terça-feira, 21 de janeiro de 2025

A Ardósia

Aquilo que nos faz mover, o que é? O que é que sustenta a vida?
O desejo de afirmação, a possibilidade de sermos quem realmente somos até ao limite das nossas capacidades, das nossas forças.
Onde está o entusiamo? Como o encontramos?
O entusiasmo estará na escolha que melhor reflete a nossa verdadeira essência, através do exercício do livre arbítrio.
Porque é que o entusiamo não é duradouro?
Porque é que entramos mais facilmente em depressão, porque nos entregamos à astenia, porque nos ausentamos ou nos refugiamos no passado, porque escolhemos sempre o caminho mais fácil?
Entrega não é isso! 
Sem a nossa ação a vida caminha naturalmente para o declínio, para a morte e para o caos.
A ordem tem que ser imposta, o amor tem que transmutar o ódio, a luz sobrepõe-se à sombra.
Porém somos livres para errar, para falhar, para escolher o mesmo de ontem, negar a verdade, vivermos vidas de pasmaceira e tormento.
Esta liberdade suprema é difícil de entender. Seria mais fácil se a vida viesse com um guia ou manual de instruções. Mas não vem.
Cabe a cada um de nós encontrar o seu caminho, encontrar-se.
Parece-me que o mais importante neste momento será mesmo aprendermos a relaxar.
Qual é a dificuldade perguntam? Quando foi a última vez que estiveste relaxado?
Há sempre uma preocupação, então, temos que deixar de nos preocupar.
Preocupar significa ocupar-mo-nos das coisas antes delas acontecerem.
Não há qualquer benefício em fazer tal coisa.
A mente parece fugir, querer saltar galgar o tempo, para agarrar muito depressa as coisas, para acabar já, o que ainda nem sequer começou.
Para quê? Para descansar? 
Inútil completamente, porque a seguir a essa coisa, a essa tarefa, a esse compromisso, a esse objetivo, virá necessariamente um outro.
Então vamos dar início ao processo, o primeiro a manifestar-se é o medo de falhar, de não conseguir concluir a tarefa proposta. De seguida vem a vergonha, ou o medo da reação alheia, será que alguém está a ouvir, o que vão pensar, o que vão dizer, de que forma é que isto vai alterar a perceção ou a imagem que têm acerca de quem sou. Entretanto o medo já abriu espaço para a dúvida, e a mente já foi inundada das preocupações do dia a dia, dos teres de, dos afazeres que por sua vez trazem consigo a ansiedade e o desassossego. 
Este conflito causará o cansaço que nos fará mais uma vez protelar o processo.
Então paramos para sentir. A mente inunda-nos de imagens, pálidas representações das emoções que ainda nem começámos a perceber.
Memórias associadas a crenças a sistemas de crenças que nos prendem ao passado e nos impedem de ver com clareza, as perguntas, e a maneira como se fazem as perguntas, o que se pergunta e como se pergunta, especialmente quando estamos a falar com alguém que dizemos amar, respeitar, considerar.
Se não cuidarmos das perguntas que fazemos não estamos a respeitar considerar nem a amar.
As perguntas são uma ferramenta para exprimirmos a verdade, para descobrirmos a verdade para separarmos a verdade da mentira.
Se não formos totalmente verdadeiros na nossa pergunta vamos obter uma resposta difusa, desviada, que nos vai conduzir a mais ilusão e confusão.
Qual é o meu papel em tudo isto?
Haverá alguma coisa, ou conjunto de coisas que só eu posso fazer?
A noção do eu, da individualidade, da originalidade importam?
Onde estão as fronteiras da minha individualidade?
O que faz de mim aquilo que sou?
Porque é que eu sou diferente dos outros, assumindo que sou diferente e separado dos outros e se não for, e se for a mesma coisa, e se a individualidade for uma ilusão e aquilo que sou for nada?
Nada no sentido em que a verdadeira essência do que sou, somos, é o tudo, sem barreiras nem fronteiras, eu como toda a sociedade, eu toda a humanidade, eu todo o universo.
Todas as hipóteses estão em aberto, a liberdade toda, tudo.
Quero resolver tudo muito depressa para descansar, quero acabar com as dúvidas para começar a viver, quero chegar depressa ao ponto final para que depois aquela sensação gratificante de ter acabado, de ter chegado a algum lado de me ter cumprido.
Na avaliação do que fiz retorna a insatisfação da mediocridade e a certeza de que o processo se repetirá até que a perfeição seja atingida.
Porquê?
Porque não aceito nada menos do que isso.
Porque em cada falha há uma oportunidade de melhoria,porque em cada ponto poderia ser acrescentada mais qualquer coisa que tornaria o todo muito melhor e então aí sim me cumpriria e encontraria essa sensação de satisfação.
No fundo o bem estar é o que eu procuro.
E o simples ato de o procurar faz com que me escape permanentemente por entre os dedos.
É sempre a recompensa que está no fim do dever, deveres que se acumulam e que nos trazem o direito ao descanso, que nunca chega.
Algo está fundamentalmente errado, a estrutura precisa de ser repensada.
Os alicerces terão sido erguidos no sítio errado e agora?
Está errado procurar, é inutil procurar?
Na volta das coisas concluímos que o procurado sempre esteve no mesmo sítio de quem procura, não fora mas dentro, não nos outros mas em nós.
Mas parece que estamos viciados neste modus operandi, não sabemos fazer doutra forma.
Falta sempre qualquer coisa e estamos sempre a caminho, constantemente em luta e em conflito, divididos e perdidos, cheios de medos e receios, irritações e dramas, estremecendo por inteiro a cada vez que nos tocam à porta.
















 





 




 


 

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