Para
acordar um dia e ver que foi passada a fina divisória, perdi o medo e agora vou
de encontro ao mundo, saio do que já não me basta e vou à procura, assumo
finalmente o que sou como garantia para ter aquilo que quero. O tempo perde o
significado quando fecho os olhos e assisto ao desfilar de memórias em
sequência, a minha cabeça ignora o tempo, apresenta-me imagens com vinte anos seguidas
de acontecimentos com meses, vou aonde é preciso para me justificar, para
trazer explicações, vejo-me outra vez a dar concertos em pelota na varanda de
casa dos meus pais, vejo o prato do giro discos a voar ao contrário, do quintal
para onde o arremessei direto para as minhas mãos, que o agarram (sinto-lhe o
cheiro novo a borracha) coloco-lhe em cima a agulha, os riscos dos discos são
os mesmos, a música o conforto de algo que não se descobre só se relembra, em
cima da cama de olhos postos na televisão minúscula, (posso levar o rádio para
o meu quarto) a comparação só agora faz sentido, tudo o que tinha era tudo o
que queria e o sonho ajudava-me a adormecer. Quem é este rapaz com que andaste
a rebolar na lama, pé ante pé com os ténis na mão ocultos para o bidé, será que
me escapo de cumprimentar a tia, porque é que não a beijaste, cheirava mal, a
primeira e única que me lembre estalada paterna, a materna alguns anos mais
tarde, não consigo lembrar-me o porquê, sei que nessa altura era outro indivíduo,
como se ao longo da minha vida tivesse sido milhões de indivíduos diferentes, e
não apenas um que vai progredindo, porque é ilegítimo falarmos de progresso, se
tenho memórias onde o meu conhecimento de mim mesmo era muito maior, onde a
minha segurança no mundo era a que me pertence, hoje sinto-me ausente e cansado
de revisitar sítios onde já não caibo. A imagem que criaram de mim tinha uma
folga que me permitia uma zona de conforto e uma margem de erro superior ao
normal. Não tenho capacidade de discernimento suficiente para perceber se o
mérito é meu ou ilusão de quem a criou, talvez uma mistura de ambos, o que é
desconcertante é que entre portas o jogo de espelhos não funciona. O que fica é
uma coisa estranha. Algo de irreconhecível, porque me tinha habituado a
reconhecer ao espelho aquilo que queria ser, agora olho ao espelho e não me
reconheço, só vejo distância, vejo possibilidade e trabalho, vejo um caminho que
já percorri e não consigo encontrar o sentido para continuar. Sinto nos olhos
de alguns agora a confusão de quem não sabe muito bem para onde olhar, e só
aqueles que conseguem ver para além disto me fazem continuar. Quero acreditar
que ainda há um propósito guardado, o futuro está velado, umas quantas folhas
em branco que temo serem poucas, faço contas de cabeça e tento continuar a
espantar-me com o que há-de vir, análises mais ou menos profundas que me
encontram em negação, sem vontade nem saber como continuar, o que fazer – já
tiveste momentos em que estava tudo lá menos tu, e eu a mim parece-me que ainda
me vejo a percorrer uma avenida deserta (as gentes enchem os espaços para lá de
portas fechadas) de mãos dadas contigo a prometer-nos incondicionalidades, a
crispar no topo da onda e a pensar para dentro: agora é que a vida vai começar,
agora que encontrei aquilo que procurava, lamento mas ainda estou no mesmo
sítio, a pelicula desenrolou mas eu apaguei-me de todas as cenas, talvez não
quisesse ter ido por onde fui, talvez não soubesse o que fazia, talvez seja
insatisfação mais do que qualquer outra coisa, vislumbro hipóteses no painel,
informação que extraio da minha leitura diagonal das coisas, atrevo-me mas só
ligeiramente a experimentar para ver se resulta, mas desenho diversos
obstáculos ao mesmo tempo com o intuito parece-me somente de não conseguir só
mais esta vez, porque ainda não é, ainda não está, nada mudou, que o tempo
passe só mais um bocadinho, um pouco mais de descontrolo, de emoções que não
quero sentir exprimindo-se, fica ridículo não sou capaz de negá-lo, quando
afirmas – isso é ridículo. Os desejos que ainda não foram satisfeitos encabeçam
o topo da minha lista de prioridades, a par com a espera passiva pelo fim do
mundo. Voltar atrás talvez, pegar de onde as coisas ainda pareciam fazer
sentido, mas continua a faltar qualquer coisa, puxo pelo cordel atado no
tornozelo, puxo nem me preocupando em desfazer os nós que o tempo enredou, a
certeza de que não se irá partir, a esperança de que na outra ponta estejas tu,
e vamos outra vez dar as mãos e caminhar, atraídos pelas necessidades comuns,
felizes pela partilha que nos alimenta e nos assegura que não estamos sozinhos
e que não acabou ainda – podes sempre agarrar as rédeas da tua vida, assim te
consigas esquecer dos nomes com que os outros batizam as tuas ações, assim que
encares o mosaico na ordem que lhe é devida e não no caos que aparenta.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
olhai e vede
Sem comentários:
Enviar um comentário