A morte, a morte é como os outros tantos fins a que estás acostumado, nada é eterno, pois a eternidade está para além desta vida, faz parte do quadro inatingível que não sei pintar, a tinta dilui-se quando lhe toco compreendes, depois do fim vem sempre um recomeço, o dia acaba, a noite acaba, o que comes acaba o que bebes acaba e depois, outro dia outra refeição outra bebida, o ciclo renova-se e tudo é igual porque tudo é regido pela mesma lei. O que tenho é isto mesmo porque o resto não tenho e no resto só isto me resta.
E deixa correr livre leve solta fresca, deixa toda a loucura desse cérebro trabalhar, concentra-te ignora os estímulos exteriores e assimila tudo o que é o teu enleio absorve sê o canto que fumas no vício que bebes, nesses tragos lentos de quem vive, esquece a hora que há-de vir, esquece que há tempo, por um momento, compreendes, consegues fazer aquela ponte que chame a ti o impossível e que o faça entrar vestido de carne por aquela porta, ou vestido de nada se plasme espectral de encontro ao mosaico mais limpo que sujo porque o Manuel morreu e agora há cinzeiros e todo o burburinho entra pela tua cabeça e tens vontade de ser tudo e todos e falar por todas as bocas e ser todos os pensamentos e mais as pessoas que vão na rua e já estás noutro dia e as árvores estão no mesmo sitio, impávidas ou não, serenas ou não quem sabe, mas também elas estão, nós vemo-las os pardais também e elas lá por não terem olhos não quer dizer que não nos vejam a nós e aos pardais.
Cinco já passaram, outros cinco irão passar mortos por mim que passo por eles. O tempo, essa coisa imensa composta de pequeníssimas partes que eternamente se renovam, o tempo na realidade um único e ínfimo átomo multiplicado até mais não, nesta equação de tudo vezes tudo igual a nada. Já está. Estaria se soubéssemos do que tudo isto se trata. O desespero apoderou-se de mim, a desistência tomou o lugar de tudo e depois achei. Desacreditei. Achei que não era capaz de nada, que não passava de uma ausência gaguejante de mim mesmo. Achei que todos eram melhores do que eu e que assim não iria conseguir nada. Entreguei-me inocentemente e depois veio, não sei se por ser o pior de todos me atribuíram o prémio, comiseração divina, vamos lá dar a este coitado que é o que mais precisa, ou se houve abandonos desistências desclassificações ou assim, também podem todos ter sido premiados, não sei se é verdade, não estava lá não vi e o juiz foi fazer a pausa.
Mas já tirei as minhas conclusões, mudá-las-ei se for caso disso, este sentimento do mais paupérrimo dos seres, a quem tudo é dado por esmola, tem na sua ponta oposta, é o arco que descreve para fazer o semi-circulo, a necessidade de oferecer tudo aquilo que possua para compensar a mão invisível que deu. Na realidade manter-me ausente de mim serviria todos os intuitos, mas o meu ser não se dá bem na mediocridade. Não gosto de futebol, nem do mundo que gira em torno de muita coisa e também da bola. Não gosto de desportos com bola, estou tramado não tenho entretém, se gostasse de futebol estava entretido, assim mantenho-me neste desassossego, nesta falta permanente de qualquer coisa, um afogueamento, talvez por isso esteja só, porque todos estão onde não quero estar, porque só eu quero estar onde eles não estão, nada de conclusões fantásticas, factos também não os há, já que nada se passa, necessidades fisiológicas, viagens de retorno e assim calo e anulo e mato o ímpeto revolucionário que quer difundir-se na aura espectral de mim, mato tudo e torno-me nada, porque não há cenário para mim. Sou um actor sem peça e represento um papel sem falas para um público que não existe. Esse mundo é para mim ignoto. Tenho assim como que uma escotilha semi-aberta a uma esquina de mim, pela qual me chegam ecos de lá e gostava de o ser havendo palco.
O que eu digo faço diz ele, disse ele, quero ver o que fará, estarei até estar presente neste meu nosso caminho que se cruza e já realizo que não se trata de um encontro fortuito mas de um acaso combinado, de uma reunião de experiências que só por si formam um ser, como que à parte de nós. Um ser dentro do ser e tudo um ser seres que se cruzam e entrecruzam e entrelaçam para produzir novos seres que se tornam eu na unidade de nós. Não nos separem. Não tentem separar-nos não é possível, que o homem não separe.
