domingo, 28 de novembro de 2010

Diálogos

Atinjo um novo estado de comodidade, espelhado no desconforto com que olhas a vida, a corda que te puxa é a minha janela para a realidade inalterável de mim, os tempos proféticos que atravesso, que atravessamos, são propícios ao fluir caótico do que em nós flui.

E a espera está-se a tornar cada vez mais a nossa ausência da realidade dos outros a nossa absorção na realidade de nós. O grito deixou de ser contido ele tornou-se a substância e voz de estar de diferentes maneiras com os outros. O desempenho do papel tornou-se demasiado, tornou-se, alastrou-se de tal maneira que o que sobeja é encontrado como uma memória esquecida, trazida a lume agora pela acção remota que está no espaço pensado antes do tempo.

Sinto-me como um ácido que se dissolvesse e criasse uma pasta pegajosa da substância de mim, liquido pastoso no qual vou, no limite do deslizar no limiar do possível a roçar o absurdo. Rejo-me pelas leis que nenhum código penal contempla, pelos valores que a humanidade esqueceu. Almejo o que está dentro de mim, nada mais ambiciono do que ser. Ser aquilo que sou, mas pelo meio de tudo isto tudo o que mais temo me vem, tudo o que não quero que venha acaba por vir ter comigo. Isto a par dos sonhos que alimento e dos desejos que evoco com força o maior deles todos já realizado por essa força suprema e sublime que é tudo o que vemos e o que não vemos e está cá e lá e para além de cá e lá. São agora três e quarenta e três no mostrador preto de números vermelhos. Neste dia que começou ao meio-dia do dia que já lá vai muito haveria para contar e detalhar, o quê, a consciência da excelência da alma humana, a regência pela minha escala de valores, a importância de não negar o bem que sou. Ou reduzir ao mínimo possível no momento actual a perversão da alma. O mal na percentagem do todo que sou eu. São cinco e dez. A esta hora a vida é diferente. Pergunto-me se será de facto diferente, se serão os meus sentidos que estão diferentes e por isso a captam de maneira diferente. Mas creio que não. Creio que é o inverso que se verifica. Ela é de facto diferente e com isso a minha percepção dela diferente e eu diferente também.

Não tenho nós nem atilhos, nem ânsias nem angústias, tenho somente uma vontade imensa de que tudo isto se mantivesse com a passagem das horas e que com o decorrer delas eu continuasse a sentir nas outras pessoas e em mim e no ar esta sensação de finalização, de tudo feito e nada pra fazer, a não ser esperar por mais horas e pensar no que já está feito. Mas não. Tudo isto vai passar ao grupo das coisas nas quais não se pensa, ou se pensa pouco, aquelas coisas que amanha não vão passar do dia d’hoje, e que não vão ser base pra nada porque se vão dissolver no todo de nadas que somos.

E voltaremos a errar e a ir aos mesmos sítios e a levantarmo-nos e sentarmo-nos até que deixemos de o fazer, ou porque finalmente percebemos que é melhor nada fazer, ou porque deixamos de poder fazer seja o que for. Depois há também os que por aqui andam e não estão nestas condições ainda que por estarem aqui pareça que tenham de estar. Contudo tem tudo a ver. Estes não finalizam nada, começam alguma coisa antes de todos os outros deliberadamente. E depois existo eu que estou aqui para além de tudo isto como espectador destes cenários que não descrevo com personagens que não existem porque só as concebo enquanto ideias que possuo, então para existirem teriam que o fazer dentro da minha cabeça e moverem-se em qualquer lado para que eu as visse. Se isto for possível assim é, se não for não é.

Diálogos

A sucessão dos dias… por um lado cada dia é um novo dia, por outro o movimento é perene e tudo é a mesma coisa. O que não se sabe explicar permanece inexplicável ou já foi explicado em algum lado por alguém que eu não ouvi, ou ser-me-á explicado por alguém que tenha escrito para que eu saiba quiçá, onde estão os discípulos, se um assumir e aceitar que o que não sabe explicar não sabe explicar tanto se lhe dá que tenha sido explicado ou não, ele assumiu e aceitou que não sabe, se saberá um dia não creio que um pense se pensar também não será por isso que saberá ou deixará de saber seja o que for portanto é a mesma coisa, sim pois é a mesma coisa, tenho deus e o diabo sentados numa prateleira, tens temos terão, chegou a altura em que não posso permitir a mim mesmo certas e determinadas coisas a mim mesmo não me posso permitir e por conseguinte isto leva e trás um ás voltas do patamar para a escadaria em caracol de uns para os outros vós sois a ponte para ele compreendem,

Luzes cor de laranja, luzes brancas luz,

Escuro treva ausência de luz o preto que envergo aquilo que é,

(e aquilo que é feito para ser) de parecimentos está um cheio pois está, sim pois está talvez por isso é que não seja, só é aquele que é, ele é eu não sou tu és? Vou sendo conforme posso sei e quero, tudo o que a estes poros aflora sou eu, se não fora a mim que aflorasse não seria eu, escolho só o que entra o que sai, sai na medida do que é preciso, e o que vai sendo preciso é que tudo aflore, que todo o ser se cumpra, passarás tu e o velho da muleta a mulher obesa e o condenado o patrão dos patrões passarão todos ele espera eles esperam e eu estarei à espera quando o ser se cumprir como agora espero que se cumpra, a luz está em vós foi ele que se esqueceu de fechar a porta e eu vejo na escuridão que ficou depois de ter deixado de olhar pra lá, o lado de cá.

Tudo escuro do lado de cá, falo e de repente as lâmpadas começam a acender-se, o lado de lá, depois o lado de cá, o lado de cá depois o lado de lá, prismas reflexos tudo é a mesma coisa, tudo se acende, já não está escuro, pessoas chegam de lá, é a multidão, eu a apanhar a lagarta de ferro, chegam, uns atrás dos outros, o que os trás é o mesmo, os dias de trabalho, a sucessão dos dias, duros e rijos que pintam a roupa de branco por exemplo, ou às pintas, dias que endurecem as mãos, fazem calos e gretas rebentam a boca alargam os ossos.

O pincel e o sustento pelo buraco do vidro, cada qual tem a sua forma de pincelar, não fui eu que disse, cada um tem a sua forma de agarrar no pincel, sou eu que digo, uns fazem-no de forma rápida deixam escorrer o liquido picante não barram, outros com uma pincelada apenas barram tudo, são os traumatizados ou os que gostam pouco de picante, lá vai ele a molhar na tigela de plástico, em direcção à carcaça aberta com a outra mão, outra das que tocaram naquele pão, a do Zé que frita os couratos e o aquece no mesmo lume, ao pão do dia anterior, a do João que veio ver se o pão estava quente antes que o Zé passasse pão frio a mão que o pincela como se o pintasse, também eu lá vou à tigela,

E também eu pincelo como uma criança que não sabe o que faz,

E vejo-os experientes, a pincelarem, o João é o patrão, passeia o avental, passa um e outro copo por água, porque o líquido dos copos também precisa de mudar a espaços, movimento contado como os trocos que vai fazendo do que vai recebendo para deixar no banco deposito onde vai buscar outros trocos, aqueles com que agora completa a caixa, estes e aqueles no bolso da camisa, por dentro da camisola, pólo clássico, numa carteira que é arquivo de documentação, vibra o maxilar e gira nos calcanhares. O outro o terceiro, a terceira mão que toca no pão, mas também nos líquidos que jorram pra dentro dos copos e das barrigas inchadas, vinho tinto e branco, natural ou fresco, penalty, grande ou pequeno, puro ou traçado, de mistura, com gasosa, com cola, o sumo de laranja ou ananás no balcão de mármore sempre a rodilha grossa pra limpar as mãos todas porque todos precisam de limpar as mãos lá está ela grossa e super absorvente pronta a limpar as mãos a todos a limpar o balcão para todos poisarem as mãos e os copos e o pão e a gota do picante que está pronta a ser limpa pela rodilha grossa e super absorvente que limpa também o lava loiça de pedra com um manípulo vermelho que mais tarde alguém chamou de torneira, limpa a caixa de vidro que mais tarde alguém chamou montra, onde de tempos a tempos se mostram uns queijos, secos, a mesa de madeira diferente das outras porque é de madeira e as outras são de ferro vieram depois, aquela sempre foi mesa mas é de madeira, as cadeiras de madeira, diferentes das outras que são de ferro iguais ás mesas de ferro tudo revestido por um papel que já foi aos quadrados, tudo menos a mesa de madeira que continua a ser de madeira, numas e noutras gravadas as marcas dos copos e do vinho, as marcas do vinho gravadas pelos copos nas mesas, as grades de cerveja, media mini, branca e preta, a jorrarem para dentro dos copos e das barrigas inchadas. As grades de cerveja as grades de sumo são a decoração da sala mais um calendário renovado tardiamente porque o patrocinador passou mais tarde ou se esqueceu dos calendários quando passou pra trazer cheias as grades de sumo e de cerveja e levar vazias as grades que são a decoração da sala mais o calendário renovado tardiamente porque ele se esqueceu, ostentação da casa uma estatueta de uma águia símbolo desse clube de tanta gente aqui e acolá, Angola todos no chão, em cima da prateleira na parede por detrás do balcão, pintada pelo pó e pelo fumo gordurento, o preçário – courato, bucho, mista, por cima dos preçários antigos renovados com o passar do tempo que a inflação não perdoa ainda me lembro quando custavam em escudos, poucos, nessa altura comi-as à borla, pagamento por serviços prestados à casa, no tempo em que o João Paramês ainda fazia almoços para uns poucos fregueses contados, grandes petiscos servidos à mesa de madeira, deixou-se disso, o courato dá mais dinheiro e menos trabalho. Então amigo como está, está aí atrás não é, foi a vida que escolheu agora tem de a gramar, o outro olhava para ele e pescava os couratos com o grande garfo, tinindo na chapa negra.

Insatisfação. Pura e dura e incontrolável. É mesmo um sentimento de incómodo pela euforia que paira no ar, pelos momentos de alegria ansiados durante todo o ano, pelos momentos de loucura reprimidos durante todo o ano, pelas frustrações que se tornam compactas por cima do corpo, pela agitação excessiva das gentes e das ruas resultado do excesso de inércia que reina nas suas vidas o resto do ano. Momento de consagração dos boémios da nova era, dos que fogem da vida porque lhe ganharam medo, dos que nada lhes interessa e que por isso parecem ficar felizes quando vêem uma multidão gritar e pular o desapego do que voltarão a pegar no dia seguinte. É sempre o dia seguinte que me vem à cabeça, é tudo o que fica quando a folia se foi embora e o efeito da droga se foi embora e o dia do desapego acabou e agora todos voltam às suas carapaças, voltando a por em funcionamento a máquina que nunca parou, porque a engrenagem também vive desse dia como vive das almas para quem esse dia é o cúmulo da sociedade hipócrita e miserável em que vivo.

Custa-me mais esta fase de vida do que qualquer outra.

A vida pesa-me e custa-me muito mais do que devia.

Agora que encontrei aquilo que sempre busquei sofro por não poder verdadeiramente tê-lo. Uma dor infinita do tamanho do universo, todo o absurdo dentro de mim. A incoerência mais viva que nunca, o ser oscilante entre as extremidades parece que carrego a responsabilidade da gerência do universo e que tudo depende de mim é a maior fase de transição que alguma vez atravessei e por ser transitória inquieta-me porquê não sei, não sei nem como nem onde devo estar, tenho medo que as coisas me fujam do controlo, coisas que nunca estiveram nem estão sob o meu controlo.

