quinta-feira, 26 de maio de 2011

Relatório

E depois dizem, o Ica faz muitas linhas, o Ica faz muitas linhas, pois o Ica não pára, o Ica não conversa, eu vejo aí esse pessoal novo só a conversar pelos corredores, apanham uma caixa e conversam, para irem daqui para ali têm que levar a máquina atrás, andam de dois em dois centímetros com a máquina, tudo isso faz perder tempo, o Ica vai a pé buscar as caixas, utiliza o escadote, é o braço direito do Matos, o Matos como tantos outros chefes não tem estudos mas chegou a chefe pela antiguidade, agora já pode usar gravata e mandar o Ica fazer linhas, muitas linhas, qualquer bucha lhe enche o estômago, e todos os minutos são dados à casa. Ainda assim quem fica e quem não fica não se sabe, cada qual cava a sua sepultura, pelo comportamento e pela postura que adopta, não esqueçamos o factor “c”, o melhor é nem pensar nisso. Há outras coisas em que pensar, o rapaz é novo mas já é pai de família, onde está o vínculo que liga a mãe à filha, a dependência que as manterá inseparáveis, até na ausência a preocupação toma conta do espaço, do espírito que habita dois corpos. O tempo fará com que a criança tome posse e a retirada é inevitável. Tempo que se estende até ao que não importa, tempo que solucionará os problemas, tempo que seccionará o meu sentir em postas em camadas como eras gravadas em rochas. Trará o dia em que serei chamado a intervir, o momento em que saberei o que fazer, sentirei o apelo como chamam por mim as coisas sujas, as gavetas abertas e os pratos dispostos ao acaso, os ajuntamentos de sábado à noite, as peças sempre no mesmo sítio que atiram frases na claustrofobia do autocarro, as coisas que precisam de ser feitas, todos falam como deveria fazer-se ninguém faz, todos criticam como não deve ser feito, opinam e mantêm à flor da pele a desgraça da péssima representação desses actores desprevenidos que agem com displicência no teatro da vida, o desinteresse por tudo como consequência da incapacidade de adaptação, chamam por mim as pessoas que contrariam, as manhãs onde as peças sempre dispostas no mesmo sítio se queixam de terem acordado, se queixam de estarem onde estão, maldizem tudo de fio a pavio, junto-me àqueles que dizem, o que é bom é trabalhar, estava em casa a dormir e disse, estou a desperdiçar tempo, vou fazer pela vida, junto-me àqueles que contrariam, àqueles que agem de acordo com o que acreditam ainda que isto seja diferente do que a maioria faz e acredita, àqueles que podem mudar alguma coisa, porque é bom, disse ele, deixarmos um mundo melhor do que aquele que encontramos, filhos netos ou bisnetos, alguém há-de pagar a factura, se tolerarmos e compactuarmos com a servidão da inércia. Ergue-se o raciocínio de uma argumentação implacável que me diz, a mulherzinha do abatanado não muito quente não muito cheio mas em chávena escaldada, o sapato raso, a calça de ganga vincada das horas engomada, subida pelo tornozelo a não condizer com a camisola colorida que puxa constantemente abaixo da linha da cintura para esconder o duplo estômago, o pneu da servidão à inércia, à inacção, às horas de engomar e lavar e arrumar os pratos dispostos ao acaso pelo marido que saiu, foi ao café do António beber o digestivo e ver a bola que só dá naquele canal, entretanto pairam no ar infidelidades cometidas assim, o pecado da omissão, demasiado ocupado para dar atenção a quem precisa dela, o rapaz irmão de muitos irmãos, a atenção dividida como o pão em pedaços iguais, quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não tem arte, a quem cabe o maior quinhão, agora não são sardinhas a sardinha já não é o peixe dos pobres, o bacalhau já não é o peixe dos pobres, ninguém sabe o que é brioche, mas continuam a comer-se batatas.

