Os degraus da escadaria em caracol. Será que os subo, será que os desço, pé ante pé, cuidado com o perigo, que espreita por detrás de portas semiabertas, que escuta, ávido de uma recaída, para que branco e nada mais, para que desapareçam as linhas que perscruto neste horizonte longínquo. O espaço intermédio. O silêncio. A palavra.
Penso recomeçar a dizer qualquer coisa. Cresce o sentimento dentro de mim, a paixão o fervor o frémito, o som que emito lança-se no absoluto como uma flecha no nevoeiro, denso e compacto como um manto, espesso envolve logo o espaço, marcado pelo alvo que visualizei quando pensei em começar a dizer qualquer coisa. Tenho que continuar a pensar enquanto disparo uma e outra flecha até que se rompe e expande, liberta e possibilita que me exprima, que se crie o ritmo propício à minha cadência, vibração, vibrações que emanam de mim pelo espaço sem fim até que eco. Até que parede até que ponto definível nas coordenadas do espaço e do tempo. Espaço intermédio. Ligação directa. Através de vós, minha consciência. Não posso conhecer-me sem que cada um de vós exprima aquilo que de mais sublime pensa acerca de si próprio, não posso ser enquanto todos vós não forem o que realmente são. Preciso que o sejam. E não vou ficar quieto, impávido e sereno à espera que isso aconteça. À espera que alguma voz de homem possante e viril se levante para exclamar: Acordem! O momento é o agora.
Ou isso ou abandono da alma aos corpos e às mentes, ao cansaço da vã luta pela posse, pela conquista, pela tomada de mais um reino, de mais um punhado de terra, onde espaço e homens e construção e conquista, Desbrava pelas matas afora, Desbasta essa sebe, ciprestes cónicos e verdes diante do muro, para que ninguém me veja, para que ninguém saiba o que ando a fazer,
O momento presente uma incógnita, uma página em branco nos anais da memória,
Porque bicho, prisioneiro do corpo e da mente, alma adormecida pelo cansaço de observar a luta, a luta incessante da mente sobre o corpo e do corpo sobre a mente, até que morte, até que sete palmos abaixo de terra e sete pás de cal em cima libertem o princípio vivente, que finalmente acorda, para recomeçar tudo outra vez, para beber das águas prometidas e esquecer e tudo outra vez, tudo outra vez pelos degraus da escadaria, será que é em caracol será que não é em caracol, como sabes, onde estavas, quando subi os degraus pé ante pé e te chamei, anda, e tu distraído não ouviste, de patamar em patamar chegámos ao topo e vimos que era em caracol e vimos que outros distraídos não escutavam quando os chamávamos, venham, é em caracol subam, e eles não ouviam, Subam, e eles de patamar em patamar foram subindo, até que colapso, espasmos das tecituras, a memória eterna de tudo o que ocorreu no universo, como um ente que personificasses.
Tu.
Deixaste de ver.
Agora não vês mais nada só branco.
Ouves as vozes daqueles que não clamaram por ti, escutas o eco daqueles que não te prestaram atenção, sabes as opiniões de toda a gente, calas-te porque nada te interessa.
Achas que nada tem que ser dito.
Achas que tudo já foi dito.
Achas que não há mais nada a dizer,
Mas quem és tu, quem és tu afinal, o que é que tu tens a mais do que eu ou do que ela,
Tens medo, tens receio,
Espaço intermédio.
Diz quem és afinal. Revela-te para mim. Revela o espaço intermédio, diz-me que eu sou este evangelho que prego,
Diz-me que, deixa-me dizer-te que, deixa-me dizer-te quem sou, porque quero saber quem tu és, mas para saber quem tu és tenho de saber quem sou, se souber quem sou saberei quem tu és, já que eu e tu somos um. Já que o que nos separa é a minha ilusão de estar separado, a minha ilusão de estar só, vivendo só para mim,
Os outros. Aquilo que os outros são no complexo do espaço. Quero ser, quero mudar a face do mundo. Mudando a face do meu mundo mudarei a face do teu mundo juntos mudaremos a face do mundo quando compreendermos que somos um, quando compreendermos que não estamos sozinhos, quando compreendermos que não sentimos sozinhos, que alguém do outro lado do mundo está a sentir e a ver e a pensar o mesmo que nós, está a demonstrá-lo está a criar a realidade que estamos a sentir em conjunto connosco, há realidades que só assim podem ser experienciadas,
Eu comigo
Vós convosco
Ele connosco
Um pouco de branco em tudo isto que não me consigo livrar de mim. Eu sou estes filtros e estas máscaras, a representação do que ouvi dizer, o texto que leio mas não interpreto, a verdade que sinto mas não sei, não sei como, os degraus da escadaria em caracol, voltas e mais voltas neste carrossel para chegar aonde, onde quero chegar, pergunto o que estou a tentar fazer, pergunto, não quero repetir, não quero viver outra vez não quero tudo de todas as maneiras quero só uma coisa, sempre da mesma maneira, quero imutabilidade, quero permanecer sempre o mesmo quero experienciar a minha verdade plenamente, quero sentir a tua verdade quero ecos preciso de ecos preciso de saber que me ouvem preciso saber que sou ouvido que não estou só que isto não acaba quero certeza atrás de certeza quero sentir sempre não só às vezes quero ver tudo quero saber tudo quero o mal e o bem e quero não ver diferença entre eles, porque não existe diferença a não ser neste universo de relatividades onde nada é o que diz ser nada é o que pensa ser onde as ferramentas da criação não são usadas não são usadas as ferramentas pensar dizer fazer o mesmo sempre dia após dia tragédia ou comédia a vida está em todos os géneros a vida é tudo não só uma parte eu sou apenas uma parte da vida tu és outra parte da vida ele é a vida toda porque ele é tu e eu e a humanidade inteira no dia em que todos soubermos lembrarmos consciencializarmos que somos um, que podemos ter qualquer coisa que queiramos, tudo aqui já, como se unem os homens o que é preciso qual é o sabor quantas páginas ou quantos milénios de folhas sobre folhas no fuso do tempo para que momento crucial, se tudo é ao mesmo tempo porque isto agora e não outra coisa onde mora a consciência do que preciso, o que é isto que estamos aqui a fazer, porque não nos dão sinais claros de que tudo é diferente, porque é que viver tem que ser uma experiência agradável e porque é que não o é plenamente.
