quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Diálogos

Mas nem à minha loucura dou a expressão que ela merece, nem ela é plena em mim, nada é pleno em mim há alguma coisa plena em alguém, não, no ser humano nada é pleno, a plenitude é um atributo que não há, que só há no mundo que não há e que busco que buscas que buscamos, é por buscar o impossível que sou louco e infeliz e triste, se buscasse o possível o material e o realizável seria feliz porque o alcançaria, assim estou condenado e escravizado até que a morte me liberte para a nova escravatura, até que cesse de existir e me torne naquilo que não é. Ser é não viver, contudo no ser está a verdadeira vida, a verdade está na negação de tudo o que existe, no contrário do universo está deus, tudo é uma inversão, vivemos do outro lado do espelho e estamos do lado de cá a olhar para nós do lado de lá e a cuidar que o que vemos é a nossa imagem reflectida e não deixa de ser se fossemos simples não precisaríamos de espelhos que espécie de bicho se contempla o pior é que nem é a nós que contemplamos porque não somos o que vemos ao espelho, no pensar que somos aquela imagem que está uma grande estupidez, então o que somos, somos o que não podemos ver, somos aquilo que não está, porque não está sujeito ao espaço ou ao tempo o problema está nas concepções, a alma está dentro do corpo, mas quantos corpos foram abertos em que saíssem almas de dentro deles, nada mais se vê senão entranhas iguais àquilo que está por fora, então onde está ela, não está, mentaliza-te não está, contudo existe e ela és tu e esta concepção que é qualquer coisa para lá do mundo e da realidade é a porta da verdade porque toda a verdade é assim, contrária ao mundo, invisível intocável e inatingível.

Mas achas bonito o que se está a passar, e acho bonito, o que eu vejo é uma grande discrepância, vejo vontades e ausência dela, vejo decisões que pretendem mudar toda uma vida e vejo mudança de decisões, não vejo nada, não vejo nada do que quero ver, tento achar a cada pensamento o porquê de mais um pensamento, continuo à procura de um fio condutor, ainda dentro de mim a luta de clãs e titãs pela posse da verdade aquilo que é não se consubstancia evapora-se foge e volta a chover sobre mim num ciclo do qual a cada novo ciclo me julgo liberto.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Diálogos