Anseio. E no ansiar está a dor. Quero e no querer está a dor. Preciso e no precisar está a dor. Transporto a vida para o depois o que me deixa com o purgatório e o vácuo no agora. As sensações são sentidas no limite, qualquer ninharia é levada ao extremo. Tudo isto é necessário ou não estaria a vive-lo, tudo isto é o justo preço do que se seguirá e faz parte do cumprimento de nós, mas não só, auto-disciplina, o suficiente para encarar o presente como uma, esperam não tenho medo, espera para ficar em estado de latência até que, então sofro agonizo e temo perder alguma coisa ou errar, sou agora mais criança do que quando fui criança porque estou no principio e não sei nada. Nos tabiques que por tantas vezes me incomodam é que está o ganho. As coisas vivem-se de forma dividida o querer juntá-las é absurdo, por isso quando me passam pela cabeça ideias de ajuntamentos são claramente desprovidas de sentido, o que hoje me parece sem sentido pode amanha revelar-se o encaixe perfeito, viste o encaixe viste quero é ver o encaixe, há vivências só possíveis devido aos tabiques e à separação das coisas. Ser mediante o espaço como um líquido na quantidade exacta para encher o copo tudo o que está a mais transborda e portanto é inútil a não ser que haja bocas por baixo sedentas, satisfazer as medidas que precisam de ser satisfeitas, deixando o que sobra a dormir, tranquilamente por fora, inquieto por dentro, apraz aos que nos cercam e permite viver. Que quê de novo anda por aí e que se aprende assim, minúsculas partículas que pairam no ar são o que realmente nos faz subir os degraus, temos que fazer qualquer coisa ou não fazer nada, temos ou não temos, há qualquer coisa que corre paralela e que não deixa de correr, aquilo que são os outros aquilo que está instituído, a vida enquanto ser global e existencial perpetuamente nos convidará a fazer parte de alguma coisa, a estar em algum lugar, a tomar conhecimento do real e do irreal e perenemente lançar questões ao universo. O que se faz e o que não se faz o que se devia fazer o que se quer fazer o que se deve fazer o que se faz o que é feito o que está por fazer o que fazemos o que faço o que te fazia o que me farias o que te tinha feito o que é feito o que fiz o que farei o que faremos o que te farei o que fizemos eu tu ele nós vós eles eu tu ele eles. Imagens absurdas imprimidas em cartão vistas iluminadas pelo lucro usamos abusamos abusam o mal o bem o certo o errado todos pensam que sabem tudo ninguém sabe nada não enganam a morte é ela que vos dá a ilusão de viver e nem quando morrem a perdem, a vida é um suplicio um castigo abrir os olhos, todos os actos decorrentes, tudo aquilo que se torna contrário ao sono e à morte cansa é desprovido de sentido e caminha pró sono e para a morte, o amor é a vida, mas a vida está ausente da vida, cansou-se, deixou para amanha o que tentou fazer hoje e perdeu a luta, o bem refugiou-se e está exilado, o mal impera e tomou conta de tudo. Se tudo isto só se passa dentro de mim ou em mais algum lado se passa não quero saber, se devia renegar à morte e lutar pla vida teria que morrer e nascer outra vez porque nasci no mundo dos mortos vivos, nasci no lado do espelho onde nada é e tudo parece e basta.

O que quero dizer é que as coisas se processam de uma forma que não é linear e uma razão apontada não é uma razão achada nem porquê ou causa, não explica nem justifica é apenas uma razão argumento só é válida até que surja outra mais forte ou mais vigorosamente defendida. A distinção das coisas preocuparmo-nos com as razões é perda de tempo pois não nos traz respostas e sim é respostas que pretendemos. Tem que bastar. Interrogo-te da possibilidade de uma relação simbiótica com todas as pessoas entendes, o porquê e o como daquilo que se leva e traz dá e recebe, cada individuo é um manancial único fonte unívoca de troca, os seres e os espaços, respectivamente, proporcionam conjecturas especificas e irrepetíveis, por isso cada momento não deve ser reduzido ou catalogado embora nele possam imperar uma ou outra emoção um ou outro sentimento à que destrinçar aquilo que é nosso daquilo que não é e assumir a capacidade ou a falta dela para fruir a vida. Será lícito atribuirmos aos outros responsabilidades por aquilo que sentimos, o que se passa dentro de nós é da nossa responsabilidade, vivamos, carinhas imberbes carinhas vividas carinhas frustradas carinhas caídas. Ilusão desilusão sonho e espanto. Traçam as caras a diferentes traços. Somos um livro e um código, somos átomos, junções deles magotes deles pintados pelo que a alma sente. Os olhos estão para a cara como a cara está pró corpo, são portas, portas para o conteúdo de nós.

Porque te visto apenas porque te tenho dentro de mim como o pensamento que nunca sai da cabeça. Ter outra vez a folha em branco. Ver reduzidas as obrigações as dependências, tens de comer tens de beber se queres viver que discurso será o certo como se diz não vou, como se diz, cala-te como se diz, deixa-me dá-me o que é meu esquece, eu vou esquecer, vou continuar-me, não te levei a lado nenhum, transparência verdade paciência não à dependência, não. Não. Não é esse o rumo que quero seguir e depois a chave para entrar em casa e dar-te a mão, tenho mãos para, que me acompanham, não quero deixar de ouvir as vossas vozes, o caminho é um e é nosso, disso sei do resto não quero saber, não vou. Farei o que tem de ser feito com quem devo fazê-lo, a presença de certos indivíduos é prejudicial é nociva não há como negá-lo é nociva, prejudicial ao bom andamento das coisas. Cura de sono. Vida outra vez. Sai. Segue o teu caminho não me perturbes, ou vem, volta que não mais me perturbarás, a ajuda virá as mãos unir-se-ão uma e outra vez a cada nova invertida ver-te-ei afundar ver-te-ei desaparecer não há nada que possa fazer és tu não sou eu não ajuda quem não quer ser ajudado. Eu. Ponto de vista. Construção. Edificação. Obra. Calma. Toma. Grava permanentemente perenemente na memória nada esqueças tu és capaz escolhe assim lembrando-te de tudo. O que é isto que vejo hoje pra mim nada do que era antes continuo a procurar achei a razão da luta o vencer com mais mérito com todas as tentações tentando simultaneamente uma solução: lembrar, lembrar, lembrar dar as mãos e lembrar. Não me posso esquecer do negro, não esquecerei jamais os espaços escuros, o preto, o fim da linha. Lembro-me sim lembro-me de onde vim de onde venho lembro-me do caminho sei onde estive e para onde vou. Não posso esquecer-me. E não me esqueço não esquecerei porque no fim de mais uma volta de mais uma viagem ele está lá, volto ao ponto de partida, volto ao centro de mim, olho para a esquerda e ele está lá e espera. Realizo a distância que separa o presente do passado, a extensão do tempo, quanto mais tempo precisas, eu quero o meu caminho, queres o teu caminho e que outro tiveste até agora, o caminho dos outros, será possível deixarmos de ter o nosso caminho, o caminho desenha-se segundo pulsa a tua essência, bem-vindos ao antro claustrofóbico pasmem com os engodos do que nunca muda mas todos precisam ter a certeza de que está da mesma maneira. A voz doentia anuncia maquinalmente as mudanças em que ninguém acredita, depois inventam discursos baseados em livros que só eles leram porque só a eles competia ler, é o antro claustrofóbico, não se vê nada não se sabe nada, vão apear-se facilitem as entradas e as saídas deitem-se com os vossos cachorros mas não se esqueçam que a dos cães dá um nó quando o animal atinge o ponto que buscam. Poderias esperar agradecimento, uma ponta de alegria em mim pela atitude que nos vai tirar um peso e uns zeros de cima podias esperar que ficasse contente pela tentativa de aproximação e agradecido pelo que fazer pela nossa vida. Pois não estou nem contente nem agradecido a ti e estou-me nas tintas para as tuas atitudes. É uma ilusão pensar que facilita alguma coisa, chegarás a algum lado de mim ou de nós não chegarás nunca, porque agora sou eu quem não quer. Dá tudo o que quiseres ou não dês nada. Com as coisas postas nos devidos sítios serão as coisas postas nos devidos sítios e serão nossas com o trabalho o resto esquece como se esquece quem deu ou a mão que dá perde-se toda a intenção quando te abrir a porta, não quero sentir agradecimento quando abrir a porta, não sentirei nada porque esquecerei tudo até a dor não será possível lembrar porque no lugar dela outras maiores virão sim pois cadência de intensidades nas dores que passaram para que o mundo avance o esquecimento é o que nos mantém vivos. Se a vida pode ser bela então que seja, se podes ser bom então sê-o, que nada disto será verdadeiramente a vida, será tudo sonho, a vida é outra feita de convulsões e guerras aos obstáculos e ao cancro do universo. Esperança remota mas certeza convicta a inversão do sonho em vida e da vida em sonho, olho para tudo isto e confronto-vos com a podridão reflectindo as vossas ilusões para que se vejam, por motivos de segurança pedimos que se afastem dos limites da plataforma de embarque ó poetisa amofinada copista do sentir, Francisco palavras ditas em mundos paralelos mono qualquer coisa de mim, liberdade para poder ser na ausência de sê-lo em função dela deles das convenções, seguir o meu regime sem que ninguém me pergunte porquê, embainhem os vossos concelhos e dicas paizinhos não ando aqui a brincar às mamãs e aos papás progenitores postiços e criaturas egocêntricas estou nas vossas imperfeições mais do que estou em mim e não há culpa senão a que carrega aquele de que ninguém fala, cujo nome não pode pronunciar-se, cuja vida foi esquecida, a antecipação de todos os males, o anjo mais anjo dos anjos, agora o que é, renegado e com o peso da existência de tudo aos ombros cruz que vende para sobreviver, nada oferece porque nada possui, vende faz trocas suga dás-lhe a alma e ele dá-te bichos, bichos somos bichos comportamentos bons maus até no amor não deixamos de ser bichos comunhando do mesmo espaço dos bichos, faltando ao respeito à mãe e ao pai e aos bichos os outros, atravessas-te no caminho do teu irmão, reconhece-lo como irmão já seria bom mas não ele não é parecido comigo eu não sou parecido com ele isto e aquilo eu e o outro tudo é a mesma coisa porque pretendemos tratamento diferente e porque são dados tratamentos diferentes por nós aos outros, um pouco de ar fresco e pau de Cabinda, brindes e aquisições materiais ser contente num monte de chapa com forma ou numa palavra que parece mais sólida arvore coisa nascida do chão germinada o erotismo de uma esponja barulho de palha-de-aço cereais a vida das couves dentro de um homem escorraçado plo vizinho, ó irmão, irmão, agarrou, o sentimento de posse da terra que o chama que os chama ao escorraçado ao que carrega a vida das couves que as aduba com cinza e ao outro o pregão o arraial o courato viver barato uvas mirradas e desaproveitadas não há pés que as pisem a mesa de pedra germinada geração espontânea ou da vontade dos mortos as partilhas a lucidez de quem está de fora e se mantém dentro de si olhando expectante sem esperar nada espectador do mundo do arraial o sono de quem está de fora, de quem conserva um mundo diria artístico, o comer o beber o enganar dos sentidos o torpor do corpo e da alma, o que queres estás bem mais alguma coisa deixa estar a mim não me apetece eu lavo, comportamentos de bichos em arraial frases que soam descontextualizadas como playbacks falsos o porquê da natureza do verde da clorofila fotossíntese a vida o ar o meu ar a minha luz o que se passa por detrás do que se passa o que se conta o que se passou quanto tempo demorarás porque não me ouves será isso que me incomoda ou o que me incomoda é eu não ouvir o que quero dizer as palavras que digo são outra coisa o que de facto de passou está velado escondido por detrás da historia que é narrada nos anais e nos anos de escola nas falas dos personagens fala comigo fala comigo que queres que te diga o que te quero dizer é velado está escondido por detrás do que se passa na mesa de pedra germinada a uva a vida das couves num homem escorraçado os comportamentos as mascaras as palavras postiças a mesa germinada o sono a lucidez, foi rápido, era o que eu esperava eu nos ecos dos pregoes mirrados não há vinho.

