Minha mãe do céu virgem santíssima como vim aqui parar a este lugar onde tudo tão absurdamente me faz lembrar alguma coisa sem deixar de parecer réplica barata de coisa nenhuma, da ideia que tenho na cabeça do quão melhor poderia ser. Sempre, a cada imagem, a cada novo encadeamento de pensamentos, a cada recuar na acção, esse voltar para trás no tempo, essa memória de tempos idos, de passados perfeitos, que passa nas nossas cabeças. É um juntar de peças, é sempre a ânsia de qualquer coisa. É o converter naquilo que se espera, na demora das coisas que tardam. Aquelas coisas que lembramos desde ontem e que parecem morar num amanhã que nunca mais está para vir. Criaturas fedorentas e sujas sustentadas por ferros ferrugentos, ossadas putrefactas em movimento de vaivém para dentro para fora para dentro nesse desembarcar irreal de coisa nenhuma. Começo pelo princípio e vou caminhando, mas quantas vezes e quantos princípios já lá vão sem que tenha chegado a parte nenhuma, mais, quanto mais avanço mais tenho a certeza, sim, é directamente proporcional, de que nunca chegarei a lado nenhum. Vou chegando, chegarei apenas e só vou chegando, livre de tempos de espaços e de cadeados, vou chegando ao meu ritmo, ao ritmo de ninguém ao ritmo de nada, vou chegando onde tenho de chegar, rápida e assustadoramente por vezes, lenta e dolorosa e enfastidiantemente por outras, vou chegando activa e passivamente quem é a dominadora, vou mergulhando e pondo a cabeça de fora, com os dentes brancos marfim África Angola todos pró chão vem aí.
Sonho com domínios passados na primeira pessoa. Acredito num amanhã envolto nas trevas, num caminhar rápido do mundo e das almas para o sítio que devem ir. Se quiseres para se quiseres para o acaso, para um buraco negro, para uma força qualquer que nos atrai, é para lá que caminhamos, não, não vamos à toa, não vamos à deriva, evoluímos. Através de tudo, o meio, que provoca, que implora, exige demanda ordena impõe sorteia, o meio que é a causa das adaptações, mutações e evolução das criaturas, somos moldados em função do meio e quando não somos ou cuidamos não ser, cedo o meio nos mostra o contrário, ou nos pomos de acordo com ele ou então, atrasamo-nos nesse caminho, nessa procissão excursão romaria viagem luta labuta nisso que é a vida, porque no fundo é uma só coisa, que não era mais que isto, assim comprimido, e agora já vivemos de e para o comprimido, tudo é a mesma coisa. Pensar que existem infinidades de coisas, não, não é egocentrismo, não é, para além de nós não existe mais nada é tão-somente tudo a mesma coisa e não te assustes porque é mesmo assim, porque é que eu tenho o ímpeto de agarrar nestas coisas e pôr onde devem ser postas, porque este ímpeto de conferir ordem àquilo que realizo, àquilo que sei estar em desordem, como sei até onde é que vai, até que ponto é que não quero, depois modificar pela simples rotina, porque afinal tudo está mal, se não estiver do meu jeito, não, sei reconhecer o que está em ordem, tenho a capacidade de discernimento adjacente ao facto de ser quem sou, inalienável de mim, que jaz cá dentro como um circulo preto.
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