Um dia a justiça reinará no mundo e neste universo todo, quando os homens viverem os seus sonhos quando as guerras forem travadas contra a ilusão e a bruma e sim os sonhos serão realidade luta lutem lutarei enquanto tiver vida enquanto tiver forças para lutar e sonhar lutarei para que os meus sonhos se tornem realidade jamais esquecerei aquilo que não pode ser esquecido amar a única coisa que nunca mudará que não está sujeita ao devir o amor luta lutem lutarei o sonho será real é mais que uma esperança é o ar que respiro é a energia que me faz levantar que me faz deixar o sono amar a vida é o sonho sonha sonhem amem vamos em frente passo a passo calma não tenham pressa vamos edificar vamos construir solidez vamos cada um de nós na sua viagem atraído pelo seu centro de encontro a si mesmo até que se encontre até que se enfrente até que se confronte consigo mesmo até que vença as suas mentiras e seja íntegro essa a primeira viagem antes dela nada poderá acontecer caminho caminhas caminhem para o vosso ponto zero para a vossa base a minha base que se quer sólida, não ponham o carro à frente dos bois, tudo está dentro de ti, dentro de vós dentro de mim, dentro de nós, tudo, o mapa do plano não esqueças não esqueçam não se confundam primeiro uma coisa depois outra não queiram nada queiram nada ambicionem nada podem ter enquanto não chegarem ao ponto zero ao vosso centro o encontro contigo mesmo para lá das ilusões para lá de tudo a tua verdadeira essência busca-te busca-a encontra-te encontra-a luta lutem sonhem essa é apenas a primeira viagem, concêntrica centrifuga, sintam o chamamento da vossa alma deixem que os anjos vos auxiliem tudo é a mesma coisa e depois de chegados ao ponto zero poderemos edificar no positivo, olha olhem não vês não vêem que estamos no negativo que tudo isto são passagens e desvios sempre no negativo que por mais voltas que dê que dês que dermos vamos sempre voltar ao mesmo ponto ao centro ao centro de mim ao centro de vós mesmos é claro nem de outra forma poderia ser é esta a primeira viagem é assim que deve ser encontra-te encontrem-se eu encontrar-me-ei já falta pouco integridade sinceridade e verdade eu próprio sim é longo e extenuante sim à nossa volta podemos observar almas que sucumbem, mas não tu acredita sonha luta lutem. Quantos becos sem saída precisarás de conhecer a quantos poços sem fundo terás de conhecer o fundo podre e bafiento quantas viagens perdidas em viagens sem volta sem retorno o maxilar as ânsias os espasmos as contracções do diafragma, não é na multidão que está o teu caminho eles como tu procuram o que não achas o que não acham procura no sítio certo para tudo deixa tudo deixa todos nada importa tudo deixou de existir porque nada será teu nada poderás ter nada atingirás se não te atingires a ti primeiro e tu estás dentro de ti tu estás por baixo desse corpo que assassinas por baixo das contradições da incoerência do desassossego das ânsias do tédio da moléstia da abulia tu estás lá bem no centro que te chama basta que cales o mundo e te escutes não aos instintos primários não às vozes assassinas que te mandam destruir que te mandam suicidar partículas da tua veste corpórea a vida não é uma sucessão de prazeres efémeros em que o eterno circulo vicioso te consome pára eles procuram o mesmo que tu a resposta não está aí, não há erva alguma que traga o milagre nenhum químico conhece a mistura perfeita são tudo desvios alterações de rota viagens ao redor de ti mesmo no fim sempre o mesmo ponto o centro de ti que clama o encontro o confronto sonha não te esqueças sonha luta lutem.

Diálogos

Salvem, salvem, salvem.

Salva, salvem-se salvar-me-ei salvar-te-ás salvar-nos-emos todos ou nenhum, afinal o que somos o que sou o que és, o que importa.

Ritmo, falava-te de ritmo, lembras-te quando te falava de ritmo, quando te dizia o como era importante manter o ritmo, a irritação com as coisas que fazem perder o ritmo, a irritação é uma alteração de ritmo, manter o ritmo, ó ritmo cósmico, não sentes, queres sentir não sentes, sente cala silêncio e sente escuta o ritmo cósmico e o teu o meu qual é o teu ritmo, qual é o meu ritmo, de ritmos acelerados, ritmos brandos incertos, ai alterações de ritmo, lembras-te como dizer-te agora que a tua voz altera o meu ritmo, irritação, esquece ultrapassa ou só esquece isso, o ultrapassar, mas lembra-te, lembras-te de eu te falar em ritmos? A efemeridade das acelerações de ritmo é nociva, oscilações e decréscimos abruptos, o que importa é manter o ritmo e encontrar o ritmo, o nosso o meu o teu o ritmo cósmico.

Diálogos

Espalho-me no ar que respiram que respiras que respiro ouço-me e vejo-me sinto-me posso quase tocar os pensamentos que realizo a serem apanhados pelos outros que de pensamentos vão escassos, congratulo-me por serem meus os pensamentos que vivem, perder o controlo deles parece inevitável, mas nesse descontrolo revela-se-me uma presença oculta, que guia o curso das coisas fazendo-as parecer naturais, como o correr de um rio, se bem que natural é o correr de um rio e a água a cair numa cascata, isto é ser humano, viver: quando encontraremos o juiz com autoridade para nos dizer se vivemos bem ou mal, humano não poderá ele ser, não pode ser um de nós, mas pode efectivamente estar no meio de nós, e está, aonde não vos sei dizer assim.

