Dos castelos de cristal, do como se desmoronam até meio para que eu os reconstrua, só para me certificar se estavam realmente bem construídos. É tão fácil construir castelos de cristal, tão fácil e tão belo, que posso construir só para ter o prazer de os ver construídos, mas depois deixa de haver espaço dentro da minha cabeça, que é o cenário onde tudo isto decorre, então tenho de destruir alguns para poder recomeçar. Com isto ocorrem mudanças no tema do que eu sou, isto é, vou-me redefinindo à medida que o tempo passa.
Onde está o fio da meada que já o perdi, talvez o tenha deixado enrolado nas redes de pesca que eles estavam a enrolar, que bem enrolavam uns e outros mal, qualquer coisa servia para passar o fio, numa ponta muito fio para fazer uma rede dentro dum alguidar ou seria um balde, na outra um homem com muito fio nas mãos, a meio do fio outro homem que segurava e puxava o fio que passava das mãos do primeiro do que estava na ponta, na ponta que não estava dentro do alguidar, estou a explicar isto muito bem porque preciso, para ver o que aconteceu, e para ir explicando outras coisas ao mesmo tempo que explico isto, dizer toda a verdade é que importa, as omissões não mancham folhas, como os caracteres omissos de uma personalidade fugidia ao confronto com o mundo onde se expressam as nossas personalidades, porque se conheço o significado dessa palavra é através de outros que como eu são no complexo do mundo a que me refiro. É difícil saber de que mundo estou a falar uma vez que existem tantos, não devo estar a lidar bem com a pluralidade do meu ser, ou o que será, seja como for agora estou aqui mas não por muito tempo, porque o fio demorou demasiado tempo a passar pelos homens e pelo que quer que fosse que servia para desenrolar este novelo, foi o tempo que o veio desenrolar e agora o tempo acabou, ele já está desenrolado todo dentro do recipiente que o levará para o mar para que sobre as águas se desenrole outra vez, impulsionado pelas mãos vigorosas do mesmo homem que o enrolava, lançada a rede poisa na superfície da água e espera também ela que o tempo passe, haverá isco, ou será uma captura, espera que eles passem incautos debaixo dela e terminem mais um processo na cadeia alimentar ou evolutiva, além de todos os outros tenho-te a ti, mas sobre ti não vou dizer nada por agora. Vou continuar por aqui até que o tempo se acabe ou até que eu ultrapasse isto que sinto em relação ao tempo, oh tudo o que precisaria ultrapassar então para me ir embora, não, prefiro ir ficando até que me vá embora, sim nada é definitivo nada tem pés e cabeça quando visto da perspectiva que eu estou a ver aqui deste sítio, as coisas muito simplesmente não fazem sentido, porque haveria isto de fazer, será uma incapacidade de abstracção o que me impede de me esquecer que nesta realidade estou a fazer uma coisa, existe mais do que uma realidade, existem várias, mais um arrombo no meu conceito da pluralidade no carácter humano, ser humano é muito importante compreendem, não pode ser meramente deixado ao acaso até porque o acaso não existe e então seria deixado a coisa nenhuma, a não-existência também é um conceito estranho, talvez seja mais correcto dizer que existe naquela ilusão tal, naquele pensamento que colocámos na gaveta, para não ser pensado, porque sabemos que não o podemos destruir, não se destroem pensamentos, podem erradicar-se desmaterializar-se apagar-se e reescrever-se, mas não podem deixar de existir, a existência é aquilo que eles são, compreendem, é importante que compreendam, há muito tempo que ele nos diz a mesma coisa, a verdade é sempre a mesma desde o início, dita através dos séculos pelas bocas deles, dos que a tocam para a poder dizer.