As crianças ensinam-nos se viver é belo que o seja, as pedras azuis ensinam-nos a tua voz ensina-me filha do mar e do vento fruto de uma união abençoada pelos deuses deus que só há um único e insubstituível ingénito e indestrutível um único centro em redor do qual gravitam estas criaturas e estas duas criaturas partes divididas plo erro que ele carrega nos ombros às costas o peso todo do erro do universo cuidando que uma viagem é o caminho todo e tomando a vida que respira como um fardo que carrega nos ombros uma cruz que lhe serve de cama uma espera que o alimenta e o agoniza um cansaço que se revela prometedor revelador de um passado remoto de uma esperança longínqua de um lugar conhecido e para sempre lembrado na massa imutável que jaz enterrada muito fundo em nós, imutável o centro primeiro de tudo em redor do qual sempre estiveram e sempre estarão as nossas vidas, os nossos destinos caminham rectilíneos para um ponto, o que de curvilíneo e oblíquo achares na tua vida será o caminho de encontro contigo mesmo a jornada em redor de ti próprio as voltas as voltas um passo em frente dois pra trás o frio o mofo a podridão o peso não se esqueçam do peso brutal que carrega nos ombros aquele de que ninguém fala o omisso o ausente só na coragem de quem não tem coragem para o enfrentar para o olhar nos olhos e dizer: Vêm pra casa, o pai espera-nos.

A coragem, a sagacidade, o discernimento três ginjas e três cervejas e o mundo é nosso, contente, talvez.

Olho e vejo duas luzes. Mas não são duas luzes.

Errou, se disse errou.

É uma luz reflectida por duas janelas.

Parque pago. Tudo acontece no parque pago como o do Bojador,

Não, Bojador não, das riscas, das riscas azuis e brancas, das riscas azuis e brancas que vi quando não tinha aperto no estômago e pude ver vi vejo pude posso podes, as pessoas passam fazem parte do cenário, a dor de lá não afecta aquilo que é para lá do que está cá, aquilo que é necessita de ser experienciado para poder voltar a ser.
Não que tenha alguma vez deixado de ser, aquilo que é nunca pode deixar de ser, o que se dá é que é preciso representar o ser para a parte absurda de nós que o nega.

Ser em certeza toda a duvida que se coloca quanto ao carácter das coisas, da infinitude e da perfeição.

Não blasfemes contra ele porque és tu que o fazes.
Não ponhas a culpa dos teus actos em vivos que terão o seu quinhão de culpa, nem em mortos ou qualquer coisa pra lá disto que imaginas culpada da tua culpa, ela é toda tua, só tu és o responsável.

Mas eu vou descobrir. Sinto o tempo a escassear tenho que descobrir o que estou aqui a fazer tenho que me lembrar o que estou aqui a fazer, vou lembrar-me.

Vou começar mais uma vez, tenta mas não tornes a insistência abusiva. À medida que o entusiasmo avança e a dependência da sobrevivência se transforma na vida, à medida que as vestes vão assentando de maneira diferente nos corpos, que as reacções aos abalos exteriores são remetidas para um plano independente e livre, plano rico na sua simplicidade e total ausência de tabiques, esqueleto força vital, pelas minhas mãos deve passar o bem a realização a hora fatídica o momento trágico, a altura propícia, para que a gigantesca roda faça girar os seus cântaros na água e nos banhe do dia de amanhã num banho trazido hoje.

Faço tudo o que vocês quiserem mas não me levanto porque sentado penso melhor. São horas de ter fome. Lentos e pesarosos os passos que me levam a todo o lado. Porque o corpo tem fome a alma tem fome, sou devorado por bocarras abertas pequeninas mas grandes porque são muitas. Causam insatisfação. Causam desconsolo e desprazer. Reduzem a pedaços tudo o que se tem e tudo o que se almeja.

Estão para sempre comigo, só vão mudando de hábitos alimentares, mas sempre que dou por elas estão com fome. E quando não estão com fome é porque as estou a alimentar. Quando não dou por elas é porque as estou a alimentar. Quando não têm fome não dou por elas… deixam-me neste estado de incoerência e inconstância; são as responsáveis por boa parte das acções que empreendo e possuem, num sistema à parte, a sua escala de influências malévolas e benéficas na intensidade com que me mordem. Atraem pra junto de mim outros veículos que lá dentro carregam bocarras e julgo que querem formar um império. Um império semelhante ao que se julgam capazes de formar as inconsciências com pretensões conscienciosas das mentes daqueles que me rodeiam. Todos têm análises a fazer todos sabem tudo o que julgam saber mas quando o trem se põe em marcha nada o pode parar.
Quando é que deixei de pensar que poderia ser o que quisesse, quando me comecei a aperceber do que era.

Dizes-me que sou caos. Desordem no caos. Que sempre serei caos e nunca mais do que isso. Pois eu sei que um dia serei mais qualquer coisa e esse dia está à distância de mim. E preciso saber o que é que está caotizado, se é essa a sua forma natural, caótica e desordenada, ou se plo contrário esse algo que agora é assim converge para outra coisa. Mas sim sou caótico só não consigo é dizer que morra como estou decerto morrerei como sou é a ténue diferença entre o ser e o estar, a evolução, para continuar a sobreviver, para almejar viver, para existir é necessária e imperiosa a evolução, mutação e adaptação constantes.

Se há coisas que não consegues dizer, são palavras não ditas. São expressões de ecos inacabados, só a ti dizem respeito. Guarda-as no seio de ti mesmo, amanhã beberás do sumo que hoje espremeste e dá-lo-ás a partilhar a quem dele necessitar. Há líquidos que não são para ser bebidos frascos eternamente contidos, dá a mão a quem tos pedir e vai mostrá-los passeando por ti adentro. Para injecção nem todos servem, mas todos fazem parte de ti, ainda que de natureza diferente seja a essência de cada um deles. É nada mais, nada menos do que a volatilidade da tua substância mais rarefeita, és o líquido grosso opaco espesso, és a gota que já está derramada quando dás por ela és todos os estados desse àquele sempre eu, todos os instantes de ti, és.

Diálogos

Poderão algum dia os peixes sair da água e tornarem-se gente?
Se já o fizeram noutros tempos porque não agora também nesse tempo que antecipas, Eterno retorno, perene devir das coisas onde tudo se modifica, onde tudo marcha rumo à luz.
Palavra sábia e de mestre que oiço repercutida nas ruas do além.

Da consciência e da inteleccionabilidade disto abstenho-me de sequer roçar o comentário, contudo direi que ter a excelência de me tingir d’anjo me agrada de sobremaneira, tenha ainda a pesada, mas perfeita noção, de que sou anjo sim, mas das e nas trevas, ao outro ao branco aos outros brancos e puros eu prostro-me em sinal de observância da lei do pai que é nosso.

O caminho que me separa deles, que nos separa deles, que separa a humanidade dele e dos outros doze do outro lado da esquina é inqualificável inenarrável imperscrutável imprevisível e todas as minhas e as vossas pretensões de o tornar menos qualquer uma destas coisas são em vão e são ilusão.

E o caminho que se estende em frente é feito à medida das necessidades de cada um, numa mistura da necessidade de todos: evoluir.

Diálogos

És tu que estás ao centro.

Do lado direito está um ente, que parou por ter chegado ao cruzamento. Olhas através dos olhos dele e vês do outro lado, ao meio está o caminho do meio, que veio de trás e segue em frente, ele está do lado direito, e vês pelos olhos dele, que do lado esquerdo estão doze indivíduos, que também pararam por terem chegado à encruzilhada. Tu estás ao meio e vês à direita um indivíduo que olha em frente e vê doze indivíduos. Tu estás no caminho do meio, como é o caminho do meio se te virares de lado o que vês não é mais do que um reflexo pálido de ti mesmo, misturado com a impressão forte de que algo está por detrás de ti. Viras-te: vês uma multidão de seres ao fundo. Voltas a olhar em frente, ainda ele do lado direito a olhar para os doze do lado esquerdo. Todos te vêem, todos esperam alguma coisa. Entretanto a multidão que vias atrás de ti já avançou, já estás no meio dela, voltas a virar-te, olhas de soslaio para o reflexo pálido de ti misturado com a impressão de que eles ainda lá estão, e de facto estão, mantém-se a multidão atrás de ti, infinita, a perder de vista, mas já te invadiu, já estão onde tu estás, todos na encruzilhada, e ele está lá, a ver-te a ver-vos e a ver os outros doze do outro lado, todos esperam. Tu chegaste à encruzilhada e paraste, porque viste aquele ente parado do lado direito, viste que ele estava a ver doze entes parados do lado esquerdo, que todos esperavam, que todos te viam. Sentiste, quando te viraste de lado, que qualquer coisa estava por detrás de ti. Era uma multidão que agora está contigo. Todos pararam porque chegaram a uma encruzilhada.

Vês caras familiares, ele, que está à direita não te é desconhecido, conhecê-lo de outras paragens, outras encruzilhadas, eles, tão pouco lhes distingues as feições, sabes que são doze e que pensam muita coisa. E no meio da multidão descobres uma avó uma tia um pai uma mãe uma irmã um irmão um tio um avô uma avó afinal tens duas avós e dois avôs e primas e primos e gritas e escutas o eco do teu grito nos olhos de alguém e aí tens o citado amigo sexo e números, tens o pecado a luxúria e a dor, eles esperam e tu não esqueceste.

Os teus sonhos crescem sob todas as formas de matéria, eles continuam lá, à espera.

Esperam pelo dia em que todos juntos e em silêncio olhes para a direita e o vejas a ele, que olha para a esquerda e os vê a eles, e digamos com vossa licença, e toda a multidão passará, tu passarás, eu passarei, e ele passará a estrada, juntar-se-á aos doze que o esperam e juntos caminharemos rumo à nova encruzilhada.

Diálogos

Sou. Quero ser, ambiciono cada vez com mais fervor ser aquilo que sou porque constato que quando o sou, tudo me corre de feição, e emana de mim força que anima aqueles que se acham ao meu redor.

Contudo sou uma infinitude de coisas múltiplas e desconexas completamente caotizadas, há uma altura em que temos que dar um basta a tanto circulo.

Não sei por que caminhos, não sei a palavra prometida, não a sei reconhecer no meio das outras, ele sabe ele sabe, o que eu sei é que não sabem quem eu sou, não fazem a mínima ideia com quem é que estão a falar. E eu passo-me da cabeça quando me faltam ao respeito. Passo-me da cabeça, mas passa-me o passar da cabeça depressa porque de repente passas vestida de azul e olhas para mim dizendo está tudo bem, fica tranquilo. Voltas tu e ele de mãos dadas voltadas para a consumição do mundo para a consumição da tua alma, para o fim dos dias, para a ressurreição da vida neste planeta de morte.

Chega basta não queremos mais, fim para este planeta podre destrua-se sidere-se no espaço exterior e profundo azule-se e que em lugar dele cresça um outro, verde e viçoso, em riste para ser não mordido mas amado pela nova estirpe de seres que povoará essa terra bendita.

Mas nem todos lá chegarão como é mais que óbvio, é que é tão óbvio que nem chega a ser preciso ou necessário pensá-lo, nem todos lá chegarão não chegaremos todos ao mesmo tempo.

Uns antes outros depois, uns agora porque é a hora, tocou o Sino, lá vou eu.

