domingo, 27 de fevereiro de 2011

Diálogos

É preciso que consigas ouvir-te, eu te digo, não fui eu que disse, transe, qual é o sabor, onde estão os actos belos e a verdade, onde está, procura procuras procuram, pois só através de vós eu a encontro, em ti que carregas contigo a vida das couves, onde dentro de mim, também no reflexo que trago de vós antes de vos conhecer, quem és tu, só mais um pouco para te analisar, para te conhecer, para depois falar contigo, irmos onde não sei, vais a algum lado, quem sou eu, transe.

Vejo desenharem-se os primeiros traços da base de um ponto zero irredutível, um chão com o passado por baixo como uma massa compacta, um corpo um equilíbrio, sim não acção definição, as criações são injectadas de mim e só podem edificar, os outros devem ter o seu espaço para agir para ser para moldar o tempo gravando de si no complexo do mundo, os outros devem aceitar que eu grave, na proporção do que me é devido, o meu ser no complexo do mundo, tenha a humildade de saber que tudo é a mesma coisa, a capacidade de os amar e perdoar, quando não sabem. A excelência no cumprimento do dever, as linhas primordiais de uma personalidade reconhecida aos olhos do mundo na medida em que o ser se começa a cumprir por dentro secretamente, por fora desenha-se o que os outros vão pensar de mim. Nada conseguirei até que o desenho de mim se defina na mente deles e para isso devo ser dentro de mim sólido no equilíbrio entre o sim e o não, acção definição reacção umas para mim, sentidas por dentro, outras deles no complexo do mundo. Discernimento para saber quem é quem e o que projecta, para distinguir projecções de pensamentos meus, vê-los fundirem-se com pensamentos teus dele deles no complexo do mundo. Quem manda aqui afinal se todo o meu espaço é o meu ser permanentemente, ainda quando estou em vós o meu espaço é o meu ser, quem manda, mandas tu nesse espaço que é teu, ou manda a constituição naquele espaço de que alguém a encheu, quem foi ele onde está, quem acredita nos antepassados, respeito aos que já se foram, onde está o saber para decifrar os códigos, que pensaram, que ouviram a alguém que os leu outrora nos antepassados, aqueles que passaram naquele tempo que passou por eles e por nós que terá passado, se também nós pertencemos a esse passado porque passaram os antepassados pertencemos todos ao mesmo tempo, as eras os dias o ontem o amanhã tudo é a mesma coisa. Pontes de pedra arcos ogivais ogivas nucleares armas de destruição maciça era medieval escravatura idade das trevas terrorismo idade do ferro desobediência lei ordem progresso de onde, de onde vem, de onde somos, eu estou aqui e tu, planaltos através das coisas pontes pedras poços sem fundo acordos com os países de leste América África Angola todos pró chão, onde está qual é o sabor, que venham os cavaleiros da Távora redonda, os Vikings e o seu reino de gelo sem medo, machados machadinhas e dança da chuva, autóctones geração espontânea, ovos postos por galinhas malucas, todos pró chão não há agua quente, psicose denominação pergunto perguntas perguntam, onde está qual é o sabor, ele fala falará, carrega consigo o peso de tudo, aquele de que ninguém fala pelo pecado que cometeu e que todos sabemos, ele parte do absoluto e do relativo genitivo do mundo, carácter da posse possessão da vida morto dos mortos, aquele de quem não se diz o nome, e o outro, o que não se conhece o que se procura o que está no que não se descobre, a cada descoberta mais por descobrir, onde está o fim, o paradoxo é eterno e um só, a vida, metáforas para quê, as ervas daninhas chamam por ele, os