terça-feira, 21 de janeiro de 2025

A Ardósia

Aquilo que nos faz mover, o que é? O que é que sustenta a vida?
O desejo de afirmação, a possibilidade de sermos quem realmente somos até ao limite das nossas capacidades, das nossas forças.
Onde está o entusiamo? Como o encontramos?
O entusiasmo estará na escolha que melhor reflete a nossa verdadeira essência, através do exercício do livre arbítrio.
Porque é que o entusiamo não é duradouro?
Porque é que entramos mais facilmente em depressão, porque nos entregamos à astenia, porque nos ausentamos ou nos refugiamos no passado, porque escolhemos sempre o caminho mais fácil?
Entrega não é isso! 
Sem a nossa ação a vida caminha naturalmente para o declínio, para a morte e para o caos.
A ordem tem que ser imposta, o amor tem que transmutar o ódio, a luz sobrepõe-se à sombra.
Porém somos livres para errar, para falhar, para escolher o mesmo de ontem, negar a verdade, vivermos vidas de pasmaceira e tormento.
Esta liberdade suprema é difícil de entender. Seria mais fácil se a vida viesse com um guia ou manual de instruções. Mas não vem.
Cabe a cada um de nós encontrar o seu caminho, encontrar-se.
Parece-me que o mais importante neste momento será mesmo aprendermos a relaxar.
Qual é a dificuldade perguntam? Quando foi a última vez que estiveste relaxado?
Há sempre uma preocupação, então, temos que deixar de nos preocupar.
Preocupar significa ocupar-mo-nos das coisas antes delas acontecerem.
Não há qualquer benefício em fazer tal coisa.
A mente parece fugir, querer saltar galgar o tempo, para agarrar muito depressa as coisas, para acabar já, o que ainda nem sequer começou.
Para quê? Para descansar? 
Inútil completamente, porque a seguir a essa coisa, a essa tarefa, a esse compromisso, a esse objetivo, virá necessariamente um outro.
Então vamos dar início ao processo, o primeiro a manifestar-se é o medo de falhar, de não conseguir concluir a tarefa proposta. De seguida vem a vergonha, ou o medo da reação alheia, será que alguém está a ouvir, o que vão pensar, o que vão dizer, de que forma é que isto vai alterar a perceção ou a imagem que têm acerca de quem sou. Entretanto o medo já abriu espaço para a dúvida, e a mente já foi inundada das preocupações do dia a dia, dos teres de, dos afazeres que por sua vez trazem consigo a ansiedade e o desassossego. 
Este conflito causará o cansaço que nos fará mais uma vez protelar o processo.
Então paramos para sentir. A mente inunda-nos de imagens, pálidas representações das emoções que ainda nem começámos a perceber.
Memórias associadas a crenças a sistemas de crenças que nos prendem ao passado e nos impedem de ver com clareza, as perguntas, e a maneira como se fazem as perguntas, o que se pergunta e como se pergunta, especialmente quando estamos a falar com alguém que dizemos amar, respeitar, considerar.
Se não cuidarmos das perguntas que fazemos não estamos a respeitar considerar nem a amar.
As perguntas são uma ferramenta para exprimirmos a verdade, para descobrirmos a verdade para separarmos a verdade da mentira.
Se não formos totalmente verdadeiros na nossa pergunta vamos obter uma resposta difusa, desviada, que nos vai conduzir a mais ilusão e confusão.
Qual é o meu papel em tudo isto?
Haverá alguma coisa, ou conjunto de coisas que só eu posso fazer?
A noção do eu, da individualidade, da originalidade importam?
Onde estão as fronteiras da minha individualidade?
O que faz de mim aquilo que sou?
Porque é que eu sou diferente dos outros, assumindo que sou diferente e separado dos outros e se não for, e se for a mesma coisa, e se a individualidade for uma ilusão e aquilo que sou for nada?
Nada no sentido em que a verdadeira essência do que sou, somos, é o tudo, sem barreiras nem fronteiras, eu como toda a sociedade, eu toda a humanidade, eu todo o universo.
Todas as hipóteses estão em aberto, a liberdade toda, tudo.
Quero resolver tudo muito depressa para descansar, quero acabar com as dúvidas para começar a viver, quero chegar depressa ao ponto final para que depois aquela sensação gratificante de ter acabado, de ter chegado a algum lado de me ter cumprido.
Na avaliação do que fiz retorna a insatisfação da mediocridade e a certeza de que o processo se repetirá até que a perfeição seja atingida.
Porquê?
Porque não aceito nada menos do que isso.
Porque em cada falha há uma oportunidade de melhoria,porque em cada ponto poderia ser acrescentada mais qualquer coisa que tornaria o todo muito melhor e então aí sim me cumpriria e encontraria essa sensação de satisfação.
No fundo o bem estar é o que eu procuro.
E o simples ato de o procurar faz com que me escape permanentemente por entre os dedos.
É sempre a recompensa que está no fim do dever, deveres que se acumulam e que nos trazem o direito ao descanso, que nunca chega.
Algo está fundamentalmente errado, a estrutura precisa de ser repensada.
Os alicerces terão sido erguidos no sítio errado e agora?
Está errado procurar, é inutil procurar?
Na volta das coisas concluímos que o procurado sempre esteve no mesmo sítio de quem procura, não fora mas dentro, não nos outros mas em nós.
Mas parece que estamos viciados neste modus operandi, não sabemos fazer doutra forma.
Falta sempre qualquer coisa e estamos sempre a caminho, constantemente em luta e em conflito, divididos e perdidos, cheios de medos e receios, irritações e dramas, estremecendo por inteiro a cada vez que nos tocam à porta.
















