segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
O Plano
Há uma distância entre mim e as coisas que é como se estivesse de dentro de uma redoma de vidro, que todos os sons abafa, imagens esbatidas e sentimentos difusos, sei, com a pouca razão que desenvolvi (ou será apenas senso comum, aprendizagem do tempo) que devo sentir e reagir a determinadas coisas – reage pá, não reages? Não, nem à interrogação direta reajo, estou por detrás da redoma e o que me afeta são as consequências das poucas coisas que fiz ou disse, a rebolarem em circuito fechado dentro da minha cabeça. Ao resto sinto como uma película, um enredo de um filme que não escrevi, e só me ocorre pensar outras maneiras de as coisas terem acontecido, impacienta-me o narrar dos factos sejam eles quais forem ou qual pareça ser a sua relevância aos olhos de quem os escuta ou narra. Palpita-me que também isto deve ser consequência de alguma coisa, mas perceber de quê deixou de fazer sentido. Estarei a falhar, estarei errado, estarei perdido ou muito perto de aceitar que tudo o que poderei fazer são perguntas, e estender enormes folhas em branco no chão à espera do momento certo, como que planeando acontecimentos que pela mão dos outros ocorrem, deixando-me a sensação, que nego, de que se tivesse agido poderiam ser diferentes. No entanto quando observo e me vejo forçado a interagir em consequência das ações de outrem, sinto a alegria de quem desaperta um laço sem rasgar o papel, de quem descobre a embalagem intacta que não quer abrir, coleções de artigos sem uso, mas belos, de prateleira, num museu da realidade onde a tudo posso observar, no silêncio de uma sala raras vezes aberta ao público. A necessidade de agir, ditada pelos trâmites do convencional, provoca-me uma ansiedade que vai ocupando diferentes posições de acordo com uma ordem de prioridades, estabelecida pelo confronto da escala de valores contra aquilo que me faz sentir bem. No horizonte sempre a hipótese de querer mudar tudo, tudo muito bem explicadinho, assumindo a falta de interesse e a falta de opinião, a incapacidade de filtrar a informação, mas o eterno interesse nas formas de expressão, a atenção completamente focada num discurso revelador, a cópia e reprodução instantâneas dentro da minha mente, que terão alguma outra utilidade para além de me entreter, de me fazer sonhar semiacordado, ou limar as primitivas ferramentas de comunicação, aprendizagem continua ou estupidificação constante, escolhe o teu caminho e verás, até onde vai o livre arbítrio, quão importantes são as escolhas que fazemos na vida, por quantas gerações ecoarão, água dura em pedra mole, aquele pequenino – o mais escondido e renegado sonho, tudo treme só de pensar nele, tudo é posto em causa, a dedicação, as escolhas, as implicações o medo – ninguém compreenderia, as provas só depois da obra feita, prestar provas, o ter de provar aos outros a sustentabilidade de um caminho, de uma afirmação, o perigo, aquilo que fica para trás, o que não se cuida, - porque é que fugiste nos momentos cruciais, desculpas, intrincam-nos as escolhas que nos afetam, urge ainda e sempre qualquer coisa, parece que uma nova possibilidade se desenha, assim está prometido, é esse o lado positivo da questão, acordar e de novo um leque em branco de folhas humedecidas a 77%, explicações quanto baste, há coisas que entendemos sem explicar, no entanto o problema persiste, haverá muita gente à espera, carregando consigo qualquer coisa de latente, por não saber como lhe chamar dão-lhe vários nomes, repetem-se referências, buscam-se significados, tentamos adaptar textos antigos a realidades modernas, tentando perceber o que se passa, de onde vem a informação que se torna excessiva, ainda que filtros que reduzem e agora excesso de filtros também, demasiado centrado em coisa nenhuma, ou então demasiado genérico, relevando a culpa, significa não saber para onde ir, agora que todos os caminhos são possíveis, para existir um alfa tem de existir um ómega, será fino o equilíbrio ou será que o caos é exponencial, uma espiral que cresce à medida que nos afastamos do centro, estaremos num ponto de viragem, conseguiremos assumir que não sabemos o que fazer, muitos conseguem afirmar, não, não é por aí, este sistema não resulta, vivemos uma plutocracia, desde quando, todos sabem afirmá-lo, desde quando são os mais ricos que governam o mundo, desde quando, riqueza é igual a poder, desde quando os subjugados lutam e se revoltam, desde quando, pequenas vitórias para que a cabeça pouse tranquila na almofada, até quando, os ciclos que permitem sempre que voltem, que voltemos ao mesmo era após era, a resposta está-nos debaixo da língua, faltará a coragem de dizer o que não queremos ouvir, fazer o que tem de ser feito, queremos o quê, porque é que é pretensioso falar no plural, se tu e eu somos um, ergamos agora a nossa voz naquilo que nos une, a vontade de sermos livres.
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