É espantoso ouvir pela tua voz as palavras da descoberta. Sim quando os outros viam um rato de esgoto no fundo do poço eu já via essa imagem que agora mostras, sim batemos às portas da poesia, mas onde tu queres ir eu não quero. Fico por aqui. Fico pelo patamar da aproximação pelo bater à porta, não me apetece beber mais do que seis cervejas e não me vou esquecer das horas até ser dia outra vez depois duma noite que esqueci. Porque não há nada que tu me possas dar que eu queira, porque prefiro não ir a lado nenhum e chamar para junto de mim aqueles que me acompanham na estadia nesta esquina, aqueles que como eu pensam em levantar-se e fazer, mas ficam sentados a pensar o quê, para esses só o estar já é trabalho suficiente, mas coloco os meus cinco dedos sobre os teus e digo isto é verdade, tu és verdade e mais nada importa. Sim vejo aquilo que tu queres que eu veja. Tu nunca verás aquilo que eu vejo. Procuro pelos meus irmãos. Tu serás sempre um deles. Mas tenho outros como tu também terás outros e perder-me contigo é algo que não mais quero fazer, porque não faz parte do que eu sou, embora aquilo que sou seja algo que tu não podes saber. Porque puseste o pé em cima do banco e me falaste em respeito e em tempo perdido a descobrir o que seria uma luz bruxuleante e azul ao fundo do corredor, porque parei o trânsito e em redor de mim se dispuseram aqueles que te atrapalham, a cada esquina te atrapalham no decorrer do teu trabalho exemplar. Falaste dos teus cinquenta anos, que valem cem, pela tua postura e pelo que viveste na vida, não admites que ninguém se intrometa no teu caminho. Mas não voltes a pôr o pé em cima do banco não me voltes a falar de respeito, nem deles nem de ninguém, porque eu conheço-te para além daquilo que tu pensas, esse muro que me impões violentamente não é suficiente para me impedir de ver, não quero confrontos, mas se repetires já não beneficiarás do efeito surpresa. Hoje calei-me porque nenhuma das reacções que me veio à cabeça servia de resposta ao que me disseste, à elaboração complexa da tua acção, carregada das centenas de anos que te afirmas assim, carregada do teu ódio por eles, por tudo isto, da tua raiva à inacção e à inércia, eu compreendo-te e por isso não quero conflitos contigo. Mas a nossa história não acabou. Não porque vingança, não porque retaliação, apenas sucessão dos dias e dos encontros, eu sou mais um daqueles com quem tens de conviver, como tu és para mim esse objecto incontornável até ao ponto em que eu decida contornar-te. Nessa altura o único que terá a perder serás tu, a lamentar não mais. No masoquismo de pensar-te horas a fio está um aspecto de mim com o qual tenho de conviver como tu comigo. Para te ultrapassar vou ter de me matar mais uma vez, alguém em mim terá de morrer, preciso de um cadáver para continuar, para me conseguir enfrentar na consequência do que tu me disseste, na consequência do que não te disse nem te vou dizer porque não quero confrontos contigo, porque medo ou porque culpa talvez, não quero nem saber, a decisão está tomada é assim que resolvo os meus problemas elimino aquele que os sente e coloco outro no seu lugar, a partir dessa emoção nascerá alguém, que já te contornou, alguém que nunca mais poderás afectar. São dezenas os corpos no cemitério de mim. Mas podiam ser muitos mais. A