 





 




 


 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Diálogos


É mais do que um sentimento, é uma necessidade.
Algo de ignoto, mas que tento descobrir, que se me confronta com o passar do tempo, consoante a maneira como reajo, as escolhas, as decisões, a inércia ou a vontade.
Vontade de fazer algo, vontade de voar de crescer de esticar de ir mais alto, ver mais além, equilibrar os opostos, racionalizar sem deixar de sentir, unir construir fruir.
Trabalhar para alcançar objetivos, concretos e definidos, palpáveis, porém iluminados pela verdade.
O processo é contínuo, a luta aparentemente interminável.
Porém, para lá dos obstáculos, para além das peças irrevogáveis e dos peões obstinados existe o amor. Essa força benigna que só descansará quando todos passarem, que não se contenta em estar sozinha, precisa acarinhar afagar abraçar, dar de si ao mundo aos outros e à vida, numa simbiose que define quem vamos sendo. Definir quem somos encontrar a verdade no mais profundo, acreditar que somos merecedores e portadores de algo único, todos, cada um de nós, é um salto de fé a que a vida nos obriga, porque nos dá a hipótese de escolher o contrário e de nos enganarmos, ludibriarmos, cuidarmos que é isto e afinal pode não ser bem assim, incoerências e incongruências de quem se perde em si mesmo, iludido pelos reflexos opacos dos outros, deslumbrado por promessas e facilidades sem consequência.
Ó consciência de mim, ó capacidade de discernimento, de a todo o tempo distinguir, racionalização do absurdo, sem sentir nada faz sentido.