Não vos sei dizer, não me sei dizer, ainda vou dizer muitas coisas, até que diga realmente aquilo que quero dizer, e posso nunca chegar a dizer realmente aquilo que querem ouvir.

Onde está, ponho a mão nos dois chacras mais afectados, assim os sinto, os dois perto um do outro, o ultimo e o penúltimo de baixo para cima, não digo que os outros não estejam afectados, não os sinto, não sei da sua evolução, ó kundalini onde andas tu, que te verticalizas dentro de mim e apontas para cima, sinto-te retorcer entre o primeiro e o segundo a contar de baixo, a ânsia o desejo que nunca se satisfaz, és tu que te mexes dentro de mim, queres a libertação, queres que cante para ti e te encante, para que levantes a cabeça e te ergas verticalmente dentro de mim.

Reboliço agitação aparelho digestivo indisposições gastrointestinais farofa maconha mesclado terrorismo al-quaeda bin laden cortar o pescoço à avó deitar tudo para trás das costas fechar a porta arquivar, arquivar dá-me uma sensação de sono, arquivo porque gosto de me passar pelos arquivos e gosto de ordem e progresso gosto, não sou brasileiro mas gosto, ele que disse eles que escreveram, quanto gostariam, indiferentemente a isso estão a ordem e o progresso, que têm existência própria, animada por aquela presença que não vos sei dizer, porque a outra não se diz, não se pronuncia o nome, porque não esta, porque será, e assim não se fala, e torna-se oculto, mundos ocultos, com e sem almas com e sem corpos mundos ocultos que mundo vês vêem em que mundo vivem vives quantos são quantos são venham todos venham todos serás o primeiro a fugir, não terás medo de ninguém, para que lado pendes, qual a opção que é tomada antes que a tomes, aquela aquelas as que nada podes fazer és assim pobre rico és o que és, sê, conseguirás ó que fito ó que karma ser, porque o não ser não existe e quem não é está enganado, tu, desculpa-me, mas é isto que penso, di-lo-ei, ai que gana desenrola-te, ó cobra sagrada, faz meus os teus olhos e deixa-me ver através de ti, mostra-me ao menos como libertar-te, como erguer-te como encantar-te, cantarei sim cantarei ao mundo a ti a ele e a eles cantarei assim de maneira a que só tu oiças.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Diálogos

