quarta-feira, 20 de abril de 2011

Diálogos

Sem corpo, nada mais que a essência pura e dura e eterna, a mensagem. O estado de alma propício, o cair por terra de todos os tabiques e a palavra flui, os braços estendem-se e entrelaçam-se nos braços, o medo dissipa-se, não há medo, a viagem começa. E onde a viagem acaba começa a dor, as condições indicadas não são de difícil acesso, contudo estão condenadas à efemeridade, o grosso do viver dos minutos temporais é feito em dor plena e recalcada através dos séculos, tudo se mistura porque tudo está em nós, passado presente e futuro são ilusões distendidas no espaço também ele ilusório, a carga de tudo isto carregamo-la na medida da nossa essência, quanto mais conscientes, mais aptos a mais alto subir e mais tempo permanecer do lado de lá, mais aptos a ver toda a podridão e incoerência do lado de cá, de nós próprios, das faces do nosso ser. É-me dito que o meu destino vem ao meu encontro, vejo mais uma estrada chegar ao fim sem que chegue ao seu começo, sim pois, porque embora tudo até então seja a minha vida, pode viver-se paralelamente ao destino, lenda pessoal, o trilho que nos cumpre. Percorrida mais esta estrada, adiado o fim da mesma até onde pôde ser adiado, visitados todos os entroncamentos, estou de novo na estaca zero de mim. É obviamente um ponto diferente de todos os outros porque é este e não outro, porque é agora presente porque é a partir dele que o que quer que seja que vier virá.

Posso ter necessidade de vir para aqui por sobre todas as outras coisas, o que é ainda não consigo compreender, se isto é uma preparação quero estar muito bem preparado, não quero que nada me passe em branco compreendem, por isso talvez se torne abusivo ou excessivo na procura do que se procura, seja no que for excessivo porquê, de onde vem esse excesso, onde está a memória, o livro dos genes, onde está, quem o escreveu, quem o leu e eu onde estava, ninguém leu ou estão agora a aprender a lê-lo, não posso conceber, não posso acreditar, é mais qualquer coisa que me faz estar aqui, não desacredito o que vocês acreditam compreendem, só que eu quero reger-me por outro, acreditar o meu acreditar e não quero que acreditem, quero reger-me por outro, acreditar o meu acreditar, descubro que não me é dada a hipótese de ter o meu acreditar, porque a própria essência daquilo que acredita está macerada por conhecidos e desconhecidos, mortos e vivos deste e doutros mundos, coisas que não compreendo, que não compreendo mas que se misturam e nadam juntamente com o resto da água, das bolhas de água, não posso concretizar mais, o ritmo lembras-te do ritmo, aquela coisa que se persegue e que às tantas ganha vida própria, calão cientifico raciocínios sequenciais matemática, tudo no mesmo espaço, tudo a várias dimensões, tudo feito fibra e sangue palpitante dentro da minha cabeça, eléctrodos e cargas eléctricas, átomos e reacções em cadeia, a memória colectiva e o registo cósmico, tudo dentro da minha cabeça como ignoto, como bicho, como árvore do conhecimento, como todas as imagens e todas as metáforas e todas as histórias de se contar ao lume ou como nada disto, aparecendo-me branco e apertado, cingindo-me o corpo à alma, retorcendo coisas por dentro de mim, torcem-se como bichos dentro de mim, colónias, formigas aladas, a marcha nupcial, uma arritmia cardíaca, as veias entopem-se ao longo dos anos, o ar já não passa com a mesma fluidez, surgem problemas respiratórios, aqueles problemas respiratórios similares na maneira como o ar não passa, como os pulmões se comprimem contra as costelas e contra o peito, falta de ar, aperto náusea no estômago, úlcera inflamação gastrointestinal, cancro mortes prematuras, a criança adormeceu de barriga virada para baixo, acordou morta, nado-morto, nasceram unidos por isto ou por aquilo, onde estão as almas, onde está o valor alto e nobre e lúcido, não fui eu que disse, mas pergunto, outra coisa, onde está, ele esteve lá e eu aqui e nós aqui e vocês ainda estão no mesmo sítio, quando eu me levantar não estarão, sim vocês, os que se levantam, os que vão ali assim, trabalho, trabalho isto e aquilo, não fazem nada, não dizem nada, calam-se perante todas as atrocidades injúrias difamações calunia, ofensas corporais e não corporais, calam-se perante a vida, eu estou aqui sentado nunca saí daqui nunca conheci outra realidade que não esta, falo-vos de outro lado, assim que começar a ver-vos desapareço.

Fujo para uma casa de madeira no meio do mato sem medo dos fogos ou dos ventos ciclónicos, e de lá vos chamo, clamo venham até mim, vamos viver uma irrealidade conjunta, um sonho de massas da multidão que sois vós por trás e a meu lado vinde para o meio de mim, partilhai estes pensamentos que são vossos, é o que eles me pedem, é o que sempre dissemos, geração após geração a história repete-se, vêem-se hoje os tempos que se viram ontem, mas já não se vêem tempos como os de outrora, vêem-se as cinzas do que virá amanhã cinzento caindo sobre nós juntos todos na minha cabana de madeira no meio do mato.

