Vamos aproveitar as pessoas, as palavras no ar, as milhares que são ditas, os extremos e o meio que os une que os puxa, o meio que os atrai sou eu, unam-se os meios em cadeia, forme-se uma corrente, vença-se o mal-estar, vamos encetar a luta, sem revoltas sem maldizer, onde está a força, onde está a anima, sempre à espera de algo diferente, sempre à espera, ainda à espera, daquele algo especial ao virar da esquina, do que não há, vamos fazer o aproveitamento possível dos recursos disponíveis, o melhor possível, com as coisas nos sítios certos, o caminho deixado pelas minhas pegadas, sempre um novo caminho, a fuga aos antigos caminhos já percorridos, eterno retorno, a dicotomia é omnipresente, é meu dever encontrar a coragem para ver sempre o melhor dos lados, descobri-la e desenterrá-la, a verdade, usá-la e reinventá-la, o amor, não fui eu que disse, foi o que eles sempre disseram, e eu procuro, incessantemente procuro, o que está debaixo de tudo o que eu pus por cima. Sim pois, sempre foi esse o meu objectivo, por sobre todos os meios o fim que é os meios, tudo é a mesma coisa.
Retraça uma bolacha Maria em dois minutos e não tem dentes, não sei como ela faz aquilo, o corpo humano é incrível, mas não está preparado para as estações diz a má-língua, se é frio é porque é frio frieiras e gretas, se é calor é porque é calor suor e afrontamentos, maldizer a vida e as criações do que criou, dor de cotovelo por sermos copistas, mágoa por não termos participação nesse acto, não, assim não tem sentido, ele sabe, a verdade não é essa, a criação foi outra, nós somos as criaturas o resto somos nós por aí abaixo, nós pedras e pássaros e peixes nós toda a hierarquia sideral mais os anjos, os que lá ficaram puros e imaculados também penam, também trabalham, esperam ajudam relacionam-se, haja ouvidos para os ouvir e boca para falar com eles, não sou eu que vos desejo, tendo isso não se pode ter outras coisas é a inevitável lei do equilíbrio e quem estaria disposto a trocar, agora que o juiz foi almoçar.
Relatar tudo imortalizar tudo para achar o silêncio, não sou eu que busco, imortalizá-los para os calar para descansar, o silêncio como descanso, porque não os posso mais ouvir não quero falar, negações que resultam em gaguez de tanto não querer me veio, por isto ou por outro motivo qualquer não importa, chega-te à frente ela é que sabia, encontro sem par, conjectura do impossível, se fosse faria e assim o que farei, sonhar para não morrer, sonhar para crescer, crocodilos em pântanos desde o principio de tudo, calcula lá a idade com que te respondo, ainda cheguei ontem e não te acato, como não acatei que ela não aceitasse, como não acato, tenho mal dentro de mim, domínio pouco e fora de tempo, não desesperes depois da morte mais qualquer coisa, pedras peixes ou pássaros passarinhos e passarões aves de capoeira e cucos, preguiça de me dar ás pessoas, preguiça de entrar nelas será preciso, será necessário e fundamental que assim aconteça, o pai esteve seiscentos ou oitocentos anos lá em cima à espera do outro lado, à espera sem corpo, à espera de corpo, a fazer ronha por assim dizer quando se ligou, ligou-se muito, será que inconscientemente pensa que é sempre assim, será sempre assim, será lícito não me ligar, será, desprezar comedidamente, ignorar, fazer ouvidos de mercador, silêncio para não os ouvir, surdo para os dedos grossos as unhas roídas, o cabelo seboso a caspa, o couro cabeludo cor de marmelo, não gosto de marmelada.
Traçar coordenadas sem nomes nem pontos, uma coisa defronte da outra, exposição aos elementos, alguém que entre e descubra, caçador de talentos ponte para a perdição, falhas de memória árvores genealógicas sem nomes, não tenho capacidade de sequencialização e custa-me assumir o que não assumo. Os filhos a distanciarem-se dos pais, a procurarem uma imagem a esbarrarem nos estereótipos a descobrirem a imagem que personificam numa gaveta num álbum com pó, teve doenças antecedentes na família, tons de voz caracteristicamente irritantes um pouco de amor como grão de sal em tudo isto, tinhas o braço preso não sei onde estavas-me a dar jeito a dar apoio ela é o braço esquerdo ou eu o braço direito dela, isso é outra coisa, a maneira como andas como pões um pé defronte do outro caracteriza-te, voltas-te é o frio que te prende os braços agora sei-o a mim greta-me as mãos seca-me os lábios as mãos não me greta ainda bem os antecedentes são de pele seca, estes tempos modernos em que os homens usam cremes também não ajuda são mais substâncias para que o corpo se vicie, descobertas no começo de mais um sol.
