terça-feira, 12 de abril de 2011

Diálogos

Estou no normal como quem está noutra coisa. Estou no pensamento superficial na conversa banal nas palavras fúteis nas vidas ilusórias e iguais umas às outras como produção em série nos pensamentos estereotipados nos enunciados linguísticos entrecortados pela ignorância e pelo analfabetismo, estou nos discursos marginais no calão, nos dizeres regionais catalão e mirandês ignotos, palavras dos avós, estou nas sete mil palavras gastas por dia para dizer nada, estou nas conversas de todos os dias, todos os dias a dizer a mesma coisa para iludir a morte. Estou nos que fazem incursões às altas esferas, ao topo do monte, que vêem lampejos de verdades ocultas, estou no silêncio, espaço infinito para o desabrochar da conversa, estou nisto tudo por tudo isto fragmentado e repartido, porque tudo isto existe e não estou fora de nada, não sei porque não te quero ver, são recordações que não quero recordar, são traumas que não quero viver, são memórias que quero apagar, são passos que quero dar, és a muleta que quero deixar. Estou para isto como para o passado e para o futuro que não estou, mas também existo e o que faço é por tudo isto, pelas palavras no que a elas diz respeito, das emoções, da longa paleta que as matiza e que de tão perto estarem ligadas às palavras e estas àquelas que se confundem, nelas estou com o sangue, as emoções são a vida, a humana e a sua supressão almejada por tantos, traria qualquer coisa que não sei, não tenho capacidade de sequencialização e de momento afasto esse pensamento dos meus pensamentos, essa relação intrínseca do humano com a emoção encontra em mim um dos expoentes máximos e estou em qualquer uma delas como na antecâmara de todas, espectador, tudo sentindo apesar de nada ser meu, mas quer numas quer noutras, palavras e emoções, das quais muito mais se poderia dizer, estou eu para elas de todas as formas possíveis neste relacionamento que me vou abster de adjectivar, porque ainda que eu explane e inteleccione esse relacionamento, o resultado dessa operação não seria igual ao meu ser e dar-me-ia a conhecer não a mim, mas a uma função de mim, em relação a uma vida imposta. O meu ser é tão ignoto como a razão da vida, a vida é tão complexa quão complexa quisermos que ela seja. Perpetuamente passa a electricidade de mim para ti, carga positiva e negativa infindável, que nos carrega e transporta, transmutando os nossos seres num, és o maior dos meus vícios a água e o ar, a substância de que sou feito, compreendes, é aqui que estou, nos mistérios do insondável e inexplicável amor que nos transcende e abarca como peixes do seu mar ignoto. Vamos criar aquários e mostrar ao mundo réplicas elucidativas, não têm nada a ver com isso, é nosso e ninguém nos tira, ninguém nos impede, ninguém nos trava, não há necessidade, tenho as mãos a cheirar a futuro e a passado milenar e a alma na nossa secreta dimensão, secreta porque só nós a conhecemos, secreta porque feita de e para nós.

