quinta-feira, 26 de maio de 2011

Relatório

Estamos aqui. Viemos cá fora apanhar o sol ténue de Inverno, não chove, tudo está alto como o sol, as nuvens dispersas lá em cima não ameaçam nada, não se passa nada, apenas eu e eles tentando aquecer. E estando assim com eles apercebo-me que cada um é a sua coisa distintamente, lembro-me do que aprendi numa vida que não esqueci inteiramente, sinto o que deles emana e se propaga pelo espaço aberto das lezírias, e coloco-me no meu lugar. Aconteça o que acontecer eu sou quem sou e emano o que emano, mas é na presença deles que percebo isto, aliás eles são para mim o percebê-lo, mais do que aquilo que eles são que eu não sei, mas imagino, vou percebendo, até contra a minha vontade, se bem que na maioria das vezes a favor, porque me sinto bem a perceber quem são. Também me hei-de lembrar inteiramente de quem sou. Não digo que não saiba, aliás se alguém sabe esse alguém sou eu, disso não duvido mais, já não espero por aquele que viria dizer-mo, desenganei-me, mas ainda não estou esclarecido.

É com este propósito que estou aqui. Foi isso que vim cá fazer. E segundo me lembro vocês também, porque vocês e eu é a mesma coisa. Claro que isto não me veio à cabeça quando estava a apanhar sol, nem me vem à cabeça quando seria útil que viesse, só vem quando venho aqui e me fecho neste quarto de costura e tento trabalhar. Há ocasiões em que só a trabalhar me sinto bem, por isso trabalho mais do que faço outra coisa qualquer, dito isto parece que me defino como um trabalhador, e até certo ponto estou de acordo com o que afirmei. Sinto que clamam por qualquer coisa. Só poderei dar o que me pedem quando tiver satisfeito os meus apetites, quando tiver respondido ao que perguntei quando estava lá, debaixo do sol central, creio eu, se depois disto alguém obtiver o que pretende então ter-se-á cumprido o propósito em excelência.

Só descansarei quando isso tiver acontecido. Provavelmente já aconteceu, se observado da perspectiva correcta, mas daqui donde estou não tenho a perspectiva correcta, tenho a minha perspectiva, dual bipolar múltipla. Não posso impedir que a assistência esteja comigo, como aliás sempre esteve, não posso impedir as vossas manifestações, são livres como eu de dizer o que pensam, a questão é que não somos separadamente, disto também não me esqueço quando estou em casa. Seria interessante referir porque me lembro e porque esqueço as coisas mediante o sítio onde estou, talvez o faça noutra altura, agora tenho que dar a palavra a alguém, que questionará o porquê da mudança e me acusará de inconstância, quiçá de incoerência, oiço essas vozes, será mais do que um individuo a assumir esse papel, os papéis andam no ar como as perguntas que mordem as respostas ou serão as respostas que mordem as perguntas, tudo está no ar clamando para exprimir-se, não sentem, eu sinto, respondendo, assumo a inconstância, sou diferentes coisas para não dizer pessoas, seria perigoso se o dissesse, digo coisas é melhor, sou conforme o espaço o enleio e o decorrer da engrenagem de mim, tudo conjugado assim pelos milénios de informação genética embutida, a incoerência declino, em verdade vos digo que o que vos parece inexplicável não tardará a ter explicação ainda que tarde do ponto de vista de quem espera, porque espera e anseia parece-lhe que não chega, mas chegará e nem é preciso fé para acreditar nisto, basta escolher, esperar até que suceda, não condenar antes de estar na posse de todos os dados, não julgar não medir os alqueires, pois a escala e os alqueires podem não ser compatíveis, e esse alguém que mos virá medir pode não chegar, também já não espero que chegue, apesar de ontem ter esperado hoje não espero, aqui está a confirmação da minha inconstância, incoerência não. Repetição sim, síncope sim, mas como ferramentas de uma acção qualquer, maior ou menor indistintamente.

Para me sentir bem o processo tem que decorrer permanentemente, melhor dizendo tenho que estar sempre consciente de que ele está a decorrer, isto por vezes afecta a minha capacidade de estar alegre, fico trémulo, intermitente, e isso provoca-me desassossego. Isto explica-se por uma das minhas características, tenho os dois pólos dentro de mim, e sou diferentes coisas a cada momento. Então tenho de voltar para casa fechar a porta e arrumar em gavetas o que trouxe da rua, à luz dos princípios que só lembro quando estou aqui. Assim posso sair outra vez e lembrar-me de quem sou, até que me esqueça e tenha de voltar, quando isto acabar começará outra coisa, da eternidade da vida também já não duvido, depois de análises que não sou capaz de descrever todas agora, nem uma sequer, não ponho em causa que nunca mais acabará isto que estamos a fazer, porque mesmo que acabe começaremos outra coisa. De certa maneira sinto-me confortado com isto, mas não o suficiente para ser esse sentimento de conforto maior do que o resto, do que o desconforto de estar desassossegado, do que a incapacidade de estar sempre alegre, e do que outras coisas.

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