Escolho a representação da raiva, padeço de necessidades, porque quero ver determinadas coisas a acontecerem, coisas que vejo na minha mente, imagens de como deveria ter sido, reajo incontroladamente a situações que não quero que sejam assim, mas não dou espaço para pensar outras coisas, para que sejam diferentes e então continuam a ser iguais, porque eu continuo a reagir sempre da mesma maneira, á procura de semelhanças com o retrato que tenho dentro da minha cabeça, em vez de procurar uma nova ideia, á semelhança de um novo pensamento que tivesse acerca de quem quero ser, vou por ai fora, embrenho-me nessas sensações, ira, raiva espasmo do maxilar e redundância cíclica que não quero mais. Quero lembrar-me no momento presente que não preciso repetir o que já está gasto, quero criar uma nova realidade a cada apresentação e confronto com o que me faz sentir mal, quero agir de diferentes formas para buscar a reacção certa, aquela que me definirá perante a situação em questão, perante todas as questões em concreto.
Concretizar.
Pé ante pé concretizar. Passinhos muito pequeninos os que me levarão, porque preciso ter a certeza e para ter a certeza tenho que fazer, tenho que ter vontade quando o estiver a fazer, se não tiver vontade não vou, deixo para amanhã, e crio uma bola de neve que se transformará em avalanche e me cairá em cima da cabeça. Então acordarei e terei vontade e farei o que devo fazer com vontade. Porque não adianta fazer o que tenho de fazer sem vontade. Esta não é uma acção como qualquer outra. Esta é a acção que cumprirá o propósito. Mas sou pequenino e tenho medo. Por isso vou muito devagarinho porque não tenho a certeza de estar no caminho certo, (quando estiveres no caminho certo saberás que é o caminho certo), talvez ainda não saiba porque não estou em caminho nenhum, porque ainda não cheguei lá, porque não saí do mesmo sítio. Perdido entre o sonho e a capacidade de realização, escondido atrás de personificações que deixei desaparecer da memória das coisas, pessoas com histórias e caminhos, opções que permitiram aos outros ser diversas coisas que pensei, confrontos com realidades díspares, expectativas frustradas e ansiedade cíclica, tudo perdido por uma determinada escolha, tudo perdido porquê? O que é preciso é criar bolas de neve. Porque aquele que viria agarrar tudo pelos colarinhos e dizer vem por aqui desapareceu, na tentativa da criação de um outro, na tentativa de construção de algo em comum, agora ninguém desapareceu por completo e isto são tudo fantasias da minha cabeça, e não sei o que serei quando amanhã chegar e me vir rodeado de outras coisas, porque não posso garantir, porque não sou hoje o mesmo que fui ontem quando pensei o que ia acontecer hoje compreendem, porque nem agora que sou pequenino nem ontem quando era grande e apolíneo, nem anteontem quando me tornei monstro, em todos os estados a dúvida, a única certeza, a de nunca ser perenemente.
Até que asas brancas abertas sobre mim outra vez, num estado de graça como uma bacia pouco cheia de um liquido brando que acalma o mar do meu tumulto, um interregno na inconstância constante, uma perspectiva doce de aceitação da realidade presente, tendo ponderado a modificação subi os degraus da escadaria e desse patamar vi que não quero sair daqui. Quero continuar caminhando assim, porque é isto que sou e não outra coisa, porque as opções que tomei no passado me definiram, e porque o mantê-las me redefine e afirma agora, como aquele que renegou o reconhecimento, como aquele que decidiu ocultar-se e esperar, na certeza de um tempo que chegará, onde serei necessário, absolutamente necessário e na dúvida a escolha que me constrói é a espera, a arte da espera do momento oportuno. Graças às asas e ao branco que se abateu sobre mim agora, saiba eu manter-me fiel a este princípio orientador.
Discernimento. A capacidade de decisão. Saber se estou melhor aqui do que estaria noutro lado. O peso das consequências, da inevitabilidade do retorno, dessa justiça suprema, escolhe uma de entre as dores, onde está o catálogo, se correr o bicho pega se ficar o bicho come, quando morrer quero estar vivo. O frémito, porque se aproxima o momento. Ainda e sempre a inconstância, porquê lutar contra aquilo que sou, porquê querer ser outra coisa, para onde vão, para onde vai o desperdício, os despojos, o refugo, tanto caminho percorrido para dizer o quê agora, besunta-te na lama suíno sem escrúpulos, animal sem comiseração, alma retardada, cauda da hierarquia das coisas, dedos em riste apontado para mim e rindo da desgraça, dó, pelos momentos desperdiçados, tanto talento, tantas oportunidades, camadas e camadas, derme, epiderme, ou será esfera, estrato esfera, o micro, o macro, o impossível, o reino do sonho, a imaginação, o poder de poder ser tudo, o quê, querer com muita força, todas as noites querer, imaginar, está a acontecer, sou eu, és tu, aconteceu. E tudo através da teia, da matriz, do mosaico do sentir, pelos corpos astrais e causais de mim até ti e magia e milagre e agora. Corda bamba. Será que vai, será que não vai. Quais são os prós quais são os contras, quem está a favor, quantos ouvidos á espera do momento oportuno, coiotes da savana da vida, não encaram de frente as suas existências, olham de soslaio nutrindo qualquer coisa entre a inveja e a solidão que os matou há muito, eu não quero morrer, serei inconsequente, qualquer coisa mas plenamente, não gosto de mediocridade, nem de comida insonsa.
Quero viajar. Conhecer o mundo. Quero subir os degraus do potala, enquanto há degraus do potala para subir, enquanto os chineses não destroem o que resta desse centro do mundo, quero sentir o que se sente quando lá se chega, a falta de ar nos pulmões também, e os encontros e o que isso possibilitaria, o mestre chega quando o aluno está preparado, estarei preparado, o que fazer, ficar á espera, do dia em que, não, não quero esperar mais sinto que isto está a acabar, a vida é como uma ampulheta quando se vira ao contrário e a areia escorre, vai escorrendo e os dias são grãos de areia que passam dum lado para o outro do frasco até que o tempo acabe e se vire a ampulheta ao contrário e então mais dias, será interminável o ciclo, será para sempre a eternidade, caminhamos para a velhice, e depois a morte e depois nascemos crescemos outra vez e morremos, isto é o que acontece num dos lados da moeda, do outro há qualquer coisa que vai vivendo também, sempre vivendo, acumulando, aprendendo, mandando mensagens através dos mecanismos adormecidos, sofrendo e lutando por exprimir o que é, o sentido da vida. O sentido das coisas. O porquê de nós e da criação do universo. E eu adormecido, e eu alienado como o resto do mundo da verdadeira realidade, e eu criando o meu mundinho de conforto e adquirindo posses acima do que posso possuir, a princípio começo por incomodar, que haja algo que nos incomode, depois esgotam-se as forças no combate contra a oposição, esgota-se a clemência no responder bugalhos a todos os alhos, impermeabilidade, indiferença, desapego. Deixo de ouvir, não compreendo o que me dizes, não registo, não estou, sou fumo, sombra, descanso, fuga, desvio.
Sem comentários:
Enviar um comentário