Interrompo-me para falar de grandes dias daqueles dias sobre os quais, não te interrompas, se criam grandes expectativas porque de facto são dias diferentes dos outros dias em que por um determinado propósito uma determinada conjectura se desenha, mormente se juntam pessoas que raramente se juntam e todas partilham desse propósito comum que é comum não por ser de todos, mas porque é de um e outros estão em volta, é esse o clima especial, porque é uma altura única em que um centro se cria e depois é ver a esfera da gravidade de nós a saltar de um campo magnético para o outro. Afinal onde estão as coisas boas da vida, onde está o bem e a beleza, senão num gesto fraterno ao transeunte que se cruza connosco, numa palavra de atenção à empregada de balcão que nos serve, ah mas ele ia com má cara e o dever dele é parar quando eu quero passar, porque eu estou na passadeira, ah mas ela é paga para isso, não, toda a parte emocional de tudo não é paga, não é obrigatória, mas é necessária e regulada por outra coisa, que não um código de leis ou o cá e lá do poderio económico, isto está acima disso, sobre todos os pontos de vista, sim, deve começar entre portas, entre quatro paredes e um tecto, mas deve estender-se aos espaços abertos, às ruas cheias de gente, à multidão dos transportes públicos, às bichas na segunda circular e à entrada para o prédio que alberga a nossa casa, onde tudo deve começar, dentro de nós, de nós para connosco, trabalhemos todos pela realização desse fim único, fim de tudo isto, uma palavra terna, um acto de companheirismo, uma consciência de que estamos todos no mesmo barco e que individualismos só nos levarão para mais longe do objectivo que é o encontro pleno com o centro de nós, a junção do nós convosco num mesmo centro que é ele. Se as minhas prioridades não agradam aos cabeças de monopólio, aos usurpadores e aos insensíveis não estou nem aí para isso, já era de prever que não agradariam, mas também eles terão que passar pelo que digo, pois não falo por mim, nem por ti, mas por todos. E não, não quero nada, só vos digo que não passo enquanto não passarem todos, que não vou a lado nenhum enquanto tu estiveres perdido, enquanto ele andar a enganar o mundo, enquanto tu não reconheceres e ele não reconhecer que há apenas um caminho e que ele passa pelo centro de vós, pela verdade pela integridade e pela consciência de que tudo é a mesma coisa. Muitos já lá estão, fazem visitas diárias à sua casa, porque sabem que habitá-la só quando todos tivermos passado e todos são o universo inteiro, vede quão grande será a minha espera, a vossa espera, a espera dele, que espera pelos outros doze, quão incomensuravelmente grande é a nossa espera, se não começarmos já não haverá tempo e as consequências de ter de haver mais tempo não serão boas para ninguém. É o que vos digo. Isto e outras coisas porque não consigo deixar de dizer, vivo para dizer coisas e vou descobrir e agir de todas as maneiras possíveis para dizer o que vejo, porque vejo que o que vejo não é visto e que as verdades da vida estão diante dos vossos olhos e eu que chego de lá vejo que acenam para vós quando fazem precisamente o contrário, quando não querem ver nem ouvir nem encontrar o vosso caminho, perdendo-se nesses mundos que para vós são infinitos, só até ao dia em que deixam de o ser, em que o coração pára e o corpo apodrece e os impérios caem para darem lugar a novos impérios e a novos corações que batem nesses mundos, nesses corpos, ó força dai-me força, vamos juntar-nos clamo por vós almas que como eu querem a salvação da vida, juntemo-nos porque juntos talvez possamos fazer qualquer coisa a tempo de evitar o pior. Esperança senhores esperança, mas que coisa é esta aí, não entres aí, sais por essa porta, não olho para ti, sei como sais ou basta-me pensar que sei, não quero confrontos, não quero verdades, estou bem assim, esperança cinematográfica, assim e assado acontecerá que futurologia esta, o que é caso é que elas acontecem, mas porque é que eu não acreditei no que vi, é sempre aquela impressão que fica de desconfiança de mim mesmo, mas porque é que eu não lhe respondi, aí já outro galo canta, outros factores intervêm, porque quando se trata do ele e dos eles é outro galo que canta.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Diálogos

Perante a imponente fachada não sentimos outra vontade senão a de nos tornarmos pequeninos, do tamanho de um ovo que nos caiba na palma da mão, para aí nos agarrarmos e nos protegermos daquilo que sabemos ser tão grande e tão capaz de nos pôr capazes será que nos achamos capazes de ser capazes.