E o tempo lá fora está frio, passam-se coisas pensadas por outras cabeças, regidas por leis que não a minha, por leis de outros e por leis que desconheço, mais as leis que nos regem a todos, mas que não impedem que eu seja afectado pelas leis dos outros, seja como for tenho de agir. Não posso viver sem agir compreendem e isso para mim é um problema, talvez o primeiro e mais constante problema com que me debato não uma nem duas, mas todas as vezes que tento fazer alguma coisa, sim digo tento porque o que é fazer alguma coisa, cumprir em excelência as possibilidades de uma acção e se essa acção envolve outros agentes que não eu, outras pessoas outras coisas, em si portadoras da sua possibilidade de excelência, o que lhes faço o que faço, faço isto faço aquilo não faço nada, tento fazer alguma coisa, o que tento fazer não sei, essa é provavelmente a segunda questão com que me debato quando tento fazer alguma coisa, o que faço eu, faço isto faço aquilo não faço nada, fico aqui sentado, mas não pode ser, é a vida que me diz que não pode ser, é o dia depois da noite e a noite depois do dia, então como sair lá para fora, qual é a bagagem certa ou deverei ir de mãos a abanar, ele disse para eu ser eu próprio, como se não sei o que o sou, não fui eu que disse, ele sabe que é guardado pelos anjos ele sabe, ele não quer saber, ele quer saber o que fazer, ele quer saber para onde ir eles dizem, as opções sucedem-se, as janelas abrem-se como os muros se erguem, a relação é que não percebo, para dizer a verdade o que eu queria mesmo era ficar aqui e não ter de sair para nada, ficar aqui sentado, onde sempre estive, e é o que farei, o mais se tiver de vir que venha ou que não venha, não fui eu que disse, objectivos concretos, o trabalho, como negá-lo à partida, não negando, fazendo o que há a fazer, mas a procura não terminará nem o mal-estar terminará, é esperado que um se sinta bem, onde está o limiar, onde está o ponto de ruptura, é o primeiro que buscamos sim pois, mas e entretanto nada, entretanto o quê, de quem foi a ideia deste prelúdio, porque é que não passamos já à fase seguinte, porque é que há fases, sim digam-me que sou criança, digam-me que não sei nada, digam-me que tenho de aprender, aprender o quê, o que tu aprendes, o que ele aprende, o que se aprende ali, ler para aprender, ouvir cultivar interessar-me por tudo ou só por aquilo em que tenho interesse, não tenho interesse em nada a não ser em saber quem é que disse que eu tenho de aprender alguma coisa, que é suposto que eu leia e me cultive, quem é que lhes disse a eles, aos que me dizem, quem, digam-me quem e esse alguém que venha falar comigo, que pare um momento antes de começar a falar, que não diga nada que não me pergunte nada, que venha ter comigo e esteja um momento calado na minha frente, eu não lhe quero nada antes de ter tempo para o analisar, para saber o que quero dele, se é ele, se é isso que quero e então aí quem falará será ele e não eu e dir-me-á, sem que eu lhe pergunte, e a minha pergunta ficará respondida, e poderei voltar pra casa, dormir porque estou cansado da tarefa da minha vida, acordar porque é o que acontece quando se dorme, comer é o que faço quando acordo e esperar a morte que é o inevitável. Ou isto ou sentir tudo de todas as maneiras e ir a todo o lado e seguir os mandamentos dele, o resultado é o mesmo ou não é, ou há regalias diferentes para uns e para outros ou também aí desse lado a justiça de que se fala é fumo dentro da minha cabeça, uns entram outros não, só quem bater à devida porta poderá entrar, é o que dizem, que há só uma porta, as outras são todas falsas, não, se a humanidade inteira, se a multidão está atrás de mim, quando olho para trás e para os lados ela já está comigo, sempre estiveram ao meu lado, estão lá agora no mesmo sítio, uma porta um caminho para quê, qual é o propósito, porque é que não vem explícito como um livro de instruções, só não digam que é suposto sentir-me bem, então tenho que mudar tudo, tenho que deixar as dependências, os maus pensamentos, as dependências já ajudava eu sei, ele sabe, ele sabe que é protegido, ele sabe que só há um caminho, mas por agora vou ter de saber outras coisas também, o que acontecerá se não as souber não sei, não tenho capacidade de sequencialização, portanto é melhor que as saiba, conhecimento é exigido, o teste para o qual estou preparado vem depois, tenho que passar as preliminares, é como se tivesse nascido ao contrário, mas se só perceber o que quero quando for velho vai ser tarde para o que quero agora, que é aproveitar este tempo que passa e vai passando e parece que nunca mais passa, não quero perceber as coisas tarde de mais, é por isso que não desisto nem penso em mais nada compreendem, mas tenho que fazer outras coisas, tenho que sair daqui, tenho que ir ali assim estar com outros indivíduos, desempenhar tarefas cumprir funções ter um papel no complexo do mundo que não compreendo, porque é impossível levantar-me daqui, mas alguém tem de fazer o que é preciso que se faça para que eu possa estar aqui sentado, todas aquelas coisas que me vou abster de referir para ver se crescem e se tornam interessantes e densas e profundas e mudam de sítio para que eu as possa ver daqui de onde estou e estabelecer as coordenadas para as missões, seleccionar os candidatos, agir finalmente com a segurança e a tranquilidade que caracterizam as acções de quem sabe o que faz, de quem está no caminho certo e sabe para onde vai, para onde quer ir, alguém que tem um só caminho, o seu e o deles, o único caminho possível, sem contradições, errar é humano, é através do erro que evolui a alma humana, e sim ela deve evoluir é esse o seu propósito para chegar ao ponto de partida, aqui precisamente, de onde nunca devíamos ter saído compreendem.

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