minha posição foi alterada, invadiste o meu espaço quebraste os laços que me uniam a essa postura em que passeava sossegado, talvez um pilar de fundição embargada, nada caiu por terra, corpos leva-os o vento na cinza em que se transformam com o passar do tempo, aos bichos tudo entregue aos bichos ainda, porque o legado que deixaste em centenas de anos a seres como és não se desvanece nem se anula com a ausência da minha reacção, eu possuo-te. Disso não podes fugir. Talvez te consiga dizer qualquer coisa. Veremos o que me dirás a mim. Não importa. Não sei que outro assunto se imporá entre ti e mim, decerto surgirá outro sol e outro estado de espírito, pelo menos para mim garantidamente. Que tu sejas fiel a essa armadura que se transformou no teu corpo, a esse princípio em que se transformou a tua alma, é aquilo que mais respeito. Contudo fatigas-me. Cansas-me e enojas-me como aqueles que dizes fazerem todos parte do mesmo saco, como aqueles que falam de ti nas tuas costas e pela frente abanam que sim com a cabeça, talvez precises que eu te enfrente, ou que te lembre de alguém que te enfrentou, talvez precises de mim tal como eu de ti, pois que te agradeço o calo que nasceu na minha alma, o teres feito de mim vítima. Esse sentir é liberto nas avenidas com rapidez e com ritmo frutos do trabalho que recolho prontamente no emaranhado de que tu te ausentas, não será a tua presença aí nesse sítio de que nunca saíste, mas ao qual só chegaste depois de, que me fará descer do lugar que ocupo ainda que coincidentemente os dois estejamos frente a frente jogando ao jogo da cadeira para ver quem se senta primeiro. Tu pensas que agora que chegaste aí podes estar sentado como num trono acima de tudo. Eu distraio-te com um alvoroço no meio da multidão e enquanto tu foste e vieste de ver o que se passava eu vou e sento-me. Depois voltas e dizes, esse lugar é meu, e eu digo, arranja outro que eu não sirvo. Tu chutas-me e pões o pé em cima da cadeira. Ela estremece ante o teu domínio, eu fico em síncope a pensar como foste capaz. De te esquecer de onde viemos, de saber quem eu sou, de considerar que o que aprendeste não tem valor, de dizer que o que tem valor é o lugar que ocupas. O sentido das palavras que não foram ditas estará presente quando nos encontrarmos outra vez, e tu serás uma cópia daquilo que eu projecto de ti. Nunca mais conseguirás ser nada além do que eu sou em ti. Foi como se tu te tivesses virado contra mim dentro de mim, como se eu me tivesse virado contra mim próprio mas diferente porque eras tu. Podia explicar-te isto vidas a fio sentado ligeiramente atrás de ti sussurrando-te no ouvido vem por aqui. Contudo ultrapassámos isto e agora cheguei-me um pouco mais, defini melhor a minha posição quando tu definiste a tua, pelas tuas acções exprimi-me e através do tempo serei aquilo que não consigo ser no momento presente. Acordando para mais um dia especial, uso do conhecimento gerado ao longo dos anos, que me diz que para abrir espaço no estômago tenho que ir comendo, isso de guardar a fome para depois comer tudo não resulta, ir comendo para depois comer tudo e não deixar nada. Porque é disso que se trata, comer e beber para depois não ter de voltar atrás, não sei que mais tenho de fazer. São realmente poucas as coisas que me dão prazer. A satisfação é o propósito.