Aprendeste nos teus cem anos de vida como olhar uma pessoa nos olhos, sabes pôr-te em frente de, estar aí em representação daquilo que tu és, essa matéria que não tencionas revelar porque só a ti te diz respeito, mas que transpiras nas opiniões que incutes no ar forçado através dos espaços deixados em branco pela ignorância daqueles que não viveram tanto tempo como tu, daqueles que vivendo mais não viveram metade, porque tu tens cinquenta anos, mas estás preparado, para que venha a morte levar-te pela mão, aprendeste o que é a abnegação, aprendeste o que é o sacrifício, sentes-te no direito de me segurar pelo ombro e dizer como é, olhando-me profundo com a careca luzidia, Um homem de trabalho e que já trabalha há muitos anos, mas ninguém te põe os pés em cima dos ombros, o que os outros fazem não te interessa, cumpres o teu propósito. Se chegarás a andar cadavérico pelas ruas colocando um pé defronte do outro vagarosamente, se tropeçarás num buraco de calçada, estatelado no chão porque há mais de dez anos que sandes todos os dias se não é queijo é fiambre se não é fiambre é queijo, o bongo e o comprimido para a tensão arterial, a fechadura verificada duas e três vezes, que tu não usas cadeado como ele que também os verifica duas e três vezes, não chegarás a experimentar o dissabor, o dissabor de ser posto no olho da rua, rotulado e marginalizado por seres quem és, porque apesar de não seres o que eles querem não és o que eles não querem, chegas a casa e duas mulheres que te adoram, que te adoram porque tu sabes que elas te adoram, só falas com quem te interessa, com meia dúzia de pessoas aqui dentro, mais os outros que entretanto foram partindo porque mais instáveis do que tu, e eu continuo no patamar da diversificação, e contigo como sombra que lugar ocuparei, nada disto tem graça nenhuma, até da vingança estou privado, porque é um sentimento negativo, tento compensar-me com mais medidas egoístas, na falta da paciência para manter recto o caminho que não escolhi, na falta da perseverança para ficar quieto no mesmo sítio, na falta da arte para vencer a repetição, para deixar de bater com a cabeça contra a parede até que embolia, até que mais nada senão existência comum e banal e ordinária, homem dedicado à família e ao emprego, que falha, que não exprime, que não é, nada do que deveria ter sido. Então fugir para o cimo de uma montanha e dez anos a ver o sol nascer e até ao ocaso dez anos de meditação para pensar na humanidade e gravar na memória dos dias vindouros a palavra da realização, e as represálias, as consequências as vidas póstumas o carma as leis da presença omnipotente ou simplesmente o medo de falhar, a cobardia de agir o comodismo de nunca ter saído daqui deixando que aos poucos esta decrepitude sem bichos me devore a alma.