Ou isso ou estou muito atrasado na hierarquia das coisas, ainda não sei quem sou e ainda não o disse, porque ainda não o consegui lembrar verdadeiramente nem sê-lo tão pouco, porque tanta volta no carrossel e porque a minha raiva de tudo isto, porque este clamor no peito que me faz gigante capaz de chocalhar o mundo, para quando a boca no trombone o toque das sete cornetas o dilúvio o degelo o salto quântico a mudança radical extraterrestres deambulando pelas ruas, nós vivendo em uníssono uns com os outros o fim do modelo antigo um novo modelo novas sementes novas raízes tudo de novo novos pensamentos novos sentimentos tudo deitado fora tudo esquecido onde está e qual é a água benta a fonte de onde beber para tudo esquecer e começar outra vez virgem morte lembrança remembrança conhecimento experiência, tudo de uma vez sem ter de esperar sem estar impaciente nervoso ansioso sem temer sem recear sem medos nem restrições nem prisões nem dificuldades sem necessidades sem ter de sem deve e haver sem contas sem saldos sem posses sem objectivos sem concorrências sem rezas nem palavras vãs, são estas as ferramentas porque não as conheço, porque não sei o que é pensar porque não penso o que quero porque não sei falar porque síncope porque discurso brotando fluido da minha boca sempre como um canto de um poeta permanentemente reescrito porque as acções heróicas do mundo pelas minhas mãos outra coisa para além de morte tortura e sofrimento outra coisa para além de satisfação tolerância ou preenchimento, plenitude por favor.
Venho lembrar-vos do que não pode ser esquecido.
Venho falar do que tem de ser dito. Tem que ser dito. Porque eu quero dizê-lo.
Para que vocês saibam e se cumpra a palavra que eu disse.
Para que eu me expresse, para que o meu pensamento vibre através de vós, nas acções que praticareis em meu nome.
Sim fui eu que disse. Venho lembrar-vos. Sou o mensageiro da minha alma.
Eu expressar-me-ei porque foi isso que vim cá fazer, é para isso que estou aqui, é esse o propósito a verdade e a vida, é esse o caminho é isso que interessa.
Assim o meu pensamento vibrará através de vós, porque cada um pensará para consigo aquilo que é, que será o mesmo que eu expresso porque tudo é a mesma coisa.
Só posso ser se experimentar aquilo que sou, se pensar disser e fizer a mesma coisa.
Se fizer isto juntar-me-ei a outros que também o fazem.
Perscruto pela estrutura de mim uma ponta que eu pegue e puxe como um fio á meada que se reatou, para assim começar a puxar e a desenrolar o macro de dentro do micro, tornar-me grande para preencher os espaços, para depois me tornar pequeno e contemplar na imensidão do espaço o quão sou pequeno.
Integridade. Honestidade. Verdade. Coerência.
Sentir tudo isto, através do que em nós sente, a alma, esse princípio que nos anima, o espírito, o corpo eterno, o pensamento.
Sentir tudo isto e verificar o tanto que há por dizer o tanto que há por fazer, até que eu seja materializado na realidade palpável por vós.
Porque precisas de alguém que te aponte o dedo, porque precisas de alguém que te julgue que te condene, porque precisas que alguém te diga o que é certo o que é errado, qual é a bitola a escala quem te vem medir os alqueires e dizer faz assim faz assado não faças tens que fazer é imperioso que se faça serás castigado punido maltratado, o fracasso a dúvida a falha a sincope, porque precisas de todos estes papeis deste cenário deste teatro, assim não estás a cumprir o propósito, assim não vamos a lado nenhum.
Podemos ficar eternamente aqui não há nada que nos force a ir a continuar a evolução é eterna. Depois de sermos isto vamos querer ser outra coisa. Mas primeiro temos que ser qualquer coisa verdadeiramente. Temos que fazer aquilo que queremos fazer.