segunda-feira, 23 de abril de 2012


Para acordar um dia e ver que foi passada a fina divisória, perdi o medo e agora vou de encontro ao mundo, saio do que já não me basta e vou à procura, assumo finalmente o que sou como garantia para ter aquilo que quero. O tempo perde o significado quando fecho os olhos e assisto ao desfilar de memórias em sequência, a minha cabeça ignora o tempo, apresenta-me imagens com vinte anos seguidas de acontecimentos com meses, vou aonde é preciso para me justificar, para trazer explicações, vejo-me outra vez a dar concertos em pelota na varanda de casa dos meus pais, vejo o prato do giro discos a voar ao contrário, do quintal para onde o arremessei direto para as minhas mãos, que o agarram (sinto-lhe o cheiro novo a borracha) coloco-lhe em cima a agulha, os riscos dos discos são os mesmos, a música o conforto de algo que não se descobre só se relembra, em cima da cama de olhos postos na televisão minúscula, (posso levar o rádio para o meu quarto) a comparação só agora faz sentido, tudo o que tinha era tudo o que queria e o sonho ajudava-me a adormecer. Quem é este rapaz com que andaste a rebolar na lama, pé ante pé com os ténis na mão ocultos para o bidé, será que me escapo de cumprimentar a tia, porque é que não a beijaste, cheirava mal, a primeira e única que me lembre estalada paterna, a materna alguns anos mais tarde, não consigo lembrar-me o porquê, sei que nessa altura era outro indivíduo, como se ao longo da minha vida tivesse sido milhões de indivíduos diferentes, e não apenas um que vai progredindo, porque é ilegítimo falarmos de progresso, se tenho memórias onde o meu conhecimento de mim mesmo era muito maior, onde a minha segurança no mundo era a que me pertence, hoje sinto-me ausente e cansado de revisitar sítios onde já não caibo. A imagem que criaram de mim tinha uma folga que me permitia uma zona de conforto e uma margem de erro superior ao normal. Não tenho capacidade de discernimento suficiente para perceber se o mérito é meu ou ilusão de quem a criou, talvez uma mistura de ambos, o que é desconcertante é que entre portas o jogo de espelhos não funciona. O que fica é uma coisa estranha. Algo de irreconhecível, porque me tinha habituado a reconhecer ao espelho aquilo que queria ser, agora olho ao espelho e não me reconheço, só vejo distância, vejo possibilidade e trabalho, vejo um caminho que já percorri e não consigo encontrar o sentido para continuar. Sinto nos olhos de alguns agora a confusão de quem não sabe muito bem para onde olhar, e só aqueles que conseguem ver para além disto me fazem continuar. Quero acreditar que ainda há um propósito guardado, o futuro está velado, umas quantas folhas em branco que temo serem poucas, faço contas de cabeça e tento continuar a espantar-me com o que há-de vir, análises mais ou menos profundas que me encontram em negação, sem vontade nem saber como continuar, o que fazer – já tiveste momentos em que estava tudo lá menos tu, e eu a mim parece-me que ainda me vejo a percorrer uma avenida deserta (as gentes enchem os espaços para lá de portas fechadas) de mãos dadas contigo a prometer-nos incondicionalidades, a crispar no topo da onda e a pensar para dentro: agora é que a vida vai começar, agora que encontrei aquilo que procurava, lamento mas ainda estou no mesmo sítio, a pelicula desenrolou mas eu apaguei-me de todas as cenas, talvez não quisesse ter ido por onde fui, talvez não soubesse o que fazia, talvez seja insatisfação mais do que qualquer outra coisa, vislumbro hipóteses no painel, informação que extraio da minha leitura diagonal das coisas, atrevo-me mas só ligeiramente a experimentar para ver se resulta, mas desenho diversos obstáculos ao mesmo tempo com o intuito parece-me somente de não conseguir só mais esta vez, porque ainda não é, ainda não está, nada mudou, que o tempo passe só mais um bocadinho, um pouco mais de descontrolo, de emoções que não quero sentir exprimindo-se, fica ridículo não sou capaz de negá-lo, quando afirmas – isso é ridículo. Os desejos que ainda não foram satisfeitos encabeçam o topo da minha lista de prioridades, a par com a espera passiva pelo fim do mundo. Voltar atrás talvez, pegar de onde as coisas ainda pareciam fazer sentido, mas continua a faltar qualquer coisa, puxo pelo cordel atado no tornozelo, puxo nem me preocupando em desfazer os nós que o tempo enredou, a certeza de que não se irá partir, a esperança de que na outra ponta estejas tu, e vamos outra vez dar as mãos e caminhar, atraídos pelas necessidades comuns, felizes pela partilha que nos alimenta e nos assegura que não estamos sozinhos e que não acabou ainda – podes sempre agarrar as rédeas da tua vida, assim te consigas esquecer dos nomes com que os outros batizam as tuas ações, assim que encares o mosaico na ordem que lhe é devida e não no caos que aparenta. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Plano