É o lastro que se instala quando decorre o prazer, o véu que se levanta quando tudo acabou, finalmente desabrocho de mim como uma corola em flor e vejo-me à distância suficiente para me apreciar. Então esqueço o prazer porque vejo que é efémero, e logo qualquer coisa como a minha alma ocupa o espaço entre o meu corpo e a minha consciência de mim, e quer logo lançar-se no desconhecido dos mais altos voos. Então o corpo grita pelo prazer todo que já teve, grita com medo de não ter sabido esperar, pelo momento oportuno, por não ter sabido viver em comiseração resignado ao estado de espera porque certeza dum mundo mais alto dum prazer mais elevado duma consciência mais sublime duma experiência mais espiritual. Contudo não é tarde. Após o prazer como após mais um dia de entrega ao ócio ou à alienação ou a outra coisa, um novo momento, um novo dia, um novo começo que só faz sentido porque dá seguimento ao precedente, e ela lá vai a alma de novo rumo ao que lhe interessa. É esta a maravilha de tudo isto e também o amor tem esta fabulosa capacidade de esquecer. Hoje não lembro as agressões de ontem, amanhã terei esquecido a dor e o prazer, só lembrarei a vontade depois das vontades satisfeitas. Será esta incapacidade penalizadora, haverá juízes que me penalizem, só não consigo finalizá-lo, porque outro penso que nada seria igual ao que não fiz e poderia ter feito, ao que não fui e poderia ter sido, constantemente o se presente em todas as questões, nenhuma opinião, nenhum ponto de vista, sim ou não, talvez. E como erradicar este sentimento. E as perguntas que surgem misturadas com as respostas de tal maneira que por vezes não as sei distinguir, já não sei se te respondo se te pergunto se fico na dúvida. Terá alguém alguma vez percebido onde quero chegar, porque é que me incomoda usar pontos de interrogação, vejo a presença dos meus corpos como massas que lutam pela posse de um terreno, vejo um sem saber qual é o espaço que lhe pertence, vejo sentimentos que sinto relacionados com esta presença, vejo como eles alteram o meu comportamento, vejo a distância entre isto e o que era suposto que eu fosse tendo em conta a ausência destes factores, mas quem teve em conta a ausência destes factores quando definiu o que pretendia que eu fosse…
O que seria agora se conseguisse encaixar as peças deste quebra-cabeças. Vivemos em vários planos. Temos vários corpos. São vários os níveis de consciência que podemos ter acerca de quem somos e porque nos relacionamos. O contínuo do tempo. A eternidade do momento presente. A falta de ligação das coisas. Se somos todos um porque é que não o sentimos mais activamente, porque é que não é uma realidade no quotidiano das nossas vidas a irmandade com o próximo com os bichos com a terra com os destinos da humanidade com os destinos do mundo. Por que vários níveis de consciência. Por que diferentes posições e diferentes espaços entre corpos e almas, porque incursões absolutas e absurdas em universos paralelos se misturam com o contraplacado na opacidade da multiplicidade de seres, porque a vida não é clara e límpida como um espelho bem limpo, porque as coisas ao invés de estarem ligadas estão misturadas, estão em caos em vez de estarem na ordem, estão confusas. E nós estamos confusos. A humanidade está confusa. O homem está confuso e eu estou confuso, porque não percebi, porque ninguém ainda me explicou, porque jamais esquecerei esta pergunta, porque jamais esquecerei quem sou, ainda que não tenha bem a certeza do que isso é.
O equilíbrio tem de ser mantido a todo o custo. A qualquer custo. Não importam os meios, a realização é que importa, no momento do agora,
Projectos a longo termo a curto prazo, planificações do espaço do devir, artes divinatórias, de que outra forma se diz isto, entrelaçados já eles estão, os dedos prontos o pensamento é tão rápido quanto o quê, qual é a velocidade do teu topo de gama, para quê se depois excesso se depois leis e controlo e domínio e coima. O que interessa é que já cá estamos outra vez, não custou nada, tudo o que passou pelo meio não tem importância, é relevado pelo poder do esquecimento, é liquefeito em sangue que nos corre nas veias da alma, que ficará gravado no registo para posterior observação. É esta a posterioridade, o tempo a que me refiro. Neste tempo desafio o mundo a fazer planificações sobre o que será. Pensem como se fossem deuses. Sejam por um momento o universo inteiro. Pensem-se como partículas partes peças de um mecanismo total.
Nada do que farão passará incólume, nenhuma acção esquecida nenhum gesto revogado, nenhuma memória apagada, nenhuma aprendizagem perdida. Pensem-se assim e depois planifiquem.
Mas porque quero eu que assim seja?