Porque perscruto as linhas deste sonho que vivi até agora, toda a memória me leva até lá, tudo são caminhos, rectas que se transformam em círculos, que levam a pontos que não distingo, que me ofuscam a vista, ideias mesmo debaixo dos olhos que só se vêem depois da miríade de luzes que vão e vêm piscando, cintilando como astros distantes pontos piscantes no longínquo preto, no indefinível branco no indelével azul banhado pelas luzes da noite ou do dia de um sol que atravessa toda essa memória de que falo, a memória de um mundo que sempre existiu, o sitio onde eu vivi, onde vivo agora, o que é isto, o que vejo nestas linhas traçadas a partir deste quadrante, a minha perspectiva, a perspectiva de quem se atravessa no meu caminho, o ponto de vista de quem como eu interpreta o emaranhado de pontos piscantes no longínquo fundo preto, aproximações furtivas ou caminhares declarados, entes como orbes trocando campos magnéticos pela pluralidade do espaço, esferas giratórias cada uma por si no complexo da existência, onde começa o entrelaçar, em quantos planos sinto coisas diferentes por ti, a escolha, só um pode ser expresso, ou posso ser várias coisas ao mesmo tempo, vários aspectos vários pontos de vista, tenho de escolher, de ponto em ponto optando por este ou por aquele, traçando este mapa que não atinjo, não sei onde me leva, não sei quem encontrarei ao fundo daquela curva quando virar à direita, quem vai lá estar, que orbe rodopiante estará pensando para consigo mesmo, onde vou, quem sou eu agora no planalto do existir, só começo a perceber quando oiço as vossas vozes, o eco daqueles que me escutam, a compreensão daqueles que me interpretam é o que me faz perceber o que digo, até lá estica-se o sonho, a vontade de ser, o pensamento primordial de mim, longe de tudo aquilo que querem ou esperam que eu seja, não há pontes nem portas nem janelas nem caminhos: é a terra do nunca, a terra do impossível, o irrealizável, o improvável, o inacreditável, tudo o que não é porque eu não o realizo, esferas ardentes palpitantes e pulsantes dentro de mim, a todo o tempo, na ânsia de ser, mais a ânsia, a vossa ânsia de ver sendo compreendem, nada faz sentido até que compreendam, não vou ser contundente nem conclusivo acerca daquilo que poderia fazer, talvez haja muitas maneiras de o fazer, será mais fácil se começar por dizer o que não poderia fazer, o que não posso fazer, o que não farei, como saber isto e aquilo como discernir, sabendo aquilo que quero ser, escolhendo a cada momento aquilo que desejo exprimir, agora desejava exprimir outra coisa, falar de outra coisa, fluentemente discursar acerca de um assunto qualquer, para que alguém me ouvisse, para que alguém prestasse a devida atenção àquilo que tenho para dizer, como tu quando me olhavas nos olhos e absorvias, porque não absorves agora, e aqueles que sempre aqui estiveram e estão escutando, sendo ouvidos e boca do lado da recepção, eu que tenho tanta coisa para emitir que nem sei o que é, nem sei por onde começar, não sei qual há-de ser o cenário, não conheço as personagens, é-me impossível seleccioná-las deste leque imenso que adivinho, qual o enredo nesta teia de encontros, teia que perscruto que reconheço no emaranhado de pensamentos que eles tiveram, tudo gravado para que eu leia agora e decifre, nesse plano onde nada interessa, e me veja como um livro fechado escrito numa língua que ninguém sabe ninguém fala, nunca ninguém ouviu falar, embora quando ouves alguém dizer o mesmo que eu digo mas por outras palavras entra-te a chave na porta certa e abrem-se as correntes daquilo que eu sempre disse, já nem eu reconheço essa seiva quando percorre o meu próprio corpo, já a confundo com o líquido que se depositou no fundo do copo, a borra, o gemido sempre constante de quem não compreende, de quem compreendeu mas não consegue demonstrar, de quem se vê prisioneiro num mundo que não existe, sozinho do lado de lá do espelho onde se reflectem mil caras de expressões de sentimentos por ter tido, por não saber o que vir a ser por ansiar o momento seguinte onde então tudo sucederá, por esperar pela hora certa hermeticamente fechada no dia de amanhã, na noite depois do dia, no tempo depois dos afazeres cumpridos, no período sorteado pelo sono, pela incapacidade de estar acordado esperando, que as horas passem que chegue amanhã e então sim tudo mudou, porque mais umas horas e a sucessão dos astros nas posições que vão ocupando na tela do absoluto, o rei lá longe vai ardendo, nós giramos de impaciência, de intermitência, esperando que isto se suceda àquilo, e então sim serei quem sou, e então sim escutarei as vozes clamando comigo, sentirei esse sentimento darei então corpo a esse produto realização a essa tarefa, entretanto toda a escadaria foi percorrida todo o percurso está gravado na memória do tempo, todo o texto lido ao mesmo tempo que está a ser escrito, e o propósito em si a ser cumprido sem consciência. A consciência do propósito é o que eu procuro. E se alturas há em que ir à janela me trás toda uma perspectiva do mundo de mim e do infinito, outras em que fico simplesmente a olhar para os prédios e para os carros estacionados e para o barulho da auto-estrada, e não vejo absolutamente nada, não saio do mesmo sítio, não chego onde quero ir, esse sítio de mim onde me sinto bem. Então deito-me e escrevo na memória hipóteses de textos fluentes, gravação que posteriormente recupero pelo desconforto que o ócio me causa. Nas lides domésticas encontro a simples gratificação de fazer algo, o cumprir da tarefa é o meu propósito, mas isso não preenche a lacuna deixada pela falta de respostas, e a incapacidade de verbalizar um discurso, a impossibilidade de ouvir as palavras que eu quero ditas pela tua boca, porque de nada adianta o sabê-las, o lê-las, o escrevê-las nada mais importa do que ouvi-las da tua boca, isso não consigo porque síncope porque raiva, porque tumulto de sentimentos em violência contida porque medo das consequências, porque medo da morte medo do inferno medo do desconsolo de estar só, de não mais ter a oportunidade de, nem que seja estar existindo esperando pelo dia em que, essas esperanças mais ou menos vãs se concretizem, tudo isso atirado pela janela nocturna do último andar do prédio. E nem por maior que seja a distracção consigo estar solto, abandonar-me ao cansaço ou à convalescença da frustração, e assim continuamente batendo com o cutelo no osso, em pancadas mais violentas sucessivamente, até que desfeita a carne e desaproveitada a refeição. O lixo. O desperdício. Liberto de reciclagem, completamente esquecido do dever cívico, monte fedorento do resto de tudo onde vagueiam cães danados e homens perdidos.

