A expressão da verdade horizontalizou o chão debaixo dos meus pés e trouxe-me um equilíbrio que me permitiu olhar para cima, senti-me pequeno por perceber a distância, o caminho a percorrer, porém a linha é demasiado fina, o progresso algo ilusório, a construção algo de instável, uma estrutura frágil que treme ao primeiro abalo, mas desta vez percebi com o sentimento próprio de aquisição de quando percebemos realmente alguma coisa, a inutilidade de encher um buraco sem fundo. Para se erguerem fundações é preciso uma base, para construir um castelo é necessário um chão firme em que assente a primeira pedra. Os avanços e recuos provocados pelas intempéries que frequentemente não passam de pequenas brisas, vão desgastando o solo, e nada se constrói, coloco agora em causa a própria razão da obra. Considero que não estou disponível para ceder à instabilidade, pondero na reflexão que me trás o que corre dentro de mim nas palavras dos outros, um espelho desagradável que partido de raiva trás sete anos de azar. Parábolas para generalizar e não gravar os verdadeiros nomes na pedra, para assim permitir a transmutação das coisas ainda, numa última tentativa de reconstrução da obra. É extremamente difícil conciliar esforços, a ignorância de mim multiplica-se por mil quando refletida pelos outros, na hipérbole dos pontos fracos, no realçar da indiferença, as necessidades tornam-se uma canga que arrastamos como condenados pela vida, numa luta sem fim para provarmos aos outros, para ganharmos o espaço, para nos sentirmos bem. No fundo tudo se resume a isso. Precisamos de nos sentir bem. Nascemos, - a menina caiu na sanita, eu gritei e a irmã estendeu a toalha no chão, e logo a seguir choramos – abrimos a goela e gritamos, emitimos o primeiro lamento profundo, primeira declaração ao mundo da impotência perante as nossas incapacidades e da dependência dos outros para prover às nossas necessidades. – Quando pensas que foges do teu caminho é quando estás a ir mais a direito por ele, portas que se fecham, janelas que se abrem, num plano ignoto que não domino, mas no princípio uma certeza, o valor mais alto – bem-estar. Abrimos os olhos e precisamos, assinamos um contrato ou serão vários, contraímos uma dívida e dentro de nós o sentimento de dívida até à morte. Assim sempre que queremos fazer algo verdadeiro, amar verdadeiramente, dar sem esperar receber, ouvimos o sino da mulher vendada e esperamos para ver para que lado pendem os pratos da balança, o deve e o haver. Quando algo não corresponde às expetativas afirmamos – mas que mal fiz eu, e temos alguma dificuldade em aceitar o bem que nos acontece sem pensar – ninguém dá nada a ninguém, boa coisa não vem aí, será que eu mereço isto, não posso aceitar, - quem escreveu este contrato, porque é que tem que ser assim e porque é que tenho tanta dificuldade em aceitar isto e tantas outras coisas primordiais e inevitáveis. – És um indagador, porém é só de respostas que se alimenta a minha chaga, a que me puxa, a única coisa que me tira da inércia, a necessidade de me responder, por isso nem que suprisse a todas as minhas necessidades imediatas e materiais continuaria a sentir-me mal, ainda que sentisse que alguém me retribui um amor bonito e incondicional, ainda que vivesse agora o que ontem sonhei, ainda que tudo isto fosse verdade, as perguntas continuavam a morder as respostas que não sei dar. A inquietação a privar-me do sossego, a fasquia demasiado alta onde tudo o que tenho de garantido é o fracasso, a desilusão e a consequente frustração. Não acredito em muita coisa. Duvido daquilo que tu consideras factos. Todos os dias ponho em causa a minha existência, todas as horas a tua. Questiono-me depois de cada momento – o que foi que eu disse, será que era isto que queria dizer, será que perceberam o que eu disse, como será que o poderia ter dito melhor, - disse que vos ia mandar calar, continuo a querer fazê-lo, embora continue com medo que depois, no silêncio me esqueça do que ia a dizer, e então aí nunca mais resultaria, porque parece que há só uma oportunidade, depois perde-se o crédito, fica-se em dívida, e que trabalheira para provar então que se é merecedor de uma segunda oportunidade, que nunca vai ser igual à primeira. Talvez seja por isso que ainda não vos mandei calar. O medo – instinto de sobrevivência, tranca-me as cordas vocais.
É por isso, a distância entre o que não disseste sentir e o que eu deveria ter dito, que elaboro diversos cenários possíveis para expressar o que quero, o que acho que devo, mas faltam-me personagens, falta-me um adereço qualquer, - torre de babel, com escadaria em caracol por fora que sempre se constrói, para se ver desmoronar, degrau a degrau. No entretanto ficaram as falas em repetição, até que uma nova situação se apresente para de novo todo eu ser problema outra vez. Não fica espaço para mais nada. Um pequeno ponto irresoluto uma qualquer coisa que não se disse, uma ideia que sei errada na cabeça de alguém, uma imagem que se figura assim com exagerada predominância, não deveria estar tão preocupado – dizem, mas isto que tenho deve ser diferente de preocupação, isto que tenho sou eu a viver a vida dentro da minha cabeça, onde seria de esperar que pudesse controlar a ação ou escrever o texto, mas as palavras são um produto, e há qualquer coisa que se desfaz para as produzir. Assim tremendas oportunidades passam por mim para revelar quem sou, no entanto, como não sei porquê, não estou todo no mesmo sítio ao mesmo tempo, - viras bola de pelo, e as palavras continuam a ecoar na minha mente e eu todo respostas num sítio, como um mármore à espera de ser talhado, o artesão está na pausa para o café, e a criança brinca com o cinzel – passa-o de uma mão para a outra, cai no chão, o barulho férreo contra a madeira flutuante é como um sino e desperta-me e revolve-me, quero todo eu ser músculo e força, para gravar qualquer coisa na pedra, para que não se desperdice inteiramente a energia queimada. Revisito vezes sem conta as imagens que a minha memória guardou daquilo a que chamam realidade. Agarro os sentimentos naquela hora diluídos pelo enleio e abro frascos que os tentam conter para descodificar o sentido do que então não percebi. Isto seria substituível por ações várias, como perguntar ao sujeito da dúvida a razão das palavras que disse, ou dizê-las eu, as várias hipóteses de resposta que assumam à minha mente, mas não sou capaz disto porque não me tenho todo na hora real, vejo-me disperso nos gestos que observo, oiço-me no catarro – Lolita, vejo-me no dedo embrulhado protegido da raiva, raivinha de dentes, nas mãos sapudas que teclam com cadência, o gélito das unhas contra o plástico das teclas, os rolos onde se digita de tudo, porque dois mais dois pode não ser igual a quatro agora que a cabeça já não é o que era, porque decénios de desinformação e estupidificaste talvez, esqueceste-te de como se resolve um problema, talvez seja eu que não queira, terá sido porque não quis porque fiz força, porque de tanto apagar e voltar a escrever agora espaços em branco, desfragmentação, para que os pedaços de história possam fazer sentido, como abrir o cofre se parece que o tesouro foi roubado, um bivalve que esperamos pacientemente que respire para vermos a pérola, para descobrir que não tem pérola, quantas cascas deitaremos ao mar até que pérola, concha fechada, ostra, - agora já não me preocupo, tive que passar pelas coisas para perceber, afinal a experiência é a sabedoria que a alma comprova, no entanto parecem intermináveis os ciclos, polpa de fruta que espremo na esperança de manter a correr o rio, gota a gota.