Quando chegarei não sei quando chegaremos, mas o caminho está materializado para que seja mais difícil vê-lo. Porque aos olhos da alma, que são aqueles que verdadeiramente vêem alguma coisa, chega o mesmo caminho trilhado todo ele de ponta a ponta em sentido inverso. Sabemos o que queremos e sabemos como chegar lá, sabemos cada passo, cada marca cada sinal cada pensamento que se despe do corpo que o veste e se mostra nu na nossa frente nu e cru, verdadeiro.

Sabemo-lo.

E se eu viver sem nada ver se for cego e não poder ver o caminho cego de todas as maneiras completamente cego andar no escuro na ausência de tudo do outro lado do nada. E se eu for assim, um romance passado num cenário inventado por mim, num tempo remoto onde vive a minha alma.

Não o posso ter feito, se manifestasses intenções de expressar os teus pensamentos, eu ter-me-ia calado e nada te diria, apenas escutaria, falei porque me pareceu sentir em ti uma apetência natural para a absorção, peço desculpa se me enganei.

Claro que eu absorvo tu que me conheces, sabes bem que absorvo tudo o que posso sempre que posso, dai este resultado. E qual é o resultado,

não te conheces a ti mesmo, tens dúvidas quanto ao tamanho da tua existência, não sabes se és pequeno ou grande finito ou infinito efémero ou perene real ou ilusão da tua cabeça, não sabes nada e vês-te forçado a negar as coisas que sabes por não saberes como saber e manteres a consciência de que sabes sem saber disso.

O esquecimento deve ser usado como todos os outros veículos e peças dessa máquina que és, dessa construção que habitas.

Calma, tem calma, não deixes que se incendeie inflame a essência de ti.

Em que é que me apoio, em ti mesmo, na lembrança de ti, na lembrança dele, na lembrança deles, para o bem de todos.

Agora medito se vale a pena, medito em tudo sobre tudo quase que indistintamente.

E essas alturas em que te encostas á sombra daquilo que és, ou daquilo tudo que pensas vir a ser, ou simplesmente á sombra de nada, á sombra da acção, a acção o verbo é grande faz muita sombra. Então tu encostas-te e queres dormir, dormir para sempre nessa sombra sem sol e sem nada só dormir e ir adiando a vida com sonhos e com a ausência deles, sono sem sonhos sono profundo mas estéril. Será estéril, não sabes se não sonharia todas as coisas que tu estarias a viver e mais aquelas que eu poderia estar a viver, ou então não quem sabe, mas que importa isso se estaria a dormir e sem intenções de acordar para me desequilibrar o facto de ter ou não sonhado. Não tem qualquer importância, a ideia é mesmo essa, a quem é que importa eu estar a dormir ou estar acordado, durante quanto tempo é que ia importar, acabaria alguma coisa ou o mundo deixaria de girar, o que acontece é que eu sei que se dormisse não haveria eternidade para mim, porque deixaria de haver tempo deixaria de haver tudo, preciso que alguém me vá bater à porta e diga acorda vamos embora. E então aí viria o resto, porque há sempre um resto quando acordamos.

Portanto não me serve de nada dormir porque resto por resto vai este já não tenho porquê adiar a situação.

O que não percebo ou o que percebo não é agora chamado a esta conversa, podes falar de tudo o que quiseres vou escutar vou te reflectir vou te dar a ver o que queres ver mas nada vou dizer. Não te vou dizer que estou em acordo ou em desacordo não me interessa o que dizes, falas para a imagem de mim que tens dentro de ti e que eu faço reflectir a teus olhos, não falas para mim, é-me indiferente se me atacas ou se me elogias, é-me indiferente o que pensas de mim. Racionalmente sei que és tu que estás errado, portanto não há mais nada a acrescentar, ficas com o teu erro e com as tuas certezas confiantes que te permitem dares-te ao luxo de imiscuir na minha vida, tu não sabes nada da minha vida, e a mim jamais verás nem que eu seja teu filho ou tua mulher numa vida futura, garanto-te que não me verás não me conhecerás e isto não é nada não te tenho sentimento algum não nutro nada de ti nem para ti. Não gosto de ti. Já tracei coordenadas dentro de ti que te levaram a diversos pontos para eu observar e quero observar-te mais porque sou curioso e não gosto de ti numa articulação construtiva de tudo isto primeiro tens que lá chegar tens que ver o que agora não podes e nessa altura já vou gostar de ti porque vais ser outra pessoa, não, as pessoas não mudam, passam de pessoa para pessoa, são outra pessoa, mas são pessoa à mesma, nessa altura, quando lá chegares verás e ouvirás e sofrerás porque se não é agora será lá a cada qual o seu caminho todos no mesmo sentido, não importam as voltas ou as direcções. E é mesmo verdade aquilo que parece injusto muitas vezes não o é, e as injustiças são aceites de livre vontade por quem as sofre. São sempre consequência de qualquer coisa. Somos é demasiado orgulhosos para conceber isto como verdade, mas eu que vou à casa do desapego pelo caminho do alheamento sei dela como sei de mim por outros caminhos. É uma vida dividida entre o tempo que se escoa, aquela sensação de que é decrescente o tempo a contagem, foge a cada segundo que passa é menos um segundo, um fim ignoto qualquer estende-se lá longe ameaçando ameaçador ameaça acabar com o tempo presente o tempo que se arrasta e não passa e é tempo dentro e fora dele e me leva para fora de mim.

Diálogos

À medida que o tempo passa, e que as coisas umas passam outras vêm, súbitas, e nos ligam como cordas a um passado que pensámos que tinha sido esquecido por todos embora nós nunca o tivéssemos esquecido. Não lembrado talvez, mas esquecido não, esquecer é não ser capaz de lembrar, e tu, se fizeres força, vais ver que te lembras de todas as situações que te quiseres lembrar, ao mínimo detalhe, para que serve isso, não faças perguntas para as quais não há resposta. Amanhã. Amanhã saberás. Hoje tens a consciência de que é assim, só não sabes porquê, mas isso quiçá, poderá ser uma lei da vida. Uma restrição inerente ao carácter imperfeito do ser humano, e falam-me em não melhorar, então que diabo ando cá a fazer, a empacotar caixas não, interrogo-me, interrogo, interrogo-te, quero que interrogues, que interroguemos numa interrogação constante ponderação constante sobre a vida e sobre as coisas, só naquela, para não deixar esquecer.

Tenho na boca o gosto amargo de um dia que não quero que acabe.

Sinto-me dilacerado mas estou sarcasticamente a rir-me do que sinto por fora de mim e para lá de mim a ignorar-me porque não presto e a seguir em frente sem ligar ao carrossel.

Diálogos

É assim o carácter das coisas. A lei irrevogável do equilíbrio, do deve e do haver, do dá com uma tira com duas, do tempo certo para todas as coisas, da consequência inevitável de cada acção. Não há como sair disto. As dívidas devem ser saldadas. É o peso e o preço da vida. Tudo quanto queremos tem um preço, por isso mais vale pouco querer, mas o ser humano por natureza quer. De uma ou de outra natureza são os seus desejos, e quando pouco quer de material, muito quer de espiritual, tudo está debaixo das mesmas leis e nada acima delas. Quero deixar um trilho, pegadas deste mapa desenhado a suor e sangue, para que tu possas vê-lo e seguir por outro lado, evitar estes obstáculos, encontrar outros, encontrar o teu rumo ao invés de seguir por rumos emprestados ou impostos por outrem. É essa a minha meta. Quero que saibas que não te minto, nada lucraria ao fazê-lo, e completamente despretensiosas são as intenções que me movem, outras não são do que dar sentido à minha existência, realizar-me enquanto ser humano, pois que para lá do teu caminho, para lá do meu, existe um que é comum a todos nós, sendo esse o verdadeiro e único sentido de tudo isto. Portanto é por ti sim, por ti, por mim e por todos que faço isto. É a minha parte na engrenagem universal. O meu papel. Por qualquer vector que entre, por qualquer porta, será sempre aqui que virei desembocar, o mais é a mensagem, é o relato, a matéria de estudo dos teus dias, feita de todas as substâncias, palpáveis e impalpáveis, que constituirão e virão a fazer parte da vida. E mais um problema de vida ou morte se solucionará, dele tirando eu mais uma lição nesta interminável prova.

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Vivemos todos num líquido, no mesmo líquido. A partir daí é ter a consciência de que o líquido se move e que nós nos movemos dentro dele. Adquirida essa consciência, o ser está apto a viver. E depois há pontes entres as almas que as ligam no meio desse liquido como canais ou veias de um circuito sanguíneo que por elas passasse. É. O dia nasce quando o gato mia, o cão gane e os passarinhos apitam. Não vejo sol, também não preciso de o ver, sei que ele lá está. Como também sei que estou no mundo que não existe embora não o veja. Então se não existe e não o vejo o que é, como tenho consciência dele, posso não o ver e ele existir sim, agora eu digo que ele existe mas é. Faço essa distinção. Destrinço uma coisa que existe de uma coisa que é. O ser é e nunca pode deixar de ser, não fui eu que disse, existir como existe o mundo que piso, não. Tem uma outra existência, então poderemos dizer que existe com uma outra existência, ou se nos restringirmos à avaliação relativa, que não existe, tendo em conta que para existir teria que estar dentro dos parâmetros da existência do mundo. Quem também não está dentro dos parâmetros de existência do mundo sou eu, e ando cá.

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O hábito faz maravilhas. É impressionante o que a habituação do ser, enquanto máquina trabalhadora, a uma situação pode produzir. É claro que a capacidade de adaptação varia de pessoa para pessoa, mas refiro-me concretamente a questões de desempenho, a inadaptações concretas reais e físicas que nada mas nada supera à excepção do tempo. Mais do que metamorfose da alma, pois a alma muitas vezes nem se chega a adaptar nem pode, é a transformação dos processos mentais, da psico, que cria e desenvolve mecanismos de várias ordens. O que é preciso, nada. Rigorosamente nada. Além de suportar a passagem do tempo. E claro, não ter pensamentos adversos.

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Eu próprio sou uma fonte inesgotável de trabalho de mim mesmo.

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Hoje encarei-me com uma maluquinha, retardada com atestado clínico, que compreendi como compreendo os outros, ditos normais. Agi foi de forma diferente, não porque à partida tivesse havido diferença, mas porque ela se revelou diferente. Quando entrei no café, um pouco antes da hora de almoço para beber um martini lá estava ela atrás do balcão. Pelo seu aspecto físico, quieta como estava, não pude adivinhar, de modo que lhe pedi o martini, uma mulher que mais tarde vim a perceber ser mãe, atarefava-se com outros pedidos, olhou para a filha e esta grunhiu um mamã graficamente inexprimível. Bom a senhora lá me trouxe o martini, entretanto a menina tinha agarrado o abre cápsulas, momentos após o meu pedido, quando a mãe veio com a bebida e a entornou no copo, desenroscando a garrafa que não precisava de tira cápsulas ela, que viu tudo isto como eu, grunhiu de novo, desta vez fonemas dispostos à vontade dela, que resultam num som estranhíssimo, com entoação variada. Virava-se num frenesi levado ao absoluto de tentar captar tudo o que se passava em redor, alguém entrava que se dirigia ao pai ou à mãe e logo um esgar de qualquer coisa, um gesto como que incontrolado, agarrou coisas que não havia no ar, avançou, esbugalhou os olhos, rasgou o pânico nos lábios e gritou. Gritou para dentro e para fora, num grito continuo que não olha a circuitos de ar, inspira grita expira grita, o som percorreu a escala, nasais, guturais, ainda com o abre cápsulas na mão volta-se e vai-se encostar ao balcão de novo a tentar captar tudo, um grupo de operários com as calças caiadas a argamassa entra e pede cerveja, ela estende-se para a frente até tocar num deles com ambos os braços um para cada lado em cruz e grunhe um olá. As pessoas agem como se estivessem a olhar para algo de irreal, algo que não existe, que não é deste mundo. Ignoram no mais profundo de si a perturbação, as consequências da perturbação, uma alma sujeita a tamanha prova.

