Vi um indivíduo corcunda com o braço em ângulo recto com o corpo, agarrado ao mastro de ferro pela parte interna do cotovelo girava à volta dele e cantava:
(Já não tens ecu já não tens ecu quero ir ao cu quero ir ao cu já não tens ecu e eu quero ir ao cu)
Atormentado, possuído, pelo meio da música lia uma e outra estação em tom maquinal, os outros riam-se fingiam ignorar, comentavam:
(Isto é que está aqui uma coisa esperta)
Quando se mistura aquilo que se faz com aquilo que se nutre, aquilo que se pede com aquilo que se dá, muita mistura, jogo de forças, vence deus ou o diabo e de quem é a culpa, do bom do mau ou nossa, apanhados no jogo de titãs entre um e outro.
Estar à margem de, entregar a alma a deus vivendo no território do demo, utilizando as suas ferramentas para comer, desequilíbrio.
O cerne da questão está no equilíbrio, pretender ficar incólume a qualquer uma das partes é a maior das ilusões.
A balança está nivelada de tal maneira que terá sempre que voltar ao meio, ainda que possa oscilar entre os extremos. O peso que pomos de um dos lados será compensado do outro e o que interessa são as forças que precedem a essa compensação, são elas que actuam na nossa vida, por intermédio de tudo e de todos, não olhando a meios para alcançar o fim, será que posso medir a intensidade e a frequência das intervenções da força ignota, quando sou apanhado desprevenido e os acontecimentos me atacam em catadupa e de surpresa é porque se trata de um ajuste de contas, passado ou futuro é a mesma coisa, nada nos é dado nesta vida e a misericórdia está lá junto com elas, as quimeras do impossível, pagamos tudo ao respectivo preço, misericórdia são as prestações, o fiado não existe e todas as contas serão saldadas, a cada novo ajuste da balança um novo ponto de equilíbrio e tudo recomeça do zero.
Tenho a imagem dentro de mim o tempo todo, a minha consciência é uma balança e a dor de estômago para lá do órgão, física só para que a sinta e não duvide dela, é causada pela visão do meu ser correndo de lá para cá, frenético todo o tempo para manter nivelados os pratos.
Acontece que no meio está o maior dos tabiques, de um lado o positivo do outro o negativo, separados por ele, nada passa de um para o outro, estão de costas voltadas, mas unidos pela espinal-medula, não são dois é um, partido ao meio. Não, não são simétricas as metades.
No dia em que as conseguir encarar de frente dir-vos-ei qual é a maior, também gostava de saber, provavelmente é essa a minha grande questão, aquela que terei mais dificuldades em assumir, nem sequer posso confessar que é, mas não a assumo, porque simplesmente não sei, também não sei porque é que não sei, como digo eles estão virados de costas um para o outro, o deus e o diabo dentro de mim, mas nem sempre, há alturas em que se buscam, roçam um no outro, grandes batalhas travam, por vezes até dialogam, mas a conclusões nunca chegam, ouve lá, quem é maior eu ou tu, nenhum dos dois quer ser mais pequeno e se o demo abre a boca e diz sou eu, o anjo responde sim pois, só se for em ignorância, todavia por humildade ou qualquer outra coisa não se atreve a dizer sou eu e assim continuam, e assim vamos andando, de lá para cá e de cá para lá, nunca estando em lado nenhum e sem estar em vários lados ao mesmo tempo. Isto porque embora não se misturem, as criaturas são solicitadas momento a momento, ora uma ora outra, sempre de costas voltadas. Jamais agem em comunhão, ao contrário, uma destrói a outra edifica, uma une a outra desagrega, uma compreende a outra mostra que nada está compreendido.
Depois há o engodo que não sei qual das duas morde mais frequentemente, uma porque morde tudo e depois filtra, a outra porque de tanto filtrar torna baço o que é translúcido e depois acende a luz.
