sexta-feira, 29 de abril de 2011

Diálogos

Para o porto, deveria ter ido para o porto, esquecer tudo na viagem, inspirando o cheiro a pele curtida dos bancos desses inter-regionais, comer uma sandes no bar paga a peso de ouro, gastar assim os últimos trocos, saía em Coimbra, o porto é longe demais e não conseguiria ouvir a voz mecanicamente Coimbra e eu sentado, tinha que sair, andar ás voltas revendo a bela cidade das despedidas, queres uvas, até que tivesse fome e frio porque tinha anoitecido e depois como se faz, procurava um abrigo daqueles dos sem-abrigo, ir à sopa dos pobres clamar sopa quentinha por obséquio e graça do senhor, não foi ele que me abandonou fui eu que abandonei tudo e agora estou aqui, não me lembro quem sou nem de onde vim, dêem-me um nome morada não vou pedir, só uma sopa quentinha, depois talvez um emprego, quem mo daria, porque seriam diferentes as coisas, sempre à espera de algo diferente ao virar da esquina, devia ter ido para o porto, mas não fui fiquei aqui, os dedos grossos as unhas roídas, agora isto não outra coisa, outras oportunidades, mas para quê mudar se tudo igual, mudar para melhor sempre, não sou eu que digo, mas para quê se igual, se transporte não sei como e não sei quê, mais pecúnia menos pecúnia, o que será, um homem de barbas no alto de um monte nada temas, um pouco de amor em tudo isto como uma pedra de sal grosso, quanto tempo terá de passar até que a rocha se torne areia, a multidão de roda dele água mole em pedra dura, não é por tu ires para o mesmo lado que eu que devemos ir juntos e se ele insiste e vem atrás e fica e quer seguir-me e quer que eu o siga, quando eu vociferando impaupérios, ele flash e desata a correr eu já te conto uma história, não conta uma conta várias, todas tão interessantes como as unhas cor de marmelo, por um olhar se agarrou e tomou o que não lhe posso tirar, o que não lhe vou tirar por experiência ou por outra coisa qualquer, não respondo a provocações, não sou eu que digo não é meu o alicerce, monstros com cara de bebé, o que faço àqueles que não se exprimem, sem querer lá solto um eco distante que ninguém parece ouvir, vozes que passam pelos intervalos da chuva como pelos intervalos da massa, que massa, que se agarra ás paredes ás frinchas à gordura incrustada nas paredes, não são as pessoas são os pensamentos que elas tiveram, é uma presença espectral, que tem tanto de metafísica como de intravenosa, espaços entre os dentes dedos grossos unhas roídas gordo balofo caspa couro cabeludo cor de marmelo não gosto de marmelada e não gosto de Maria vai com as outras, não vou por aí apesar de irmos para o mesmo sítio, apesar de eles dizerem, as horas vejo no meu relógio, quem sabe se serão as mesmas, as horas podem não ser as mesmas como os caminhos, gosto desta solidão fuga negação equilíbrio que terminará em aceitação da síncope, não sou eu que tenho fé, como será, mais uma prova, não quero pensar, só desta vez o que vier será, deixa os passarinhos fecharem a cadeia alimentar, cumprirem a ordem do cartaz que não podem ler melhor, cumprir sem saber.

Os pratos da balança, lembras-te, quando esticávamos os pés na cadeira da frente, completamente esticados, porque sentir os ossos e os tendões em toda a sua distensão melhor, porque tudo dormente porque espasmo do maxilar porque amoníaco, a totalidade de uma coisa, sempre longe ausente e impossível.

Revisitar velhos espaços em encontros matutinos, ver projecções de caras negações ausência perseguição de caras e de espaços, ontem cheios de absurdo, barcos para odisseias fruto de um conhecimento excedido, arranjar um meio qualquer para o fim que não se atinge e que mais agora a metade de uma linguiça, queres uma maçã rói, será do melão ele, espreito-te do outro lado das caixas de chapa, não te revelas porque o Pimenta não te dá abébias, tenho com ele uma ponte que tu desconheces, a nenhum dos dois vou revelar, ainda bem eu gostava de ser assim, era o que ele respondia, vidros partidos e cacos pela palma adentro em auto-defesa, em defesa do património ainda hoje não reconhecido, partilhas feitas autópsias não, causa de morte conhecida, amor de mãe, Angola todos pró chão, senão caganitas de coelho em frascos amarelos, gel de banho como gel do cabelo separação mudança de idade, quem tirou a redoma de vidro, quem tirou a tua palma da minha palma quando íamos à cave, as teias de aranha no canto por cima do canivete que sempre cobicei, era do teu avô, esse avô que nunca conheci, gira-discos como disco voador a encontrar a mata a quinta o arvoredo voando da janela dos espectáculos ao vivo, o apresentador e intérprete vai nu, ser andrógino, copista, onde está o público as ejaculações nocturnas, onde estão os louros, não sou eu que uso a coroa de espinhos, a casa no quintal mata arvoredo com uma cave ou divisões subterrâneas que vi em sonhos, ambiente cinzento com portas que abriam para escadas tortas, outras casas, bolachas batatas fritas vidros opacos bocas que mastigam sem corpos, para quê revisitar o que já se viu, tenho um mecanismo contra repetições, não tenho capacidade de sequencialização, mas tenho vontade de ir mais longe de ir onde não posso, queres uvas.

Incompetência, o que é de onde vem, porque é que deixas as coisas mal feitas e te vens embora, porquê mesmo sabendo que estão mal feitas sabendo como estariam se estivessem bem, brio profissional como brio pessoal, fazer as coisas com brio, junta-se a multidão de roda dele para dizer ou alguém mais particular terá dito, em casa de frei Tomás olha o que ele diz não olhes o que ele faz, aparições em cadeiras de rodas para marcar posições estou aqui e estou vivo, não rebuliço não tumulto não revolta não rebelia atenção às heresias estou vivo, aparição monstro de cara cadavérica, o mais viajado dos entrevados porque já foi novo e foi a todos os países do mundo, grande manobra de marketing, reflexo perfeito dos tempos que vivemos, assomou à janela e abençoou, o sinal da cruz com a mão trémula, Parkinson e sei lá mais o quê, velhice em cima da espinha, respeito para com o santo padre, representante de deus na terra, não fui eu que disse, e todos os que o viram todos os que o sentiram, onde está qual é o sabor, porque é que me serves um café que já foi tirado, peço-te um café e acrescentas água suja, eu bem o vi em cima da máquina, bem vi a tua cara de incompetente, que olhas para mim quando entro e indagas com a cabeça, é café, seria lícito, não que não sou malcriado tenho alicerces estruturais bem definidos, mas também deixo as coisas mal feitas e venho-me embora, embora saiba, ele sabe, uma coisa defronte da outra, coordenadas sem nomes, para onde vamos, onde foram as coisas, porque está tudo aqui neste sítio e não se reflecte, não se concretiza, ela nunca se concretizou, surpreendentemente nunca teve oportunidade para isso, porque uma coisa o que se pensa outra o que se faz, olha não vês o voo dos pombos como o sol doira as asas, ele apita lá vão eles, é como o cãozinho pela trela o apito, lembro-me de ter pensado na infância ouvido aquele apito não dos pombos dos patos, com um som que me apetece reproduzir, negação incongruência síncope, onde vou onde vamos não quero ir por aqui, não quero chegar ao fim e tudo perdido, quero chegar ao fim e tudo por amor, uma pedra de sal como um pouco de amor em tudo isto.

Sem comentários:


olhai e vede