bichos querem falar, todos partem para alguma coisa o que é o tempo, porque fico velho pelo passar dos dias porque há dias o que são as coisas, lagarta felpuda bicha-solitária barrigas inchadas pela fome e moscas como abutres de volta da boca, reinserção social, tratados de paz, apertos de mão, hierarquização das coisas, o absoluto o impossível como quando, mulheres de pele vermelha que olham a lua e dizem da vida, carregam com elas a sabedoria da terra para as covas, vala comum Ganges de tudo se torna pó corpos e sabedoria imersos nas águas sagradas e não lemos o que não escreveram, ouvido pelos olhos de alguém que lê ou leu ou tem o livro ainda, onde está, estão aí pois estão, intactos sedimentados nas tecituras que me seguram a cabeça autóctones, seres de outras raças libélulas gigantes poedeiras de raças, gentes sabedoria o conhecimento da terra, onde está, cinza caos destruição, mas será que a falha é minha, porque tu entraste em sítios de mim onde eu não estou e fechaste a porta e gritas-te coisas, será lícito, coisas que eu não pude ouvir porque fechaste a porta e gritas-te dentro de mim em sítios de mim que não habito, será lícito, um maravilhar-se com as obras de outro feitas pedra e betão, onde está, o capitalismo nos bolsos de uns o monopólio, maravilha-te e depois compra, compra, compra consome ó consumidor consumista consumismo armas de destruição maciça e rege-te pelas leis daqueles que eleges-te para teus governantes na tua democracia sociedade democrática hierarquização das coisas impossível, olho não posso ver, só não se pode ver, olhar sabe-se, acordo sei que estão no mesmo sítio, o que aconteceu, quem tem o ponto de vista de todos os que morreram, de quantas tragédias sucederam, de mais quantos sucumbiram ás armas de destruição maciça, desinformação, barrigas inchadas pela fome com moscas como abutres de roda da boca, pactos entre lobos, tratados de paz, canecas de beneficência, postais, manda postais, é a época da sua vida, compre acabe com as paletes encomende leve já pague em, leve tudo, acabe com isto de vez, de uma vez por todas acabe com isto e já agora corte o pescoço ao Arafat e agora Arafat será desta és personagem do nosso mundo oiço-te na boca das velhas que apanham sol na paragem da camioneta de carreira, mas não vão para lado nenhum, tu eras mau, mas o que vier a seguir pode ser pior, quem tem a visão global das coisas, quem pensa tudo o que se passou em mais um dia na hierarquização das coisas no complexo do mundo. Percebem. Onde estás tu que raspas-te o pau na pedra pau no pau pedra com pedra nesse acidente que fez faísca, que te deu para fazeres isso, quem te mandou, onde estás, anda cá anda ver o que fizeste, tens culpa tu, não, é ele, ele é que tem culpa e carrega-a como a cruz aos ombros em que se vai pregar, estará lá alguém para fazer cumprir a lei e os pregos quantos são, agora onde estão os crucificados e os anjos, quem fala comigo e porque é que as coisas acontecem assim e não de outra maneira, sopros, o vento, terá de haver uma boca, e tu quem és, de que se trata, relembra-me desses cheiros que nunca esqueci, dá-me visões quero desclassifica-las, isto é, desprovê-las do sentido de classificação que pré-concebi para elas, desfazer-me do preconceito do que são essas ideias e do que será vivê-las ou então admitamos que já vivemos tudo fomos tudo e pensámos tudo e que me lembro lembras-te, os cheiros relembra-me desses cheiros de que nunca me esqueci, desse sentir caracterizado no espaço pelas linhas e contornos dos objectos criados, então como nós somos o que criamos agora, a idade do ferro chegou.

