Que sensações inéditas me provoca a minha loucura. Tamanha incoerência e incompatibilidade que não têm lugar, contudo brotam de dentro de mim, não têm outro lugar de onde brotar. Sempre o presente, o futuro, ainda um passado que não se quer ver que se anseia deixar. Uma linha que não sei de onde vem, mas que tem ambas as pontas dentro de mim feitas do novelo que sou, malha desconexa e ambígua, sensação de não ser para o que se me depara que sou, dor insuportável mas que se suporta e se interroga e deixa de ser dor para se tornar sonho, tudo interage e perde a definição, amalgama-se em mim. Descubro o sentido passivo da vida de existir para que as coisas aconteçam, mas nada mais sou que um espectador do impossível que vai acontecendo. Esta ponte não pôde ser estabelecida, que quer isso dizer, confusão, é tudo meu, prejudica gravemente a saúde, os que me rodeiam, pago direitos de autor, ingénito e indestrutível, uno e indivisível, tenho que ser outra coisa, não sou nada sou um louco ponto ou sou um louco reticências, o que me faz duvidar, porque me busco, não há fim, a eternidade foge-me como a compreensão do todo, aceitar que há coisas que estão para lá da minha compreensão, as consequências da consequência, o método como as coisas se apresentam, muita coisa, são vislumbres de luz apagada estendidos pelos dias e pelas horas como marcos de desorientação para a alma.
O mal está nas fasquias e onde as coloco. Se pensar que tenho tudo o que preciso para ser feliz, se pensar nas coisas boas, no que foi atingido, que o objectivo principal está atingido dizes tu, ele era o de estar sempre contigo, ele era o de termos uma casa à qual pudéssemos chamar nossa, não te lembras, naquelas noites frias de verão, quando passeávamos à beira da estrada a caminho da casa do outro, de eu te ter dito, tenho uma coisa para fazer que só eu posso fazer, não sei o que é, mas sei que tu fazes parte dela, sei que através de ti a poderei fazer, sei que preciso de ti a meu lado, e de tu me teres dito que o que tens para fazer é estar ao meu lado, que é essa a tua realização e o teu objectivo, e de eu te ter dito que eu tenho mais qualquer coisa não te lembras, o que faz de mim isso, sim isto é a base, apesar de ainda não a sentir como tal plenamente não nego que isso possa vir a acontecer, mas depois ainda falta o resto, porque é que isso não me basta porque é que não me sinto bem, pelo menos isso sentir-me bem, sentir-me realizado, ainda que parcialmente uma vez que não é essa toda a minha realização, mas grande parte será, porque não trás frutos, porque não fruo, porque só penso em drogar-me e em deixar de me drogar, porque é que isto vem à mistura com aquilo, caótico é o que eu sou, foste tu que mo disseste, caótico serei sempre, então não será natural que seja pessimista até à ultima instância, sim não consigo apreciar a beleza do quadro não consigo ficar contente sentir-me realizado, mecanismos de destruição que não foram desactivados porquê, mal que se alimenta do bem e o consome e me consome, treva que cresce com a luz e a consome, destrói todo o bem e toda a beleza, só droga onde está o problema, de novo a disciplina e a vida regrada é o conselho deles, houve qualquer coisa que em mim se partiu, um pedaço triangular que me falta, parece que foi tirado com um bisturi, precisão cirúrgica, estaria a mais é sempre a hipótese que se pondera, se aconteceu foi porque tinha de acontecer porque ele não se engana, mas engano-me eu a toda a hora, de quem é o espectáculo afinal, o que pretendo de mim, para onde quero ir, será que quero deixar de sentir isto, do outro lado o que está, consegues traçar uma linha um fio condutor que te conduza ao princípio geral das coisas e de mim, uma ponta, um traço que te leve ao ponto, ao busílis, o outro sabe