A vida é boa. Se fizermos e pensarmos só coisas boas a vida é boa. Afinal onde estão as coisas, como evoluem estes pormenores e se tornam em por maiores, estes murmúrios do frio, estas gargantas queimadas que bradam impaupérios dentro de mim e dentro dela que teve uma infância infeliz e usa o sarcasmo para esconder a fragilidade dentro dela, como se um sentimento bastasse para esconder outro, como se algum sentimento fosse substituível, ou como se fosse possível mudar a essência de algo que já se sentiu. Então porque sentimos coisas que não são boas, é isto que interessa perceber para percebermos porque é que a vida não é boa, porque afinal onde estão as coisas, o que mais é a vida senão aquilo que sentimos, o que pensamos, como agimos e não é isto tudo a mesma coisa, dizer sentir ou pensar ou agir que diferença faz, não são eles partes na evolução de qualquer coisa, não é essa qualquer coisa que nos interessa, ou vamos considerar o estudo de uma componente da questão quando o que queremos é obter a resposta primordial, a resposta primeira, aquela que responderá a todas as nossas dúvidas, é isso que tentamos obter quando perguntamos, pergunto se perguntam de outra forma, perguntarão outras coisas e não isto que eu pergunto, mas sei que há mais quem pergunte isto que pergunto, há mais quem queira esta resposta primordial, para ser sincero não encontrei ainda pessoa nenhuma que não o quisesse. Que espécie de criatura é esta em que me estou a tornar, será urgente dar-lhe um nome para que me possa pensar como sou, não sou isso que dizem, não sou isso que me chamam, sou outra coisa, também não sereis vós a dizer-me como me chamo, só eu sei e quem de vós para me conhecer, para saber quem sou, para falar comigo. Falam com projecções de sombras recortadas nas vossas imperfeições, aspirações e desejos, sou o somatório de uma série de coisas, mas nós não olhamos para as coisas, olhamos para o todo, ou será ao contrário que fazemos, como fazemos, como faremos para que suceda, como fizemos para que acontecesse, eles estão entre os espaços vazios de tudo isto, conquistas ao vácuo, de domínio em domínio até dominarmos o quê, senão a nós próprios. Trago comigo trazemos connosco a memória do que está lá, sim tu trazes também, ou não trazes, se queres afirmar que não trazes por mim tudo bem, continuarás a trazer, o juiz está a fazer a pausa para o café, não há escala que te meça, faz o que quiseres fazer, diz o que quiseres dizer, mas a vida é boa se tiveres só pensamentos bons e somente enquanto tenhas pensamentos bons, porque quando a tua vida for má é porque os teus pensamentos não foram suficiente bons, não estão a sê-lo. Não confundas com a aceitação pacífica das fatalidades, não confundas com a resignação a um destino triste, não confundas com nada porque sendo algo de diferente isto de que te falo não é passível de confusões, também não importa que não entendas, será só mais um dos pensamentos que não vais entender, o que é que isso pode influir no fluir dos acontecimentos, no palmilhar da escadaria em carrossel, voltas e mais voltas espiral das espirais, quero aprofundar a imagem, perceber as coisas com as dimensões todas, não com aquelas que ainda não consegui desenvolver. Tudo em função de, sempre tudo em função de alguma coisa, queres perceber e cada vez mais te baralhas, queres ser e cada vez mais te dispersas, queres e cada vez menos tens. Que lei esta que apoia sempre o que está ao lado, que vida esta que nos escapa por entre os dedos e as unhas e os dentes e o imo, que nos escapa, que está sempre por detrás, que nunca é, mas sempre quer ser.

Sombra.

Acendo-me na sombra de mim vivendo a loucura que a luz renega. Sinto a loucura como a minha sombra, como chão e a luz, a luz é a minha podridão revelada, a luz é o mal na sombra, só existe bem não pode existir mal, não se vê portanto, tudo é sonho e sombra.

Sou uma sombra, preciso saber que ímpeto é este, que força malévola esta que me quer arrancar do meu mundo, para me apresentar um que não é meu, que não me diz nada, ao qual eu não me aplico, para o qual eu não sirvo.

Cópia ordinária de mim.

Uma cópia ordinária de mim é o que vocês me pedem. Repugnância. Pedem-me repugnância, exigem que tenha maldade. A bondade não existe, o amor não existe, eu não existo, não sou nada ou ninguém, não fui eu que disse. Querem ensinar-me como ser no vosso mundo, querem que eu siga os vossos ditames e regras e normas e procedimentos em nome da minha saúde e bem-estar, nascer no meio de vós deixou-me com um mal-estar vitalício. Pois quem sereis vós, recuso-me, a fazer parte de vós, é miserável que sou, é assim que me vêem, abóbada de cristal e simplicidade, a única razão porque não me declaro louco é porque não o sou, não sou mais um daqueles para rotular e esquecer, a mim nunca me conhecerão a tempo de nada, jamais suportaria ser fosse o que fosse no meio de vós, para quê, ganhar a vida, por favor, prefiro perdê-la na minha escuridão, não vos renego, sei que existem, por isso eu ando no meio de vós compreendem. Na ausência da minha existência os restantes indivíduos comportam-se da mesma forma comigo, é-lhes indiferente e desconhecido o facto de eu ser aquilo que sou, não têm meio de saber, eu não lhes digo, então criam uma cópia de mim na cabeça deles, que vai crescendo proporcionalmente àquilo que levam de mim, ainda que levassem tudo, não levam nada e querem poder esperar e nutrir por mim alguma coisa, por mim por ti todos por todos, nega-se, mas andamos cá, uns mais que outros, sim pois, não posso deixar de pensar que andaremos, não posso deixar de pensar.