O que é viver na idade do ferro ou ser um da idade do ferro, o que representa, compreendes compreendem, quem encheu os conceitos como temos acesso a eles, qual é o sabor quantos são venham todos que ele é o primeiro a fugir e eu quem sou, sou o que está à espera de vós, é por vós através de vós que sou. Situações graves gravíssimas, catástrofes naturais, terror pânico, medo o medo corrói a alma o medo que mais faz o medo sabes sabem, simbologias para nos entendermos, não estará na hora de criar uma simbologia nova que exprima mais alguma coisa do que esta, não estará, será lícito, que menospreze este dom que temos quem nos deu, deu o quê quem onde está qual é o sabor, parece que a ponte deste lado tem um declive, é olha tem musgo nas paredes acastanhado, clorofila, porquê o verde pergunto perguntam perguntarás porquê o verde essa cor assim, incomoda-me um pouco não poder mudá-la, pintar o mundo de matizes pulsantes, para quando um mundo que se torne carregado e cinzento quando trovejo e um outro como as estações qual é o ponto fulcral onde está, por vezes os sítios onde é suposto que nos sintamos bem não são aqueles onde nos sentimos bem e coisas que sabíamos fazer são esquecidas, parece que não nos deixam, teríamos que aprender tudo outra vez se quiséssemos exercer compreendem, não é que não se faça o mesmo ou que no fim não vá dar à mesma coisa mas a irritabilidade vem daí pró caso de interessar saber de onde vem, dessa ideia que já se sabe, mas o acesso está vedado por um trauma qualquer que não sabes quem o provocou, situação provocadora de ódio de raiva a quê a quem, no mínimo desespero sei lá, coisas desnecessárias. Mas não. Não tenho acesso, só se fosse de facto preciso e aí venceria pela insistência pela desistência desse alguém venceria que se ocupa em bloquear o que já está desbloqueado, como uma factura que é paga duas vezes, estar aqui ou ali torna-se irrelevante, não tenho medo, afinal o que é verdadeiramente, a borra preta na beira da chávena, limpo com o dedo, pensa o Sr. António, não, não limpo o cliente é novo, nunca mais cá volta, lá vou eu perder cinquenta cêntimos, manda o bom procedimento que assim proceda, outro café, enquanto este corre pela bica limpa ele as borras do outro, que se lixem os procedimentos afinal são cinquenta cêntimos e há-de vir outro que o beba já sem borra que a tirei com a unha que serve para tirar borras pretas das chávenas de café e borras pretas de outros sítios onde já ninguém mete a boca sou eu que digo, o Sr. António é mais velho que o Sr. António, tem a pança maior e mais dinheiro que o Sr. António, são tão marginais um como o outro, chateei-me com o Sr. António porque não cumpriu os procedimentos, aqueles procedimentos que um comerciante não pode deixar de cumprir, afinal a profissão que escolheram foi servir-nos ou o fazem bem feito ou então não servem, além de mais barriga mais idade e mais dinheiro o Sr. António tem mais espaço que o Sr. António, talvez o dobro, mais do dobro tem este espaço em altura e área, a localização é o que mais os dista, este está no calvário o outro num calvário, aquele alguém lhe pôs o nome não sei porquê, a este ponho eu porque ali carpi penitências em louvor do deus da resignação, àquelas paredes curtas (que caíram) àquelas mesmas vozes de todos os dias, às conversas arrastadas e repetidas vezes sem conta, à rotina a que as gentes se apegam, aqui a barulho de cidade, pouco cortado pela musica que o Sr. António mandou baixar, à brasileira que não lhe obedeceu, baixou-a ele, lá foi sem jeito atrás da mesa de mármore que não lhe pertence apesar de ser dele, a mesa de mármore tricolor com veios brancos preto branco e pardo a mesa de mármore, por detrás dela está a ausência de um DJ, de alguém metido a técnico de som, que regula o volume a grupos que dizem que fazem música ao vivo. Muito longe de ser está tudo isto, nem para lá caminha, contudo está e vive-se aqui. Vive-se aqui como se vive lá fora, fora de ser e fora da vida, à margem da realidade tudo corre nos carris da ilusão, as pessoas e os eléctricos os novos os velhos os autocarros e o sonho, tudo corre nos carris da ilusão e a realidade passa ao lado numa estrada que ninguém percorre.

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