que já está derramada quando dás por ela és todos os estados desse àquele sempre eu, todos os instantes de ti, és.