quarta-feira, 27 de abril de 2011

Diálogos

São vários os caminhos que nos abrem as portas do nosso ser, especificamente da essência de cada um e de si para si, o ser nem sempre está à vista e há caminhos para chegar aos sítios de nós, determinado pensamento, determinada acção, abre o portal para aquele sítio, que só assim nos é revelado e tudo muda, a visão e os sentidos outros mudam, os pensamentos mudam muda até o modo de pensar ou o modo como a mente actua sobre a alma ou a alma sobre a mente, não é possível traçar mapas, pois os trilhos nem sempre estão no mesmo sítio, não é por isso viável memorizar o caminho porque ele não persiste para lá daquele momento, a cada novo pensamento chave uma nova descoberta e a vontade de ir mais longe, mas tem de ser tudo de uma tirada, com a insistência o que acontece é que aumentam os caminhos aumenta o mundo de nós, as conquistas, o universo explorado, a consciência desse mundo sem a qual ele não existe, não fui eu que disse, é uma consciência que vem só depois de lá termos ido e é por lá estarmos que tornamos real mais um pedaço de nós, eu só bebo até estar bem depois paro, não gosto de beber tudo duma vez e depois cair para o lado, por que será que não consigo que tu venhas, que ela venha que voltes, qualquer coisa, estar em todo o meu ser, estar em todo o meu ser, não cesso de me descobrir, não cesso de me procurar, porque sei-me infinito, não infinito como o universo que é finito segundo o que ele disse, mas como a força que o sustenta e anima, isto trata-se de sentir a teia que une tudo a tudo, através de mim posso chegar a todo o lado, está tudo em mim, assim não é possível, tenho que me ter, exorcizem-me por favor, concretizem-me, ela nunca teve a oportunidade, é incrível, dêem corpo a estes aflitos que me cercam, que penem na carne o que os atormenta, que se crie vida, dor de cotovelo por não termos participado do acto original, ele sabe, a criação foi outra, fomos nós, o resto somos nós por aí abaixo, feitos pedras e peixes e pássaros, queres uvas, separem-se os mortos dos vivos pela carne, que pretendem, que querem que eu faça, tenho o desespero por vós todos, torrentes de sentimento espectrais, carga grotesca que carrego e que ninguém vê, que ninguém entende que ninguém sabe, egocentrismo de ser único, descambar em nada de tudo, substância dilacerante e cáustica, alheio de mais ao meu enleio vou acabar por me perder a meio caminho, não o quero assumir, que desejo ou desejei que me torna assim desta maneira, virá tudo com certeza, mas terá que comungar comigo pois dentro da meta há muitas metas e nos atalhos alguém se esqueceu de por marcos geodésicos e tabuletas de sinalização rodoviária.

Amanhã continua a luta, mais um dia depois do último, trabalho em prole da soberba engrenagem que nos sustenta, em paralelo com a missão de ser canal cada vez mais aberto e límpido para o amor que nos une.

E depois como e fico com frio, com medo, vontade de me enfiar nos lençóis e esquecer a vida, esquecer que estou vivo, nunca mais acordar esquecer tudo esquecer o mundo esquecer que ele criou que me criou que criou tudo isto, a verdadeira criação dele qual foi onde está, quem nos venha dizer, que lei que revelação, ela morreu a última que estava viva e que clamava ter visto, que clamará ela agora, onde está, porque não nos vem dizer, porque não se misturam os mundos e se revela, queres uvas, interrogações juvenis para sempre, até que um mestre chinês faça de mim um homem e me eleve a alma, olha como dobra os guardanapos, as mesmas coisas porque eles se riem, as que eu sei que os fariam rir, mas não digo, negações, e tu vais-te embora e tu viras-me costas não sei quem é, o que explanas a forma como explanas, a pessoa em que te tornas personalidades, temos muitas personalidades cá dentro que saem conforme as necessidades ou outra coisa qualquer, não fui eu que disse ou terei sido, é que os vou batendo na mesa e quando dou por isso já está o tabaco quase a meio da mortalha, enquanto penso que tenho uma quinta e gosto de cavalos, não sei o que foi feito de ti, como é que te enrolaste com o fulano das quintas-feiras que te engordou, não mata mas pode engordar, a ti engordou, primeiro ficaste gorda a seguir a empurrar o carrinho, logo te mudou a expressão, logo a maneira como pões um pé defronte do outro que tanto te caracterizava, cada um fala de si e ninguém fala de nada, projectando sentimentos em antagonismos velados de memórias do passado, achadas numa gaveta num álbum sem pó, porque ainda se viu no outro dia, que loucura que foi, este e aquele, queres uvas, um pouco de amor em tudo isto como uma pitada de sal grosso, à primeira oportunidade raspamo-nos que estou farto disto, nem atendes o telemóvel depois diz-se qualquer coisa, mais um café, arrastar até mais não, assim é que é, ficar até depois da hora, prolongar sempre mais um bocadinho, porque não se dá pelo tempo quando se está com quem se gosta e estamos com quem gostamos, e eu no meio disto a tentar ir por aqui e por ali, como quem faz um mortal de cima de um muro, desta vez sem cair, sem partir o pescoço, primeira e segunda vértebras a contar de cima, desafios, negações, não fui eu que duvidei, não fui eu que te empurrei, que te tirei as mãos da minha cintura, ela passou por detrás procurava alguma coisa ele viu tu não, não entendeste, não percebeste porque não quiseste, ficaste ali assim, o outro sempre a tentar entrar num sítio estranho que tu lhe ofereceste e se eu tivesse ficado à parte de tudo isso, se tivesse ficado no sítio onde sempre estive, se não tivesse tirado os óculos para manter a personalidade, tenho uma deficiência grave no olho esquerdo, para o mês que vem tenho que ir tratar disso, que é muito grave, já me tinham dito, daquela vez que tive umas dores de cabeça muito grandes e não sabia do que era, podia ser dos olhos, então vá de ir ó oftalmologista, ao oftalmologista não à multiopticas, que também lá têm aparelhos e testes daqueles com números e letras ao perto e ao longe, o que vê agora, e assim, não vejo nada tudo desfocado, se tivesse ficado no mesmo sítio, como teria sido, o que teriam pensado de mim, de certo qualquer frase incómoda, e tu terias ainda as mãos na minha cintura, talvez o venha a saber, talvez se repita e eu teste de outra maneira, quando não se sabe faz-se assim, por tentativas, alguma vez se há-de acertar, o fim chegará, ou será que não há fim, a morte não existe, só uma passagem para as pedras ou pássaros ou o que é que foi que ele disse, estandardização produção em massa, quanto mais repetitivo mais rentável, mais lucrativo, tudo em função do lucro em detrimento do valor humano, lata e política publicitária, preservamos os valores humanos dizem eles, para nós as pessoas são a peça fundamental dizem eles, e depois escravatura e depois salários indecentes e depois desprezo, lata e política publicitária e depois vamos lá como os outros e compramos tudo e vamos atrás do mais e melhor publicitado do escaparate mais luminoso do artigo vendável do truque mais básico, estamos no meio da massa somos a massa olhamos para trás e vemos a multidão e depois já estamos no meio dela, estão por toda a parte, caras conhecidas e por conhecer, todos no mesmo ponto embora em pontos diferentes, todos rumo à nova encruzilhada.

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