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E eu sou da opinião que devemos aplicar a nossa massa cinzenta a elevar a alma. Toda e qualquer outra aplicação é desperdício. Vou conseguir imprimir o meu ritmo á minha vida, a tudo o que faço, é também isso que almejo. Que os outros tenham lá os seus ritmos nas vidas deles, respeito e compreendo, mas o meu é o meu e também eles terão de compreender, porque sou assim e estarei assim, a luta será nesse sentido e então em qualquer coisa que faça naquilo que me compete fazer, o ritmo será o meu, que contribuirá com o peso que lhe é inerente para o ritmo global para o ritmo cósmico ainda. No particular e no geral pois pequenas afectações têm grandes consequências e os grandes desígnios traduzem-se por acontecimentos simples e puros, germens de luz que brotam directamente da fonte.

Diálogos

Os comportamentos que temos dentro de nós, aquelas informações que nos dizem tudo sobre uma determinada situação, ou sobre um determinado momento, vêm-nos da alma, desse registo preso em invólucro de carne, dessa força sublime que nos nutre e informa. É ela que nos faz ter esses ditos comportamentos, pois é nela que está contida a informação para tal. O resto, o mundo, aquilo que nos rodeia, são agentes de influência, mas na medida em que nos influenciam no ritmo da nossa caminhada. Ou não.

Ou então aquilo que está cá dentro é mais forte que tudo e debasta, anda mais depressa, vive com tudo, com todos os meios de que pode dispor, dentro do limite da segurança imposto pela sua base. É esse alicerce que determina o ritmo, o resto são acidentes de percurso.

São tudo opiniões e mais virão e viriam se pudéssemos exprimi-las, partilhá-las a todas, as que sentimos cá dentro, como emoções e sensações e experiências vividas, entes que se cruzam. Saibamos pois aproveitar esses e todos os cruzamentos e com eles formemos uma corrente, cada ser um elo, para que possamos atingir aquilo que isoladamente é inatingível. Sim confrontos, pelo meio e nos entretantos há confrontos, não confrontes, desvia, Uma teimosa questão que me assalta a mente, será que podemos sê-lo o tempo todo, não. Mas será mesmo que não, o que nos garante que não e porque não sê-lo e porque não tentar com todas as nossas forças, olho ao meu redor e vejo percursos de vida, tentativas na maior parte frustradas e vãs de atingir o ser. Vejo pessoas que estão espectralmente na vida e para elas viver é cada vez menos serem elas próprias. Não me venham dizer para ser qualquer outra coisa que não eu. Isso não serei. Não serei para os outros ou para a sociedade, sequer para o mundo. Serei para o universo nem eu, mas ele. Há momentos para tudo. Alturas em que estou aqui alturas em que estou mais ali. O ideal mesmo seria poder estar em todo o lado ao mesmo tempo, ou melhor ainda não estar e ser não estando. Por detrás de uma paisagem sempre outra paisagem, colinas após colinas, verdes e pretas erguendo-se na litosfera do orbe que é a minha alma. É assim que vejo, sentado vêem-se melhor as coisas, o imenso mundo que dança dentro de mim. Para ver este mundo, que muito me apraz, por vezes tenho necessidade de me fechar em mim e nestas alturas não estou, mas sou.

Detesto estar regularmente onde os outros estão, fazer aquelas coisas que todos fazem ás horas que todos fazem. Isso não sou eu. É convenção e socialização. Tenho que fazer parte, não. Eu faço parte do que faço parte. Não do que está instituído que deva fazer parte. E não me assusta não fazer parte de nada, porque sei que faço parte do que faço parte. Padrões e comportamentos estandardizados, repetidos no quotidiano da vida, repugnam-me. Como também me repugna esta sociedade em que o dinheiro fala por nós e antes de nós. Onde o possui-lo nos confere estatuto e esse estatuto de cifrões erguido, que é tanto mais elevado quanto mais elevado for o saldo bancário, dá poder. A deferência que os outros demonstram porque pagamos as contas, nos chegamos à frente de nota gorda em punho, os sinais exteriores de riqueza, que intimidam e não sei como, impõem respeito. Nojentos ainda mais aqueles que se sobrevalorizam a eles próprios por deterem largos extractos bancários, que se julgam superiores e inferiorizam os outros à sua volta, pensando que podem mandar neles, tomando como verdade que de facto estão acima, não devendo misturar-se com os que não têm posses. Subjugam e dominam, imperam e criam impérios onde o dinheiro é a única lei vigente e a obtenção de lucro o único objectivo. Vivem em função dele e acham que os que o não têm não são merecedores de vida. Vangloriam-se e consomem tudo para usufruto próprio, preocupando-se sobretudo em demonstrar sempre que o detêm em bastante quantidade. Aos outros descriminam e humilham, e o pior é que mormente são estes senhores que desempenham as funções de chefia, que exercem cargos de administração bem como funções governamentais. Eles gerem os destinos do mundo. Mas e se o mundo tiver o seu próprio destino, como palco que é também está sujeito à vida e à morte, também nasceu, também deve morrer, também tem fases e ciclos de vida, um caminho a seguir, desempenha o seu papel no sistema solar e no universo. O que os homens fazem nele é na medida do que almejam, se usam e abusam dos seus recursos e pouco ou nada dão em troca, se não se preocupam com a natureza, mas exclusivamente com o lucro, isso obviamente terá consequências para o mundo, para as gerações vindouras, mas também para todos aqueles que nele viveram e nele expiaram ou não as suas provas. Como palco que é, o mundo está então sujeito a albergar criaturas que nele constroem outros mundos, feitos de ilusão. Mundos esses que se alimentam do próprio mundo e dos outros que estão sob o domínio dos senhores do mundo. Dos capitalistas, dos detentores de impérios e monopólios gigantescos, que governam mais que os governadores, esses também tantas vezes corruptos, corrompidos todos pelo poder, pelo domínio e pelo dinheiro. Mas quem como eu quer estar fora desse mundo ilusório sofre imenso. Porque nasci nele. Vivo nele embora psiquicamente e espiritualmente não viva, mas é isso. É a eterna cisão. É ter apenas lugar para a minha alma fora deste mundo, fora do mundo onde vivo. É ter que viver nele sem alma. É ter que fazer parte dele obrigatoriamente, sem fazer parte dele. Tudo está errado. As bases do mundo são falsas e com um sopro cairiam se houvesse alguém que o soprasse. Acontece que a evolução é assim. E neste mundo a conclusão a que chegamos é que universalmente falando é uma escola do ensino básico, o que o governa é o lucro. Da vida tenho tudo o que pedi, agora só quero vivê-lo e é agora que começam as verdadeiras dificuldades. E a força do mundo que não há, mas que está dentro de mim, é quem me guia. E vencerei, compreendem, é um conflito imenso, conflito sem resultado e sem solução. E a vida deve continuar, não posso simplesmente parar e ficar a carpir conflitos interiores, tenho que viver com eles e dar o melhor de mim, isso será meio caminho para não surgirem outras complicações e um dia tudo se resolverá. Hoje já sei o que quero, ontem não sabia, mas hoje já sei, quero amar, nasci para amar, é isso que sei fazer mais nada, tudo o resto que faço não sei, imito, a partir da lista infinita de modelos que está dentro da minha cabeça. Misturado sou por natureza, como posso não o ser se está tudo em mim e se sou só um para o ser, mas e as divisões, também as há, o que não pode haver é barreiras, para que tudo flua livremente dentro de mim. Penso demais para o mundo, enquanto executo estou a pensar, mas o tempo será meu aliado e a dor também, porque me trarão o que sozinho não consigo alcançar. É isso e a imposição de certas coisas na vida das pessoas. Valores mais altos que desabrocham, que eclodem, que tomam conta de mim. Não mais posso voltar atrás, porque me construo, porque é isto que sou e é isto que vou ser custe o que custar doa a quem doer. É claro que a pessoa a quem mais vai doer vai ser a mim, não tenho dúvidas e este mim é nós para que se saiba, disso não há fuga possível, a força existe, os obstáculos também, o confronto é inevitável, uma vez que a força tem que ser e estar no meio dos obstáculos porque senão não é, ou melhor não está, porque ser nunca deixa de ser. A questão aqui é o estar, para ser tem que estar, também se é não estando, e nesse não estar está-se em toda a parte, porque todo o mundo não tem mais sítios que a minha alma.

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Vi. Ferro. Correntes de ferro. Barcos metálicos em tons de prata presos por correntes de ferro. Naus balouçando carregadas de cheiros conhecidos em planos paralelos. Pela prata e pelo ferro caminhei, em linha recta, um fito me perseguia. Nitidamente a consciência da presença de outros, alguém, por ali deambulando também. O meu caminho segui, até que umas mãos ignotas apertaram as minhas. De um corpo manifestamente masculino, ou seria alma masculina e sexo feminino, ouvi um nome que não sei dizer. Foi um encontro. Contudo segui. O imenso prisma edil flutuava agora atrás de mim, defronte uma pequena casa de traços conhecidos se desenhou. Entrei. Luzentes e arrumadas, reluzentes e dispostas em pilha, bolachas com passas de uva. Ao lado um pacote de batatas, aberto, ao lado deste um saco, mais pacotes de batatas, fechados. Por trás de mim, num dos cantos, uma divisão fechada com uma janela no topo, da qual saía uma luz opaca, velha. Cheirava a mofo. Estou a olhar para as bolachas e a pensar, olha as bolachas estão aqui. O cheiro a bafio intensifica-se, uma boca que não vi, de um corpo que tive consciência de estar ali, comeu uma batata, depois outra, desapareceram para dentro de si mesmas, comidas pela boca que não havia.

Susto Grito Pavor Perseguição Tormento.

Planos paralelos. Tudo dentro da minha cabeça transportado e sentido pela alma. Perseguição sim, medo não. Medo de quê, Susto, tretas. Sofrimento cansaço, não. Tudo normal. Tudo eu. Aguento comigo, aguento contigo. Encontros. Influências. As pessoas são influenciadas por quem encontram. É que os encontros que parecem ter outro propósito não têm. Ser parte activa na jornada da alma. Através da partilha de experiências de vida, de comportamentos, atitudes, posições, posturas, lembranças, memórias. Tudo aquilo que sou e que num determinado momento é em mim, vai interagir com aqueles que por estar nesse ponto comigo se cruzam. Não, forças visíveis e invisíveis são atraídas por afinidades e sempre neste momento, nunca naquele. Sempre hoje nunca amanhã. Daí ter de compreender que os que estão me são necessários. E as prisões e a dor e aqueles que em nada me ajudam e em tudo me desajudam, ajudar eu, e se não quiserem ser ajudados, não se ajuda, segue-se caminho, ciente de que mais adiante outros encontraremos, porque nos encontros de almas está o meio de evolução, o sentido da vida.

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Não é, eu vivo a vida com oscilações, essas oscilações são os grandes picos do meu ser, positivos e negativos, que negatividade existe em acções, comportamentos, experiências, motivações, a negatividade é relativa, ou não, a causa íntima das coisas, o porquê substancial do mundo, pairam em mim, como largas bolhas de sabão incógnito que miro no mundo dentro de minha alma, mas tenho momentos súbitos, momentos extremos de vontade de parar o tempo, no roçar das almas em tumulto sinto necessidade de calma, de um verde mesclado pelo som azul duma cascata compreendem, só em local próprio, até lá farei outra coisa disso não tenho dúvida e tudo o que for preciso para tal eu farei. Para entrar em contacto com a minha natureza para romper as barreiras, será preciso esquecer, recordo.