destas palavras, não me surpreendeu, penso faço discursos e dou respostas resolvo tudo, faço isto faço aquilo não faço nada, eu é que sabia o que era ser feliz e o caminho exacto para sê-lo, eu é que sabia, eu ia lá chegar pelos meus próprios passos e sem a ajuda de ninguém, eu sei fruir as coisas como ninguém, como é que podes não te alegrar com o alcançar dos teus objectivos, isso é mau, é péssimo, és ingrato, não dás apreço ao que te foi dado, ao que conquistas-te, para quê as conquistas sem o sabor da vitória, para quê os bens sem o gozo de os possuir, para quê a droga se só pensas em livrar-te dela, se eles não se calam com a disciplina e a ordem e a vida regrada, porque é que não vais por aí, porque é que não deixas de falar para o vazio porque é que cantaste para um público imaginário, porque é que és para ti e ninguém vê o que tu és, sabes que devias abrir-te ao mundo e aos outros, não fui eu que disse, mas está dito, será bom, seria bom, afinal não consigo nada, afinal o grande amor torna-se nada como tudo o resto e as grandes conquistas e os grandes sonhos quando se tornam realidade o que são, como se aproveita, como se frui o que se pensa, não sei nada de nada, não sei viver não sei como se vive, onde está o modelo, sim pois, ele é o modelo e eu o que sou, onde fico, copista imitador se for igual, se não for nada, nada de nada, só pequenos momentos, segundos em que não me apercebo do resto, segundos em que me consigo focar numa só coisa e sentir essa coisa isso é bom, depois dispersão e nada, basta, como se sai daqui, quero sair daqui, quero uma lobotomia uma lavagem ao cérebro, não quero nada disto só quero sair daqui, só quero ver-te feliz, olhar ao espelho e ver-te feliz, não percas esse brilho nos olhos ela disse, já nem sei ao que se referia, a disciplina o regime, deixa tudo isso e vem comigo, eu deixei eu fui, eu conheci o mundo e as gentes, guardei os traumas esqueci os momentos bons, assassinei tudo e continuei a procurar, matei mais um grande amor à Queima-roupa, sem dó nem piedade e continuei a procurar, fui encontrando o que procurei, sempre vivendo outra coisa, até que naquele momento passei a viver um pouco à frente do que pensava, aí sim foi bom, não saber o que o momento seguinte reservava, não saber, não ver, uma doce ilusão, uma paixão perdida que começou comigo a negá-la depois comigo a aceitá-la depois a viver o que não sabia, que bom que foi, depois tudo ruiu tudo caiu por terra e eu também caí por terra e eles afastaram-se e o rei morreu e tudo se transformou em pedaços, agora vá levanta-te e caminha e que procurei eu, se tudo isto estava pensado e neste preciso momento estou onde era suposto que estivesse ninguém mo vai dizer, é porque não preciso de o saber, agora para onde ir não sei, não gosto disto, não gosto de nada, só vejo o mal e a perfídia, que nada disto é, é o não conseguir desfrutar das coisas boas, é o não ver onde elas estão, é a falta do triângulo que me foi cortado a bisturi com uma precisão cirúrgica, nada, estou muito mal, apetece-me dizer que estou doente, muito doente, apetece-me internar num hospício para que me droguem noite e dia, destruição e caos, mas ele sabe ele sabe, ele sabe que cedo ou tarde terá que se render, sabe que o caminho direito o espera, sabe que é um abençoado, vigiado pelos céus e pelos anjos, porque rejeita, porque nega, porque é pequeno, muito pequeno, precisa crescer, para onde crescer, essa é a pergunta, crescer para onde, esperar que me venham buscar, que me peguem por um braço e me vistam a bata branca, me metam na carrinha branca e me levem para o hospício, para junto deles que esperam por mim vestidos com batas brancas, e depois o que sucederá, não consigo prever, não tenho capacidade de sequencialização, não sei o que sucederia.