Passando o que é passado, o passado não é passível de ser passado por cima então, antes de ter acordado já sentia aquilo que me pareceu um gesto brusco vindo de ti causado pela sensação do que virias a sentir como reacção à minha reacção ao teu gesto brusco de pegares no comando e acenderes a televisão, eu que pensava que dormias ou pelo menos dormitavas, ou carpias as dores e prazeres numa de sorna, pegaste no comando com um gesto violento assim me pareceu, e logo as vozes cuspidas pelo aparelho vieram como facas irritantes irritando os meus ouvidos trazendo-me de lá, desse refúgio esconderijo onde estava escondido, irritação, não queria de lá sair, e logo trazido por um sentimento que senti antes de vir, porque a sensação foi que a ti algo te tinha trazido e forçado a ouvir as vozes irritantes, eu não queria voltar e não voltei, não voltei, não voltei. Porque não entregar tudo nas mãos dele e dormir porque não, porque afinal é a vida ter tudo isto nas mãos porque viver é ter tudo isto nas mãos e a nós para concretizar e os meandros da burocracia e o enleio e o engodo para combater com a integridade de nós, cuidado que te passam a perna, agora já querem setenta e cinco, mais os quinhentos que entretanto tinham sido adiados, mas que serão devolvidos aquando do acto da escritura, sim palavreado de quem compra de quem possui tudo meios para esse fim sublime eterna busca não nos esqueçamos tudo meios ó busca eterna ó almejar perene disso que nunca haverá só aproximações não sim talvez mas afinal o que é a vida senão ter tudo isto na mão ou querer ter tudo isto na mão e não deixar para mais ninguém ter na mão porque esta é a nossa vida a minha vida a vida que eu escolhi aquela que quero ver realizada na concretização do meu ser do nosso ser destino inseparável carma comum venha a nós o teu reino e seja feita a tua vontade mas pelas nossas mãos ela terá de passar não terá sido para isso que nos criaste para que passem por nós a tua vontade e os teus desígnios destes mundanos também tu saberás sabes de tudo mas como entregar-te o que quero que me pertença o que quero que seja meu a razão do meu viver e da minha labuta sim um meio sempre um meio não nos esqueçamos de que é um meio e de que nada está atingido pois os impérios conquistam-se para mais impérios se quererem conquistar mas que quero eu afinal quero viver quero amar quero a simplicidade de tudo isto através da minha complexidade quero dissecar o mundo pelas palavras quero querer o que quero amar viver não há descanso há muito para ser feito e sou eu quem vai fazer tudo claro eu sem ti nunca nada disto faria como pôr todo este sentido em causa mais uma vez ainda outra vez por causa de quê não entendo como não me entendes como não estás do meu lado agora ontem sempre mais uma derrocada não a estrutura não abala até chegar o dia em que me digas acabou. E eu fique morto sem saber porquê a pensar que tu me conhecias a pensar que tu sabias a pensar que eu sabia eu não domino eu não me domino isto sou eu mais as coisas que estão para além de mim e que sempre farão parte da minha vida desde as profundezas que não albergo ao zénite fora de mim mais do que eu a energia que me usa é admitir que o que expresso está para além de mim é admitir que o que amas é mais do que eu e muito do que amas não sou eu como muito do que não amas, onde estou eu no meio disto em todo o lado e em parte alguma refugiado escondido no esconderijo nem sempre às vezes quem sabe quem assume quem é o que é ser sabes ó senhora da razão e das convicções inabaláveis eu que moldo que espelho que crio que transmuto eu isso que ainda tens por descobrir por aceitar por compreender por amar por achar por enfrentar eu todos os teus medos eu todos os teus monstros os que exorcizas-te e os que tens por exorcizar eu todo o mal e todo o bem dentro de ti eu essas perfeições dele por realizar eu essa miscelânea de todos eles sem ser nenhum, sem ser, prometendo pela imagem de mim que sonhaste, que sonhas, que amas, e eu, e eu como força criadora sonhadora enaltecedora de mim mesmo e do que é belo amante de qualquer coisa fora do normal fora deste antagonismo da vida que presenciamos todos os dias eu fora deste mundo eu projectado na saudade que tenho dos tempos a que pertenço da moral da força eu incapacitado pelo caminhar da gigantesca engrenagem eu oprimido por me sentir sendo em outro lado eu ausente de tudo isto eu lá nesse mundo que sinto e cheiro e provo eu afagando os teus cabelos negros ao vento e falando de amor sem depois sem amargura por vir sem monstros para decapitar sem mecanismos de defesa para ultrapassar pureza e essência eu saudade de ser verdade eu vontade de renegar a tudo o que me mete nojo eu tornado balázio na cabeça de todos quantos me enojam eu caos eu personificação da dualidade da humanidade eu eternamente a carpir como mártir que não sou o pecado que ninguém conhece. E eu, em vários mundos a sentir a gastar a dádiva do criador brincando como os outros brincam sendo através dos outros mais do que outros são sendo eu lendo e recitando palavras do livro que lê quem sabe e quem pode eu a boca do mundo dizendo da natureza de ser mortal e sonhando, sonhando com o fim com o princípio com a ausência e a presença do que está ausente eu noutro lado eu a teu lado eu só a teu lado eu a renegar a tudo sabes que não posso sabes que ele me espera olha para mim e espera sabes que sem ti nada será possível podes escolher mas tudo já está escolhido não aconteceu mas ele já sabe de tudo. Cansaço. Falta de sono. Inutilidade. Caos. Basta. Dir-se-ia que a caminhada já cansa, eu diria que ainda não começou. Mas torna-se complicado com estes momentos em que forças grossas me puxam por grosseiras cordas e me invertem o ser, não podes deixar que isso aconteça tens de respirar fundo e fechar a porta verás que logo te apercebes que outra se abre e por ela entram a luz e o branco, vamos fechar de vez esse portal escuro, essa porta dos fundos essa escotilha para o porão deixemos as ratazanas na sua vida, elas não podem pisar o barco, comem-nos o sustento e ratam-nos as vestes, cada coisa no seu sítio e na minha alma não há sítio para o mal. Então onde está o mal da minha alma, de uma vez por todas o que está tem que ir sendo filtrado reciclado e devolvido à proveniência e à providência e mais nenhum entrará porque nós não somos compatíveis porque a nossa natureza é o bem e o que é grande somos de constituição dual artriticamente infinitamente pequenos e infinitamente grandes mas a nossa essência não é infinitamente pequena nada tem de pequeno o bem não é pequeno o amor não é pequeno o amor não é pequeno e no fundo e despindo o superficial é isso que somos é isso que sou portanto em mim não há lugar para o infinitamente pequeno e nas minhas acções não pode haver nada que leve ao infinitamente pequeno, não busco não busques o prazer efémero não busco não busques a ilusão busco busca a realidade e a vida no amor incondicional.