Falar deles talvez seja desperdício de espaço, mas a postura de um e de outro diz-me qualquer coisa. O marialva, é a personificação de uma série de coisas que outros só têm na cabeça, ele transpira exala, são posições que parecem ter sido retiradas de uma normativa qualquer como aquelas em que os donos põem os bichos nos concursos caninos, só mediante aquelas posições são reconhecidos pela raça a que é suposto pertencerem, uma pata mais ao lado um rabo mais descaído já não serve, um relaxe equivale à desclassificação, no caso do marialva é a mesma coisa, ele encarna a tauromaquia sem traje, é uma arena sem toiros, sempre de casaco verde com retalhos castanhos nos cotovelos, sapato polido, a calça ligeiramente curta de modo a quando cruza a perna se veja a meia estendida até meio da canela, a placidez dos gestos os bois ruminando nos campos, as feições um reclamo a uma espingardaria, os óculos escuros à mínima luminosidade, postura de boi manso perante a vida, alguma herança de família deve sustentá-lo, não bebe café não fuma a tarde toda em frente a um copo de água, este e aquele cumprimentam-no sentam-se com ele sempre mostrando reverência, a reverência que se mostra um boi manso porque apesar de ser manso não deixa de ser boi, o Menezes parece um ovo, postura de ovo, quando se senta a cintura alarga forçando o tronco a pender para trás, tem sempre qualquer coisa no bolso, testículos descaídos e mortos apêndice não pénis apêndice que não faz relevo nas calças, senta-se e a forma como se senta, displicente dengosa pastosa, agora tem patilhas até meio da cara e bigode que lhe acentuam o ar de ovo, postura plácida perante a vida por outros motivos, este não teve heranças, teve a mulher que o deixou, tem a irmã que era professora, era porque já não é, teve um acidente vascular cerebral, morreram-lhe as pálpebras, nem com palitos, autocolantes mesmo, lembras-te, quando te atirava molas da varanda, tu eras a minha musa e ele chegava gadelhudo e namoravam defronte da casa dos teus pais, eu atirava molas como os cães ladram para ver se ele se assustava e se ia embora e te deixava de novo só para mim para eu te contemplar mas não, a boca dele na tua boca as gadelhas dele nos teus cabelos doirados, quem se assustou fui eu que um dia respondeu-me com pedras, alguma num vidro e depois, nunca mais mandei molas, hoje não me reconheces, será que algum dia me conheceste, manténs as feições que amei, a passagem do tempo encardiu-tas de ilusões desfeitas como a mim me lavou a vista, um cheiro intenso a iogurte mais forte que medicamentos, beba devagar ainda tem tempo e que tempo, não cheguei e não disse quem é o ultimo quem é que está para consulta, não teria sido o primeiro mas também não teria sido o último, traga paciência disse ela, e de que me adiantou o aviso se paciência não há, só uma resignação igual a tantas outras, tenho que estar aqui porque não posso estar noutro sitio, surpresas na palma de alguém que acende a luz das escadas e sem querer me ilumina.
Mas há sobreposições, há enlaces que prevalecem sobre outros enlaces e meramente pela posição que ocupam na hierarquia de nós tomam o lugar da frente, é necessário que assim seja, aguentem as partes envolvidas com as consequências inevitáveis de ser-se para alguém, está calor, abro a porta, não gosto do caminho que levo paro até o chão me desaparecer debaixo dos pés e me encontrar no vazio onde só a minha essência subsiste ao eliminar de tudo o que me desagrada. Não que me agrade a essência que subsiste, mas sou eu e quanto a isso que posso fazer, tudo converge para a anulação do que é desfavorável, é por isso que paro quando o caminho me desagrada, para que tudo rua e o mundo se esqueça de mim e então possa retomar a vida como um renascido a cada morte com mais memórias ancestrais e menos histórias de vida para contar. Ficam vida e mortes vidas e morte para que em alturas de reflexão tudo se misture deixando fluir o corpo espectral que mais diz de mim para lá dos tabiques, recordações do lado de lá, onde os corpos são penitências da imperfeição da alma, caras como reflexos ou expressões representativas do modo como um encara a vida, oiço suspiros milenares e sem saber porquê sorrio.
