Pedaços de veludo metidos em garrafas de vidro. Sonhos de gerações vindouras tidos em despertares tardios. Conversas que crescem como vegetais, sem saírem do mesmo sítio. Horrores escondidos em latas com rótulos azuis e apelativos. Pontes sustentadas no amanhã, realizações numa tarde acabada para que a vida continue. Calor e desidratação.
Esconde a tua cara não vá o diabo reconhecer-te e pedir-te um cigarro.
(quando o tabaco acabar vou-me embora, já tenho poucos fá-los durar)
Cada pontinha de desentendimento me sabe a discussão final. O tom da voz, a característica não reconhecida da pronúncia ribatejana, que representa tudo ou parte do que tenho aversão, a vida a estagnação o empedrado do tempo em que os cavalos puxavam carroças com fidalgos lá dentro, e os bois tractores com trabalhadores do campo, os modos o esquecimento a estupidez a ignorância as aparências a fachada de um nome da riqueza o tolhimento enchem-me de nervos que só contenho e não tenho porque sou maior e mais alto e faço dos nervos borrão com que vejo que sou maior (humildade, humildade, para que te quero, atenção) não que o não saiba não que o não sei, mas não suporto não tenho paciência irrita-me (porque é que as coisas não me obedecem, é preciso paciência, calma muita calma nessa hora atenção) dói-me o acordar e o saber a convivência forçada com aquelas paredes (acabarão em breve e depois) quero-me quero-te nada é mau mas estou farto. Contudo aguento um e outro dia aguentei não aguento mais, nesta sucessão dos dias que não acontece e vivo de extremos que oscilam numa corda bamba em passos tortos de escrita torta, afinal o que importa, sim pois, ontem era assim e fartava-me o acordar para aquelas paredes que não mais me aprisionam, é preciso que se diga, ser livre sem precisar falar em liberdade, tudo já está dito, tudo foi dito por alguém, então porque tenho coisas para dizer, porque andamos aqui em conjunto, porquê, pergunto perguntas perguntam, discípulos onde estão, estão aqui, eles que disseram de si, eu que digo de mim, todos que dizemos dele, neste momento caminho para onde não quero ir, no aqui e no agora que são um só, caminho para o que já passou, caminho para apagar o meu ser, amanhã será igual. E o que fazemos o que faço porque não abro os olhos abres abrimos e porque continuo a sentir que mais do que abrir devo contribuir para que abras abram. Permaneço lá dias inteiros em estado contemplativo para depois regressar carregado de dúvidas e respostas que não tenho capacidade para discernir, sinto-me forçado a confrontar o mundo com as minhas dúvidas e quero arranjar culpados,
(posso sempre encher uns cigarros)
Isto é inacabável e sou o que sou por ser isto é isto que sinto mais em mim como meu, sei que a minha missão passa por aqui,
(será que passa, destino, destino)
Masturbação, ejaculação precoce, a minha realização pessoal não sem o cumprimento da missão, ela está debaixo dos meus olhos e eu não a vejo.
Tenho as ferramentas para a cumprir e a possibilidade de realizar sonhos só porque posso sonhar. Quero saber o que me falta ou se algum dia saberei o que me falta
(e se não te faltar nada agora as paredes no chão agora destino)
Ou se sempre me faltará alguma coisa porque ninguém tem tudo, não posso esperar ter tudo para começar alguma coisa e agora tens paredes deitadas a baixo tecto paredes, mas não sei o que começar, começar o quê, como se fosse agora ou ontem o momento de começar alguma coisa, trabalho, muito trabalho, ordem e disciplina, sim vem sim virá, agora que é precisa agora que pode vir o que tiver de vir virá, sim e o cumprimento e a realização. Vou andando assim no meio, sem saber o que está nas extremidades ou será que ando nas extremidades sem saber o que está no meio ou as duas coisas, calculo que sou eu quem anda de encontro a mim e que tudo não passa dessa viagem que acabará quando começar a ir de encontro a ele, será que acaba será que perenemente não caminharei de encontro a mim e a ele como não, não posso esperar ter tudo para começar, começar o quê, falta o sentido oculto que as palavras não exprimem, falta descobrir a maneira de o revelar, ainda vos oiço entrar ainda oiço as chaves a meterem-se à porta o recolhimento de anos traumatizado como que tatuado quero sentir o que ainda não posso, pois claro que as coisas não trazem por si a modificação pois claro, sim pois, tudo está aqui cá em cima neste sítio que alguém chamou de cabeça, ou então não, aí, mais dentro mais profundo, fundo, na alma, revelar, revelado a mim estaria revelado então e não nos é revelado na medida do que podemos discernir, como posso eu querer sentir coisas que não estou preparado para sentir, como se ainda vos sinto meter as chaves à porta, eu a recolher-me a meter-me dentro dele, eu dentro dele, aprisionado por mim eu, as paredes ainda não caíram, o tecto as paredes, ainda não são minhas, o tempo o tempo o tempo, ele quem dá e tira só ele, então esperar, esperar porquê, não que as coisas nos tragam o que não encontramos não, tudo está cá dentro neste sítio que alguém resolveu chamar de cabeça, vem detrás sim tudo vem detrás, dos latinos, há qualquer coisa para fazer que só eu posso fazer, é isto que sinto e sei que é verdade ou isto ou nada ou sou mentira, quantas vezes me pus em cheque quantas vezes, será lícito, mentira só mentira e não verdade, parece de noite ai que tempo falar de tempo falar de mim falar das coisas falar de quê afinal falar, mentira só mentira e não verdade mentira e ser mentira é tão, tão, sinto-me tão quando minto, mas mentes, não, só eu o assumo não eu. As pessoas, para que servem as pessoas, a vida é quem ensina, quem disse não fui eu que disse onde está a vida onde está o conhecimento quem é que ensina a vida as pessoas a vida está dentro das pessoas e são elas que, é através delas que as pessoas, o conhecimento a vida, percebem.
As pessoas a vida a luxúria a gula pecaminoso o que de pecaminoso temos, penso em mim penso em vós pensarei, é licito que pense, até onde poderei pensar-vos, o que poderei fazer por ti, por quem me tomo, quem és tu, então em que ficamos, qual é o sabor, onde está a conduta, sabes leste ouviste a quem leu, qualquer coisa que impulsiona, viver é fazer qualquer coisa, ser o que é quem és quem sou, tu e eu onde vamos, o que queres de mim, sozinho duvido e tu tens certezas, vamos onde, onde vais tu, saberás, posso desejar-te boa viagem, caminho esse cada qual tem o seu, ou não, ou saberei eu mais do teu caminho do que tu, seria bom teres-me a mim e aos meus por perto, aos meus como teus, todos para irmos onde, qual é o teu caminho, por onde vais, queres levar-me contigo, será lícito, sozinho tenho duvidas quem és tu, que mas vais tirar, vamos onde pergunto perguntas perguntam vão onde quiserem eu fico, a ver-vos passar.
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