Somos bichos. Temos três corpos três cérebros somos tripartidos. Somos bichos, tripartidos. O que queremos agora, queremos matar a sede matar a fome matar, sobreviver, porque cedemos á lei da selva, porquê a sobrevivência do mais apto, porquê, a selva, porquê, os bichos tudo entregue aos bichos, sem integridade sem honestidade sem verdade.
Incoerência. Inconstância.
Sangue.
Milhões de litros de sangue correndo como rios que desaguam em mares que se infiltram no solo e nutrem a terra de ódio, de raiva, de fúria.
E depois dizem… o mundo está perdido.
Perdido está o homem, perdido e cego.
A sociedade a humanidade a raça humana está perdida.
O universo apenas responde.
Eu vim para vos lembrar.
Que em cada acção devemos ser íntegros.
Coerentes com os nossos pensamentos, ontem e amanhã são só diferentes estados de alma, hoje é que importa, agora é que importa, o momento do agora.
Honestos naquilo que dizemos, falando a verdade daquilo que pensamos exprimindo aquilo que somos. Porque a palavra é uma ferramenta para expressar a verdade do que somos, embora sejamos livres de fazer com ela tudo menos isto. Mas se queremos mudar o mundo é melhor que o façamos. É melhor que digamos aos nossos filhos aquilo que queremos que eles saibam. Não aquilo que os nossos antepassados quiseram para os filhos deles. Porque o mundo que nos deixaram não é bom, e queremos que a nossa progénie viva num melhor. Então vamos agir activamente para que isso aconteça.
Ou vamos ficar de braços cruzados mais uma vez enquanto tudo cai tudo se desmorona para se tornar caos destruição confusão ignorância para que tudo caia no plano inferior outra vez, para que hordas de espíritos maléficos povoem corpos grosseiros mais uma vez, para que untados e gordos se deitem os corpos no chão, ou para que brutos e selvagens e destemidos e corajosos guerreiros a eles se atirem reclamando liberdade, com facas e espadas e flechas e escudos e morte outra vez morte sangue na terra que se revolta pó ao pó corpo após corpo até que alma, até que outra coisa, até que escolhas diferente e agora não mais morte, não mais fome não mais luta, mudaram-se os alicerces da sociedade, há o suficiente para todos, ninguém tem que se preocupar em sobreviver, todos têm tudo o que é preciso, não há guerras não há armas há discursos, há pensamentos diversos e dispersos pelo universo sem fim há uma unidade inimaginável a ser diferentes coisas ao mesmo tempo há uma consciência maravilhosa de tudo isto, há a paz de poder ser tudo.
Eu vim para vos lembrar que somos livres.
Que podemos escolher a qualquer momento ser quem somos.
Que o que importa é o que somos face às circunstâncias, que a nossa alma ofereceu á experiência do corpo.
A mente é o que permite que este milagre aconteça.
A mente é o que permite que me esqueça.
Que beba da água benta do esquecimento para então envergar mais um corpo e experimentar mais aquilo que sou.
Todas as condições escolhidas e perfeitas para que o expresse.
Porque foi enquanto alma iluminada que as escolhi.
Porque enquanto alma iluminada eu sei eu vejo eu sou.
Depois nem tudo é compreensível. Há muitos porquês e senãos da existência, mas no fundo tudo é coerente, porque é verdadeiro, e essa é a essência da alma, ser verdadeira.
É por isso é que é importante sermos verdadeiros, porque é essa a natureza daquilo que somos. Só que é uma natureza diferente daquela que nos faz ser bichos, e ter fome e sede e vontade de matar as necessidades sem custo nem espaço intermédio.
Ser humano. É pensar é criar é expressar.
A humanidade precisa lembrar-se disto.
A responsabilidade é profunda.
E as mentes confusas difusas dispersas por horizontes longínquos, por uma realidade consequência de reacções em cadeia, máscaras e filtros até que verdade, emoções e turbilhões confusões e pensamentos opacos, até que sentimento, até que verdadeiramente a alma a sentir e eu com consciência disso, e eu mais que o corpo que habito, mais que a mente que me pensa, eu a alma que sente, que quer sentir mais e explorar o universo sem fim.
Incapacidade. Deficiência. Ausência.
Luta pelo mundo com as ferramentas que tens, que te foram dadas por ti, presenteadas pela tua alma, como os outros as encaram não é importante, o importante é o que tu pensas acerca de ti, das ferramentas que possuis, do onde queres chegar.
Porque é que eu me interesso onde tu chegas, porque eu não posso chegar onde quero chegar sem que tu chegues onde tens que chegar. Inevitável é que cheguemos tu e eu, todos onde queremos chegar. E onde queremos chegar, á plenitude de sermos humanos. Á excelência do uso das ferramentas, á expressão mais pura do pensamento mais sublime que já tivemos acerca de quem somos. Porque se for pura será sublime porque é verdadeira, ainda que a verdade seja nua e crua será pura e sublime compreendes.
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