Diálogos

Quanto mais alto se sobe maior é a queda. Que é o mesmo que dizer que quanto mais alargada está a consciência maior é o risco de nos perdermos em nós próprios. Neste momento sinto-me espectral, como se vivesse num outro plano e as pessoas que interagem comigo interagissem com a memória de mim, que está dentro da cabeça delas e que lhes é solicitada aquando da presença do meu ser espectral.

Antes de vir para aqui alguém me deve ter perguntado se queria ser grande, que terei eu respondido ou então ninguém me perguntou coisa alguma e sou na proporção do que fui. É aqui que reside a diferença entre ter ou não capacidade de opção. Se tudo é mediante aquilo que foi, então o que poderá ser, sedimentação. Puro acumular dessas coisas que em nós se acumulam, de forma peremptória e explicita às quais por mais voltas que possamos dar por todos os quereres e não quereres, e por todas as forças do universo combinadas, não, não podemos fugir, é demasiado, estará escrito, será curto comprido, as rédeas os laços os elásticos as amarras, ele forma cada tecido constituinte da máquina, é o sangue do sangue, a luta até à morte pela vida, o encontro.

Posso não saber muito bem como lá chegar, até julgar que me perco em becos menos explícitos, mas nenhuma viagem é em vão, será que não, de novo os ciclos, o princípio, todos os recomeços que vão dar naquele fim que sempre levará ao ponto certo, esse tal onde então o espectáculo vai começar, a cortina içada pela mesma mão que toda a vida almejou esse fim, que sabe que nasceu para ele e que vai porque vai cumprir o seu destino, fora com as palavras, cumprir-se.