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Para quando não sei, mas sei que a imponência da rocha é ilusória, efémera. Também ela se desfaz aos poucos até ser grão de areia.

E quantos grãos de areia é uma grande rocha e as coisas que passam e que vão e que ficam e as que saem as que entram as que estão as que são, as que mesmo depois de irem ficam porque não estão, as que não sei se quando vierem estarão e deixarão as outras, será que irão será que não e o que tudo isto importa e amanhã e depois e o que está para vir e o que foi e o que é e o que será e isto e aquilo e outro e aquela coisa e aquelas coisas e ele e ela e aquilo e vais e fazes e isto assim e isto assado e depois aquilo para que isto e o outro porque senão nada. Cigarro. E o dinheiro, é ele. E o outro, também. Mas sem dinheiro não. E então, e então ganha-o. Ganho, ganhas. Ganharás. E pronto. Cigarro. E as voltas á cabeça por causa dele, todas se dissiparão com ele.

E aquilo, estarei preparado, estás, não. Poderia, talvez. E então, mecanismo de defesa.

Seja o que a força criadora quiser.

A partir disto só posso ir dormir. Mas fico a pensar naquilo. E depois, mecanismo desconhecido, preciso de mim urgentemente. Não sei o que me aconteceu perdi-me outra vez a tentar apanhar-me.

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Por vezes apetece-me libertar de tudo quanto possuo, sinto-me estranho em relação a tudo o que é meu, vejo que nada me pertence, vejo o quão insignificantes e dispensáveis são todos os objectos, vejo que são apenas meios para fins que não almejo, eu seria mais eu sem nada. Porque ter coisas é pensar coisas e pensar é ser e ser livre e pleno. Mas para tudo isto não sei que vida levaria, onde teria de ir vivê-la, será possível vivê-la em qualquer lado, estará à distância de um querer.

Tudo na vida são meios, mecanismos e veículos para, para a alma.

É ela a razão de ser de tudo. E ela, somos nós. E ela é tudo. E ela evolui. E para isso precisa de veículos. Até que deixe de precisar.

Ainda assim continuará a evoluir. Até que deixe de precisar e volte a ser perfeita. E depois, e depois as vacas não morreram, foram raptadas por extra-terrestres e os bois ficaram nos verdes pastos, chorosos, e depois não sei, ninguém sabe, ninguém pode saber.

Ninguém tem capacidade para compreender. Até lá tanta coisa precisa ser compreendida. Preocupo-me em compreender o que pode e deve ser compreendido, para que me aproxime da meta a que me propus e então possa ver o depois. Mas até lá há o antes. O dia-a-dia, o quotidiano. Aquilo que é a realidade vivida por este corpo que envergo e no qual me tornei. Aquilo que sinto ou através do qual sinto penso e existo. Porque a outra existência está encerrada dentro desta. E já a consciência desta é difícil, quanto mais a da outra. Esta é por si prenhe de caminhos e de escolhas. Será claro que uma não pode ser dissociada da outra, simplesmente porque não é dissociada da outra. Elas entrecruzam-se supostamente em equilíbrio. Porém aqui a balança tende a pender mais para um dos lados conforme os indivíduos, conforme o grau que ocupam na hierarquia das coisas. Há quem penda totalmente para a realidade desta vida e olvide de lembrar e pensar a outra. Há também quem pense nas duas e não saiba como conciliá-las. E depois há aqueles raros, que estão mais na outra do que nesta. Por enquanto isso não me é possível. Farei parte do segundo grupo. Penso as duas de forma exaustiva, até onde me é possível e a minha luta está em conciliá-las. É devido a essa luta, que me parece não ter fim, é que não sei o que fazer. Porque não me quero embrenhar nesta realidade ilusória e esquecer a verdadeira. Porque não quero, porque não posso, porque não devo. Por outro lado é nesta realidade que tenho de me libertar. Então como conseguir o equilíbrio, o surpreendente número de forças que rege a minha vida, o aprisionante número de opressões que sofre a minha alma, quantos obstáculos terei que superar para poder ser.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Diálogos

Cada pessoa, cada alma, tem o seu caminho, a sua maneira de ver as coisas. É preciso portanto viver sentindo tudo aquilo que é suposto sentirmos dada a nossa essência. E a nossa essência é aquilo que mais temos de nós mesmos, é o mais profundo, o mais claro, o mais límpido, a nossa presença em nós, sem mácula, sem ouvidos de ouvir aquilo que é diferente de nós, aquilo que não nos é compatível, com ouvidos de ouvir aquilo que é feito para nós porque eleva a nossa alma. Porque o resto que se ouve e não o faz é mácula, é véu que não nos deixa ver para dentro de nós próprios. É por aqui que vou e não posso deixar de ir por aqui; calem-se todos de uma vez por todas, ou aprendam a falar, aprendam a dar em vez de tirar. Claro, tenho de dar primeiro, mas como dar a quem não dá espaço para que se dê, estar. Conviver, dando e recebendo. Amo-te sim amo-te. Contudo há mácula em mim e em ti e em nós. Não sei se será mais ou menos mácula em ti do que em mim ou se mais em nós que nos outros, ou se tanto em nós como nos outros, não. Há-nos mais e menos maculados. É de mácula que se fala, não é uma montanha estática, é um iceberg flutuante. Girante, gritante gripante, que mostra a espaços cada uma das suas múltiplas faces.

Diálogos

Não. Não quero nada. Nem me apetece isso nem não me apetece isso, estou como que sem apetecimento ou por outra, apetece-me agora o que ainda não posso satisfazer, tenho que me desenvencilhar de uma série de empecilhos, recheio supérfluo e oco que enche o meu espaço e turva os meus ecos. Móveis que por mais que lhes altere a disposição sempre alterarão a fluidez daquilo que deve fluir; sempre perturbarão a expansão do meu ser enquanto permanecerem comigo, ou eu com eles. Não quero que desapareçam. Quero simplesmente que a vontade deles reja a vida que têm e nada mais e que a vivam enquanto for caso disso e que empreguem nessa vivência essa vontade de que falo e volto a falar porque vontade é algo mais que vontade. A outra coisa que já era antes de ser manteve-se, e juntamente com aquilo que foi modelado pela vida caminhou e cresceu e encontrou-se.

O resultado desta operação é um valor inatingível por essas forças que de tudo quanto são me deram, mas que não podem albergar nada mais que isso. Eu continuo.

Não posso sofrer restrições de quem me quer manter preso no passado. Porque o pensamento das pessoas interfere na realidade factual.

E a imagem que fazem de nós reflecte-se na convivência e no que dela advém e o que dela advém é um tolhimento da liberdade, um aprisionamento da alma a velhos padrões de comparação, há muito ultrapassados. Então dá-se uma cisão. Não posso ser completo. Tenho que ser em função do que cabe nas paredes da casa que não possuo.

Diálogos

Deixo-me de mentiras e de ilusões, de fingimentos.

Que a honestidade raie na madrugada da alma. Que é múltipla pois com certeza, resta-me conceber essa multiplicidade de forma una, resta àquele que alberga divisões ter a capacidade de ver que elas não fazem parte dele como vários bocados, todos fragmentados, seres quebrados, num único ponto, ser composto por vários seres, um todo composto por várias partes, um sistema orgânico, que sim concorre para a unidade porque é uno. Precisa da consciência disso. Consciência essa que não é fácil de alcançar e uma vez alcançada, que não se perceba, não é bem assim, é importante que todos percebam. Talvez para que alguém compreenda a divisão das coisas. Será indispensável perceber até que ponto chega a afectação, do sentido das coisas, a questão primária da humanidade. Falo do que realmente importa. Falo do lugar de cada um, da posição que é a nossa. Se não houver troca não há sentido para as coisas.

Diálogos

Cara a cara, todas as caras, tantas vozes, tantas ideias, tantas mentes e um cérebro pensante.

Diálogos

Mas quando elas se cruzam verticais sob o doirado dele é de facto belo. Andam por aí e por aqui, por lá, por onde não há, e depois acham-se. Deixo correr o mar, o ar, a brisa, sinto-os dentro de mim, sou livre como o horizonte simétrico do que busco na linha imaginária que não atinjo.

Diálogos

Contudo continuo com um determinado assunto atravessado na garganta, não percebo já se sou assim ou assado e estou habituado a que nada vá dar a lado nenhum. Dar realização completa à minha loucura, isto é, pensar em fazê-lo em público, para não ter mais tarde de vir a contar o que se passou em privado a quem não o viu e correr o risco de ser desacreditado, se enlouquecer em privado, digo dar aquele passo que permite que não haja volta, depois vou ter de comunicar às pessoas olhem olha enlouqueci, então elas não vão perceber que enlouqueceste.

Diálogos

E a outra, não sei se já falei disto, agora já não me incomoda quase nada, ainda faço que me incomoda não sei porquê, que me afecta a mim uma chávena suja, nem sei porquê, porque bebo café porque vivo, talvez saiba, talvez tenha uma razão, tenho uma razão, mas, não há mas nenhum, há só o que queria, que o mundo e a vida se resumissem a essa razão, porque só nela já estaria mais que uma vida inteira e não a cumpriria, falam-me em excelência e em realização das possibilidades, nem uma quanto mais todas, todas as que ficam para trás, ó consciência delas que as sei, quando poderia ter sido bom e não fui, o quanto poderia ter feito e não fiz, poderia ter criado outro que com as oportunidades teria crescido crescendo com ele a relação com o outro e o que daí adviria seria bom ou mau tanto faz porque não o fiz.

Diálogos

Como pode um querer ser reconhecido pela sociedade, querer sair da sombra, querer ser ouvido, querer ser, se não se reconhece a si próprio. Falo de integridade, sejamos íntegros, sejamos verdadeiros para connosco, não falo das relações interpessoais, não falo de relacionamentos com os outros, falo de uma outra coisa, fechada no imo de cada um, se um não se reconhece, não se define, não é para si verdadeiramente, que se aceite que se conheça que seja verdadeiro e integro, longo é o caminho que nos levará à comunhão com os outros, sou imperfeito e a minha imperfeição deverá manifestar-se, a raiva a ira e a peste, monstros de mim, porque eu sou muitos, a manifestarem-se, se têm de se manifestar que respondam àqueles que comigo se cruzam e que são bichinhos do mato, pássaros passarinhos e passarões aves de capoeira e cucos, que eu lhes responda na medida do que querem, na medida que lhes é cabida, não falo de relações, falo de encontros fortuitos, falo de convivências, de presenças, de seres com e sem alma, falo da multidão, de entre a multidão algumas caras se destacam, conhecidos de outras eras, experiências dentro de corpos e dentro de corpos e dentro de corpos experiências vivências convivências, não falo disso, falo de ti, parte de mim, à qual responderei na medida do que te cabe, e como a ti cada parte de mim porque eu sou muitos, cada vez mais e cada vez mais profundos os uns, quando aprender a dizer-me compreenderás compreenderão compreenderei e só depois de compreender poderei reconhecer-me, na medida que me compreendo assim sou, na medida da consciência, reflexos, reflexos de mim dos uns, quando um fala não se calam os outros, quem é chefe dentro de mim, quem tem a última palavra ou a primeira ou quem fala, quem não fala, quem sabe falar, eu não me sei dizer, mas falam, falam e vai-se vendo qualquer coisa reflexos, reflexos de mim espelhados por entre os reflexos dos outros, mais os reflexos de ti espelhados dentro de mim, os reflexos de mim espelhados dentro de ti e nós, não me sei dizer-te.

