Gosto de andar na superficialidade das coisas como gosto de aprofundar uma só coisa, gosto sobretudo de começar roçando todas as superficialidades de todas as coisas e culminar entregando-me completamente a uma profundidade só, aquela a que sempre vou parar quando começo seja o que for, as atenções focadas em pontos difusos, o ser metamorfoseado de diferentes formas.
Na construção ou edificação de alguma coisa estamos sempre a braços com algo de etéreo e impalpável que leve as voltas que levar não deixará de ser uma cópia, mera cópia, de algo que já está feito,
Dor de cotovelo de não termos participado da criação,
Ele sabe, ele sabe
De algo que já está feito noutro lado qualquer, extremos duma corda bamba que pende verticalmente de sítio nenhum, a vida é passada no meio da corda e a cada nascer do sol damos um passo, ora para frente ora para trás, só porque parados perdemos o equilíbrio e não queremos cair, apesar de nunca ninguém ter visto que mais alguma coisa existia para além da corda ou se o nada é afinal consubstanciavel debaixo dos nossos pés.
O dia pôs-se profundo e belo para que eu deseje que ele se prolongue indefinidamente.
Atiro os meus projectos como dardos a este alvo dilatado e acerto o meu relógio com o tempo cósmico, nele as poucas horas que me fazem sorrir têm um carácter infinitesimal e as caras que deixo para trás são partículas atómicas visíveis a olho nu por serem grosseiras. Paralelamente a tudo isto liberto-me e gozarei desta liberdade ainda que a contra relógio, mantendo o meu espírito em prece à divindade, o homem tem que acreditar em alguma coisa, não fui eu que disse.
Chegarei a Lisboa antes de ficar enjoado e tudo isto acabará antes que me volte o nó no estômago. Quero espalmar a minha mente de encontro a mim para ver de olhos fechados a verdade escondida.
Na memória deste tempo esquecido está o abuso. O abuso completo de quem tem tudo e não pode perder nada, sempre alguma coisa a acompanhar, sempre a certeza da eternidade, sempre a certeza, é esta a saudade inequívoca, o não precisar, é esta a ordem suprema e o pecado original, agora precisamos de tudo, porque nada nos basta, a insatisfação é constante derivada da imperfeição,
Relaxa, levanta os braços, levanta os braços,
Nada do que te apoquenta importa, mata-te e nada terá valor, vive e perderás o medo de morrer.
No excesso mora um prazer infindável, como a compensação desse tudo que em tempos tivemos e perdemos, não duvido que o tivemos, não há dúvida que o perdemos.
No que o corpo tem a capacidade de acompanhar, levá-lo ao limite, todos os limites e o que está no meio a parte pendurada do resto, misturando-se com o pó e com tudo o que passa, é o lixo que só posso reciclar, sem deixar que me afecte reciclá-lo, para que as coisas aconteçam ir daqui para ali, todo o tempo será pouco as horas puras e boas para que verdadeiramente viva neste cambalear de uma alma estulta que não sabe, parece ter-se esquecido como entregar-se ao vento, comportamentos definidos estereotipados, entrar num sítio, regras definidas procedimentos a cumprir, aqui já e porque não, dares ao organismo tudo aquilo que necessita, que mal te advirá disso, refreando os pedidos dele com mente compacta e colada à alma, no não satisfazer dos pedidos mora a ruína, a abstinência do vício torna-te pior que os viciados, pois que o viciado vê ao menos apaziguadas as dores que te dilaceram, busca primeiro o controle da mente, reflexo directo da alma e verás que com esse procedimento os vícios desaparecem por si, até lá não te coíbas de nada, não fui eu que disse. Caminha lentamente pois o caminho em que estás não se repete, outros virão mas pela sua natureza diferente não darão azo a estas coisas mas a outras, evita o assim-assim sê qualquer coisa em concreto ainda que essa concretização não seja do agrado da maioria, ultrapassa as fronteiras da rebeldia sê livre e voga finalmente a tua vontade, age de acordo com os teus princípios como se estivesses isolado no cume de uma montanha, para além dos ditames da sociedade e de tudo aquilo que te dizem que está certo, sê por ti.
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