A porta da sala está encostada. Do sítio de onde tenho os olhos vejo uma mulher de bata branca no canto direito, do lado contrário à abertura da porta, está encolhida, tem o cabelo preto, que embora amarrado lhe cobre o rosto devido à posição em que se encontra, vejo um outro corpo branco mas sem bata, está pendurado na parede onde tenho os olhos, é uma mulher, nua e grávida, é através dos olhos da mulher de bata branca que vejo que está grávida, de pele branca pálida, está presa, crucificada pelos braços pregados a uma tábua pregada na parede com pregos de aço compridos e frios a atravessarem-lhe a carne, sinto o frio e a dor com os olhos cravados na parede, não sei como foi lá parar, que pecado foi o dela, olha como eu para a mulher de bata branca, esperamos uma reacção que não chega, a mulher está grávida, entrou em trabalho de parto, chama baixinho pede ajuda, sussurra, a outra está perto o suficiente para poder ouvi-la, mas não reage, está aterrorizada pela visão da mulher grávida pendurada na parede, que chama, não cessa de chamar a ajuda que não chega, a porta está encostada não deixa passar o sussurro, entra um homem repara primeiro na mulher de bata branca, ele sabia que atrás daquela porta estava uma mulher grávida e outra de bata branca, iria pedir contas a esta última, verificar se os procedimentos tinham sido cumpridos, ela estática, nem uma palavra, os pregos saltaram, a mulher grávida fechou os olhos e eu antes de deixar de ver, vi os pregos saltarem, a mulher cair, os braços estendidos presos na tábua ainda, de pés assentes no chão agora, são os olhos do homem que me mostram, aterrorizados, porque não assistiu ao parto, fala para a mulher de bata branca, porque não assistiu ao parto, esta mulher está grávida, de onde veio a catana não sei, degolou a mulher de bata branca ali mesmo, a cabeça rolou, o sangue jorrou, vi com os meus olhos pregados na parede, a mulher grávida continuava a murmurar, ajudem-me vai nascer, o homem ouve o murmúrio finalmente, olha para ela de catana ensanguentada na mão e diz,
Demónio
E espeta-lhe a catana pela barriga, sangue e mais sangue, uma gota de sangue cegou-me, não vi mais nada.
Pouco a pouco se vai aprendendo, aceitando que eles têm razão, mudando os aspectos para que o aspecto mude, sempre disseram a mesma coisa, eu é que fui refutando sempre com teorias diferentes e práticas diversas, mas eles nunca se calaram e sempre disseram a mesma coisa e eu sempre a negar sempre a optar sempre a fugir, tudo o que procuro é o que eles me dizem e o mapa sempre esteve debaixo dos meus olhos para que o visse e o seguisse, um dia desenhá-lo-ei por completo, com os meus passos, quando chegar ao fim, se entretanto não houver fim terá havido um caminho e esse caminho estará desenhado, é o que importa.
Como dizer, apetite por destruição, frascos a partirem-se, líquidos derramados, caos profecias, onde está quem rogou a praga, reacções mecânicas quando tudo o que era preciso era um pouco de amor, consideração carinho um mimo, nada disto acontece, só raiva, só ira, só irritação porquê, de onde vêm estas respostas, a que se destinam, de um lado o saber do outro o agir, quando é que vamos dar as mãos, tudo se torna inútil tudo se transforma, perde o valor perde o sentido, onde está a evolução das coisas, populações, indícios de raça e de localização geográfica dos indivíduos, um traço apenas é o bastante para que os reconheçamos, este é dali aquele é daqui, inútil, pilhas de loiça amontoadas, desrespeito, descrença, desconsideração, omissão, não estou lá, não estou presente, não afago, não passo as minhas mãos pelo cabelo, quero cuidar, quero amar, mas só irritabilidade, temperamento irascível, ao menos histórias para fazer bem, ao menos um bom aproveitamento do dom, ao menos bem para alguém, só caos só destruição, só querer chegar ao fim do que não tem fim, só querer ultrapassar, nunca fruindo, nunca aproveitando nada do que se almejou, nunca amando, nunca passando as minhas mãos pelo cabelo e a loiça amontoa-se e o lixo, cotão formando novelos, papeis à briga num canto, redemoinho de almas em luta, cansaço e busca.
O espasmo do maxilar, o silêncio para não ouvir o que dizem as palavras frívolas, os sentimentos estereotipados, o cansaço, o silêncio para prevenir o cansaço, para não repetir como eles as palavras frívolas, para não me ouvir, negações, a síncope, o discurso sincopado, entrecortado, preciso respirar ar e outras coisas, encher-me de uma qualquer personalidade, estado normal sem escolhas, temos muitas personalidades dentro de nós, que vão aparecendo conforme as situações dizia ele, quem diria que diria tal coisa e a morte não é o fim, depois voltamos e somos pássaros ou pedras, pedras não, seres vivos, pássaros peixes e assim, dizia ele, silêncio para não o ouvir, negação a síncope derivada da negação, para nós que somos o que me custa admitir que somos, aqueles momentos não todos os momentos, quando me encho soa estranho pareço outra pessoa fico com outra personalidade, tira os óculos que ficas com outra personalidade, não me encho gaguez, não masturbação gaguez, negações disto e daquilo e a Palmira de cabelo ralo, couro cabeludo cor de marmelo, não gosto de marmelada, indivíduos de olhos pretos sem alma, bichos somos bichos, raparigas ensaiadas a mulheres, cabelos oxigenados e unhas cor-de-rosa esbatido, unhas grossas em triângulo tão interessante como as palavras de todos os dias e eu silêncio para as unhas e para as palavras e para os sentimentos estereotipados, o Maia a cicatriz, a face de nortenho mais pronunciada que o sotaque, como se distinguem os indivíduos sem que abram a boca, um traço dos muitos possíveis é o que basta, imortalizados estão, assim nasceram, não as pedras não os pássaros não os peixes os homens, bichos de olhos pretos sem alma.
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