segunda-feira, 23 de abril de 2012


Para acordar um dia e ver que foi passada a fina divisória, perdi o medo e agora vou de encontro ao mundo, saio do que já não me basta e vou à procura, assumo finalmente o que sou como garantia para ter aquilo que quero. O tempo perde o significado quando fecho os olhos e assisto ao desfilar de memórias em sequência, a minha cabeça ignora o tempo, apresenta-me imagens com vinte anos seguidas de acontecimentos com meses, vou aonde é preciso para me justificar, para trazer explicações, vejo-me outra vez a dar concertos em pelota na varanda de casa dos meus pais, vejo o prato do giro discos a voar ao contrário, do quintal para onde o arremessei direto para as minhas mãos, que o agarram (sinto-lhe o cheiro novo a borracha) coloco-lhe em cima a agulha, os riscos dos discos são os mesmos, a música o conforto de algo que não se descobre só se relembra, em cima da cama de olhos postos na televisão minúscula, (posso levar o rádio para o meu quarto) a comparação só agora faz sentido, tudo o que tinha era tudo o que queria e o sonho ajudava-me a adormecer. Quem é este rapaz com que andaste a rebolar na lama, pé ante pé com os ténis na mão ocultos para o bidé, será que me escapo de cumprimentar a tia, porque é que não a beijaste, cheirava mal, a primeira e única que me lembre estalada paterna, a materna alguns anos mais tarde, não consigo lembrar-me o porquê, sei que nessa altura era outro indivíduo, como se ao longo da minha vida tivesse sido milhões de indivíduos diferentes, e não apenas um que vai progredindo, porque é ilegítimo falarmos de progresso, se tenho memórias onde o meu conhecimento de mim mesmo era muito maior, onde a minha segurança no mundo era a que me pertence, hoje sinto-me ausente e cansado de revisitar sítios onde já não caibo. A imagem que criaram de mim tinha uma folga que me permitia uma zona de conforto e uma margem de erro superior ao normal. Não tenho capacidade de discernimento suficiente para perceber se o mérito é meu ou ilusão de quem a criou, talvez uma mistura de ambos, o que é desconcertante é que entre portas o jogo de espelhos não funciona. O que fica é uma coisa estranha. Algo de irreconhecível, porque me tinha habituado a reconhecer ao espelho aquilo que queria ser, agora olho ao espelho e não me reconheço, só vejo distância, vejo possibilidade e trabalho, vejo um caminho que já percorri e não consigo encontrar o sentido para continuar. Sinto nos olhos de alguns agora a confusão de quem não sabe muito bem para onde olhar, e só aqueles que conseguem ver para além disto me fazem continuar. Quero acreditar que ainda há um propósito guardado, o futuro está velado, umas quantas folhas em branco que temo serem poucas, faço contas de cabeça e tento continuar a espantar-me com o que há-de vir, análises mais ou menos profundas que me encontram em negação, sem vontade nem saber como continuar, o que fazer – já tiveste momentos em que estava tudo lá menos tu, e eu a mim parece-me que ainda me vejo a percorrer uma avenida deserta (as gentes enchem os espaços para lá de portas fechadas) de mãos dadas contigo a prometer-nos incondicionalidades, a crispar no topo da onda e a pensar para dentro: agora é que a vida vai começar, agora que encontrei aquilo que procurava, lamento mas ainda estou no mesmo sítio, a pelicula desenrolou mas eu apaguei-me de todas as cenas, talvez não quisesse ter ido por onde fui, talvez não soubesse o que fazia, talvez seja insatisfação mais do que qualquer outra coisa, vislumbro hipóteses no painel, informação que extraio da minha leitura diagonal das coisas, atrevo-me mas só ligeiramente a experimentar para ver se resulta, mas desenho diversos obstáculos ao mesmo tempo com o intuito parece-me somente de não conseguir só mais esta vez, porque ainda não é, ainda não está, nada mudou, que o tempo passe só mais um bocadinho, um pouco mais de descontrolo, de emoções que não quero sentir exprimindo-se, fica ridículo não sou capaz de negá-lo, quando afirmas – isso é ridículo. Os desejos que ainda não foram satisfeitos encabeçam o topo da minha lista de prioridades, a par com a espera passiva pelo fim do mundo. Voltar atrás talvez, pegar de onde as coisas ainda pareciam fazer sentido, mas continua a faltar qualquer coisa, puxo pelo cordel atado no tornozelo, puxo nem me preocupando em desfazer os nós que o tempo enredou, a certeza de que não se irá partir, a esperança de que na outra ponta estejas tu, e vamos outra vez dar as mãos e caminhar, atraídos pelas necessidades comuns, felizes pela partilha que nos alimenta e nos assegura que não estamos sozinhos e que não acabou ainda – podes sempre agarrar as rédeas da tua vida, assim te consigas esquecer dos nomes com que os outros batizam as tuas ações, assim que encares o mosaico na ordem que lhe é devida e não no caos que aparenta. 

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