Há uma distância entre mim e as coisas que é como se estivesse de dentro de uma redoma de vidro, que todos os sons abafa, imagens esbatidas e sentimentos difusos, sei, com a pouca razão que desenvolvi (ou será apenas senso comum, aprendizagem do tempo) que devo sentir e reagir a determinadas coisas – reage pá, não reages? Não, nem à interrogação direta reajo, estou por detrás da redoma e o que me afeta são as consequências das poucas coisas que fiz ou disse, a rebolarem em circuito fechado dentro da minha cabeça. Ao resto sinto como uma película, um enredo de um filme que não escrevi, e só me ocorre pensar outras maneiras de as coisas terem acontecido, impacienta-me o narrar dos factos sejam eles quais forem ou qual pareça ser a sua relevância aos olhos de quem os escuta ou narra. Palpita-me que também isto deve ser consequência de alguma coisa, mas perceber de quê deixou de fazer sentido. Estarei a falhar, estarei errado, estarei perdido ou muito perto de aceitar que tudo o que poderei fazer são perguntas, e estender enormes folhas em branco no chão à espera do momento certo, como que planeando acontecimentos que pela mão dos outros ocorrem, deixando-me a sensação, que nego, de que se tivesse agido poderiam ser diferentes. No entanto quando observo e me vejo forçado a interagir em consequência das ações de outrem, sinto a alegria de quem desaperta um laço sem rasgar o papel, de quem descobre a embalagem intacta que não quer abrir, coleções de artigos sem uso, mas belos, de prateleira, num museu da realidade onde a tudo posso observar, no silêncio de uma sala raras vezes aberta ao público. A necessidade de agir, ditada pelos trâmites do convencional, provoca-me uma ansiedade que vai ocupando diferentes posições de acordo com uma ordem de prioridades, estabelecida pelo confronto da escala de valores contra aquilo que me faz sentir bem. No horizonte sempre a hipótese de querer mudar tudo, tudo muito bem explicadinho, assumindo a falta de interesse e a falta de opinião, a incapacidade de filtrar a informação, mas o eterno interesse nas formas de expressão, a atenção completamente focada num discurso revelador, a cópia e reprodução instantâneas dentro da minha mente, que terão alguma outra utilidade para além de me entreter, de me fazer sonhar semiacordado, ou limar as primitivas ferramentas de comunicação, aprendizagem continua ou estupidificação constante, escolhe o teu caminho e verás, até onde vai o livre arbítrio, quão importantes são as escolhas que fazemos na vida, por quantas gerações ecoarão, água dura em pedra mole, aquele pequenino – o mais escondido e renegado sonho, tudo treme só de pensar nele, tudo é posto em causa, a dedicação, as escolhas, as implicações o medo – ninguém compreenderia, as provas só depois da obra feita, prestar provas, o ter de provar aos outros a sustentabilidade de um caminho, de uma afirmação, o perigo, aquilo que fica para trás, o que não se cuida, - porque é que fugiste nos momentos cruciais, desculpas, intrincam-nos as escolhas que nos afetam, urge ainda e sempre qualquer coisa, parece que uma nova possibilidade se desenha, assim está prometido, é esse o lado positivo da questão, acordar e de novo um leque em branco de folhas humedecidas a 77%, explicações quanto baste, há coisas que entendemos sem explicar, no entanto o problema persiste, haverá muita gente à espera, carregando consigo qualquer coisa de latente, por não saber como lhe chamar dão-lhe vários nomes, repetem-se referências, buscam-se significados, tentamos adaptar textos antigos a realidades modernas, tentando perceber o que se passa, de onde vem a informação que se torna excessiva, ainda que filtros que reduzem e agora excesso de filtros também, demasiado centrado em coisa nenhuma, ou então demasiado genérico, relevando a culpa, significa não saber para onde ir, agora que todos os caminhos são possíveis, para existir um alfa tem de existir um ómega, será fino o equilíbrio ou será que o caos é exponencial, uma espiral que cresce à medida que nos afastamos do centro, estaremos num ponto de viragem, conseguiremos assumir que não sabemos o que fazer, muitos conseguem afirmar, não, não é por aí, este sistema não resulta, vivemos uma plutocracia, desde quando, todos sabem afirmá-lo, desde quando são os mais ricos que governam o mundo, desde quando, riqueza é igual a poder, desde quando os subjugados lutam e se revoltam, desde quando, pequenas vitórias para que a cabeça pouse tranquila na almofada, até quando, os ciclos que permitem sempre que voltem, que voltemos ao mesmo era após era, a resposta está-nos debaixo da língua, faltará a coragem de dizer o que não queremos ouvir, fazer o que tem de ser feito, queremos o quê, porque é que é pretensioso falar no plural, se tu e eu somos um, ergamos agora a nossa voz naquilo que nos une, a vontade de sermos livres.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Plano