Porque quero que saibam que todos os actos são importantes, todos os gestos significativos todas as palavras ouvidas e lidas e compreendidas ou não, formando pensamentos dispersos pela atmosfera, agarram-nos aqueles que se libertam e que vêem e que compreendem a verdade. Qual é a importância da verdade, será que as pessoas usam de todas as ferramentas que têm à disposição, será que querem dizer a verdade quando se expressam, o que é mentir, como sabemos se uma pessoa está a mentir ou a falar verdade, quem diz que é verdade, quem diz que é mentira, quem vem dizer isso é mentira isto é verdade, quem vai julgar, quem vai saber, quem vai discernir, quem me vai dizer, olha isto assim é verdade, como vou saber ao ouvir dizer, isto assim é verdade. Vou saber. Sei reconhecer os pensamentos quando são verdadeiros, como as pessoas quando são verdadeiras, sei sabemos, então porque não sempre, porque não todos, porque não perene, porque não para sempre e em todos os momentos verdadeiros, para que livremente corrêssemos pelo espaço sem fim, sendo aquilo que realmente somos.
Não te adianta de nada saber o que sabes se fores só tu a saber. Não te adianta de nada veres o que viste se fores o único a ter visto se outros não virem se não vires ao mesmo tempo que alguém não te adianta de nada estares sozinho no espaço sem fim criando a ilusão de estares rodeado de gente que gira em teu redor só porque tu atrais só porque tu exerces força atracção domínio para que girem para que se passem as coisas e as gentes de roda de ti e a tua verdade sendo expressa pelas bocas deles e a tua vontade sendo realizada nos seus actos e a tua palavra difundida pela luz das suas almas, sabes ser esse o propósito mas de que te serve sabê-lo sozinho de que te serve se os outros estão cada um para seu lado emanando e interagindo sendo e diversificando aqueles que com eles rodam em redor de ideias e de pensamentos que escolheram como verdade?
Então e um pensamento único unificador. Então e todos lado a lado, então e as partes, as centelhas, as partículas, os átomos, as almas, o princípio imortal, então e a capacidade de esquecer tudo isto, bebendo da água benta da aurora de um novo dia, o dia do despertar, o dia da liberdade, o dia em que vamos ser quem somos, atingir a despreocupação, chegar ao lugar de onde vistas as coisas tudo é efémero e pequeno, nada tem importância, faz tudo parte de uma coisa maior, Um propósito desconhecido, mas um propósito, uma razão, um porquê, nada é por acaso, tudo foi pensado, tudo está escrito e tudo é escrito constantemente, a criação não foi uma coisa que aconteceu antes do tempo, não é um acto isolado de alguém que não existe, a criação somos nós, o amor somos nós, o acto de amor somos nós, o propósito é sermos quem somos. O segredo é a incapacidade de atingir, de discernir, de aceitar a verdade absoluta. Demasiado ocupado com a própria verdade o ser perde-se, demasiado ocupado em mostrar a sua verdade aos outros, em impor a sua verdade, em ouvir a sua verdade pela boca deles, demasiado ocupado, demasiado orgulhoso, demasiado egocêntrico, demasiado egoísta, demasiado impuro, para reconhecer a verdade absoluta. Tudo é a mesma coisa. O sucesso só o é quando for para todos. A riqueza só o é quando for para todos. A liberdade. A possibilidade. Não é nenhum ente desconhecido que nos nega, somos nós. Somos nós os responsáveis.
É nossa a responsabilidade dos nossos actos e as respectivas consequências são nossas.
Temos que querer sair desta encruzilhada.
Temos que querer ser maiores.
Temos que querer ser irmãos. Alimentar todos a mesma boca. Há pão para todos, desde que cada um coma só o que precisa para viver.
Porque senão eterno retorno, porque senão milénios às centenas a reviver o mesmo texto, a cortar o mesmo pescoço, a dominar as mesmas almas, sempre a mesma jaula, sempre os mesmos bichos, valas comuns de corpos enterrados na terra, semente do mal, onde está a purificação, onde está a ascensão, para onde caminham as almas?
Não me posso esquecer do plano, a promessa que hei-de cumprir, mas sozinho não vou a lado nenhum.
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