Hoje encarei-me com uma maluquinha, retardada com atestado clínico, que compreendi como compreendo os outros, ditos normais. Agi foi de forma diferente, não porque à partida tivesse havido diferença, mas porque ela se revelou diferente. Quando entrei no café, um pouco antes da hora de almoço para beber um martini lá estava ela atrás do balcão. Pelo seu aspecto físico, quieta como estava, não pude adivinhar, de modo que lhe pedi o martini, uma mulher que mais tarde vim a perceber ser mãe, atarefava-se com outros pedidos, olhou para a filha e esta grunhiu um mamã graficamente inexprimível. Bom a senhora lá me trouxe o martini, entretanto a menina tinha agarrado o abre cápsulas, momentos após o meu pedido, quando a mãe veio com a bebida e a entornou no copo, desenroscando a garrafa que não precisava de tira cápsulas ela, que viu tudo isto como eu, grunhiu de novo, desta vez fonemas dispostos à vontade dela, que resultam num som estranhíssimo, com entoação variada. Virava-se num frenesi levado ao absoluto de tentar captar tudo o que se passava em redor, alguém entrava que se dirigia ao pai ou à mãe e logo um esgar de qualquer coisa, um gesto como que incontrolado, agarrou coisas que não havia no ar, avançou, esbugalhou os olhos, rasgou o pânico nos lábios e gritou. Gritou para dentro e para fora, num grito continuo que não olha a circuitos de ar, inspira grita expira grita, o som percorreu a escala, nasais, guturais, ainda com o abre cápsulas na mão volta-se e vai-se encostar ao balcão de novo a tentar captar tudo, um grupo de operários com as calças caiadas a argamassa entra e pede cerveja, ela estende-se para a frente até tocar num deles com ambos os braços um para cada lado em cruz e grunhe um olá. As pessoas agem como se estivessem a olhar para algo de irreal, algo que não existe, que não é deste mundo. Ignoram no mais profundo de si a perturbação, as consequências da perturbação, uma alma sujeita a tamanha prova.
domingo, 28 de novembro de 2010
Diálogos
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olhai e vede
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