A expressão da verdade horizontalizou o chão debaixo dos meus pés e trouxe-me um equilíbrio que me permitiu olhar para cima, senti-me pequeno por perceber a distância, o caminho a percorrer, porém a linha é demasiado fina, o progresso algo ilusório, a construção algo de instável, uma estrutura frágil que treme ao primeiro abalo, mas desta vez percebi com o sentimento próprio de aquisição de quando percebemos realmente alguma coisa, a inutilidade de encher um buraco sem fundo. Para se erguerem fundações é preciso uma base, para construir um castelo é necessário um chão firme em que assente a primeira pedra. Os avanços e recuos provocados pelas intempéries que frequentemente não passam de pequenas brisas, vão desgastando o solo, e nada se constrói, coloco agora em causa a própria razão da obra. Considero que não estou disponível para ceder à instabilidade, pondero na reflexão que me trás o que corre dentro de mim nas palavras dos outros, um espelho desagradável que partido de raiva trás sete anos de azar. Parábolas para generalizar e não gravar os verdadeiros nomes na pedra, para assim permitir a transmutação das coisas ainda, numa última tentativa de reconstrução da obra. É extremamente difícil conciliar esforços, a ignorância de mim multiplica-se por mil quando refletida pelos outros, na hipérbole dos pontos fracos, no realçar da indiferença, as necessidades tornam-se uma canga que arrastamos como condenados pela vida, numa luta sem fim para provarmos aos outros, para ganharmos o espaço, para nos sentirmos bem. No fundo tudo se resume a isso. Precisamos de nos sentir bem. Nascemos, - a menina caiu na sanita, eu gritei e a irmã estendeu a toalha no chão, e logo a seguir choramos – abrimos a goela e gritamos, emitimos o primeiro lamento profundo, primeira declaração ao mundo da impotência perante as nossas incapacidades e da dependência dos outros para prover às nossas necessidades. – Quando pensas que foges do teu caminho é quando estás a ir mais a direito por ele, portas que se fecham, janelas que se abrem, num plano ignoto que não domino, mas no princípio uma certeza, o valor mais alto – bem-estar. Abrimos os olhos e precisamos, assinamos um contrato ou serão vários, contraímos uma dívida e dentro de nós o sentimento de dívida até à morte. Assim sempre que queremos fazer algo verdadeiro, amar verdadeiramente, dar sem esperar receber, ouvimos o sino da mulher vendada e esperamos para ver para que lado pendem os pratos da balança, o deve e o haver. Quando algo não corresponde às expetativas afirmamos – mas que mal fiz eu, e temos alguma dificuldade em aceitar o bem que nos acontece sem pensar – ninguém dá nada a ninguém, boa coisa não vem aí, será que eu mereço isto, não posso aceitar, - quem escreveu este contrato, porque é que tem que ser assim e porque é que tenho tanta dificuldade em aceitar isto e tantas outras coisas primordiais e inevitáveis. – És um indagador, porém é só de respostas que se alimenta a minha chaga, a que me puxa, a única coisa que me tira da inércia, a necessidade de me responder, por isso nem que suprisse a todas as minhas necessidades imediatas e materiais continuaria a sentir-me mal, ainda que sentisse que alguém me retribui um amor bonito e incondicional, ainda que vivesse agora o que ontem sonhei, ainda que tudo isto fosse verdade, as perguntas continuavam a morder as respostas que não sei dar. A inquietação a privar-me do sossego, a fasquia demasiado alta onde tudo o que tenho de garantido é o fracasso, a desilusão e a consequente frustração. Não acredito em muita coisa. Duvido daquilo que tu consideras factos. Todos os dias ponho em causa a minha existência, todas as horas a tua. Questiono-me depois de cada momento – o que foi que eu disse, será que era isto que queria dizer, será que perceberam o que eu disse, como será que o poderia ter dito melhor, - disse que vos ia mandar calar, continuo a querer fazê-lo, embora continue com medo que depois, no silêncio me esqueça do que ia a dizer, e então aí nunca mais resultaria, porque parece que há só uma oportunidade, depois perde-se o crédito, fica-se em dívida, e que trabalheira para provar então que se é merecedor de uma segunda oportunidade, que nunca vai ser igual à primeira. Talvez seja por isso que ainda não vos mandei calar. O medo – instinto de sobrevivência, tranca-me as cordas vocais.
É por isso, a distância entre o que não disseste sentir e o que eu deveria ter dito, que elaboro diversos cenários possíveis para expressar o que quero, o que acho que devo, mas faltam-me personagens, falta-me um adereço qualquer, - torre de babel, com escadaria em caracol por fora que sempre se constrói, para se ver desmoronar, degrau a degrau. No entretanto ficaram as falas em repetição, até que uma nova situação se apresente para de novo todo eu ser problema outra vez. Não fica espaço para mais nada. Um pequeno ponto irresoluto uma qualquer coisa que não se disse, uma ideia que sei errada na cabeça de alguém, uma imagem que se figura assim com exagerada predominância, não deveria estar tão preocupado – dizem, mas isto que tenho deve ser diferente de preocupação, isto que tenho sou eu a viver a vida dentro da minha cabeça, onde seria de esperar que pudesse controlar a ação ou escrever o texto, mas as palavras são um produto, e há qualquer coisa que se desfaz para as produzir. Assim tremendas oportunidades passam por mim para revelar quem sou, no entanto, como não sei porquê, não estou todo no mesmo sítio ao mesmo tempo, - viras bola de pelo, e as palavras continuam a ecoar na minha mente e eu todo respostas num sítio, como um mármore à espera de ser talhado, o artesão está na pausa para o café, e a criança brinca com o cinzel – passa-o de uma mão para a outra, cai no chão, o barulho férreo contra a madeira flutuante é como um sino e desperta-me e revolve-me, quero todo eu ser músculo e força, para gravar qualquer coisa na pedra, para que não se desperdice inteiramente a energia queimada. Revisito vezes sem conta as imagens que a minha memória guardou daquilo a que chamam realidade. Agarro os sentimentos naquela hora diluídos pelo enleio e abro frascos que os tentam conter para descodificar o sentido do que então não percebi. Isto seria substituível por ações várias, como perguntar ao sujeito da dúvida a razão das palavras que disse, ou dizê-las eu, as várias hipóteses de resposta que assumam à minha mente, mas não sou capaz disto porque não me tenho todo na hora real, vejo-me disperso nos gestos que observo, oiço-me no catarro – Lolita, vejo-me no dedo embrulhado protegido da raiva, raivinha de dentes, nas mãos sapudas que teclam com cadência, o gélito das unhas contra o plástico das teclas, os rolos onde se digita de tudo, porque dois mais dois pode não ser igual a quatro agora que a cabeça já não é o que era, porque decénios de desinformação e estupidificaste talvez, esqueceste-te de como se resolve um problema, talvez seja eu que não queira, terá sido porque não quis porque fiz força, porque de tanto apagar e voltar a escrever agora espaços em branco, desfragmentação, para que os pedaços de história possam fazer sentido, como abrir o cofre se parece que o tesouro foi roubado, um bivalve que esperamos pacientemente que respire para vermos a pérola, para descobrir que não tem pérola, quantas cascas deitaremos ao mar até que pérola, concha fechada, ostra, - agora já não me preocupo, tive que passar pelas coisas para perceber, afinal a experiência é a sabedoria que a alma comprova, no entanto parecem intermináveis os ciclos, polpa de fruta que espremo na esperança de manter a correr o rio, gota a gota.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Plano