Levar as coisas mais a sério dizes tu, compenetrar-me no que estou a fazer, mas e quem me vem dizer o que fazer daquelas coisas que estão gravadas nesta genética que desconheço, estas respostas, reacções, todos estes termos que lhes chamam, para quê lhes chamam se não sabem de que se trata, saberão, duvido que saibam, eu não sei e quem me vem dizer, são essas as respostas que me fazem falta, vai por aqui vai por ali, ou isto ou nada de nada, ou os fascículos disto e daquilo ou os jornais e as notícias de jornal, nada de nada, porque é que as pessoas reagem como reagem, as respostas quando ainda não se disse nada, aquele momento antes de se dizer alguma coisa, o que manda que se diga isto ou aquilo, qual é o ponto de equilíbrio entre o que somos e o que dizemos, eu quero dizer-me é isso que quero, não quero falar dos fascículos, das notícias dos noticiários, recortes de jornal retalhos de conversas tidas na terceira pessoa, nunca está cá a pessoa de que se fala, nunca é nosso aquilo que é bom, é sempre dos outros aquilo que é mau, quem se diz se tudo isto é mentira, metade uma coisa metade outra, então não é aí que está, não fui eu que disse, a dualidade é perene, não sairei, porque não posso, disto e disto mesmo eternamente, perspectivas abram-se perspectivas, veja-se o que é de ver, são muitos os exemplos, mostrar em vez de explicar, que mostrará, que mostrarão as vidas dos que nos circundam, que porcaria, que trauma, sempre a mesma maneira, os gestos excessivos, as respostas excessivas, qual é a razão qual é o pão onde está por onde é suposto, teremos que ver o podre para podermos ver o fresco, ele é que disse que assim era e que assim se servia das coisas, ele, não eu, que isto era para se dar valor àquilo, que o outro era para se ver aquele, e que tudo está ao contrário, são eles que dizem não eu, é reconhecido que isto está de cabeça, que o universo é um cancro divino e que nós nada mais somos do que pecadores compreendem. E tenho uma vontade imensa de sair daqui, mas não tenho outra hipótese, inclusivamente já pensei se não é de facto aqui e somente aqui que estou, sendo que repito isto durante todo o tempo, mesmo quando o não repito aqui, porque tudo o que digo, que não seja isto me soa a falso, postiço, e se chego ao dia em que percebo que não fui eu que disse, que tudo já foi dito por ele por eles por nós, que não há novidades, já estou a mentir outra vez, terei alguma vez estado a dizer a verdade, quem a vem reconhecer e ler-ma para que a saiba, ficam os pequenos momentos, ficam os pequenos prazeres e que mais fica, tenho que encarar as coisas de outra forma, acordo e tudo é diferente, enquanto não me interessa se eles estão lá ou não, porque há outras coisas para fazer e devo ter a disposição certa para fazê-las, isto sim não fui eu que disse, mas tenho que o repetir a bem, de quê, não interessa, a bem. Porque é isso que quero, que as coisas corram bem, que coisas, a luta é incessante, mas agora apenas isto, apenas esta vertente dos acontecimentos, esta secção, sim ser assim e assado, transparência meus amigos transparência, para que vejam o que é preciso ver, o que depois não custará a provar quando precisar de ser provado, dizer o que é preciso dizer no momento preciso, aqueles segundos que se seguem ao clic, aquele clic que se ouve, tenho que dizer o que é preciso dizer imediatamente a seguir ao clic, porque senão já passou o tempo, depois já não dá já não serve já não há como dizê-lo e preciso dizê-lo para que se realize, a bem, a bem de quê não interessa.

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