Diálogos

Isto aquilo aquela e o outro que já não os vejo há tanto tempo, então o outro está bom, então tu que andas a fazer e tu lembras-te que loucura, pois foi, não, não foi, só se foi para ti, loucura não é isso, pobre, e agora que farão os dois, o mesmo que tantos dois, e assim estão e vão, a comunicação torna-se difícil, as pessoas percebem o que querem perceber, o que não podem perceber não têm como perceber, serei eu o que elas não podem perceber.

Diálogos

Naquilo que é criação dos homens não me poderei encontrar nem edificar, quer isso me traga prazer ou dor será sempre ilusão, será sempre construído por mentes que como a minha andam à procura de si e vão inventando coisas para passar o tempo e dizer que vivem, depois chamam-lhe filosofia e fazem milhares pensar que aquilo é a verdade e algumas vidas se turvam, mas tudo fica na mesma. Este é o mundo da ilusão, onde nada existe verdadeiramente e a morte é o destino de tudo. Então onde está a vida, a vida está no que não é, a vida está lá, na minha essência, nisso que me faz mover e me anima, que não vejo nem creio nem eles provam nem comprovam nem verificam nem testam nem podem ver nem provar nem comprovar nem verificar enquanto não acreditarem. Terei primeiro de acreditar, para depois ver e quando abrir abrirem os olhos verei um mundo, o verdadeiro mundo, perfeito e belo, que gira ao lado e no meio deste que gira do lado de cá, o lado de cá e o lado de lá, eternamente.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Diálogos

Serei eu esta loucura tardia que se apodera de mim, esta divisão daquilo que se passa, daquilo que eu sou, o que eu sou não vive. Aqui construo linhas a partir das coisas, que não são mais do que a vontade das coisas por elas mesmas, não faço mais que dar expressão e cumprir potencialidades de coisas, realizar o potencial dos objectos que me circundam é o que faço. Isso não sou eu. Eu estou para além de todos estes objectos que se me afiguram irreais, não estou aqui e quando um destes objectos me chama, é como quando uma pessoa entra, não há diferença, a afectação que sinto e não é pouca, é de qualquer coisa, uma terceira coisa, que não é nem eu nem os objectos, mas está no meio deles e me pergunta, porque não sou eu que estou, onde estou eu, afecta-me quando esses objectos tentam mexer com coisas que dizem respeito ao ser, quando falam de coisas que estão para lá dos objectos e atribuem aos objectos a proveniência dessas mesmas coisas, mas enfim, pessoas e objectos continuam as suas existências, cuidando uns e outros pertencerem a realidades diferentes, quando no fundo fazem ambos parte da mesma irrealidade.

Diálogos

E esse lado de lá, quando é que vem para cá, quando é que a realidade se torna palpável e realizável, quando é que deixa de ser uma quimera viver amando e em paz, quando é que deixa de ser uma quimera esse lado de lá, quando é que ele se torna lado de cá e tudo isto a que chamam de universo implode outra vez e toma a posição de lado de lá, unicamente para que se contemple e não para que se viva. Então aí meditaremos para ver a desgraça e a dor, para sentir prazeres grosseiros e viveremos na verdadeira felicidade, livres finalmente. Sonho sim sonho. Quimera, futuro, ascensão da humanidade, caminho natural das coisas, Que falta de paciência. É uma agonia instantânea assim que me sento e nem sequer vou falar mais dela porque não vale a pena, até já ou não.

Diálogos

Um ganso guardião empoleirado num bebedoiro sujo grasnou para mim. Ele era o vértice da pirâmide, as suas asas as maiores da capoeira. Grasnou enquanto não me viu sossegar. Sentei-me, olhei-o nos olhos, voltou-me costas virando o pescoço para trás andando e olhando para mim, ora catando pedaços de qualquer coisa no chão, ora empoleirando-se de novo e bebendo água suja do bebedouro sujo, lá no alto do longo pescoço e vá de a sorver e tudo de novo. Na metade de cá, defendida pelo ganso, estavam outras criaturas, uma galinha e quatro pintos e um galo deficiente. Os pintos eram de diferentes tamanhos e penugens de cores diferentes também. A galinha era uma galinha vulgar. O galo era deficiente. Lá estava ele debaixo de uns ramos mortos secos e caídos, muito quieto a olhar para mim com um olho que piscava. Nisto um rato, esperto e astuto escapuliu-se para debaixo da primeira coisa que coube ficando primeiro com o rabo de fora rato escondido com o rabo de fora mas logo sumindo por completo para debaixo dessa primeira coisa que encontrou sem deixar outro rasto que os seus olhos de rato na sua cabeça de rato quando olharam para mim. Deste lado da capoeira onde apareceu o rato estavam as restantes criaturas da capoeira, cinco galinhas ruivas em cima do muro, nisto um restolhar do outro lado o galo deficiente batera as asas e saíra debaixo dos ramos andando com as patas deficientes sim era nas patas a deficiência do galo tinha os dedos tortos assim sem assentarem no chão cambaleava mas porque saiu o galo do seu poleiro que poleiro não era porque este galo não se pode empoleirar saiu porque lá do outro lado um outro alvoroço se levantou, quando uma galinha vinda não vi donde corre em direcção a um galo pujante que estava deitado acocorado à galo então a galinha vinda não vi donde choca com ele o galo empertiga-se dá ás asas e salta-lhe para cima, a galinha sacode-se queria ela ajeitar o galo em cima de si mas o galo desequilibrou-se caindo com o pé de galo em cima da caixa de gelado de noz que servia de bebedouro neste lado da capoeira, dado o acidente a agua não se aguentou dentro do recipiente que se empinou galo e galinha de roda daquilo, parecia que pensavam na desgraça, Que passaremos sede agora, foram ambos beber da agua que caíra antes que a terra a ensopasse o galo fez ar de distraído mais valia que estivesse quieta pensou a galinha, que o ímpeto de luxúria lhe custou o beber e por este alvoroço saiu o outro galo do seu poiso aconteceu ainda que este galo ficou perplexo quando outra vez um repente de galinha passou pela cabeça de galinha da galinha maluca que outra vez investiu contra ele ululando o pescoço de galinha como todas as galinhas fazem, mas aquela tinha uma expressão de galinha maluca que parece que ululava mais que as outras o pescoço e lá foi ela direita à rede que separava a metade de cá da metade de lá e lá estava uma passagem, e as criaturas a comunhão a inteligência e a providencia, lá foi ela seguida de perto pelo galo perplexo que não passou a fronteira dos seus domínios ficou à boca dela a observar os passos da galinha e os passos da galinha levaram-na ao bebedouro do ganso que também tinha sido tocado pelo alvoroço e já lá ia deixando o bebedouro livre como que para não haver confusão e debicava mais à frente, a galinha louca chegou ao bebedouro e lá bebeu, pintos e mãe galinha também não ficaram indiferentes com a aproximação do galo da fronteira que se dispersaram, eles piando piu-piu, ela calada que para maluca já chega a outra.