Eras a voz do meu eco surdo a blasfémia ao sistema absurdo, o ímpeto de revolta a chama da ira vociferada a irritação feita dedos grossos e pés de bico para fora e joelhos para dentro e nojo em forma de púbis. Adormecias-me alguns monstros na sua consubstanciação em ti, era um preço demasiado elevado, o equilíbrio dos pratos pesava-me como aqueles pesos de ferro que se juntam ao que se pesa. Agora veio-me o outro lado. Vejo porque veio até mim sem que eu pedisse, numa coisa que parece a quem está de fora uma relação de outros tempos, é a personificação do outro lado, mais alguns monstros com cara de bebé, a estupidez feita dedos grossos unhas roídas gordo balofo com espaços entre os dentes fala-barato isto e aquilo, o que faço agora com aqueles que estão ocultos, apetece-me gritá-los, trazer a tua personificação para junto de mim como uma projecção, mas o preço é demasiado elevado e repetir não é possível, tenho um mecanismo contra a repetição, outra coisa sucederá, tenho vontade e os obstáculos são muitos, mas não vou repetir, não vou pelos mesmos caminhos porque quero chegar a outro sítio.
Fechei a porta e atirei a chave fora, sei bem, ele sabe, que não posso dar abébias, que não posso dizer sim nem uma vez que seja, será interpretado como fracasso por eles, faltar-me-ão as forças e tudo descambará e irei parar ao mesmo sítio.
O discurso é igual ao deles, só que eu não sou um deles e não me distingo, estou no meio deles e não me distingo, só o tempo e a perseverança no caminho estreito me trarão o que quero, é assim, foi o que eles sempre disseram, será pelo caminho mais difícil, sem bengalas sem ajudas, mas com ajuda, através dos outros mas sem ajuda, se me entregasse nas mãos do catalizador seria o suficiente afastaria o monstro com cara de bebé ou não, seria irrelevante porque vestiria a pele do lobo e seria lobo e revelar-me-ia lobo e a paisagem o sol a lua e os astros seriam outros.
O que está de fora não pode influenciar o que está dentro. Tem que ser o que está dentro a lutar por ser o lado de fora sempre. Mas ela nunca conseguiu concretizar aquilo que é pensando, não porque não tenha vontade porque a tem e muito para lá do que seria necessário, mas porque nunca teve oportunidade, sim pois, pode parecer incrível, mas eu conheço-a desde a sua origem e é verdade, de um extremo ao outro e agora é isto, conheceu-o no autocarro, olho para aqui olho para ali e pimba até ao terminal beijos e tudo cru onde irá parar agora, se fosse limpar as teias de aranha e no outro dia nem o nome dela iria saber, e depois romances impossíveis e tudo por aí abaixo outra vez, paralelismos à parte, conclusões por agora ainda não. Nada pode alterar o teu estado de espírito, nada neste mundo o justifica, bem bastam as alterações de dentro que não são poucas e que muito te dão para lidar.
(Pratica este pensamento, pratica os pensamentos)
Mas ela nunca teve oportunidade,
(Não deixes de ser quem és, sê em função do que és e não em função do que os outros são)
A imagem do que personificas encontrada numa gaveta num álbum com pó, as coisas fecham-se a si próprias, não necessitam que ninguém as feche, estou a ver demais, pára chega mais não por favor, vejo demais, os vossos rostos feios as vossas almas feias os vossos sorrisos falsos, não vejo não vejo nada, deixo de vos ver, bradam as bocas palavras de nojo que não oiço, ao virar da esquina do abismo, mesmo a caminho de quem vai para a forca.
Eu sei que és quem dizes ser e que as portas não devem estar fechadas, sim pois, decifrar, há mal dentro de mim.
Terei com certeza muito para dizer a quem me quiser ouvir.
Terei ainda mais para dizer àqueles que nada quiserem ouvir ainda que não me oiçam nunca, o entrecruzamento breve de tudo sobre tudo.
Queres uvas, dá-lhe das dela das uvas da dona Manuela, apanha-as na sua videira nas traseiras do colégio, no primeiro andar vê-se a casa da minha avó o muro castanho, castanho não cor de pedra, daquela pedra que se esfarela quando passamos a mão, alguém tinha escrito a spray de cor no muro cor de pedra, o que escreveram andei anos sem saber porque não sabia ler, mas sentia-me mal com o que estava lá escrito embora não soubesse, não me lembro se perguntei à minha avó, sei que ela nunca me respondeu, só mais tarde quando aprendi a ler no colégio da dona Manuela vim a saber, pilas era o que alguém tinha escrito, meninos maus e crescidos que já sabem o que isso, e a minha pilinha é tabu para mim ainda, queres uvas, dá-lhe das dela das uvas da dona Manuela.
Habitáculos de seres que vivem a meio caminho entre a carne e o ar que é rarefeito, propostas indecentes de vida e de morte, constantemente tentados pelas mil caras do demo, a cada pulsar nevrálgico, uma existência feita de aparições meio encarnadas, de ramos no lugar de raízes e raízes que querem ser ramos. Promessas de pobreza fictícia heranças adormecidas de gente viva. Virar da esquina de uma inacessibilidade grotesca e fria como o aparecimento da poeira estelar, espirro colossal de uma criatura cósmica, bactérias fulminantes em vasos de cristal.
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