domingo, 28 de novembro de 2010

Diálogos

Atinjo um novo estado de comodidade, espelhado no desconforto com que olhas a vida, a corda que te puxa é a minha janela para a realidade inalterável de mim, os tempos proféticos que atravesso, que atravessamos, são propícios ao fluir caótico do que em nós flui.

E a espera está-se a tornar cada vez mais a nossa ausência da realidade dos outros a nossa absorção na realidade de nós. O grito deixou de ser contido ele tornou-se a substância e voz de estar de diferentes maneiras com os outros. O desempenho do papel tornou-se demasiado, tornou-se, alastrou-se de tal maneira que o que sobeja é encontrado como uma memória esquecida, trazida a lume agora pela acção remota que está no espaço pensado antes do tempo.

Sinto-me como um ácido que se dissolvesse e criasse uma pasta pegajosa da substância de mim, liquido pastoso no qual vou, no limite do deslizar no limiar do possível a roçar o absurdo. Rejo-me pelas leis que nenhum código penal contempla, pelos valores que a humanidade esqueceu. Almejo o que está dentro de mim, nada mais ambiciono do que ser. Ser aquilo que sou, mas pelo meio de tudo isto tudo o que mais temo me vem, tudo o que não quero que venha acaba por vir ter comigo. Isto a par dos sonhos que alimento e dos desejos que evoco com força o maior deles todos já realizado por essa força suprema e sublime que é tudo o que vemos e o que não vemos e está cá e lá e para além de cá e lá. São agora três e quarenta e três no mostrador preto de números vermelhos. Neste dia que começou ao meio-dia do dia que já lá vai muito haveria para contar e detalhar, o quê, a consciência da excelência da alma humana, a regência pela minha escala de valores, a importância de não negar o bem que sou. Ou reduzir ao mínimo possível no momento actual a perversão da alma. O mal na percentagem do todo que sou eu. São cinco e dez. A esta hora a vida é diferente. Pergunto-me se será de facto diferente, se serão os meus sentidos que estão diferentes e por isso a captam de maneira diferente. Mas creio que não. Creio que é o inverso que se verifica. Ela é de facto diferente e com isso a minha percepção dela diferente e eu diferente também.

Não tenho nós nem atilhos, nem ânsias nem angústias, tenho somente uma vontade imensa de que tudo isto se mantivesse com a passagem das horas e que com o decorrer delas eu continuasse a sentir nas outras pessoas e em mim e no ar esta sensação de finalização, de tudo feito e nada pra fazer, a não ser esperar por mais horas e pensar no que já está feito. Mas não. Tudo isto vai passar ao grupo das coisas nas quais não se pensa, ou se pensa pouco, aquelas coisas que amanha não vão passar do dia d’hoje, e que não vão ser base pra nada porque se vão dissolver no todo de nadas que somos.

E voltaremos a errar e a ir aos mesmos sítios e a levantarmo-nos e sentarmo-nos até que deixemos de o fazer, ou porque finalmente percebemos que é melhor nada fazer, ou porque deixamos de poder fazer seja o que for. Depois há também os que por aqui andam e não estão nestas condições ainda que por estarem aqui pareça que tenham de estar. Contudo tem tudo a ver. Estes não finalizam nada, começam alguma coisa antes de todos os outros deliberadamente. E depois existo eu que estou aqui para além de tudo isto como espectador destes cenários que não descrevo com personagens que não existem porque só as concebo enquanto ideias que possuo, então para existirem teriam que o fazer dentro da minha cabeça e moverem-se em qualquer lado para que eu as visse. Se isto for possível assim é, se não for não é.

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olhai e vede