Há um preço a pagar por estar despido frente à verdade, ela é a mulher sublime que só podemos amar nesse estado de pureza primeira ou última, dependendo do ponto de vista, vai dar no mesmo. E fazendo amor com ela, um amor não carnal, embora através da carne possa passar tudo isto, claramente o que está lá e nu é a alma, e esse estado tem um terminus, precisamente onde a carne começa. Na abnegação das coisas mundanas está o outro lado à espera para se revelar, esse lado de nós que persigo e que quero ver reflectido na minha vida, é isso que quero. Acordar sabendo que terei que me vestir para enfrentar o mundo, mas tendo perfeita consciência das minhas vestes, e quando a noite de novo me abraçar, lá estarei, nu outra vez para ela. Assim mesmo de dia e vestido serei eu na impermeabilidade de quem tem essa fé que mais parece uma convicção, uma certeza inabalável de que não haverá falhas pois nesta arquitectura não há pedras para cair, e tudo se sedimenta.

Oscilo entre os dois extremos do meu ser, a possibilidade de me realizar enquanto ser mesmo dando cumprimento a todas as minhas potencialidades, ou então o oposto, não dando a nenhuma o trabalho que lhe é inerente e desgraçar-me até ter matéria-prima para desgraça. Acontece que não estou à beira de uma decisão entre elas, sou de facto as duas, e às duas realizo. Daqui resulta que sei no que resulta uma e outra, não embarco numa porque não quero, na outra porque não consigo, parece muito simples, uma leva à destruição do ser, a outra à sua edificação e evolução. Simplesmente não consigo estar numa porque sou as duas, e ao estar nas duas não estou em parte alguma, o que uma me dá a outra consome; chamarei a isto equilíbrio, porque é o que é. Quando existem duas forças e do produto que advém de cada uma a outra se alimenta temos a função de equilíbrio. Sou equilibrado.

Mas ser equilibrado não basta. Equilíbrio não é igual a neutralidade. E uma coisa neutra o que é, é uma coisa que não é uma coisa nem outra, diz-se que está no meio, mas se está no meio terá parte de cada uma das coisas ou será feito de uma terceira coisa, e que coisa será essa, espreita uma tristeza à porta de mim pela natureza de tudo o que existe. A realidade, contrário de tudo o que se vê é algo que está para além do nosso alcance. Vivemos de e na ilusão. Tudo é fictício e a vida é o contrário do que pensamos. A verdade de cada coisa está no seu oposto e o que é, é em tudo contrário ao que parece. (Aquilo era ela levada ao extremo). Porque depois somos levados a extremos pela vida. É como se fossemos actores de um filme realizado por alguém que não é apenas realizador, mas palco, produtor, encenador, verba, matéria-prima, enfim, representamos esta peça em muitos actos e até nos deixam escolher alguns papéis se formos bons actores.