Passam-se coisas cá dentro muitas coisas durante todo o tempo cuja consciência me chega através dos ecos das vozes dos doze que estão do outro lado, ele olha e vê, eu olho e vejo-o do lado de lá da encruzilhada a olhar para eles ele sabe-o eu vejo-os eles vêem-nos e esperam. Esperam que nós, esperam que tu, esperam que eu, esperam que a multidão passe para ele poder passar juntar-se aos outros e seguirmos viagem, quem é a multidão onde está engano-me enganas-te enganamo-nos, para lá do engano está a verdade iluminada que posso ver vislumbrar contemplar vislumbrar, que posso vislumbrar relatar não livre do que não estou livre mas posso relatar tenho o dom de o ver e a possibilidade de o relatar, alguém que tenha a bondade ou a possibilidade de me auxiliar, podem crer que vou continuar a agradecer a quem tenha, não tenciono relatá-lo, não tenciono, tenciono chegar à verdade, a multidão achega-se com chagas enferma suplicando, tenciono penetrar em cada extensão de todos aqueles que fazem parte de mim, quantos são quantos são venham todos que ele é o primeiro a fugir tenciono, saber-vos dentro de mim tanto quanto eu estou dentro de vós, quantos são quantos são inúmeros uma multidão de seres ignotos que me pertencem, compreendem, todos somos irmãos filhos do mesmo pai compreendes, são portas que se abrem de dentro de nós ficando abertas sem romper o vácuo causado pela incapacidade das coisas entrarem para dentro de nós e dos outros de se despirem e virem, todos despidos todos frente a frente uma coisa defronte da outra coordenadas sem nomes como pontos no espaço, frente a frente com a dualidade com o carácter plural das coisas, até onde vai a nossa responsabilidade em modelarmos o ser aos outros dentro dos domínios da consciência do que podemos ser para eles, será lícito injectarmo-nos em locais precisos de outrem para passar o tempo, não é disto que se trata, explosões incontroladas de ácido, outras substâncias que não ar, corrosivas e nocivas despejadas porque isto ou aquilo, será lícito.
És hoje puro como no primeiro acto que cometeste, manténs a pureza inicial a inocência original, nada te foi roubado, perdeste foi o direito a usufruir dos teus bens, possuidor de uma fortuna incalculável como que sem o teu próprio ser, como que se te visses por detrás de um vidro sem te poderes tocar, falas e não te podes ouvir, queres abanar-te e afagar-te queres sentar-te e conversar contigo e não podes, estás do outro lado do vidro, a poeira envidraçada só se revela quando lhe percebes a insignificância, todos os caminhos onde levam, no mesmo sítio cairá algum dia o vidro decomposto na sua areia nos compostos que ignoras tudo dentro de ti e sem ires a lado nenhum, liberdade de ser-se não sendo, lembrança oblíqua de tudo o que és, perpetuando no esquecimento do teu enleio,
Livre e entregue a ti mesmo, levanta os braços
Dor de cotovelo de não ter participado do acto da criação, onde está ele, assumir o que não assumimos, somos criaturas e onde está ele,
O amanhã o que é, o ontem é a continuação do hoje, o marco que te situa que te dá o conhecimento do percurso das etapas, os obstáculos virão todos e sob diversas formas, deposita confiança nessa essência que resta quando tudo o mais é esquecido, armas de destruição maciça ataques terroristas e democracia qual é o sabor qual é o pão, nosso de cada dia, mudar tudo sim ser mártir o que aconteceu a quem estendeu os braços e se entregou, bem para os que vieram onde está podridão, pé ante pé sobre os cadáveres dos aflitos, pactua e és bem sucedido rebela-te e espera-te a desgraça, tudo está lá e não cá, tudo cá nada lá, qual lá não há céu não há inferno há isto e isto outra vez hajam vícios que nos sustentem, nunca mais esquecerei o dia em que me encontrei contigo e foi pelo intermédio de ti que cheguei a mim e me vi, despersonalizado mas individual, único mas total, relativa parte de um absoluto feito de verdade, momento primordial de luz e lembrança onde a consciência nítida e a clarividência de ser reluzem puras gorgulhando no plasma fazendo saber a cada átomo que aqui está o caminho a verdade e a vida, chego à varanda e desembainho o membro, as vossas burocracias os vossos papeis ardil, todas as fábricas armazéns lojas super hiper macro capital publicidade política literatura arte arquitectura o hirto e o flácido juntem tudo e façam bom proveito, renego-vos, renego-vos a todos e a tudo, eu sou pela impessoalidade pelo minimalismo pelo reflexo de nada que é o que sobra para além, não quero viver aí, não quero fazer parte disso, nojo e repugnância vómito, sorrisos para os que se juntam ilusão imposição e necessidade, vender a alma para ter um nome, não sou nada não quero ser nada não fui eu que disse, tudo o que sou tudo o que vêem é o reflexo da podridão, só para além, é lá que sou não aqui, é lá que está, é lá que só à medida que a podridão se cansa e cai madura, como sair disto se sou parte disto, sou filho do mesmo pai, usam e abusam, controlam e dominam, filho do mesmo pai, gozam e troçam, escarnecem do que desconhecem, e eu filho do mesmo pai, quereria renegar-vos, queria ser este gesto queda de joelhos no meio da praça, para sempre expirar algo mais que ar podridão do que em mim vejo projectado, podia saber falar italiano podia ser consultor, administrativo, podia ser alguém, bebés a brincarem com os reflexos uns dos outros neste jogo de espelhos e luzes, sentimentos baixos onde cada um chupa desse membro gigante o seu quinhão de ilusão quanto mais chupas mais ele cresce, mais, a alma do mundo espera.
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