quinta-feira, 26 de maio de 2011

Relatório

Imagina caras muitas caras expressões rostos dizendo eu estou aqui, que dirão, buscarão o mesmo (que eu) ou já estarão a buscar outras coisas, poderão comunicar connosco, porque não, se tudo é a mesma coisa, se espaço e tempo são ilusões com que alimentamos a ilusão maior de estarmos separados compreendem, o passado é a cidade subterrânea, o presente sou eu no chão que piso afirmando que estou aqui e estive lá, estive nos planetas distantes que sonho nos pontos luminosos que mal distingo estou nos pontos luminosos duma nebulosa recém-nascida algures no espaço sem fim, sou a força que sustenta tudo isto, sou as asas abertas sobre o mundo quando caem chuvas de poeiras inter-galácticas e as crianças choram e as criaturas vegetais crescem. Corre-lhes a seiva nas veias que não têm, corre-nos o sangue na vida que não temos, nas promessas que fez uma alma iluminada pelo sol central, o mecanismo colossal da existência, para que saibamos para que tenhamos consciência, as condições são perfeitas a todo o tempo, só um mundo na pluralidade do espaço, cenário impossível duma realidade dual e de pontes sobre as coisas de cá para lá e de lá para cá, invocando as almas de feiticeiros perdidos em continentes submersos, de povos que viveram sonhos de indivíduos onde massas pensaram em uníssono um pensamento unificador, esta é a realidade do meu ser onde toda a verdade é perene para que eu assista, para que tu assistas para que ele possa contemplar quem é e ser na multiplicidade da maior obra alguma vez criada.

Se sou outra coisa porque o que sou está por cima do que não sou, só posso ser no espaço do que não sou, onde está o que sou, se não for consciente e permanentemente aquilo que sou no espaço do que não sou, retornos a questões essenciais discussões eternas acerca do que me faz sentir bem, querer que vai mudando em si, que é em si a substância da mudança daquilo que está em constante movimento, aquilo de que se fala, o ser.

Vou querendo diferentes coisas à medida que me apercebo do reflexo de mim criado pelas opções que tomei, é tangível essa realidade factual, é o uso das ferramentas da criação, deuses contidos em crisálidas de esquecimento, a consequência bem visível logo depois da acção, o tempo que decorre entre as duas e a consciência de que decorreu, assunto melindroso para o trato parcial de um humano, é algo que permanece um mistério na mente colectiva, o sentimento humano, a sua importância vital em tudo o que nos diz respeito, em tudo o que existe, do ponto de vista de que tu sentes e isso é só mais uma peça a mover o mecanismo da engrenagem do que tu és, mecanismo fabuloso que corre ao lado da outra vida, a vida de todos os dias ignorada, os galos cantam e o homem renega a sua existência, a sua essência, o que é ser humano, o que significa, o que queremos que signifique, para onde levaremos a jangada, agora que tu e eu somos um o que poderei fazer, é importante filtrar todo o processo gravá-lo se quiseres memorizar aquilo que não pode ser esquecido, porque conversas divagações leva-as o fumo em que se esfuma a expressão do que não é ouvido do que não é confrontado com outra coisa, porque para ser é preciso não ser.