Outros haverá capazes de representar qualquer papel, mas por isso mais inclinados a representar aquele que mais os cumpre e que é simplesmente ser. Não ser tudo, mas especializar-me em ser, cortar com dispersões e fazer aquilo que me cumpre seja isso o que for (seja escrever seja dar de mim a quem queira e possa receber seja receber de quem tenha para me dar) seja fazer omeletas e beber água ou não fazer nada e passar o metal pela alma e dizer-lhe olá vem cá vamos ali. Mas confesso conceber de extrema importância esse vector crucial da minha vida e da minha realização enquanto ser, objectivo que persigo, que é partilhar preciosidades entre possuidores compatíveis. Troquemos essa preciosa informação que parte da experiência de cada um da idade da alma daquilo que cada ser é e não pode deixar de ser, todos juntos fazemos alguma coisa. Senão olhai e vede pensai, eu sou, ou pelo menos tento ser, outros há como eu que tentam ser, que lutam e sofrem por se cumprirem. Também há aqueles que lutam por outras coisas, opção a deles, que não invalida que cada um seja em essência aquilo que é, ou em última analise aquilo que poderá ou poderia vir a ser em potencial. Que se cumpra ou não esse potencial é a vida, mas todos juntos continuamos a constituir qualquer coisa. Os que se cumprem e os que não se cumprem. Os que se perdem em mundos fictícios e os que habitam o mundo de si, habitam e partilham e podem ver o mundo de todos feito de todos os mundos de si cumpridos ou em vias de, fazemos todos parte do mesmo sistema. A natureza e nós parte do mesmo sistema e porque não natureza também, portanto mais do que respeitá-la há que conviver com ela como parte integrante do nosso mundo, que devemos ter em consideração toda a consciência do que de facto é a natureza e não uma ideia aproximada, não, não tenhas medo vai tudo correr bem e pela ordem devida, preciso é que a façamos cumprir, vamos a isso então! Não, com desconfiança não se faz nada é preciso que à partida haja confiança, em tudo. Se partes para os outros com desconfiança dás azo a que os outros percebam que estás desconfiado e que reajam à tua desconfiança e isso não é bom. Como a escala do Celsius estar com valores muito elevados também não é bom, seca os ares e os pensamentos. Deixei de procurar lá fora porque lá fora não está nada tudo está dentro de mim tudo o que preciso. O mais é confronto disso com o resto. O experienciar é a aliança do que somos com o que nos cerca, mas do que nos cerca nada vem, tudo está em nós e o enleio apenas espelha aquilo que somos. Aos outros, a espaços e pessoas que não me reflectem ignoro de maneira absoluta como se de nada se tratasse. Estou noutro sítio, estou em mim e no meu pensamento que mora em muitos lados sob todas as formas possíveis e impossíveis, porque aquilo que se vê não é mais do que uma manifestação do que não se vê. A verdadeira realidade ninguém vê, ninguém fala dela. Mentira, há quem veja e há quem fale (não percebo por que é que quando acendo a luz oiço melhor) acontece que seria melhor que todos vissem que todos falassem, mas quando esse dia chegar deixa de haver a visível, deixa de existir aquilo que é real e passa só a existir aquilo que agora consideramos metafísico, ou seja para lá do físico, qualquer coisa fora do alcance. Erro dos erros, se disse errou, porque essa coisa que está fora do alcance somos nós. A merda está em cima de um trono a borrar-se para que os outros cheirem. Tenho um nojo visceral à arrogância do mundo, ao modo como se ostenta luminoso e floral ofuscando o verdadeiro mundo. Deixa-me num estado depressivo ver a perdição das almas ignorantes e iludidas que pensam que podem muito mas não podem nada. É-me completamente indiferente o modo como este mundo me trata. Não quero nem espero nunca vir a ser reconhecido. Porque não quero reconhecimento deste mundo. Não quero fama não quero glória não quero dinheiro nem bens materiais. Sei que toda a vida serei injustiçado, incompreendido, sobrestimado, criticado, julgado e muitas vezes condenado, porque não faço parte dele e não pactuo com os seus esquemas sujos. Tudo quanto faço é em nome do amor. É ele que rege a minha vida com os seus corolários de justiça, amizade e tolerância. O mais é imperfeição e mal que também os há em mim, a par desta inadaptação extrema. Olho para isto e já não sinto enclausuramento. Eu sou o que está para lá de tudo isto e há mais paisagens em mim do que átomos nesta construção de tijolo e betão e cimento armado. Ela é matéria moldada pela mente do ser humano, erguida e edificada em alicerces de aço, eu sou o sentido de tudo isto e mais cada alma por detrás de cada janela, cada alma dentro de cada corpo por detrás de cada janela, todos os corpos e todas as almas eu sou. Porque eu sou substância divina, sou aquilo de que tudo é feito, estou nesta massa infinita do ser magnífico e sublime que tudo encerra onde tudo começa onde tudo termina, de onde nada está excluído, onde a exclusão é um conceito que não existe porque a exclusão é o inverso de um conceito basilar nesse mar onde nado.

olhai e vede