- Tentar perceber o que se passa, usar das ferramentas que tenho ao meu dispor para descobrir a verdade, quem pôs as barreiras no sítio em que estão, vivo num tempo que não é o meu, olho da janela do sítio onde estou, para um espaço, uma coordenada com um nome que ainda não consegui fixar, terei sido eu - de caneta na mão sobre um papel em branco, que desenhei as impossibilidades, que tracei limites que defini fasquias, quem mais, que outro, onde está o direito e a quem o compete mais senão a mim – fechas os olhos e eu não existo, fecho os olhos e és só tu, e o mundo inteiro é apenas um sonho que vou tendo, uma imagem demasiado complexa para que consiga decifrá-la, fecho os olhos e desaparece, torna-se sonho, abro os olhos e vejo possibilidade, - e tenho que vê-la através do plano, tenho de colocá-la num plano horizontal estendido para perceber de que se trata, desdobro o mapa em cima da mesa e aponto um ponto em branco – a folha está em branco, porque tu não viste o meu desenho. Porque eu ainda só o desenhei na minha cabeça. Já te podia falar dele, e descrever-te a última linha, dizer-te como tudo vai acabar, mas tu não acreditarias em mim. Por isso não me importo que digas que a folha está em branco, vou tentar aprender a desenhar de maneira a que tu vejas, de outra maneira de que irá servir eu ter sonhado, abro a janela e é o meu mundo que está do lado de fora, e chegam-me notícias vindas de longe, observo também eu de muito longe uma realidade que não reconheço, tento perceber filosofias que não me dizem o que quero saber, como vou saber se dizem sem perceber o que dizem, compreendem, como podem ter a certeza, como podem opinar, como podem dizer – ah já percebi, e agora vou usar sabiamente o conhecimento que acabei de adquirir e vou sedimentá-lo em mim e produzir já uma conclusão com ele, que, quando te for explicar, vou fundamentar com outras coisas que já tinha percebido e das quais também pude concluir que fariam parte disto que quero dizer e que agora pretendo explicar e por isso vou-me lembrar de juntar os diversos pontos em comum, abrindo pontes, girando os ponteiros ao contrário, - é no sentido dos ponteiros do relógio, filtro a realidade através do meu plano, porque afinal eu estou dentro da minha cabeça, quase o tempo todo, tenho que sair por vezes para ir atrás de mim, que saio para me esconder noutros sítios, locais de vós onde por vezes de tanto passar vou ficando, agarrado às paredes e ao chão, em estado líquido, viscoso ao toque de quem por lá passa, a experiência é que foi reveladora para mim, o pensamento é o prelúdio e o fim, mas sem ação não há começo, portanto não pode haver fim, por isso tudo o que poderei fazer é narrar aquilo que farei quando puder, porque se estiver à espera de o fazer para poder concluir, perceber o que se passa, o que é que tem crédito, quando a perceção dos outros é tudo o que temos para ver, para nos mostrar quem somos, a realidade é o que é filtrado através dos outros, o resto não passa de sonho.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Plano