Talvez mais tarde haja explicação para isto, serão os factos que falarão por si, ou não fosse viver uma experiência indescritível, voltas e mais voltas no carrossel da loucura, ainda te lembras do que queres dizer, será a negação do que querem que digas, será a expressão do que és, o que será que queres dizer agora, o momento tudo o que importa, mais uma volta, quantas vezes te conseguirás ver confrontado com as mesmas coisas e não pensar, e não lembrar, onde estão as outras coisas, aquilo que não sabes definir, que não sabes pensar, que não sabes julgar, onde está a medida a escala e aquele que o fará, neste caminho, caminho onde tudo se horizontaliza como uma passadeira de uma cor qualquer, a soma de todas as cores, uma cor diferente de branco que os meus olhos vissem por sobre todas as coisas, quantas coisas vêem os olhos, decifra a mente, não há acontecimentos que tragam alegria perpétua creio, se algo acontece que me alegra sinto-me agradecido e agradeço porque sinto necessidade disso, foi algo de exterior que me trouxe condições para que me sinta alegre, mas a engrenagem não pára, o mecanismo não pára, e logo se dissipa o sabor do bom que veio misturado com o mal que está sempre presente, vem-me então à cabeça o que ele disse, alguém que também pensou nisto e obteve respostas, a alegria está em nós, no que sentimos em relação ao que nos acontece e não no que nos acontece, devemos ser alegres aconteça o que acontecer ele disse, e nós respondemos que isso é difícil, para não sermos radicais e dizermos que é impossível, creio pelo que observo dos acontecimentos da minha vida e da vida dos outros que não se alegram com nada, entramos nessa roda que mais parece um círculo fechado de maldizer a vida que temos, criando o cenário propício a mais acontecimentos desagradáveis, alguém disse que o truque é ser antes de ter, ser para poder ter, ser alegre para ter alegria para dar e descobrir numa expressão de alguém, vou tentar não banalizar o discurso sob pena de me esquecer eu próprio do que estou aqui a fazer, sob pena de descer a vibração dos meus átomos, não mais poder atingir a iluminação para dizer a verdade, vou dizendo o que não é mentira, será relevante falar de comportamentos, de como chegam vitimados pelo cansaço e se sentam dispostos em conversas sobre o dia que passou ou sobre as trivialidades que nunca passam, mas se renovam eternamente para que tenham algo para dizer uns aos outros, os mundos paralelos que saem nas páginas dos jornais e nas revistas cor-de-rosa, e os outros que não podem sentar-se porque não estão descansados, temem pela irregularidade das suas vidas, no viver à margem encontram qualquer coisa que os faz fugir, não digo que também banalizem os diálogos que mantêm, será diferente a abordagem dos mundos paralelos, creio que por estarem à margem estão noutro sítio outro ponto de vista, isto importa porque assim sendo são diferentes daqueles que se sentam no modo como vivem a vida, é por isso que os observo assim, para descobrir quem são, claro que me interessa, é mesmo isso que me interessa, quem são e como se comportam nestes lugares onde todos nos encontramos forçosamente, também é possível através duma cisão de personalidade estar em tudo isto flutuando entre os espaços e sem ser visto, aí sinto-me confortável, quando o faço e como o faço e esta é a verdadeira razão de o fazer, não é nenhum motivo altruísta ou ideal humanista, para mim o que importa é descobrir como me hei-de sentir perenemente confortável.

Às coisas que me desconfortam apetece-me riscá-las eliminá-las esquecê-las, e poderia fazê-lo não fossem muitas vezes essas coisas essenciais para atingir o meu objectivo, incontornáveis portanto, mesmo quando não o são, mesmo quando aparentemente não advém nada, advém sempre alguma coisa, muitas vezes algo de crucial que só mais tarde é revelado, portanto não posso deixar nada ao acaso, na ignorância do que importa dou relevância a tudo e de tanto dar relevância corro o risco de fantasiar, corro o risco de dramatizar, situações que só são drama dentro da minha cabeça, lá naquele cantinho, numa sala que tenho reservada para as dramatizações, também dramatizo tudo ainda que por breves momentos e por isso perco-me a dramatizar o que não importa e passa-me ao lado o que deveria ter dramatizado, não é que me falte escala ou bitola para medir os acontecimentos, meço-os todos à luz do mesmo princípio, aquilo que me faz sentir bem. Devem pensar que sou egoísta, mas não sou, não sejam apressados a fazer juízos de valor, talvez mais tarde algo seja dito que atesta a veracidade disto, por agora acreditem, ou não, o tempo vai acabar na mesma, e eu, embora vá onde tenho de ir não me vou sequer levantar, nada vou fazer, não vou sair do mesmo sítio. Isto é seguro e claro para mim. Sei que nunca saí do sítio onde estou e sei que para chegar onde quero chegar não preciso de sair. Sei que também sempre estiveram onde estão, ansiosos por escutar o que tenho para dizer. Lembro-me de ver um ou outro de vós por aí num qualquer canto dum quarto que já não habito. É importante falar de vós para que se perceba e fique claro do que se trata, quem é o meu receptor, demorei algum tempo a perceber isto, até tomei outros como possíveis receptores, interlocutores de um diálogo que ninguém ouviu, portanto é fictícia a multidão que me escuta, as vozes que se levantam, tudo acontece lá, dentro da minha cabeça.

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