Não, isto não sou eu. Não sou aquilo que digo ser.

Mas o que eu sou não importa quando as reacções estão bem para lá do meu controlo, sou frequentemente mais bicho que homem mais besta que outra coisa, animal na verdadeira acepção da palavra, de genes e instintos constituído, de respostas pré-definidas em explosões incontidas no momento menos oportuno, de carácter dúbio e duvidoso na grande maioria das situações, e de avaliação complicada até mesmo pelos meus parâmetros que necessariamente são simples. Se tu me vens dizer que sim senhor eu acredito e fico convicto, cresço dentro de mim e fico cheio desse ar no peito, e quero logo de seguida exalá-lo euforicamente pela vida, quero uma fileira deles de braços abertos, quero todos de roda de mim escutando, quero o olhar inocente curioso e profundo duma criança que escuta, para que eu me aproxime de tudo isto e exale e então de peitos cheios fostes todos a vossas vidas e eu mudei com a vossa força o destino do mundo.

E com o teu olhar carinhoso as minhas mãos com as tuas palavras de consolo dedilhando a corda do impossível, o meu eu ocupando milhares de metros quadrados, porque é que é mau ser muito.

Depois recolho-me ao mais ínfimo espaço que me é possível, reduzo-me à insignificância de habitar um canto do meu ser, ou de fugir apressado pelos corredores, de entrar esbaforido numa sala, para disperso ausentar-me no tecto, num candeeiro do qual luzem pendentes vermelhos e pensar no que poderia ser através do tempo.

Assusta-me o sair para a rua, assustam-me as caras que adivinho respondendo às perguntas que não vou colocar, não agora que tenho medo, agora que síncope porque as palavras se enrolaram umas nas outras num símbolo indecifrável, perdidas estão as emoções do entretanto, acumulam-se as reacções retidas na garganta até que espasmo, até que a treva me cubra por completo e me diga perdido e louco e vagueie pelos becos sem fim, até que me entregue a outro universo, vire a esquina para o paralelo na planta do instinto e chegue sem saber como ao centro desse outro mundo, onde as ruas e as gentes são diferentes, onde o medo escorre das paredes, jardim nocturno de onde emanam as sensações que podia ter tido, realidade onde a minha ânsia é um ser de carne e osso percorrendo a mata.

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