Voltei. Não fiz nada do que pensava que ia fazer, ou terei feito, provavelmente não era minha intenção fazer aquilo que ia fazer, mas não fiz porque acabou o tempo, o tempo que cada momento possui para ser consumado, como quando me encontro com alguém e surgem no ar do espaço amplo da minha sala de estar respostas às perguntas que esse alguém vai fazer, surgem antes de eu pensar nelas, surgem naquele momento para que eu responda e eu não respondo, não digo não profiro as palavras que responderiam às perguntas, mas as respostas permanecem no ar devorando as perguntas que não foram feitas porque entretanto o meu interlocutor desistiu de perguntar fosse o que fosse, isto dá-se frequentemente. Agora tenho de me lembrar como se faz depois do momento fulcral quando percorremos em parte o caminho que nos leva a casa, quero saber voltar, tenho que saber voltar, senão estaria preso senão era uma masmorra e não é uma masmorra o sítio onde eu moro, da próxima vez que sair à rua devo poder lembrar-me de onde vim. Sim sou um estrangeiro nestas paragens. Ninguém me conhece, ninguém sabe quem sou, e os que pensam que sabem porque os há, ficarão espantados quando os confrontar com o que sou agora, com o que serei amanhã, porque amanhã serei outra coisa evidentemente, é para isso que existe amanhã e é para isso que tenho a capacidade de me esquecer do que fui hoje.
Ele já disse, o homem que se levantou já não me lembro como ele era, disse que não me posso esquecer de quem fui, do que fui enquanto agi no complexo do espaço, talvez um interlocutor que ficou calado quando não lhe respondi ao que ele não perguntou, terá ele percepcionado como eu a realidade das respostas que devoravam as perguntas antes que eu as dissesse, para quê dizê-las se o tempo as leva e o cala. No entanto nunca saí daqui apesar de o tempo ter acabado.
Fiquei aqui enquanto espero por ti. Não sei o que pensar desta espera, sei que mais nada importa agora. A minha alma está aqui, a minha mente apagou-se. Não importa pensar importa sentir ainda que indefinidamente. Sinto eflúvios que pairam no ar, de esperas anteriores que já terminaram. O tempo a seguir não me preocupa, sei que vai ser diferente.
Será realmente diferente, pergunta alguém que insiste em desconfiar, inevitavelmente, respondo.
A tua chegada colocar-me-á noutro sítio. Um sítio diferente do que sempre estive, até a minha aparência exterior mudará quando me vir reflectido verei outra pessoa verei novas hipóteses a perspectiva o ponto de vista a natureza daquilo que sou, mudando a todo o tempo mantenho a estrutura original, mas é da colocação que depende o caminho da vida, a busca, a procura de um novo ponto de partida, um novo interior, da aglomeração das partículas um novo ser, do nascimento de um novo ser a alteração do ser já existente.
Tudo isto são considerações sem ponta por porque se soltou a ponta no que eu sinto em relação ao sucedido, ao que está para suceder, é a mesma coisa, contudo é na experiência que está o que quer que esteja, é no viver destes minutos antes durante e depois, horas de espera depois de meses, curtos minutos depois do tempo que desconheço, como será quanto tempo demorarão esses minutos curtos de dor até que palmadas e choro e choro e alegria e explosões, é para vivê-lo que vivemos, é para te esperar que estou aqui, depois tudo será igual ou diferente conforme a nossa vontade como sempre, como será a tua vontade o que te poderei dizer para que a exprimas, para que te exprimas e tenhas vontade de mudar o que agora é igual para que amanhã seja diferente, poderei eu mudar-te como tu me mudarás a mim, já mudaste já vejo outro reflexo de mim nas vitrinas, sou outro homem, sou pai, e nem sei se sei assumi-lo.
Dizê-lo, fazê-lo, senti-lo, pensar é não saber.
Isto enerva-me, sinto-me desconfortável com a diferença.
Viro costas a tudo e vou a correr por um caminho verde longe da humanidade inteira, longe de quaisquer traços de civilização, onde fosse bicho e soubesse instintivamente o que fazer. Aí encontro-me novamente contigo, acalmo-me e sei sem pensar o que estou aqui a fazer. Espero sentado que venhas ter comigo.
E depois estado de graça. Abrem-se dentro do meu peito asas brancas de dentro para fora, a paz toma conta de mim, sinto os anjos a trabalharem, a fazerem aquilo que melhor sabem fazer, tomar conta de nós, eles e nós lado a lado, vieram contigo, estão aqui, são os teus amigos que cuidam de ti, tu sabes, vês e lembras-te de quem és, de onde vieste, que tudo é a mesma coisa.
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