sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Diálogos

Acordar e saber-vos no mesmo sítio, que o sono pode ter-me reparado e preparado e modificado, querer recomeçar ou começar mais à frente num outro ponto e ter-vos no mesmo sítio ou ter os reflexos de mim em vós, aqueles que esqueci reparei modifiquei com esta noite de sono, de que serve então se este eu preparado para começar mais à frente se vai encontrar convosco exactamente no mesmo sítio, ou pior se os vossos sonos não foram reparadores mas perturbadores, os reflexos de mim ainda em vós no mesmo sítio, só um momento para verificar se as coisas ainda estão no mesmo sítio, o espaço como a liberdade de ser um pouco mais à frente não há, se um não pára só um momento antes de invadir mais uma vez os domínios de outro, perturba-me, confesso-o, acordar e saber-vos no mesmo sítio, que o sono pode ter-me trazido vontade e sentires diferentes condenados pela vossa inércia pela vossa existência, como é grande o meu trauma de vós ó gente, por vós o caminho para chegar até mim, cá me ficam as reminiscências deste sono e do que foi para mim nas respostas aos vossos ataques, no combustível para a batalha campal no complexo do mundo, as vossas mentes projectadas na minha, os meus reflexos projectados pelas vossas mentes.

Mas todos os dias tiveram noite, noite de manhãs intermináveis e de tardes inexistentes, volto invariavelmente ao centro de mim, onde mora o único pensamento perfeito ao qual tenho acesso: nós.

(a obscenidade, a obscenidade, masturbação, ejaculação precoce, pêlos no céu da boca)

Lá, onde tudo o resto se ausenta e só estou eu, eu não me encontro, não estou, ausentei-me. Fui até nós e assim permaneci e lá permaneço, do centro à periferia. Do núcleo do primeiro átomo de mim às células mortas que me dão cabelo e unhas, nada me pertence, sou um usurpador de mim mesmo, o fim único o propósito último do meu ser é o que me guia,

(caos destruição desassossego ânsias angústia incoerência irritabilidade)

Estou para além dos pontos cardeais dos astros estou para além do sangue que me corre nas veias,

(quero estar quero estar quero estar sem ter de querer)

Quando deliberadamente me ausento das pessoas e das coisas é para me tornar impessoal ao ponto de deixar de ser gente,

(fala de ti fala de ti fala)

Passar a ser algo, numérico esférico espectral.

O mais é os reflexos deles até onde se contemplam no espelho de mim.

Desde logo a minha existência se fragmentou, desde cedo o um que sempre fui foi convidado a dispor-se em camadas, como fases como vidas como seres, num ciclo que não tem ordem a não ser no ter sempre sido e estado vivido de acordo com esse princípio irrevogável do apertado destino que me cumpre.

(destino, destino, destino, és destinado, pré-destinado é o que és)

Ideais idílicos tornam-se empreendimentos turísticos e barcos que levam rochas geladas ao fundo, eu sou um nado. A minha casa és tu. Eu e tu moramos na mesma morada. Quando um braço meu sente revolta e indignação contra o carácter tácito da natureza da vida, o outro braço teu colhe gotículas de orvalho que brotam de corações frios.

São os últimos raios de sol. Doiro-me na lembrança deles, projectada num futuro que já me corre em estado líquido no corpo, na forma de pequenas plaquetas nunca vistas, mas a toda a hora sentidas. É do meu, é deste nosso fenómeno que te vos falarei até ao fim. Parece-te, não deixes que te pareça, não prestes sequer atenção ao que digo, prestes ou não di-lo-ei, já sabes, bem alto e bem grosso para que chegue mais longe e mais acima onde todos os que têm ouvidos para o ouvir o oiçam é assim que falarei. Disto que não é senão um pouco ali um pouco aqui, não há perpetuações num dos lados, evoluções eliminatórias, a dualidade é perene e nada muda por fora, construam-se impérios mude-se de casa e de vida e de corpo, é a alma que é e o que é não vai directamente não sei para onde, permanece neste espaço onde as coisas são, o que está por fora é sim um reflexo do que está por dentro é de dentro que parte tudo, crê, sonha, não esperes que o algo te traga o que não há em outro lado senão dentro de ti, falo de ti falo de mim falo do que não sou, digo o que não sou, minto para me dizer verdadeiramente, o que é qual é o sabor, voltas e mais voltas pensava, que tudo iria mudar que iria ver a ponte o planalto depois da ponte a concretização depois da realização o fim e depois, não há mais nada para ser, nada de ignoto para ser revelado nada de oculto para ser mostrado nada depois de nada é isto agora e depois são um só, vê e crê dentro de ti a consubstanciação dar-se-á sem dificuldade, o deleite a irritabilidade das coisas, não obedecem, o contínuo não começa, a síncope continua, eterna, acordo e sei que estão no mesmo sítio e eu onde estou, de onde venho para onde vou.

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