porém também isto não é inteiramente verdade pois o acto de nada fazer não é livre e é mentira que assim o faça.
Sim as perguntas continuam as mesmas e talvez tenha crescido a minha incapacidade de lhes responder.
Contudo não tenciono parar. Contraditório com o medo do porvir é a ânsia para que o porvir venha.
Ainda muito hiberna em mim, e é maior o cansaço da frustração do nada fazer, quase tão grande como o fazer qualquer coisa para voltar cansado por ter falhado, frustrado pela comparação da ideia que fiz do como deveria ter sido, com a realidade sempre fugidia dos actos deixados a meio.
Creio nos pontos de viragem, creio na tua capacidade de me mudar, de me despertar, creio no amanhã em que acordarei diferente, cheio de mim, cheio de capacidade de realização, concentrado naquele objectivo que acabarei por descobrir.
Não consigo deixar de pensar no plano, qual será o plano para mim, o que é que tenho de fazer, e porque é que não consigo fazer nada há tanto tempo.
A memória trai-me embora me garanta que já fui capaz, de perseguir um objectivo de lhe dar corpo, de ler as ideias no papel e de lhes dar vida, de ignorar as contradições e galgar obstáculos, respondendo com o mesmo sorriso ás contrariedades e à aprovação.
Talvez a balança esteja um pouco desequilibrada agora. Sei com a alma que vai chegar o dia em que vou viver em sonho o que agora não sinto. A diferença deixou de fazer sentido quando deixei de conseguir conduzir-me, o sentido perdeu-se agora que estou sentado aqui. Porém sei que ele existe e não o deixarei morrer enquanto houver alguém que consiga ler o que não escrevo, ouvir o que não digo, sentir o que não exprimo. São esses encontros que me dão alento para continuar neste caminho que não sei o que é nem onde me leva. Quero aprender ou lembrar-me como se agarram as rédeas, para que lado se gira o leme, qual é a expressão e o tom adequado para que me oiçam, foi uma confiança perdida, um acreditar desacreditado, um papel inesperado sem capacidade de improvisação. Tudo sai pelo sítio errado, a energia dissipa-se.
Não chores porque eu também não estou a chorar, tenho raiva. Tenho uma extrema irritação que se liberta involuntariamente, que me corre nas veias no lugar onde deveria estar o amor, a paixão, a honra pela minha palavra, pelo contrato que assinei, pelas opções que tomei, pela decisão, aquela viragem naquele ponto distante que, falha-me a clarividência de decifrar qual seria o caminho se fora outra em vez desta.
Sei que não posso ficar para sempre aqui sentado à espera que alguém me venha indicar no mapa que traria debaixo do bolso acabado de desdobrar e aponta-se olha é aqui, foi assim e teria sido assim ao invés, como eu gostaria da omnisciência dos mortos agora, do relampejo de sabedoria, ler o contrato de fio a pavio, não, de ouvir a quem mo lesse agora, Tu assinaste assim, quem escreveu fui eu, outros planos são ignotos, mas a escolha é sempre tua nossa minha, será, era isso que eu queria e sinceramente seria capaz de ficar aqui sentado apesar de já ter saído deste sítio,
( terá sido enquanto fui que alguém veio à minha procura, terão sido esses actos que agora vivo em sonho no lugar da realidade que não atinjo, será por eles, será a consequência dessa vivência que agora me aflige, será que é tudo ao contrário e o que penso que fui quando saí e me entreguei ao mundo e deitei tesouros ao mar )
ele esteve cá e disse-me tudo, eu é que estava a dormir
ele esteve cá para me explicar todas as letras eu é que não ouvi
e agora persigo-o espero sentado como se nunca tivesse saído.
talvez seja necessário recuar mais um pouco, talvez os actos, todos os actos ou precisamente aqueles que julgávamos de bondade, todos os actos ou somente aqueles que possibilitaram aquela sensação de poder de loucura, transpor barreiras, ser diferente, o preço mais alto da mentira é acreditar nela, torna-se verdade, a linha dissipa-se,
não posso ficar à espera do toque das trombetas, do anjo vestido de branco com o cálice de água benta que me fará recordar. Esqueci-me e creio que ultrapassada essa linha posso esquecer-me de tudo. Posso começar outra vez, posso acreditar que sou criança agora, que tudo o que vivi não passou de um sonho e a noite nem sequer precisa de ser longa, acordo e tenho o mundo inteiro à minha espera outra vez, levanto-me e não sei genuinamente a diferença entre o bem e o mal, só sei aquilo que sei, aquilo que sinto com a minha alma, não me reclamam aprendizagens que desconheço, não me exigem padrões de comportamento, porque ainda nada mais existe senão eu que acordo e ponho os pés no chão, e o mundo, abstracto ignoto e puro como uma folha em branco na qual Eu vou escrever a história da minha vida.
E agora assim choro de felicidade, de gratidão pelo acto da criação, pela capacidade de expressar e proclamar, criar e recriar quem sou e quem quero ser até ao fim dos tempos.
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