Terá sido porque deixei para trás hipóteses, porque não cumpri a excelência das hipóteses que me foram dadas, porque não dei o melhor de mim, eu que penso e que digo para mim que dou sempre o melhor de mim, tenho-me em muito alta conta, consegues ver um caminho, um percurso que te tenha trazido até este ponto, será esse o problema, a minha incapacidade de sequencialização, ter feito ontem qualquer coisa para que hoje não sei o quê, ou fazer hoje para que amanhã, não consigo ver isso, na luta das coisas está para mim tudo inclusive as coisas em si, não estão no depois estão agora, está tudo aqui, deste lado da cabeça, os percursos traçados, o frango provavelmente é demais, mas depois come-se o resto, vai-se comendo, vão-se comendo os restos, fazem-se contas à vida, somam-se parcelas para encontrar o total da sobrevivência, o desperdício em bens supérfluos e a ambição, um melhor emprego outro horário outro salário, o que será diferente, porque é que eu não atingi a realização que tu atingiste, porque é que eu não sou feliz por estar contigo, simplesmente feliz por estar contigo, porque aquilo que pedi um dia me veio, porque a busca terminou e o desespero acabou, agora há desassossego, e se o eliminar, e se tudo isto é porque fui eliminando tudo o que vinha de dentro, porque não me satisfazer com nada foi um modo de vida que acordei como um contrato que tivesse assinado em viver, passagens de um texto que não interessa, nem a ele que sabe tudo, imaginam essa criatura ingénita que sabe tudo, o aceitar que alguém que não é humano tem mais poderes que os humanos, esse é o problema, aceitar que outros possam mais que nós, aceitar que eles tenham a sua palavra, o seu brilho a sua fortuna, não me incomoda, mas temos que lutar pela justiça, e não devemos pactuar com a perfídia, quando assistimos ao enrolar das mentes hipnotizadas pelos discursos carregados de psicologia e nos doem as costas para que ele possa estar ali cheio de discursos cheios de psicologias e sem falhas, comodamente no seu veículo topo de gama, comodamente no seu mês desafogado, não, ele estudou, ele tem mérito, ele chegou, não, doem-me as costas para que ele possa estar ali, para que ele viva desafogado eu tenho de fazer contas e somar parcelas para achar o total da sobrevivência, eu tenho de fazer escolhas e fechar janelas para que ele possa andar confortavelmente no seu veículo topo de gama, não, ele tem porque está lá porque estudou, porque chegou ao topo, eu não cheguei a parte nenhuma por isso não tenho nada, não, eu cheguei a outro sítio e tenho aquilo que não sei viver, que ninguém me ensina porque ninguém tem, que não há exemplos porque ninguém tem, só eu tenho e eu sou igual aos outros, sou só mais um no meio de muitos, sem nada de especial, não sou sobredotado nem super inteligente, não sou nada, mas cheguei onde ninguém chegou e vejo o que mais ninguém vê.
Cheguei a este ponto negando tudo o que vinha de dentro de mim, obtendo a negação final de que não posso negar mais, de que atingi o ponto último da negação de tudo quanto vinha de dentro de mim, negando-me inclusivamente a mim mesmo, à minha existência e a uma outra série de coisas, várias outras séries de coisas a que não aludirei, mas que foram negadas por mim na passagem do tempo. Por todo o tempo que passou, portanto até agora tenho negado tudo o que se me assuma à mente e a qualquer lado que eu o identifique, sim não dou abébias, não facilito, cumpro a minha missão árdua e penosamente, o relatório será entregue. E isto seria verdade se eu fosse maluco. Como isto aconteceu de facto, fui eu que o vivi, sou maluco e conto acerca disso. Compreendem, os traços originais perdem-se profundamente na mais clara das ironias, o som profundo do que nunca escutei bate-me nos ouvidos, como não posso ter escutado, como há coisas que não escutei, onde estava eu quando ele explicou o porquê de tudo isto, quem é que lá estava, o que foi que ele disse, quem mo vem dizer agora que tenha ouvido a quem tenha ouvido dizer de quem lá tivesse estado e ouvido o que ele disse para agora me dizer, não, não sucederá, e eternamente ficarei à espera, até que morra e passe o efeito da droga do esquecimento e possa por fim lembrar-me do que ele disse, porque era eu que lá estava nos ouvidos de quem estava nas mentes de quem o ouviu dizer o que disse e agora nada mais faço do que dizer o que ouvi é assim que perpassa a memória dos indivíduos nos tempos, dai de vós aos outros para que fiquem gravados nos anais da história da memória colectiva dos homens e quiçá no registo cósmico, tudo é a mesma coisa e coíbo-me de avançar mais neste pensamento por risco de incorrer em falha ou lacuna de termos técnicos uma vez que o estudo destas cabalas está separado para os iniciados pela mão daquele de que ninguém fala, e que está em mais sítios do que o que seria de esperar no complexo de tudo isto.
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