Tenho a noção do longo caminho que tenho pela frente, uma sensação do tempo diferente daquele que é marcado pelos ponteiros no mostrador do relógio, consciência da continuidade das coisas, a necessidade de perceber a verdade do que se passa. Uma renovação no horizonte, o fim de um ciclo, com ele um leque de novas possibilidades que se desenha, uma interminável folha em branco e eu uma caneta que abano freneticamente na esperança que ainda corra tinta. A chaga aberta no meu peito permite-me continuar a indagar, exige-me que continue a procurar, desperta-me do sono para que não baixe os braços. A incapacidade de realização promete continuar a fustigar-me. Oportunidades que se sucedem e que deixo passar a cada dia, até que seja capaz de perceber com tudo o que em mim percebe, que o momento certo é o agora, e que o amanhã que espero passa por mim todos os dias. Porém uma perceção subtil do plano acompanha-me ainda, o propósito da sucessão dos dias, a engrenagem do universo, presença imensa e constante, capacidade de sintonia, fechar os ouvidos por um momento, ser capaz de ler nas entrelinhas, fico parado por um momento, quando me apercebo que no horizonte está mais uma encruzilhada, e logo, mais rapidamente do que esperava, alguém age, alguém pinta na tela em branco, rabisca qualquer coisa e me diz, anda, vem por aqui. A vida mostrou-me que não devo negar algo que desconheço, por isso, por mais vontade que tenha de me encaracolar e responder - não, não vou por aí, desta vez decido ser diferente. Abraçar-te, parar por um momento para te ouvir quando entras na sala e dizes, - vamos lá ver uma coisa, quando eu estava calado, a tentar calar as vozes que dizem, - isto está mau, enquanto eu receoso do desconhecido, a tentar prestar atenção para dentro e tu – se a pessoa não fizer nada, a cabeça tranquila na almofada só fazendo tudo o que está ao meu alcance, e eu a pensar, mas que alcance, a apetecer-me dizer-te – não, mas o tempo roda com os ponteiros no mostrador, e mais qualquer coisa roda dentro de mim, e a memória ainda que por vezes difusa vai permitindo que qualquer coisa se sedimente para que agora outras reações, para vencer o ciclo, quebrar o feitiço, deitar abaixo as barreiras, abrir as comportas – chega, dizes tu, controle e domínio dizes tu, equilibra-te para que te possas superar, não fui eu que disse, mas o livro é o mesmo, a verdade é só uma, e muitas, tantas quantas as almas deste e dos outros mundos, as maneiras para lá chegar.


olhai e vede