A Jornada

Será conveniente começar por uma saudação, por tanto considera-te saudado. Perguntas-me como será o aspecto do sítio em que me encontro, ocorre-me dizer-te que é uma sala, agora queres saber mais, queres uma descrição, queres que te diga o tempo que faz lá fora não é, parece-me que hoje ainda não choveu, o sol espreita tímido, no seu ângulo de inverno, há mesas nesta sala, há cadeiras, há objectos em cima das mesas e há pessoas sentadas nas cadeiras, tenho que te falar do espaço para te poder falar do seu interior, daquilo que não se vê mas sente, para conseguir desabafar expurgar o que me atormenta, tenho que te contextualizar, poderia dizer-te o que se faz aqui, mas o que quero mesmo mostrar-te são as pessoas, o problema é que as pessoas são mais difíceis de descrever do que as cadeiras, o que é que se pode dizer de uma cadeira, é vermelha e preta, tem duas patilhas que permitem ajustar a altura e a inclinação, tem rodinhas, é giratória, e tem apoio para os braços. Agora as pessoas que nela se sentam, pudesse eu descrevê-las assim tão bem, entendê-las tão empiricamente como entendo uma cadeira, nesta altura o meu raciocínio é assaltado por uma palavra que me faz perder o fio á meada, propósito, e a partir daqui o texto desenrola-se até ali, qual é o propósito, depois a resposta, o propósito é ser quem sou, é afirmar-me, é cumprir a minha personalidade. E isto transporta-me para o campo das acções, onde preciso das pessoas e da conjectura actual, sempre a melhor para definir quem sou. Mas isto não resolve o meu problema. Desabafar é que eu preciso, e o que é isso senão dizer-te a ti aquilo que deveria ter dito a outra pessoa e não disse. Agora os pontos finais começam a substituir as virgulas e isto deixa-me desconfortável.
Os dias passam e por vezes penso o que será quando subitamente a sucessão cessar. A morte como o fim não me faz sentido. Contudo não consigo eliminar completamente o medo de viver. O medo das consequências, a ansiedade do que está para acontecer, a frustração do que já aconteceu e que não correspondeu ás expectativas, expectativas essas baseadas em quê, onde está a escala, quais são os valores que regem a minha vida, é imperioso que me pergunte, a resposta é ambígua, perco-me nos planos onde não estou, planos de existência entenda-se, preciso explicar-te o que são planos de existência, da existência real deles sei pouco, falo do que se passa dentro da minha cabeça, é lá que moram as minhas preocupações e depois não me quero dar ao trabalho de expressar, dou por mim a concordar que sou preguiçoso, que não falo porque acho que não merece a pena, porque desvalorizo os momentos, os acontecimentos, e a vida de uma maneira geral.
Agora pedes-me para esquecer o que deve ser esquecido e para valorizar o que tem valor.
Eu respondo-te que me falta o discernimento para definir nos momentos oportunos o que é o quê.
Tenho uma necessidade absurda de tudo o que me falta. Menosprezo o que possuo com uma falta de interesse exterior a mim e muitas vezes superior ás minhas forças.
Esta é a altura em que tu não dizes, mas pensas, que estou a falar demais. Chamas-me egoísta no teu pensamento, sentes que agora me deveria calar para te ouvir, porque também tens problemas e os teus, na tua óptica, são realmente importantes, ao passo que os meus não passam de divagações infrutíferas. Dizes-me que me devia concentrar em factos concretos, ordenar as minhas prioridades de acordo com o que me faz mais falta. Mas do entender o que tu me dizes, a conseguir aplicá-lo nas situações em que é preciso, vai a distância da minha incapacidade. Incapacidade de projectar a minha imagem de maneira a preservar o seu interior, um trabalho diário e contínuo que me abstenho de fazer, prefiro sempre o silêncio e isso deixa lacunas, espaços em branco na cabeça dos outros, e coloca-me na periferia das suas intenções. Assim não conseguirei chegar onde quero chegar. Então porque não faço o que precisa de ser feito, perguntas-me tu, e eu encolho-te os ombros e sorrio amarelamente, conformado com a minha mediocridade. O meu problema é não ter a certeza de nada. Por isso não consigo definir quem sou, logo não consigo marcar posições, defender pontos de vista, tecer opiniões, tudo isto para mim é impossível.
Será do medo, sou uma pessoa calada, reservada, porque tenho medo de mim, tenho medo do que possa ser, tenho medo das repercussões dos meus actos, porquê, porque não tenho bases, porque como tantos outros vivo de aparências, vivo do dia em que, do era bom que fosse, do penso que.
O que mais me martiriza são as palavras que não digo. As observações que deixo sem resposta. O rubor que me sobe ás faces, a contracção da laringe, afirmações que me atingem que são atiradas ao ar como dardos que acertam em cheio no alvo do meu sentir. Então sinto-me fraco e exposto, sinto que podem fazer de mim o que querem, dizer o que querem e saírem impunes, porque eu não ataco, mostro-me vulnerável. Venho-me embora e a raiva de mim transforma-se em dor que vou carpindo até jurar a mim mesmo que para a próxima vai ser diferente. Depois passado muito tempo volta a apetecer-me levantar do sitio onde estou e confrontar aqueles que me agrediram, chegar e dizer, olha lá que isso não é bem assim, porque eu isto e aquilo. Só que entretanto o tempo já passou. E perco-me na arquitectura do sentir, como me perco neste mundo que a meu ver necessita de renovação, sim este é dos poucos assuntos sobre os quais consigo ter opinião, sobre o estado das coisas, uma perspectiva muito lata, como se não fizesse parte do que estou a descrever, uma realidade alternativa que se desenha á medida que penso nela, o que seria preciso para mudar o mundo, a sociedade tal qual a conhecemos, o combustível que faz mover a engrenagem, o modo como percepcionamos a vida, precisaria que todos mudassem ou bastaria mudar a minha vida, quero que o mundo mude para eu mudar com ele, quero uma calamidade global para que todos abram os olhos e eu seja forçado a abri-los também, para que o dinheiro deixe de ter importância e eu possa deixar de trabalhar para o ganhar, para que os objectivos de vida mudem e eu mude o meu também, para que possa ser livre.
Claro que tu já me disseste o contrário, já me disseste que preciso ser para ter, e que se me mudar a mim mudo a face do mundo. Mas o que se vê é que não tenho arte para isso, serei mais um copista, preciso do modelo para saber como se faz, ai daqueles que renegaram ás coisas da vida, que tudo deixaram cá do lado de fora da caverna, para se entregarem ao oposto, á ausência, aos valores e essências perdidos. Não terão esses criado uma realidade alternativa, e que mundo mudaram eles, diz que tocaram muitas vidas, ajudaram os outros e fizeram o bem, mas tudo ficou igual. É o mesmo que saber que ontem morreram cento e setenta pessoas na Austrália, outras tantas ficaram sem casa, sem roupa sem carro sem filhos sem mulher sem mãe sem nada, e a seguir vem outra notícia, e depois a novela da noite, e o mundo ficou igual, o que move as pessoas é o mesmo, e eu continuo a precisar de motivos para me levantar da cama de manhã. Porque assim como o ermita não trouxe paz ao mundo ao abdicar da sua vida, também a morte e o sofrimento de alguns não abrem os olhos a todos. Porém a história prova-nos que houve alterações no comportamento do ser humano. O que não quer dizer que não existam hoje homens com os mesmos comportamentos dos primeiros membros da espécie. No fundo o que é que temos que fazer que seja indispensável, para além de respirar comer e defecar, há casos estranhos de pessoas que nunca defecaram, portanto seguramente só precisamos de respirar e comer, e depende de quanto tempo queremos viver, podemos só beber por exemplo, e durar bastante tempo, e também inventámos máquinas que podem respirar por nós, tudo se torna relativo, portanto será conveniente definir o que concebemos por existência, o que é para ti viver, do que precisas para considerares que estás vivo. A partir daí podes saber do que precisas e em função disso definirás o que é certo e o que é errado. Sim esta é a altura em que me tentas incutir alguma moral e assim como que não querendo a coisa presenteias-me com essa ideia de que terei de ter capacidade para discernir entre opostos. Até agora só aprendi vivendo ambos. De nada me serviu virem as vozes da razão, olha que isso é mau, olha que isso faz-te mal, olha que depois arrependes-te, não digas que eu não te avisei, nunca de nada isso me serviu. Boa e santa moralidade dos avós, recta ou correcta educação dos papás que brincam com tábuas rasas ao sabor da inspiração, moldando e influenciando sempre para o bem, sempre porque amam e querem o melhor, até que puberdade e amigos e novas influências, e adeus ás convenções ás regras, porquê, precisamente porque nos apercebemos que os certos e os errados dos outros podem ser diferentes dos nossos.
No entanto qual é o espírito que não duvida dos seus actos, quem é que não procura aprovação para aquele pensamento, quem é que não se constrói daquilo que ouviu dizer.
O difícil é manter o equilíbrio entre a certeza e a incerteza de maneira que consigamos agir sem perdermos quem somos.
Tenho que te confessar que é este o meu problema, mas tu chutas-me com teorizações e altos raciocínios, que a ti te enraízam e a mim me definham.
Esforço-me com tanta força que consigo sentir mudanças a ocorrer dentro da minha cabeça.
Antevejo a chegada do dia em que finalmente consigo concretizar, medos, aspirações, desejos, falar e dizer aquilo que penso, ler no teu rosto as palavras que disse e ver a expressão que não precisei de fazer, porque tu já a fizeste. Quando penso e choro, é porque não ajo. Mas perco-me em considerações intermináveis sobre o que deveria ter feito e não fiz, porque não tenho mais nada para dizer. Produtividade, perguntas-me, inutilidade respondo-te. Excelência não, é mais mediocridade. Vou buscar termos de comparação: caminhos labirínticos que me conduzem a raízes que avisto por debaixo da terra que cobre a tua alma. Mas não quero pôr na minha boca palavras que não direi. A mentira é uma chaga da sociedade e aqui estamos a sós eu e tu, que só me escutas. É grande a minha necessidade de alguém que me escute, foi por isso que te criei, e é por isso que te alimento e te vejo crescer. Por vezes a complexidade do ser humano dá-me uma absurda e estrondosa vontade de ser bicho. Mas os bichos também são complexos, também têm sociedades e stress e hierarquias, só terão supostamente, é menos consciência disso, porém também disso tenho dúvidas, e se sofrem como eu porque são fracos e não quis a selecção natural que ficassem com o dorso prateado para serem dominantes, há lugar para todos ,dizes tu, mas aqueles que são dominados resmungam, por aí acima até ás mais altas esferas, até ao topo, àquele que não tem que prestar contas a ninguém, que sabe de todos e ninguém sabe dele.
Aborrece-me imenso ter de fazer seja o que for. É mesmo o "ter de" que me aborrece. Fico logo sobressaltado, e agora depois de ter feito que era suposto que fizesse, passa-me depressa o sentimento de realização de quem cumpriu um desafio e venceu um obstáculo, substituído pelo conforto vegetativo do não ter outra vez nada que fazer. Então desencadeia-se automaticamente outro processo, de busca incessante de alguma coisa para me preocupar e nunca consigo estar verdadeiramente descansado e tranquilo porque sei que mais tarde ou mais cedo algo irá suceder, de mais ou menos imprevisível, para que tudo recomece. Detesto este ciclo de dentro da minha cabeça, e o estar aprisionado a ele.
Por outro lado o ócio inquieta-me. Começo a ouvi-los a dizerem-me, então não tens nada para fazer, podias ter feito isto, podias fazer aquilo.
E só penso na origem das coisas, no como conheci pessoas que parecem continuações ou princípios de mim, almas afins percorrendo caminhos que só diferem naquela opção diferente, naquela decisão que embora pareça só mais uma a quem observa, é o que vai definir e distinguir, e por vezes separar as pessoas.
Quero ver-te sorrir assim, dizias tu, depois de fazeres isto que tenho aqui preparado para tu fazeres, e deste-me aquilo que te consideravas ser para mim impossível fazer, mas eu fi-lo, e tu ao contrário de substituíres a imagem que tinhas de mim na cabeça e me dares o beneficio da dúvida, preferiste riscar-me do teu mapa, por tua vontade eu não teria continuado, mas desígnio ou não a experiência estava-me reservada, esse cosmos de influências, esses desencontros que precisámos reviver.
Só me ocorre repetir-me. Tudo o que penso dizer já disse, e melhor do que poderia agora dizê-lo.
Já passou um ano desde que escrevi o ultimo ponto final. Começo a ler o que escrevi sem o rever e tenho a sensação que neste tempo poderia ter acabado de escrevê-lo. Penso que isto não é positivo. Será porque nada mudou, será porque nada fiz para que mudasse, o que tenho eu de novo para dizer, nada, espero adormecido que algum cataclismo me acorde, fujo do novo, toldo-me em espraiar-me no complexo do mundo, prefiro recolher-me, mas sei criticar, sei dizer o que está mal, depois de estar feito. Isto é muito fácil. Difícil é fazer melhor. Ai sei lá o que quero para mim, sei lá quem sou, cada vez sei menos, cada vez tenho mais dúvidas, mais incertezas, e deteriora-se a minha relação com o mundo e com os outros.
O que desejo, coisas absurdas, como viver mais do que uma vida em simultâneo, porque só sendo várias coisas poderia ser quem quero ser. Há muitos aspectos cruciais da existência sobre os quais tenho na minha cabeça posições completamente antagónicas. Por exemplo a responsabilidade: até á algum tempo atrás era claro para mim que o correcto é ser responsável. Agir com responsabilidade. Tomar para mim responsabilidades várias, e honrá-las com o meu bom nome, cumprindo aquilo a que me propus impreterivelmente. e neste momento não sei porquê não consigo expor o outro lado. Portanto fica só assim, mas também fica registado que há outro lado que não concorda nada com isto e que acha absurdo que se viva assim, porque a responsabilidade só é posta em causa quando aflige os outros, poderemos ser irresponsáveis connosco próprios, podemos, mas somos felizes e realizados enquanto o somos ou não, o que é que nos distingue dos bichos, porque é que nós somos diferentes dos demais seres vivos do planeta, porque nós temos a capacidade de escolher. Temos restrições e imposições, sim, tantas e de várias ordens, mas uma liberdade fundamental: o livre arbítrio. E com ele a responsabilidade dos nossos actos, com ele a lei, uma reacção para cada acção, uma consequência para cada decisão. Por isso cada pensamento que se forma na nossa mente desencadeia uma operação um movimento em algum lugar uma formação uma consubstanciação materialização que virá até nós, quer isto dizer que sim, pode o pensamento controlar a vida, e controla fora quando está fora de controlo e porque é que entra fora de controlo, porque deixamos de saber o que queremos, deixamos de saber o que pensar, a dissonância entre o que pensamos e o que fazemos o que pensamos e o que somos, tantas discordâncias e incoerências, tanta complexidade e um caminho que desconhecemos, só que nada pára a engrenagem, e as consequências do que fazemos recaem sobre nós e sobre o mundo, a moeda que atiramos ao ar na esperança que se transforme em desejo realizado, é comida por um pássaro em vias de extinção, que morre sufocado. E tudo o que nós fizemos foi atirar uma moedinha ao ar, tão inocentes, tão inconscientes, tão irresponsáveis. Assim, quando penso em agir tento prever as consequências, e há um novo pensamento para cada consequência que consigo antecipar. Perante tantas alternativas na maioria das vezes opto por não fazer nada.

Não sei porquê só agora, talvez porque o último dia, ou será o primeiro, penso que poderá ser uma oportunidade, com o regresso um recomeço ou a verdadeira apresentação, o principio do ímpeto, do desabrochar da palavra. Amanhã poderá ser o dia. Continuo a ouvir o clamor, basta que aproveite para transformar o silêncio em respostas às perguntas e às afirmações dirigidas á minha pessoa, não consigo desenhar o mapa na minha cabeça, ainda não escolhi o papel que quero representar, tenho apenas sensações que me devem guiar, só quero preencher os espaços em branco, mostrar ou reflectir aquilo que penso, aquilo que sinto, aquilo que sou, porque a afirmação pela ausência e pelo silêncio não bastam, criam uma imagem insuficiente de mim, na qual não me revejo. E continuo a acreditar que outro propósito não há nesta existência, é para isso que servem as experiências, para nos firmarmos no complexo do mundo, para sabermos quem somos, acredito que posso. Contudo a mediocridade e a frustração não me abandonaram. A síncope, a raiva, não sei como se fazem tantas coisas, faltam-me tantas ferramentas e capacidades, onde está a lucidez e o discernimento, será possível?
Quero responder que sim. Verdadeiramente.

olhai e vede